. ₊ ⊹ Capítulo 01.4
. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 01 – País Frio
Pt. 04
───── ✧ ─────
Vestir a camisola feminina por tanto tempo era constrangedor, então Rensley trocou de roupa, vestindo as roupas masculinas de Cornia enquanto esperava, mas o grão-duque demorou bastante para voltar.
Em algum momento, Rensley se viu deitado na cama, rolando de um lado para outro, recordando os cheiros de carne assando, óleo fervendo, temperos picantes que sentira na cozinha. Pensar em poder finalmente encher o estômago trazia um leve consolo ao coração perturbado.
— Vou levar eu mesmo. Podem se retirar.
A voz que ele esperava chegou de fora da porta. Rensley se levantou de um salto, como se nunca tivesse deitado. Com as mãos educadamente unidas, curvou a cabeça diante do grão-duque, que entrava no quarto.
— Vossa Alteza chegou.
— Não precisa ser tão formal sempre.
Não parecia palavra vazia, mas, considerando que ele era, apenas de nome, a grã-duquesa consorte, mas na prática apenas um subordinado, como poderia agir assim? Rensley sorriu, sem jeito, aproximando-se dele.
O grão-duque, com sua capa cerimonial de monarca e sua expressão de traços afiados, carregando uma bandeja de comida — algo que caberia às mãos dos criados —, parecia uma cena de comédia.
— Eu levo, por favor.
— Sente-se.
Ele afastou Rensley e colocou a bandeja sobre a mesa. Na grande bandeja havia coxa de ganso assada, pão, queijo, e uma sopa vermelha cuja origem não era possível identificar. Da xícara de chá que acompanhava, exalava um aroma doce.
Diante daquela aparência apetitosa, a saudade se intensificou ainda mais, fazendo a boca salivar involuntariamente. Se ao menos naquela bandeja, em vez de chá adoçado com mel, houvesse um copo de bebida, nada mais faltaria… mas não era hora de fazer exigências sobre o próprio gosto.
— Obrigado, Vossa Alteza.
Diante do agradecimento sincero, ele apenas respondeu com o olhar. Rensley se sentou na cadeira e se preparou para a refeição. Queria pegar a coxa de ganso inteira e devorá-la sem cerimônia, mas, tendo chegado a esse ponto, o único resquício de dignidade que ainda restava era mínimo.
Mas, enquanto erguia a faca e o garfo, o apetite que havia disparado foi diminuindo aos poucos.
“Se não se importar, poderia fazer outra coisa enquanto eu como?”
Rensley queria perguntar isso ao grão-duque, que ficara encostado na parede do outro lado, encarando-o fixamente, mas não conseguiu dizer isso e se moveu como quem finge manter a compostura.
O primeiro alimento a que se estendeu foi a carne de ganso, dourada e assada de forma tentadora. O ganso bem assado exalava um aroma peculiar, além do sal, como se tivesse sido temperado. Rensley gostava de temperos. Especialmente em pratos de carne como esse, nenhum ingrediente realçava o sabor tanto quanto o tempero na medida certa.
Era quase um dia inteiro em jejum antes dessa refeição. Cortou a carne espessa e macia com cuidado, ergueu com o garfo, e uma gota de gordura pingou da pele crocante.
Abriu a boca e enfiou a primeira comida do dia.
— Hum!
No primeiro bocado, os olhos de Rensley se arregalaram. Um som de admiração escapou involuntariamente, mesmo com os lábios cerrados. Surpreso, olhou de imediato para o grão-duque.
— Está do seu agrado?
Diante da pergunta, Rensley sorriu sem jeito, assentindo vigorosamente com a cabeça, mastigando com afinco e engolindo a carne. Tomou um gole de chá ao lado e voltou a segurar a faca e o garfo.
Curioso sobre o que provar em seguida, olhou para a bandeja, mas dentro de sua mente o choque se espalhava como uma onda silenciosa.
Estava sem sabor…
Não podia ser, sem sabor? De fato, estava terrivelmente sem sabor.
Uma carne de ganso assada no fogo ser tão sem gosto é mais difícil do que ser saborosa. Se estivesse assim tão faminto como agora, já deveria estar limpando os ossos até não sobrar nada. Talvez, por estar tão tenso, sua língua tivesse ficado temporariamente entorpecida.
Colocando a faca e o garfo de lado, provou cuidadosamente a sopa. A sopa, feita com legumes de raiz e diversos vegetais, tinha, surpreendentemente, um sabor quase idêntico ao da carne de ganso.
Rensley teve que conter, com esforço, o tremor nas mãos e nos olhos. Tentando manter a calma, provou pão e queijo, um após o outro. Graças a Deus. Felizmente, o sabor do pão e do queijo era normal. Sentindo um profundo alívio, desta vez fez um cumprimento sincero.
— Está realmente delicioso. Obrigado.
Não houve resposta. Por um instante duvidou se, propositalmente, alguém teria feito alguma brincadeira maldosa com a comida, com intuito de punir quem o havia enganado, mas Rensley logo dispersou aquela suspeita infundada. Se estivesse zangado, poderia mandar prepará-lo imediatamente para uma execução; não haveria motivo para praticar algo tão incômodo. Parecia alguém que detestava trabalho desnecessário.
Na verdade, era Rensley quem queria perguntar. Vossa Alteza, essas comidas são do seu agrado? É verdade que o paladar das pessoas de Cornia e Oldenland não deve ser completamente igual, mas…
— Vossa Alteza deve estar ocupado com os afazeres. Não se preocupe comigo, posso comer sozinho.
— Não se preocupe comigo, coma com calma.
Se ao menos o grão-duque não estivesse presente, poderia reclamar abertamente sobre a habilidade culinária horrível, mas assim não podia sequer demonstrar que a comida estava sem sabor. Rensley assentiu com um sorriso.
De qualquer forma, precisava encher o estômago vazio, e comer toda a comida que o grão-duque trouxera pessoalmente. Rensley provava cada prato cuidadosamente, analisando.
Todos os pratos tinham excesso de temperos. Pão e queijo estavam bons, sem problema algum, tal como eram feitos, mas a carne assada e a sopa vermelha estavam encharcadas de todo tipo de especiaria. Se bem usado, o tempero realça o sabor, mas em excesso, arruína o prato.
Pensando bem, Rensley teve uma ideia aproximada do motivo pelo qual o cozinheiro do castelo de Raudken fazia pratos assim. Oldenland ficava muito distante tanto da capital imperial quanto do centro do continente onde ficavam os outros reinos. Havia a possibilidade de que as técnicas culinárias mais recentes não tivessem chegado adequadamente até ali.
Pratos carregados de temperos saíram de moda há pelo menos vinte anos. Rensley se lembrava de que, quando tinha uns seis ou sete anos, há uns quinze anos, ainda havia cozinheiros que serviam esse tipo de comida ocasionalmente, mas hoje em dia nenhum cozinheiro nobre faz esse tipo de prato.
Por mais valiosos que sejam os temperos, que sentido faz transformar todos os ingredientes no mesmo gosto? Numa época em que os temperos eram extremamente raros, esse era o estilo de culinária popular entre a nobreza que queria ostentar riqueza, e esse costume ainda permanecia na periférica Oldenland.
A carne de ganso em si tinha qualidade excelente; se tivessem usado apenas sal e pimenta, teria ficado realmente delicioso. Engolir, com esforço, um prato de sabor tão forte, sem sequer um gole de bebida para acompanhar em pleno jejum, foi uma provação, mas, com a ajuda de pão, queijo e chá, conseguiu, aos poucos, limpar completamente o prato de ganso e a tigela de sopa.
Um tempo mais próximo de uma provação do que de uma refeição também teve seu fim. Como quem termina uma grande tarefa, Rensley abaixou a colher com orgulho e se levantou para agradecer.
— Comi muito bem, Vossa Alteza. Graças a isso, sobrevivi.
— A cultura alimentar não pode ser aprendida totalmente pelos livros.
O grão-duque se aproximou, observando os pratos completamente vazios, e disse:
— Como você veio de um lugar tão distante, temia que a comida não fosse do seu agrado, mas parece que essa preocupação foi desnecessária.
— Não se preocupe, eu como de tudo.
Melhor comer algo sem sabor do que morrer de fome. Mesmo tendo passado por todo tipo de humilhação, ainda assim, sendo descendente da família real, criticar internamente o sabor da comida depois de um dia inteiro de jejum era motivo para se envergonhar de si mesmo.
Absorto naquela breve autocrítica, Rensley ficou surpreso ao ver o grão-duque estender a mão sobre a mesa, como se fosse recolher os pratos, e segurou o pulso dele por impulso, mas logo se assustou de novo e soltou a mão apressadamente.
— Perdão.
Escrever com o dedo sobre a palma da mão dele era um gesto permitido apenas até pouco antes, quando ainda era a Princesa Yvette.
Os olhos âmbar que o encaravam, como um juiz, faziam sua consciência pesar. Rensley desviou o olhar e fingiu arrumar a mesa, que não precisava de arrumação alguma.
— Vossa Alteza, deixe assim. Eu mesmo cuido disso.
— Pretende sair do quarto vestido assim?
— Ah…
Como não havia muitos pratos, o som de louças se chocando cessou rapidamente. Em vez de erguer a bandeja, o grão-duque observou Rensley de perto e disse, baixando a voz:
— O dia do casamento será marcado em breve. O sacerdote disse que anunciaria a data auspiciosa ainda antes do pôr do sol de hoje.
Rensley não conseguiu dizer nada, apenas piscou os olhos. Mesmo já sendo algo decidido, sentir aquilo se aproximar rapidamente da realidade sufocava-lhe a respiração. Não conseguia nem discernir qual sentimento predominava agora em sua expressão.
Seu olhar, buscando reflexivamente algum lugar para onde escapar, pousou na longa janela atrás do grão-duque. Os guardas, ao vasculharem o quarto, haviam deixado a porta de madeira interna aberta, revelando por completo a paisagem externa através do vidro.
Nas paredes ao redor havia várias janelas e retratos de nobres de Oldenland, talvez os pais ou ancestrais do grão-duque. E ao lado da lareira, quase de frente para a cama, erguia-se imponente um grande relógio mecânico do tamanho de uma pessoa, que Rensley já havia observado antes.
Um comerciante trouxera esse relógio, movido a mecanismo, alegando ser uma invenção recente da capital imperial, e o rei de Cornia se encantara com o objeto, colocando-o na sala principal do castelo; mais tarde, comprara outro e o instalara na igreja central da Praça Celestine, para que o povo também pudesse usá-lo.
Mas quase ninguém em Cornia sabia ler as horas observando a barra de metal que girava a velocidade constante sobre o disco circular. Rensley também nunca aprendera. Mesmo sem consultar um relógio, porém, sabia bem, pelo próprio corpo, que os anoiteceres em Oldenland eram mais rápidos do que em Cornia.
Pouco depois de terminar o almoço, o céu, atrás das costas do grão-duque, já se preparava para o crepúsculo. O céu, nublado durante o dia, parecia clarear justamente na hora do pôr do sol, tornando o sol grande e avermelhado.
Entre a maioria dos objetos pintados apenas em tons de preto e branco, na paisagem de Oldenland, o céu carmesim, surgindo abruptamente, não era belo, mas sim sinistro e melancólico, de alguma forma. Grandes pássaros negros voavam em bando, diminuindo ao longe.
Rensley conteve a respiração observando o vermelho, que se intensificava aos poucos, e voltou lentamente o olhar para o grão-duque. Contra a luz do pôr do sol, o rosto do grão-duque ganhava sombras cada vez mais profundas.
O tempo sem resposta se estendeu demais. Quando Rensley desviou o olhar timidamente para baixo, o grão-duque finalmente continuou.
— Está bem?
Mesmo que não estivesse bem, não havia nada a fazer; na verdade, ele mesmo não sabia bem em que estado se encontrava. Rensley respondeu, forçando a voz.
— Estou bem. Minha decisão continua a mesma, não se preocupe.
— O sol está se pondo. Se eu voltar aos meus afazeres, é possível que quando eu retorne, a data já esteja decidida.
— Sim. Eu… vou aguardar aqui, em silêncio.
Parecia que a mensagem de que não fugiria mais pela janela havia sido corretamente transmitida; o corpo grande, que se inclinara levemente em direção a Rensley, endireitou-se. Erguendo a bandeja com uma só mão, o grão-duque, mais uma vez sem se virar, saiu do quarto.
Rensley, soltando um suspiro breve, como quem prendera a respiração o tempo todo, ficou parado, observando distraidamente a paisagem lá fora, antes de finalmente se mover.
À noite, a temperatura caiu bruscamente. Vestindo o pesado manto de pele pendurado ao lado da cama, sentou-se na poltrona ao lado da lareira. Pensando bem, quando levara a refeição ao porão do grão-duque, ao meio-dia, ele também estava sentado exatamente assim, diante do fogo, lendo um pergaminho.
Enquanto observava, absorto, a lareira em chamas intensas, Rensley olhou para o relógio ao lado. Mesmo sem que ninguém soubesse ler as horas, a fina barra de metal, delicadamente esculpida, continuava, em silêncio, girando na velocidade certa sobre o disco.
Na cozinha, faziam pratos de vinte anos atrás, enquanto no quarto havia uma invenção recente da capital imperial. Oldenland era um país tão peculiar quanto seu próprio monarca. E Rensley Malocen, embora não soubesse por quanto tempo isso duraria, estava fadado, por ora, a se tornar a peculiar grã-duquesa consorte deste país peculiar.
Ele deslizou pela poltrona, quase se deitando por completo.
A data do casamento só foi comunicada depois que o céu ficou completamente escuro. O grão-duque parecia ter ficado ocupado, e, em vez de vir pessoalmente, enviou alguém. Rensley cobriu o rosto com o véu e permitiu que a porta fosse aberta. Era a senhora Samlit, a chefe das criadas.
A carta, escrita com letra elegante, trazia o aviso de que “seja quem for, nunca revelará nada, então pode usá-la com tranquilidade”, junto com a curta frase informando que a data do casamento fora marcada para três dias depois.
↫─✧ Fim do capítulo.
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna