. ₊ ⊹ Capítulo 01.3
. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 01 – País Frio
Pt. 03
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Enquanto Rensley, exausto por ter escapado com vida, tinha todas as forças esvaziadas, os olhos dos outros brilhavam de curiosidade. Correram até ele, competindo entre si.
— Hoje entraram tantos desconhecidos na cozinha que nem percebi! Você é mesmo de Cornia?
— Ah, sim… sou.
— Então você deve ter visto o rosto da princesa durante a viagem, não?
— Mesmo que não se possa mostrar o rosto antes do casamento, você deve ter visto pelo menos uma vez, não? Como ela é? Bonita? Dizem que ela é uma beleza incomparável.
Rensley riu involuntariamente. Uma beleza incomparável, Yvette Elvanes? Uma pena não poder contar diretamente a Yvette esse rumor. Ei, Yvette. Você fez sucesso!
Enfim, restava apenas desapontar aquelas pessoas cheias de expectativas. Rensley revirou os olhos.
— Fala logo. Como é a princesa?
— Bem… a princesa que agora aguarda o casamento no quarto, embora não seja exatamente uma beleza incomparável, era um rosto conhecido dentro da capital. Não é exatamente uma pessoa de caráter nobre, mas tem uma personalidade razoável. Não é extremamente inteligente, mas é frequentemente elogiada por ser esperta.
— E mais? Eu pensava que seria uma princesa elegante e delicada, das que aparecem em canções e contos antigos. Como Oldenland não tem uma princesa assim, fiquei curiosa.
Melhor não mencionar que ela era excelente em esgrima e equitação, bebia como um marinheiro e era robusta o suficiente para não adoecer.
A garota que imaginava uma grã-duquesa inexistente tinha os olhos brilhando como num sonho. Sardas leves espalhadas pelas bochechas coradas, cabelos trançados sob a touca branca — era encantadora. Rensley sorriu e baixou a voz.
— Sabe, na minha opinião, acho que você é mais bonita.
— Ai, que absurdo. Não zombe de mim.
— É sério. Qual é o seu nome? Eu sou Rensley. Rensley Malocen.
— Tia.
Enquanto a conversa dos dois se prolongava, os rapazes que caminhavam à frente se viraram, provocando.
— Dizem que o sul é cheio de conquistadores, e olha o cornianense aí. Já está paquerando?
— Paquerar? Isso é elogio.
Apesar do protesto de Rensley, as provocações continuaram sem trégua.
— Tia, cuidado. Não vê pela cara dele? Deve ter feito muita mulher chorar. Vocês do sul têm a pele lisinha assim?
— E esse cabelo comprido, então? Se você for trabalhar com a gente, prepare-se, vamos raspar tudo.
Apesar das provocações, os criados pareciam aceitar Rensley como colega sem desconfiar de nada. Que país pacífico é Oldenland. Rensley se comoveu de verdade, misturando-se a eles. Depois de trocar algumas conversas triviais, perguntou o que mais o intrigava.
— Como é Sua Alteza o Grão-Duque? Há pouco fiquei com tanto medo que quase me borrei. Achei que seria decapitado ali mesmo.
Diante disso, todos caíram na gargalhada. Alguém deu um tapinha no ombro de Rensley.
— Por causa disso ele te mandaria decapitar? Você é mais medroso do que parece, hein?
— Foi só de te ver se jogar de repente no chão implorando que a gente se assustou. Ele não se irritaria tanto assim com um simples criado de cozinha. Com um soldado que quebrou a lei militar, talvez.
Era uma opinião comum: ele não era do tipo severo com os subordinados. Pensando bem nas reclamações do cozinheiro na cozinha, fazia sentido. Se fosse um tirano que decapitava pessoas por um simples deslize, ninguém ousaria chamá-lo abertamente de “homem temperamental” diante de outras pessoas. Tia sussurrou, sorrindo:
— Ele não é tão assustador quanto parece.
Mesmo assim, ainda parecia significar que era assustador, embora não tanto quanto aparentava. Generoso com os criados de cozinha, mas manda decapitar soldados que quebram a lei militar.
Comparado com o que esperava, era relativamente esperançoso, mas o coração de Rensley não se aliviava facilmente. Um soldado que quebra a lei militar e uma noiva falsa que deliberadamente enganou o grão-duque… difícil dizer qual dos dois cometia crime mais grave; era praticamente empate quanto à gravidade que mereceria decapitação.
Dong—
Naquele momento, o sino da igreja soou. Rensley voltou a si num instante. Não era hora de se deixar levar pela atmosfera de criado de cozinha de Raudken.
Já era hora do almoço do grão-duque, então logo alguém iria checar a princesa. Haviam dito para chamá-los quando ela acordasse, mas não a deixariam dormir para sempre. Sem nenhum plano definido e tendo se disfarçado de acompanhante, precisava, por ora, que a princesa continuasse a salvo dentro do quarto.
— Bem, vou indo por aqui. Preciso descobrir como funciona o processo de imigração, como falei antes. E pensar em como sobreviver aqui.
— É frio, mas é um bom lugar para viver. Às vezes até tem estrangeiros que desejam se mudar para cá. Nos vemos por aí! Espero mesmo que você consiga ficar aqui.
Rensley acenou com a mão, despedindo-se de seus novos colegas, e apressou o passo. As pessoas que antes o interpelavam quando ele ficava andando por aí ou parado à toa, agora pareciam ocupadas demais para chamá-lo ou perguntar aonde ia. No caminho de volta ao quarto, encontrou por acaso um objeto adequado e o arrancou.
O canto oeste da torre principal, de onde havia descido pela primeira vez do quarto, ainda estava vazio de gente.
Rensley enfiou profundamente uma placa dizendo “em manutenção, não entrar” perto da entrada para a pequena área aberta e se colou contra a parede, embaixo da janela do quarto.
Subir era, sem dúvida, mais difícil do que descer. Rensley bateu as palmas das mãos, respirou fundo e agarrou a decoração mais baixa da parede ao alcance das mãos. Ei-la! Fez força nos braços e puxou o corpo para cima. Enfiando a ponta do pé nas frestas entre a parede, procurou por uma nova fenda ou saliência à qual pudesse se agarrar.
Devagar, mas com passo constante, Rensley começou a escalar a parede, quase como uma aranha.
— Consegui… bem…
Ah, que difícil.
Depois de um bom tempo escalando, finalmente o objetivo estava à vista. Rensley resmungou para si mesmo, encorajando-se. O batente da janela do quarto já estava a um braço de distância.
Respirando fundo mais uma vez, com força puxou o braço para cima. A ponta da mão direita segurou firmemente o batente. Um retorno perfeito e impecável.
— Hã?
Até que uma voz humana ecoou de repente, vinda de baixo.
Por um instante, perdeu a concentração e a mão quase escorregou. Rensley apressou-se em segurar novamente o batente, forçando o braço para puxar o corpo para cima de uma vez. Com o braço apoiado no batente, olhou para baixo.
Apesar de ter colocado até uma placa de proibição de entrada, o intruso que insistia em entrar naquele local isolado olhava para Rensley de baixo, com o rosto de choque.
— Ladrão!
Uma criança segurando uma bola gritou.
Não havia tempo para se defender dizendo que não era ladrão. Rensley espremeu o corpo pela janela estreita e empurrou com a cabeça a porta de madeira, deixada propositalmente entreaberta desde que saíra. Com um estrondo, seu corpo caiu de bruços no chão.
Não havia tempo nem para reclamar de dor. Ele se levantou como uma mola e pegou as roupas escondidas. As mãos tremiam, mas ele se despiu o mais rápido possível, escondeu as roupas e vestiu a camisola de musselina. Segurando junto ao peito as roupas masculinas tiradas, o roupão, o casaco e o véu, correu e se jogou na cama como quem mergulha num rio.
Depois de esconder as roupas masculinas dentro do embrulho da princesa e finalmente deitar-se corretamente, notou que a fresta da porta de madeira da janela oeste, pela qual acabara de entrar, ainda estava levemente aberta. Hesitou, mas desistiu de trancá-la de novo. Do lado de fora do quarto já vinha um alvoroço.
— Um intruso no quarto de Sua Alteza a Grã-Duquesa…
— A entrada principal estava bem guardada.
As vozes das pessoas ficavam cada vez mais claras. Enquanto Rensley concentrava toda a energia para regular sua respiração acelerada, batidas fortes na porta ecoaram, seguidas pela porta se abrindo com força. Os gritos dos guardas seguiram.
— Vossa Alteza a Grã-Duquesa! Está bem?
— Perdoe a intrusão! Alguém viu um intruso entrar no quarto.
Ainda não sou grã-duquesa, sabe…
As pessoas de Oldenland eram mais impacientes do que Rensley imaginava. Rensley, já grã-duquesa antes mesmo da cerimônia de casamento, fingiu se encolher assustado, cobrindo o rosto com a coberta.
Em seguida, as criadas entraram no quarto. Elas repreendiam os guardas, cercando a cama.
— A princesa vai se assustar! Desde que chegou, ela ainda nem mostrou o rosto!
— Mas, chefe das criadas Samlit, há uma criança que viu o intruso.
— Esperem. Vou perguntar a ela.
Chefe das criadas Samlit. Por favor, expliquem que ainda não sou a grã-duquesa. Naturalmente, Rensley reclamava só por dentro, se enrolando no cobertor e puxando o véu com cuidado. Fingindo ser uma princesa tímida e assustada, espiou timidamente o rosto para fora; só então os soldados, como se tivessem cometido uma grande falta de respeito, curvaram a cabeça ou até se viraram. A chefe das criadas se aproximou.
— Princesa, uma criança que brincava no jardim há pouco disse ter visto um estranho se esgueirando pela janela do quarto. A senhora viu esse estranho?
Rensley balançou a cabeça com tanta força que a ponta do véu chacoalhou.
— Permite que examinemos rapidamente ao redor da cama?
Desta vez, assentiu.
Algumas criadas examinaram o interior da coberta, embaixo da cama, atrás das colunas, entre as cortinas. Naturalmente, o intruso não deixou nem um fio de cabelo à vista. O “estranho” estava sentado apertando a coberta até os ombros, encostado na cabeceira da cama, encenando com esforço olhos assustados que vasculhavam os arredores.
Enquanto as criadas examinavam os arredores da cama, os guardas também vasculharam cada canto do quarto. Dentro do armário, das gavetas, sob a mesa, dentro do baú de objetos valiosos, dentro dos jarros, atrás dos quadros onde ninguém poderia se esconder, e até dentro da lareira acesa.
Diante da busca minuciosa sem nenhum resultado, um dos soldados deu de ombros e resmungou:
— Não terá sido só imaginação? Crianças costumam ver coisas que não existem.
— Mas a descrição foi específica demais para isso.
Enquanto a opinião dos investigadores começava a se dividir, um dos guardas fez um gesto chamando os outros.
— Venham cá. Tem algo estranho aqui.
Droga. Rensley rangeu os dentes. Esperava sinceramente que passasse despercebido, mas parece que os olhos aguçados do guarda haviam notado a porta de madeira mal fechada.
Alguns guardas correram até a janela do lado oeste e a examinaram com atenção. Não teria deixado nenhum vestígio que pudesse servir de pista, teria? Escondendo a ansiedade atrás do véu, Rensley manteve o silêncio.
— Parece mesmo que ainda está escondido em algum lugar aqui dentro.
— É estranho de qualquer jeito… Se é verdade que o intruso entrou, não faz sentido a Grã-Duquesa não ter visto nada.
Enquanto as pessoas cochichavam, a suspeita ia se aprofundando cada vez mais, e o alvo começava a se deslocar do fugidio intruso para a princesa estrangeira.
— Como está a situação.
Uma voz que não era nem de guarda nem de criada dispersou de repente todo o burburinho. As pessoas dentro do quarto — exceto Rensley, na cama — endireitaram-se e curvaram a cabeça. Rensley, ao contrário, puxou a coberta até abaixo dos olhos e observou a nova figura que acabara de entrar.
Ao receber a notícia de que um homem desconhecido havia se infiltrado no quarto de sua noiva, o futuro noivo veio pessoalmente verificar a situação.
Ele ficou parado na entrada por um momento, observando o cenário do quarto, as pessoas em pé e, por fim, dirigindo o olhar a Rensley, entrou lentamente. Nem seus passos faziam som, mas seus movimentos não pareciam nada leves. Rensley sentiu como se estivesse observando os passos de uma fera. Grandes animais como tigres ou leões, também, não caminham de forma silenciosa?
— Examinamos todo o quarto, mas ainda não encontramos nenhum vestígio específico. Mas a janela na direção que a criança apontou, por onde teria entrado o estranho, estava de fato levemente aberta.
— Pegadas ou outras pistas?
— Precisamos examinar mais a fundo.
O grão-duque se aproximou da janela do lado oeste, onde os guardas estavam reunidos, e deu uma olhada geral. Ficou parado por um momento em silêncio, e então abriu a boca.
— Todos saiam.
— Como?
— Preciso conversar com a princesa. Todos se retirem e aguardem em seus postos.
Não pode. Os lábios de Rensley, escondidos pelo véu, se contorceram.
Era a pior situação possível. Melhor seria manter guardas dentro do quarto e investigar o dia todo do que a decisão que o grão-duque acabara de tomar.
As criadas e os guardas não hesitaram e saíram do quarto. Apenas a senhora Samlit olhou para trás com uma expressão preocupada, mas acabou também desaparecendo sem dizer nada. A porta se fechou firmemente de novo, e o quarto, antes agitado, ficou assustadoramente silencioso.
Rensley baixou os olhos e fixou o olhar num ponto do bordado sobre a coberta. Num veludo luxuoso, uma flor de lírio branco, símbolo de nobreza, estava bordada em fio dourado.
O grão-duque se aproximou da cama e se sentou numa cadeira ao lado.
— Princesa Yvette Elvanes.
Sua voz era mais tranquila do que ele esperava, e o tom, cortês como no dia anterior. Rensley, em vez de responder, apenas assentiu levemente com a cabeça, olhando para frente.
— Como você ainda não pode falar, se quiser mesmo seguir esse costume, gostaria que me contasse por escrito, como ontem.
— …
— Este casamento foi decidido pelo imperador, e nem mesmo a família real de Cornia o desejou de fato. Então imagino que você também não tenha desejado verdadeiramente este casamento.
Ele estava certo.
No norte do continente, a terra fria e árida de Oldenland. Sem que o próprio monarca tomasse a iniciativa de cortejar ou se casasse com uma mulher do próprio país, sempre fora difícil, geração após geração, chegar a um casamento.
Oldenland era o mais importante quebra-mar que protegia o continente. Além da barreira de Raudken, se estendem florestas densas e o Mar Negro, e do outro lado do mar há um país que segue outra fé, fora do domínio do imperador, e, acima de tudo, além da muralha vivem monstros terríveis.
Para Rensley, natural do sul e que só testemunhara a paisagem pacífica de Raudken, tudo aquilo soava como fantasia ou lenda, mas, de qualquer forma, era o que se contava.
Mais ao norte de Oldenland, na floresta densa, nas montanhas geladas altíssimas e no mar negro, viviam seres que não eram nem humanos nem animais, sempre à espreita, cobiçando humanos do continente como presas.
O monarca do país do norte quase não se envolve em disputas políticas, mas mantém, mesmo assim, um poder militar mais forte do que qualquer outro país do continente, e a razão é justamente para combater esses monstros.
Por isso, o imperador também não pode ignorar ou desprezar Oldenland, e, respeitando sua lealdade e honrando sua honra, concede-lhe mais privilégios e liberdades do que aos demais reinos do continente.
Escolher uma noiva para o monarca em idade de se casar também é uma das formas de favor que o imperador concede. Mesmo sendo um simples favor, todos sabiam que havia também a intenção de amarrar o fio de sua influência a essa terra remota que precisava ser vigiada.
Oldenland era um país indispensável ao continente, mas não era politicamente atraente para os outros reinos. O território era árido, a distância enorme. Não demonstravam muito interesse em disputas políticas centrais e viviam de forma independente, à sua maneira.
Embora rico em recursos naturais e com poderio militar formidável, a mineração e a silvicultura eram rigorosamente controladas pela família real, e a justificativa para fortalecer o poder militar era o combate aos monstros, tornando difícil pedir apoio para outras batalhas.
Como resultado, nenhuma família real desejava enviar um filho valioso a Oldenland.
Mas o parceiro adequado para um monarca deveria ser, naturalmente, um membro da realeza ou de uma grande nobreza equivalente. Ainda mais quando decidido pelo próprio imperador. Ao longo da longa história do continente, o casamento do monarca de Oldenland tornara-se, de certa forma, um tipo de sorteio de castigo entre os reinos.
O imperador atual ordenara ao rei de Cornia que escolhesse, entre suas princesas, uma noiva para o jovem grão-duque do norte. E o rei de Cornia tinha sete filhos e três filhas.
— Deseja voltar para Cornia agora mesmo?
Diante dessa pergunta, Rensley não teve escolha senão se virar para ele. Os olhos âmbar, sem revelar nenhuma emoção, encontraram os seus, que certamente estariam confusos.
Rensley estendeu a mão, e ele também, em silêncio, ofereceu a sua. Os dedos de Rensley, escrevendo na palma dele, tremiam levemente. Não era medo ou tensão. Se pudesse responder em voz alta, a raiva sem alvo definido teria saído como palavras entrecortadas, como uma caligrafia deformada pela fúria.
<Não. Não desejo.>
— Então você deseja continuar com esse casamento?
Rensley deixou o indicador pousado sobre a palma dele, e lentamente baixou a cabeça. Sem escrever nem “sim” nem “não”, permaneceu em silêncio.
O grão-duque esperou por um momento, depois retirou a mão. Rensley também deixou a mão cair sobre a cama. A voz baixa quebrou o breve silêncio, continuando.
— Depois de receber o relatório dos soldados, pensando bem, tudo parece se encaixar com o que aconteceu de dia.
O que aconteceu de dia? Rensley apenas escutava, em silêncio.
— O homem que dizia ser seu acompanhante não voltou para Cornia e permanece aqui. Um homem chamado Malocen, um nome que imagino que você conheça bem.
Conhecia, sim. Uma ansiedade não prevista começou a apertar seu peito. Por que, de repente, ele trazia à tona o nome do homem que havia conhecido de dia? A criança do quintal apenas vira o intruso por um instante, de longe, lá embaixo.
— Ao ouvir a descrição aproximada do intruso, ela coincidia com esse homem. Cor de cabelo, roupas, alguns detalhes. Os olhos são da mesma cor roxa dos seus. Não sei como é em Cornia, mas aqui essa cor não é comum.
Diante disso, Rensley arregalou os olhos. Não era exatamente roxo, mas sim um azul avermelhado, mas, como ele disse, também não era uma cor totalmente rara em Cornia. Na própria família real de Cornia havia mais uma pessoa com olhos de cor parecida.
“Não imaginava que aqui fosse uma cor rara o suficiente para identificar alguém.”
Sem conseguir seguir facilmente a linha de raciocínio do grão-duque, Rensley apenas engoliu em seco. Seu pomo de adão, escondido pelo véu, subiu e desceu lentamente.
— A altura também era semelhante, e a cor dos olhos igual, então a princípio pensei que fosse parente de sangue… mas se fosse alguém da realeza, não precisaria se esconder secretamente, nem entrar por uma janela. Poderia ter revelado sua identidade e visitado abertamente, sob o pretexto de acompanhar a princesa pessoalmente. Se isso significa que ele é realmente seu acompanhante…
Ele soltou um suspiro leve. Rensley também, internamente, sentiu um alívio momentâneo. Temia que se chegasse à conclusão de que Malocen e a Princesa Yvette eram a mesma pessoa, mas ainda não era o caso.
O grão-duque mantinha uma expressão neutra, sem revelar nenhuma mensagem, mas em seu suave suspiro transparecia certa perturbação interna. Ao sentir aquele traço de emoção profundamente escondido, Rensley, mesmo sabendo do perigo, não pôde deixar de encará-lo.
— Ao pensar até esse ponto, achei que compreendia por que aquele homem correu o risco de se infiltrar no seu quarto.
— …
— Compreendo, até certo ponto, o sofrimento de estar apaixonado por alguém e receber a ordem de se casar com outro homem, Princesa Yvette. Se desejar, pode deixar que esse tal Malocen permaneça aqui. Contanto que você cumpra seus deveres como grã-duquesa, não vou impedir os encontros de vocês dois.
“…Como? O que ele está dizendo?”
Rensley abriu a boca dentro do véu. Um homem jovem se infiltrando no quarto de uma mulher prestes a se casar já era motivo suficiente para gerar escândalo em qualquer lugar. O olhar suspeito dos guardas e criadas já não era prova disso?
Mas amante? Encontros secretos? Não estava indo longe demais? Por que ele pensava dessa forma? Sem poder falar, também não podia perguntar.
— Nunca saí de Oldenland, então não conheço bem o mundo exterior, mas li bastante, não fico atrás de ninguém em leitura. A maioria dos livros era voltada para estudo ou pesquisa, mas às vezes se misturavam outros tipos. Peregrinos ou poetas que às vezes visitam o castelo também trazem canções ou histórias.
Isso mesmo, era assim. Em Cornia também era comum peregrinos e poetas entrarem no castelo e animarem as noites com canções e histórias. Viajantes visitavam até essa terra remota do norte, deixando seus vestígios. Alguns até contavam relatos de viagem, dizendo ter atravessado o mar até outros continentes.
— Um homem se infiltrando secretamente na janela do quarto de uma mulher, sem que ninguém saiba, costuma ser por causa de um cortejo ou por não conseguir suportar um amor proibido. E depois disso, o tipo mais comum é fugir juntos, escondidos dos olhos dos outros.
“Não é isso, Vossa Alteza. Claro, há muitos poetas e livros que cantam fugas de amor pelo mundo, mas isso é apenas uma história imaginária. As pessoas normais, de verdade, não têm coragem para isso, e é justamente por isso que essas canções românticas são populares.”
Contestar mentalmente não adiantava, o grão-duque não podia ouvir. A conversa fluía numa direção que Rensley não previra, transformando-se numa corrente rápida, cada vez mais difícil de acompanhar.
— Achei que ele era um homem bonito. Por isso você deve tê-lo trazido consigo, incapaz de esquecê-lo.
Rensley apenas piscava os olhos.
Claro que Rensley Malocen era bonito. Excelente na espada, cantava bem, dançava bem — ao sair pelas ruas, sempre recebia olhares discretos de admiração das mulheres. Não eram poucas as vezes em que bebia e dançava até o amanhecer antes de voltar para casa.
Mas se fosse necessário classificar a aparência, mesmo forçando a barra ao máximo, não conseguiria vencer o homem à sua frente. Mesmo que a verdadeira Yvette Elvanes tivesse trazido secretamente um amante até aqui, ao ver o próprio futuro marido, provavelmente mudaria de ideia na hora e abandonaria o amante.
Ele, como homem, sentia-se pequeno diante da presença peculiar de um monarca; mas para uma mulher, será que despertaria uma impressão diferente? Só de olhar o rosto, de fato…
— Mas, como você sabe, este casamento é uma união de Estado, arranjada pelo imperador. Se agir dessa forma, fugindo assim, será difícil suportar o escândalo e as consequências. Melhor criar um pretexto adequado e se encontrarem em dias marcados, dentro do castelo. Assim, tumultos como o de hoje não voltariam a acontecer, e não haveria problema algum, não é mesmo?
“Sério que pode ser assim? Por mais que seja um casamento arranjado, ele é seu marido!”
Bem, é verdade que, para a realeza e a nobreza, era mais natural manter amantes mesmo depois de casados. Rensley mordeu os lábios repetidamente. Enquanto estava concentrado em esconder o segredo, evitava ao máximo cruzar o olhar com ele ou conversar, mas, à medida que surgiam pontos que queria contestar, ficava cada vez mais difícil conter as palavras que queriam escapar. Envergonhado, mas Rensley nunca fora do tipo reservado.
Cerrando com força os lábios inquietos, estendeu o dedo. Sem hesitação, encostou na palma do grão-duque e escreveu lentamente.
<Vossa Alteza, não poderia me deixar ir embora?>
O olhar do grão-duque pareceu perder um pouco de força. Mas ele não recusou diretamente, apenas perguntou, como quem tenta dissuadir:
— É realmente necessário? Mesmo que você e esse homem corram perigo?
Não era hora de julgar se a decisão do grão-duque era romântica, bizarra ou racional. Para Rensley, poderia ser uma oportunidade que não podia deixar escapar.
O que fazer? O grão-duque de agora, mesmo que dissesse que fugiria com o amante, não parecia ser do tipo que o deixaria congelar até a morte na terra gelada, sem roupas. Se tivesse a intenção de expulsá-lo despido por rancor, nem teria feito a proposta do encontro secreto desde o início.
Se realmente fosse embora, para onde ir? Não podia voltar para Cornia, então talvez pudesse viajar por aí como um poeta errante. Em algum lugar, talvez houvesse um senhor ou rei em busca de mercenários. Neste vasto continente, com certeza haveria algum lugar onde poderia sobreviver, mantendo o próprio corpo a salvo. Abandonando o título, trocando de nome…
Rensley encarava o vazio, e de repente chegou a uma pergunta.
“…Diferente do que dizem, Gizel Zibedad não é uma pessoa extremamente racional?”
O mundo espalhava rumores de que ele era um louco amaldiçoado, viciado em pesquisas de magia negra, um excêntrico que evitava as pessoas, alguém com sangue de monstros misturado; mas o grão-duque que Rensley encontrara ao chegar a Oldenland era, na verdade, silencioso o tempo todo e extremamente racional, muito além da média. A proposta que acabara de fazer já demonstrava isso.
Embora a figura estranha que vira à noite ainda o incomodasse, mesmo naquela ocasião sua atitude fora respeitosa. A reputação junto ao povo também era boa, e as pessoas demonstravam abertamente amor pelo país e pela capital.
Então, talvez…
Talvez, mesmo se soubesse a verdade, ele o poupasse da punição?
Talvez… realmente pudesse viver como Rensley Malocen, morador do castelo de Raudken?
— Princesa, sua resposta.
Ele estendeu a mão à frente. Rensley pousou o dedo sobre a palma dele.
E então, o dedo que estivera parado finalmente começou a se mover devagar, escrevendo — mais claro e nítido do que em qualquer outro momento até então.
<Vossa Alteza ainda pretende realizar a cerimônia comigo, mesmo sabendo disso?>
O grão-duque encarou Rensley.
Os olhos dourados de fera, como um fragmento de pesadelo, haviam desaparecido sem deixar rastro, e o âmbar de tonalidade suave, como uma joia bruta afundada nas profundezas da água, mantinha-se imóvel. Surpreendentemente, aquela atitude sem altos e baixos, aquele silêncio, começava, aos poucos, a acalmar até Rensley.
— Para mim, não faz diferença. Como você sabe, este casamento é um procedimento político e convencional, decidido pela ordem do imperador.
— …
— Se realizarmos o casamento, cumprirei meu dever como marido, e nada mais.
…Ele gostava de mercados noturnos e festivais. Bêbado de vinho doce ou cerveja forte, passeava pelas ruas mornas e, ao encontrar um rosto conhecido, punha o braço sobre o ombro. Reunindo-se assim com as pessoas, o lugar para onde geralmente iam era a casa de apostas de rua, presente sem falta nos dias de feira. Mesmo sabendo que os trapaceiros manipulavam os dados, Rensley sempre se sentava à mesa. Afinal, ele também tinha certa habilidade em pequenos truques.
Mas até truque de mão tem seu nível, e mesmo usando o mesmo truque, às vezes ganhava, às vezes perdia. Quando perdia a aposta e bebia, os amigos, entre zombaria e consolo, diziam: “Por que você apostou numa fraude tão óbvia assim.” E toda vez, Rensley respondia: “Ganhar ou perder só se sabe apostando.”
Dar-lu, dar-lu. O som dos dados girando dentro do copo agora ecoava em seus ouvidos.
Confiar na compaixão mal informada dele e deixar a Cornia silenciosamente como Yvette Elvanes seria o caminho mais seguro e confortável, mas seu temperamento nato de jogador não podia ser evitado.
<Não vou partir.>
Rensley moveu os dedos, acrescentando mais uma frase.
<Vou contar a verdade, e peço perdão desde já.>
O grão-duque não respondeu, apenas devolveu um olhar cheio de perguntas. Rensley decidiu interpretar seu silêncio como consentimento.
Mesmo sabendo que cometera um ato irreversível, a última hesitação retardava seu movimento. Como quando, num jogo, se a mão escorrega logo no início, é um mau presságio; Rensley não conseguiu segurar bem o véu e fez um movimento em vão.
— Uf…
Respirou fundo para acalmar o coração. Talvez porque aquela respiração tenha sido mais longa do que o esperado, o grão-duque, que observava Rensley, de repente estendeu a mão. Sua mão, como no porão pouco antes, se aproximou do rosto dele.
Rensley quase recuou o corpo assustado, mas se conteve. A mão, que até então servira como pergaminho para as mensagens escritas, agora pairava perto de sua orelha.
O dedo longo tocou de leve sua bochecha e, também, o lóbulo da orelha, ou talvez tenha sido apenas um engano, resultado de seus sentidos aguçados de medo.
O grão-duque puxou o véu lentamente para baixo. Ao virar para trás o longo turbante que cobria a cabeça, os cabelos loiros, que estavam contidos, revelaram-se levemente ondulados. Quando morava em Cornia, sempre cortava o cabelo curto, mas durante a viagem até Oldenland havia crescido consideravelmente.
O botão que unia a proteção facial ao turbante se soltou com um leve estalo. A seda de tom roxo escuro, da mesma cor do véu de cabeça, deslizou pela pele com uma leveza e rapidez quase cruéis. Uma velocidade que não permitia sequer um breve pedido de espera.
Com os olhares presos um no outro, o tempo e o ar pareceram parar, e o quarto ficou em silêncio. Apenas observando o reflexo de si mesmos nos olhos um do outro, sem palavras, sem conseguir tomar a próxima atitude. Como se uma cera invisível tivesse sido derramada sobre todo o corpo, endurecendo-o completamente. Será que o mundo havia realmente parado? O pensamento causava uma ilusão.
Quem primeiro colocou em movimento o mundo parado foi Rensley. Ele se levantou abruptamente da cama e correu para o chão, quase saltando. Embora se conhecessem havia pouco tempo, os olhos do grão-duque, que até então não haviam demonstrado nenhuma variação de sentimento, agora estavam ligeiramente arregalados de surpresa, também.
— …Você é…
Sem dar tempo para que aquele monólogo continuasse, Rensley se ajoelhou de imediato e curvou profundamente a cabeça.
— Aceitarei qualquer punição! Por favor, poupe apenas minha vida. De forma alguma agi assim com a intenção de insultar Vossa Alteza!
O grão-duque não disse nada. Rensley havia pensado em várias desculpas para apelar à compaixão e se defender racionalmente, mas, diante da falta total de reação do grão-duque, ficou difícil continuar falando sozinho.
Rensley, com a cabeça baixa, tentava espiar de relance a expressão e o clima do outro, mas o rosto dele dificilmente entrava em seu campo de visão. Por fim, curvou a cabeça ainda mais e continuou:
— A verdadeira noiva de Vossa Alteza é, sim, Yvette Elvanes. Ela não é uma pessoa inexistente no mundo, é claramente uma princesa de Cornia, do sangue da família real de Cornia. Mas, faltando dois dias para partir para Oldenland, a princesa desapareceu. Por isso, sem outra escolha!
— Levante-se.
Uma ordem quase decisiva interrompeu as palavras dele. Rensley calou-se e, hesitante, ergueu a cabeça.
O grão-duque, ainda sentado, repetiu. A surpresa parecia ter diminuído nesse meio-tempo, sua voz permanecia plana, sem grande agitação.
— Levante-se, e conte devagar. Estou disposto a ouvir, não precisa se apressar.
Rensley se levantou cambaleando. Juntou as mãos à frente e, ainda com o olhar fixo no chão, começou a falar, agora com um pouco mais de cuidado.
— Juro pela minha honra que não há nem um grão de mentira no que vou dizer agora.
Um olhar que perguntava que valor sua honra teria para ele passou fugazmente por seu rosto, mas o grão-duque apenas fez um leve gesto, indicando que continuasse.
— O nome que mencionou há pouco é o meu nome verdadeiro. Sou Rensley Malocen, e a Princesa Yvette Elvanes é minha meia-irmã.
— …Então você também é da realeza?
— O rei de Cornia tem dez filhos, dos quais dois são bastardos. Um é Yvette, e o outro sou eu, Malocen.
A primeira rainha do atual rei de Cornia deu à luz dois filhos e, envolvida no crime de sua família, foi confinada até morrer. A segunda rainha teve três filhos e foi destronada. A terceira rainha, que assumiu o posto oficial após a destronação da segunda, deu à luz o atual príncipe herdeiro e morreu de doença. E a quarta e atual rainha teve cinco filhos até agora, incluindo gêmeos. Entre todos os filhos do rei, três morreram ainda jovens.
E Yvette Elvanes e Rensley Malocen nasceram de mulheres plebeias diferentes, cada uma alegando que seu filho era sangue do rei. Só depois de passar por um ritual de confirmação de paternidade real puderam ser reconhecidos como bastardos.
— Na família real de Cornia, princesas são raras. Alguns reis se apressam para ter um príncipe herdeiro, mas em Cornia a situação é diferente. Poucos príncipes tornam a sucessão instável, mas muitos também causam problemas. As princesas, por outro lado… contanto que a questão da sucessão esteja resolvida, ter muitas não é necessariamente ruim, como Vossa Alteza deve saber bem.
Um obstáculo que não interfere na disputa de sucessão, mas que serve como ferramenta de casamento político para fortalecer a posição de um reino ou como símbolo de um acordo. Esse era o significado da existência de uma princesa em muitas famílias reais. É claro que existiam reinos onde o sexo não importava para subir ao trono, mas Cornia não era um deles, e, entre esses, era particularmente conservador.
O rei de Cornia tinha três filhas. Uma delas já mantinha negociações amistosas de casamento com a família real Millever, conhecida pelo comércio de seda. Já com um número consideravelmente menor de filhas do que filhos, a ordem para enviar uma princesa para se casar com o grão-duque de Oldenland, com quem não havia sequer trocas, obviamente irritou o rei.
Mas nenhum rei de qualquer reino queria enviar sua filha para tão longe, ao norte. Julgando que recusar apenas geraria mais complicações, o rei de Cornia acabou aceitando a proposta do imperador, sem outra escolha, e a escolha natural recaiu sobre a bastarda Yvette.
— Yvette aceitou a decisão do rei. Ela é um ano mais nova do que eu, e mantínhamos uma relação muito próxima. Como éramos bastardos, apesar de sermos membros da família real, passamos por muitas coisas ao longo do tempo. Nesses momentos, sempre nos ajudávamos mutuamente, apoiando-nos um no outro, na mesma posição. Como Yvette sempre dizia que queria deixar Cornia… na verdade, eu também fiquei bastante triste com a ideia de que minha única irmã fosse tão longe, até o fim do continente, mas mesmo assim desejei-lhe felicidades diversas vezes.
— …
— Mas, faltando dois dias para a partida, Yvette desapareceu. Achei que ela havia aceitado o casamento, mas não era o caso. Deixou apenas uma carta dizendo: “Família Elvanes, achavam mesmo que eu me sujeitaria em silêncio?” e sumiu de repente…
Na verdade, a carta dizia: “Seus miseráveis descendentes da Elvanes, que se acasalem com ratos”, mas Rensley suavizou ao traduzir.
Quando soube, em segredo, que Yvette havia fugido, Rensley acabara de voltar de uma casa de jogos de cartas numa taberna. Ao ouvir a notícia, caiu na gargalhada. Sentiu uma satisfação imensa.
Por mais que Yvette sempre falasse em querer deixar Cornia, ver que ela, de repente, obedecia com submissão às ordens do rei que tanto odiava era algo tão estranho quanto ver uma pessoa completamente diferente. Mas descobrir que tudo aquilo era apenas uma atuação para esse momento? Naquele instante, chegou a querer voltar para a taberna e brindar pela boa sorte de Yvette.
Mas a situação se desenvolveu de uma forma totalmente inesperada.
As pessoas que Yvette havia amaldiçoado eram, claro, o rei e seus filhos legítimos. Yvette provavelmente pensava que, ao desaparecer, o rei não teria escolha senão pedir desculpas ao imperador ou enviar outra das princesas restantes para o norte.
Como poderia ela prever que o rei, enfurecido, ordenaria disfarçar um de seus filhos sobressalentes de mulher para enviá-lo ao norte em seu lugar?
Nem Rensley, nem Yvette, nem sequer o sacerdote da igreja conseguiram prever um só passo à frente. Uma pessoa capaz de cometer um ato que ninguém sensato conseguiria imaginar é chamada, pelo mundo, de louco.
— Se for assim…
Depois de ouvir toda a história, o grão-duque, com um ar de dúvida, bateu levemente os dedos no braço da poltrona algumas vezes.
— Por que você não fugiu? Mesmo estando sob vigilância dentro de Cornia, durante a longa jornada, não parece que faltaram oportunidades para se livrar dos acompanhantes e fugir. Julgando apenas pelo comportamento que você demonstrou aqui.
— Se Yvette soubesse que as coisas terminariam assim… não teria se escondido. É a mesma coisa para mim. Em Cornia tenho pessoas que estimo muito. Vivo ou morto, o que importa é chegar são e salvo a Oldenland; se antes disso a notícia de que fugi se espalhasse, eles seriam punidos em meu lugar. Como poderia fugir sozinho, sabendo disso?
Uma vez chegado a Oldenland, quer a noiva morresse quer fugisse, o rei de Cornia teria cumprido sua parte da proposta, e o imperador provavelmente não exigiria uma segunda candidata a noiva.
O rei apenas, incapaz de suportar a irritação por uma responsabilidade solidária inexistente e a raiva contra a filha bastarda que se rebelara, cometera esse ato insano.
Se Yvette tivesse ao menos dado uma dica, Rensley seria irrefutavelmente cúmplice, sem espaço para se defender; mas ele estava completamente alheio ao plano de fuga dela. Sentir-se um bode expiatório usado apenas por ser também bastardo era, naturalmente, uma sensação amarga. Enquanto Rensley, subitamente melancólico, curvava a cabeça, o grão-duque fez uma nova pergunta.
— Mesmo que o senhor Malocen não tivesse essa intenção, a família real de Cornia acabou me insultando; se eu protestar formalmente e informar o imperador sobre isso, o que o rei de Cornia pretende fazer?
— …Em Cornia dirão que enviaram a princesa conforme ordenado por Sua Majestade Imperial, e que tudo o mais foi decisão unilateral minha.
Os lábios de Rensley se torceram levemente num sorriso irônico.
— Um bastardo humilde que guardava rancor há tempos e desprezou o casamento de Estado para insultar a família real, ou um sujeito sempre sombrio que, com intenções de sodomia, prejudicou a própria irmã para tomar seu lugar. Motivos podem ser inventados à vontade, e as pessoas acabam acreditando na versão mais conveniente, não é mesmo? Yvette já desapareceu e não pode testemunhar, e eu sou apenas um resto que pode morrer sem fazer diferença.
Por um momento, entre os dois, só restou silêncio. Rensley respirou fundo e voltou a se ajoelhar diante do grão-duque.
— Vossa Alteza, é claro que não vim com esse objetivo. Mesmo de brincadeira, sendo eu homem, não tenho nenhuma ambição de ocupar o lugar de grã-duquesa. Se Vossa Alteza tiver a bondade de me poupar a vida, gostaria de viver aqui como um cidadão comum de Oldenland, como Rensley Malocen. Basta dizer a Cornia que eu fugi. Assim, também eles não terão mais dúvidas.
— …
— Minha origem é humilde, mas mesmo assim, por ser meio filho do rei, nunca pude fazer o trabalho que o povo comum faz, vivendo como um parasita da família real. Mas, apesar disso, sei manejar espada, tenho conhecimento de luta corporal e equitação. Também sei cozinhar bem, cuidar de animais, e tenho alguma habilidade em carpintaria. Se me aceitar, dedicarei o máximo esforço e lealdade a qualquer trabalho.
— Ou seja, quer viver como se estivesse morto, ou inexistente.
Rensley não negou, e o grão-duque permaneceu em silêncio, como se estivesse refletindo. Foi depois de um silêncio não muito longo que ele soltou mais um leve suspiro.
— Para mim, o casamento é uma questão indiferente. Como não tenho interesse nisso, deixei de lado até mesmo a busca por um parceiro; se soubesse que a situação se complicaria tanto assim, deveria ter buscado uma pessoa adequada e pedido permissão antes mesmo que o imperador ordenasse.
Realmente, é assim mesmo. Se ele tivesse feito isso, Yvette e eu não teríamos passado por isso… Rensley concordou apenas mentalmente.
— Se dissermos que a princesa enviada por Cornia fugiu, o imperador, para restaurar sua autoridade, enviará outra princesa de outra família real… bem, não creio que essa pessoa também deseje vir para cá. Não quero aumentar ainda mais o número de vítimas.
— …Então…
— Além disso, não posso garantir que deixarão de lado a princesa desaparecida. Mesmo que Cornia resolva encobrir tudo em silêncio, de qualquer forma este casamento foi realizado sob a autoridade do imperador, então você e sua irmã enganaram o imperador.
Uma explicação calma e precisa. Sem encontrar argumento para contestar, Rensley baixou os olhos.
O rei de Cornia e Yvette haviam, cada um a sua maneira, desobedecido metade da ordem do imperador, mas se esse fato viesse à tona, era grande a probabilidade de que Rensley e Yvette acabassem carregando sozinhos todo o peso da acusação de desrespeito. A menos que subisse aos céus ou afundasse na terra, se uma busca oficial fosse iniciada, era claro que Yvette seria capturada, sem sombra de dúvida.
— O imperador também não tornaria o assunto grande demais só por causa de um casamento, mas nunca se sabe. Não são poucos os casos em que pequenos desrespeitos são punidos com severidade justamente para servir de exemplo às pessoas.
Sem nada mais a dizer, Rensley calou-se, e o grão-duque também ficou em silêncio. Guardas e criadas pareciam ter se afastado de verdade, pois nenhum som se ouvia no quarto. Enquanto Rensley, absorto sem perceber, fitava fixamente o desenho do tapete, uma voz grave e agradável chegou aos seus ouvidos.
— Há algumas centenas de anos, houve em Oldenland um grão-duque consorte homem.
Ah, então já houve um grão-duque consorte homem… Espere, o quê?
— Além disso, dizem que ele não era sequer humano, mas de outra raça.
— Como?
Sua testa se franziu instintivamente. Rapidamente recompôs a expressão, mas a mente de Rensley ficou ainda mais confusa.
“O que ele está dizendo de repente? Será que o grão-duque também é louco?”
Dizem que quem é loucura extrema, na verdade, parece calmo. Será mesmo verdade o boato de que ele era louco? Enquanto Rensley, começando a duvidar, tinha o olhar instável e vacilante, o grão-duque, sem intenção de se adequar ao ritmo de pensamento dele, continuou explicando.
— Parece que foi o único e último caso de um grão-duque consorte homem, mas, de qualquer forma, não é algo totalmente sem precedente.
— …
— Mas mesmo assim, nos registros do casamento, foi inscrito o nome de outra nobre mulher. Portanto, oficialmente ficou registrado o nome dela, mas há diversos documentos históricos que atestam a existência de um grão-duque consorte homem de outra raça. Hoje já não existem mais, mas antigamente, dizem que neste continente também viveram seres além dos humanos, então imagino que esse casamento tenha sido firmado como parte de um acordo com eles.
Rensley revirou os olhos. Sem se esforçar ao máximo para se conter, seu corpo quase se contorcia. As pontas de dedos e pés, delicadamente posicionadas, tremiam de forma imperceptível.
Mesmo pressentindo o que ele pretendia dizer, queria negar. Temia até mesmo confirmar com a própria boca, então esperava apenas que o grão-duque chegasse a uma conclusão clara. E esse momento chegou, sem piedade.
— Pretendo realizar a cerimônia com a noiva vinda de Cornia. Também pretendo enviar uma carta à família real de Cornia, informando que recebemos com segurança quem vocês enviaram. Apenas recebi, conforme a ordem do imperador, a noiva enviada por Cornia como grã-duquesa consorte.
— …
— Assim, ninguém deve enfrentar dificuldades ou punições por causa disso. O que acha, senhor?
— Mas, se for assim.
A voz de Rensley engasgou, prendendo o fôlego por um instante.
— E o herdeiro? Vossa Alteza precisa de uma grã-duquesa consorte que dê à luz seu filho, não é mesmo? Além disso… mesmo que isso passe despercebido por ora, se no futuro o imperador ou as pessoas descobrirem minha verdadeira identidade…
— Para me apresentar formalmente ao imperador como grão-duque e grã-duquesa consorte, é preciso esperar pelo menos até o fim do inverno. Não creio que seja necessário se preocupar com isso agora. Não foi você mesmo quem me pediu para poupar sua vida?
O grão-duque o olhava, aguardando uma resposta.
…A resolução dele não era perfeita, mas, pelo menos na situação atual, era a mais adequada. Especialmente no que dizia respeito a reduzir a responsabilidade do próprio grão-duque e de Oldenland.
O imperador desejava que Cornia escolhesse uma “princesa” e a enviasse a Oldenland, e o rei de Cornia, desobedecendo metade dessa proposta, enviara ao norte seu próprio “príncipe”, ainda que bastardo, Rensley.
Mas Gizel Zibedad apenas recebia a “noiva enviada por Cornia”, exatamente como o imperador havia ordenado. Ainda que, mais tarde, as pessoas duvidassem ou zombassem dessa decisão, se ele explicasse que também considerou que o envio de um noivo homem fora vontade de Sua Majestade Imperial, ninguém ousaria questionar publicamente a validade de tal afirmação. Além disso, como o mundo já considerava o grão-duque um homem excêntrico, mesmo agindo de forma um tanto incompreensível, havia margem para aceitação.
Nesse casamento distorcido, apenas Gizel Zibedad permanecia inocente. Mas se ele mentisse ao imperador dizendo que a noiva havia fugido, a partir daquele momento, o grão-duque também se tornaria cúmplice.
E mais: por mais que fosse um país com pouco intercâmbio com outros reinos, com a mera existência de Rensley, Oldenland ganhava um pretexto para futuramente cobrar Cornia. Por que motivo o grão-duque Gizel abriria mão desse tipo de vantagem política?
Se ainda tivesse resquícios de compaixão pela noiva infeliz, talvez pudesse ser persuadido a ajudar num plano de fuga romântica; mas essa oportunidade já havia sido desperdiçada pelas próprias mãos de Rensley. Não havia nenhuma razão para o grão-duque conceder tolerância a Rensley Malocen, uma falsa princesa e, ainda por cima, homem.
— Eu, Rensley Malocen,
Não havia outra saída. Rensley colocou a mão direita sobre o peito esquerdo e curvou a cabeça.
Na infância, sonhava em se tornar um cavaleiro esplêndido ao crescer. Queria servir com lealdade não ao atual rei de Cornia, mas a um senhor digno de respeito. Como um bastardo da realeza sem educação formal adequada, dificilmente algum nobre o aceitaria como cavaleiro, e, além disso, ao saber que os próprios cavaleiros não eram os guerreiros puros que admirara na infância, aquele sonho havia se desbotado.
Finalmente conseguindo imitar algo semelhante àquilo, mas vestindo apenas uma camisola vestida às pressas. Ainda assim, Rensley se decidiu com firmeza.
— Seguirei as decisões de Vossa Alteza com total lealdade. Por favor, me diga o que devo fazer e como.
— Não há nada especial a fazer. Basta que o senhor realize a cerimônia como grã-duquesa consorte, conforme decidido.
— …Então, pretende revelar às pessoas que sou homem?
O grão-duque inclinou o olhar para o lado, pensando brevemente, e resumiu de forma simples.
— Sobre isso, vamos deixar um tempo para pensar. De qualquer forma, até a cerimônia, você não pode mostrar o rosto nu nem falar com ninguém, não é mesmo?
A atitude do senhor a quem ele decidira dedicar lealdade era tão indiferente quanto a camisola do súdito. Rensley percebeu, com sensibilidade, que havia se transformado de noiva merecedora de compaixão e gentileza em um mero incômodo problemático de resolver.
Ainda assim, escapara da decapitação; isso seria sucesso ou fracasso? Enquanto ruminava sua aposta de uma vida inteira, o grão-duque se levantou.
— Precisa de algo?
— Como?
— Já que a situação chegou a este ponto, até decidirmos os próximos passos, é melhor reduzir o contato com as pessoas. Se precisar de algo, diga. Eu mesmo cuidarei.
Rensley não conseguiu responder de imediato, abrindo e fechando a boca até que seu rosto corasse levemente. Diante da seriedade do momento, pode parecer descarado, mas de qualquer forma o jogo já estava uma bagunça completa.
— Desde que saí da última pousada, ontem, não comi mais nada… gostaria de fazer uma refeição.
Afinal, tudo aquilo era uma confusão criada por querer sobreviver; não podia, no fim das contas, morrer de fome. Achou que ele fosse zombar de sua ousadia interna, mas o grão-duque apenas assentiu com a cabeça.
— Espere.
Ele ajeitou a capa e se levantou. Durante todo o tempo em que Rensley observava, ele caminhou até a porta sem olhar para trás sequer uma vez.
Só depois que a porta do quarto se fechou completamente, Rensley soltou um suspiro profundo e se sentou pesadamente na cama. Diversos pensamentos vieram à tona como uma onda, mas ele balançou a cabeça com força para dispersá-los.
“Por ora, agradeço por ter escapado da pena de morte.”
Até o rei de Cornia trocara de rainha várias vezes; não havia razão para que o grão-duque Gizel não pudesse fazer o mesmo. Sua própria condição poderia esperar até depois de realizar a cerimônia de casamento fingida que resolvesse a situação atual.
O grão-duque também não deveria ter intenção verdadeira de passar a vida inteira ao lado de um grão-duque consorte homem, de qualquer forma.
***
↫─✧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna