. ₊ ⊹ Capítulo 03.4
. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 3 – Nova Vida
Pt. 04
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Os olhos roxos revelaram um brilho, o esconderam rapidamente e brilharam de novo. Enquanto as pálpebras se abriam e fechavam apressadamente várias vezes, os lábios permaneciam firmemente fechados, sem se abrir nem um pouco.
Até dez minutos atrás, ele tinha repetido dezenas de vezes monólogos de significado semelhante: entediante, chato, quero sair. Rensley Malocen era alguém que rolava na cama, se recostava por um tempo na cadeira, andava de mãos pelo quarto de um lado ao outro, e até tinha interpretado sozinho dois papéis, encenando falas de alguma peça, não se sabe qual.
Aquele homem, que tinha feito tudo isso, agora estava agindo de repente como se tivesse perdido a fala. Será que ele não entendera o que Gizel dissera? Ele perguntou, para confirmar:
— Foi difícil o que eu disse?
Os lábios de Rensley se abriram devagar. Mas seu tom de voz e sua voz eram diferentes do que Gizel esperava.
— …Ah, não. Não é isso. Não é difícil, mas… não consegui entender bem o que o senhor disse…
— Vou repetir. Se quiser, pode prestar o exame de admissão da ordem dos cavaleiros reais. Você disse que suas especialidades eram esgrima e equitação.
Gizel parou de falar por um momento para olhar o rosto dele e confirmar se estava entendendo corretamente o que dizia.
— Como a ordem dos cavaleiros reais de Laudken está sempre em busca de membros excelentes, se o Lorde Malocen realmente tiver esse tipo de talento, achei que seria uma pena passar todo o tempo apenas no quarto.
— Mas.
Rensley ainda tinha uma expressão de quem não entendia direito. Ele gaguejou sem som e, com a voz encolhida, como se tivesse perdido a coragem, disse:
— Mas, se for assim… como fica o cargo de Grã-Duquesa? De qualquer forma, todos disseram na época que, até que o divórcio ou a destituição fosse anunciada no momento certo, eu deveria continuar desempenhando o papel de Grã-Duquesa…
— A Grã-Duquesa vinda de Cornia é frágil de saúde e não sai do quarto o dia todo. As pessoas que podem entrar no quarto são apenas a governanta, que a atende de perto, e alguns poucos autorizados.
— …
— Então, mesmo que o senhor fique fora do quarto durante o dia, quem vai saber?
Ao ouvir isso, os lábios fechados de Rensley Malocen se entreabriam um pouco. Os olhos, que o encaravam rígidos, cheios apenas de estranheza, oscilaram levemente.
Parecendo finalmente ter entendido o que ele dizia, Gizel continuou a explicação.
— É claro que, às vezes, há ocasiões em que preciso levar a Grã-Duquesa oficialmente comigo. Nessas horas, será suficiente lançar uma magia de mudança de voz e cobrir o rosto com o véu, assim como no casamento. Como ainda ninguém viu o rosto da Grã-Duquesa direito, não é preciso se preocupar com a possibilidade de alguém reconhecê-lo. A Grã-Duquesa de Oldenland não costuma usar véu, mas… acho que não haverá problema se dissermos que isso também é um hábito antigo da princesa vinda de Cornia.
O rosto rígido dele se suavizou. Rensley, que tinha ficado rijo como um peixe congelado, agora exibia até um sorriso brincalhão, à vontade.
— Foi mentira. Na verdade, não existe esse tipo de costume em Cornia.
— …Entendo. Mas nós não sabemos nada sobre os costumes de Cornia, então a possibilidade da mentira ser descoberta é muito baixa.
— Vossa Alteza tem razão em tudo.
Rensley respondeu, sorrindo ainda mais abertamente. Depois de encarar aquele sorriso em silêncio por um bom tempo, Gizel apontou para a poltrona diante da lareira.
— Sente-se. Vamos conversar mais detalhadamente.
Sentado diante do fogo da lareira, o rosto de Rensley ficou ainda mais suave. Os olhos, antes rígidos de dúvida e desconfiança, agora olhavam para Gizel cheios de curiosidade radiante e simpatia.
Os olhos, refletindo o brilho dourado das chamas, pareciam pedras preciosas escuras, como rubis ou ametistas em bruto. Com uma expressão de quem tinha muitas dúvidas mas não sabia por onde começar naquela situação, Rensley fechou a boca e esperou pela próxima fala dele. Gizel apenas olhou para aquele rosto por um momento e, então, como alguém que subitamente recobrasse a consciência, começou a explicação.
— Se você passar no exame de admissão… poderá viver como um cidadão comum, como Rensley Malocen, conforme pediu a mim originalmente. Para isso, será preciso um quarto separado, não o da Grã-Duquesa, mas o do Lorde Malocen.
— Se me der um pouco de tempo, vou economizar meu salário e conseguir um lugar para morar o mais rápido possível.
— Não. Mesmo depois de aprovado, terá que continuar morando no castelo. Assim, quando necessário, poderá assumir imediatamente o papel de Grã-Duquesa. Como o Lorde Malocen é conhecido como acompanhante da Grã-Duquesa e um hóspede vindo de um país distante, ninguém vai achar estranho que eu, o senhor do castelo, ofereça hospedagem.
Gizel estendeu o braço em direção a uma pequena escrivaninha num canto do quarto. Mesmo sem tocá-la, o caderno e a caneta que estavam sobre ela voaram e pousaram no colo de Gizel. Sem esperar, ele abriu a capa naquele momento.
— Ah.
Do outro lado, escapou um pequeno gemido de constrangimento. Gizel olhou por um momento em silêncio para o caderno de capa de couro que abrira para explicar. Ele achara natural que iria encontrar páginas em branco, mas por dentro da capa havia anotações e rabiscos recentes espalhados desordenadamente.
<Quero comer algo gostoso, torta de cogumelo do mercado Celestine, frituras de creme, bolo de rosas, sopa de cebola, ensopado de rabo de boi, o vinho tem gosto diferente também, entediante, continua nevando, será que as pessoas de Cornia estão bem, quero tomar sol…>
Havia monólogos entrecortados, espalhados numa letra apressada, e também pequenos desenhos de animais, pessoas e paisagens. Os desenhos, feitos apenas com caneta, sem nenhuma outra tinta, não eram exatamente artísticos, mas também não eram ruins.
— É algo que rabisco de vez em quando quando estou entediado… não pensei muito, é só um rabisco de cada momento, não precisa se preocupar com isso.
As bochechas e orelhas de Rensley se tingiram levemente. Gizel apenas assentiu com a cabeça e continuou virando as páginas até chegar a uma em branco.
Ajeitando a caneta na mão, ele puxou a mesinha próxima e colocou o caderno em cima. Desenhando um esboço aproximado da estrutura do castelo, continuou a explicação para Rensley.
— Aqui, o quarto da Grã-Duquesa fica no quarto andar, e meu quarto fica no quinto andar, o mais alto da torre principal. Se formos criar um quarto para o Lorde Maelrosen, acho que dá para usar o último dos quartos de hóspedes do segundo andar. Ainda não está construído agora, mas seria bom instalar, no futuro, dispositivos de transporte em cada quarto para facilitar a ida e vinda entre eles.
Ouvindo a explicação de Gizel, Rensley, um pouco animado, arregalou os olhos e perguntou:
— Dispositivo de transporte é aquela laje de pedra misteriosa que estava no quarto de Vossa Alteza?
— Isso mesmo. Se for possível ir diretamente do quarto do Lorde Malocen para o quarto da Grã-Duquesa e para o meu quarto, será possível desempenhar o papel de Grã-Duquesa sem chamar atenção das pessoas. E também será conveniente quando surgir algo para discutirmos de vez em quando.
— Até o quarto de Vossa Alteza? Acho que não seria certo eu entrar por conta própria… Se esse dispositivo existir, qualquer um pode entrar no quarto de Vossa Alteza? Não é perigoso?
— Vamos combinar de entrar apenas quando houver um assunto específico. Meu quarto tem dispositivos de segurança instalados, então não precisa se preocupar com essa parte também.
— Dispositivo de transporte mágico…
Rensley murmurou baixinho, olhando para o esboço da estrutura do castelo, desenhado apenas com as partes necessárias. Falava cada vez menos, mas os olhos brilhantes pareciam animados.
Gizel manteve o silêncio para dar tempo a ele de refletir. O hóspede vindo de Cornia parecia não precisar de muito tempo para organizar os pensamentos, e ergueu a cabeça.
— Não sei nem como agradecer por cuidar de mim, um ser tão insignificante, com tamanha generosidade. Se me der esta oportunidade, prometo que vou passar no exame com certeza, nem que seja só para não decepcionar Vossa Alteza.
O rosto de Rensley transbordava gratidão, e os olhos refletiam determinação firme. Gizel piscou devagar, encarando-o, e então fechou o caderno.
— Não há motivo para eu me decepcionar se o senhor for reprovado no exame.
— Ah, sim. Isso é verdade, mas mesmo assim…
Gizel se levantou. Já tendo obtido o consentimento do interessado, só restava colocar em prática.
— Vou informar ao comandante Sorel sobre a decisão do Lorde Malocen. Disse que, se o senhor quisesse, prepararíamos o exame de admissão… acho que seria bom nós três conversarmos juntos. Que tal ir comigo até o gabinete agora?
— Sim. Então vou me preparar rapidamente!
Rensley se levantou apressadamente para se preparar. Depois de tirar a camisa que vestia num gesto impetuoso e jogá-la longe, ele se lembrou da presença do Grão-Duque, que estava observando atrás dele. Rapidamente, pegou de volta a camisa que caíra no chão.
— Eu ia arrumar isso já já.
— Deixe para depois e mande as criadas fazerem.
Felizmente, Gizel não parecia se importar muito com o comportamento impetuoso de Rensley. Bem, é claro, alguém como Vossa Alteza o Grão-Duque não se importaria tanto assim com cada detalhe do comportamento de um hóspede.
O constrangimento de Rensley diante da atitude indiferente de Gizel, tão diferente do próprio entusiasmo diante da proposta inesperada, durou apenas um instante. Ele era, como parecera desde a primeira impressão, uma pessoa racional e sensata.
Gizel dissera que não teria motivo para se decepcionar se ele fosse reprovado, mas a maioria das pessoas não é tão racional quanto ele. Se recebesse uma oportunidade dessas e ainda assim não conseguisse a aprovação, certamente haveria pessoas dentro da ordem que fofocariam secretamente não sobre ele mesmo, um mero hóspede estrangeiro, mas sobre o discernimento e o julgamento do Grão-Duque. Ele não queria de jeito nenhum criar esse tipo de situação.
Tirar a roupa diante do Grão-Duque era constrangedor, mas já era algo que ele tinha passado antes. Rensley enfiou o corpo no vestido, deixando apenas a roupa íntima que grudava nas coxas.
O vestido de Oldenland, diferente do de Cornia, tinha o tecido mais grosso e as mangas e a cintura mais folgadas, o que fazia com que o formato do corpo não se destacasse tanto. Como não apertava tanto a cintura para realçar o corpo, os nós para amarrar a roupa também eram relativamente simples. Era muito vantajoso para um corpo masculino fingir ser mulher.
Desde o casamento, era a primeira vez que vestia um vestido. Naquela ocasião, era um vestido cerimonial, com decorações elaboradas, e havia muitas partes que precisavam de mãos extras para ficar bem-arrumado, mas o vestido que ia vestir agora era uma roupa cotidiana relativamente simples. Achou que dava para vestir sozinho, sem a assistência das criadas.
…achou…
— Vossa Alteza, espere um pouco, por favor. Como o laço fica nas costas, vai demorar um pouco para vestir.
O tom de voz de Rensley ficou nervoso. Fazer Vossa Alteza esperar apenas por causa de vestir uma roupa. Por que a senhora Samlit não preparou uma roupa com o laço na frente?
Quando a pressa aumentava, suas mãos, normalmente ágeis, começavam a falhar. Enquanto ele se debatia, tentando levar o braço para trás para enfiar as tiras de couro nos buracos perfurados nos dois lados do tecido, Gizel, que esperava sentado na cadeira, se levantou.
Certo. Seria melhor Vossa Alteza ir na frente para o gabinete. Enquanto murmurava isso internamente, Gizel se aproximou, não em direção à porta do quarto, mas em direção a Rensley, ocupado vestindo o vestido.
— Vire-se.
Rensley piscou os olhos, olhando para o homem que se colocara diante dele. Depois de um silêncio, entendendo o significado das palavras, Rensley se assustou e balançou a cabeça.
— Não, Vossa Alteza! Eu mesmo faço. Se estiver entediado esperando, pode ir na frente para o gabinete. Vou chamar a senhora Samlit para…
— Ainda não é bom que sejamos vistos por outras pessoas com frequência. Sem precisar chamar criada, vamos resolver isso rapidamente e sair.
Mesmo pensando por um instante, sua fala fazia sentido. Rensley não conseguiu hesitar por muito tempo e se virou. Pela abertura do vestido, que não estava bem amarrado, as costas nuas apareciam completamente à mostra.
Mesmo que o clima lá fora fosse frio, o quarto, com a lareira acesa o dia todo, não estava nem um pouco frio. Era um quarto quentinho onde se podia andar até completamente sem roupa, mas justo agora a pele exposta parecia particularmente fria.
Será que Gizel Zibedad, sempre tão correto, estava olhando para as costas descuidadas daquele homem com um olhar gélido? Ele estava sutilmente tenso, mas não teve coragem de se virar para olhar.
No silêncio que se seguiu, provavelmente enquanto o Grão-Duque calculava o comprimento dos dois lados da tira da cintura, Rensley quase soltou um som de susto, mas conseguiu engolir a tempo. Foi porque a sensação de dedos de outra pessoa deslizando de repente sobre a pele nua chegou de forma extremamente sensível. Seu corpo estremeceu brevemente. Percebendo isso, a voz de Gizel veio das costas.
— Desculpe. É difícil amarrar sem tocar no corpo.
— Está tudo bem. Não se preocupe.
O rosto de Rensley esquentou, mas ele respondeu como se não fosse nada. Por mais que houvesse diferença de status, sentir-se envergonhado só por ter sido levemente tocado pela mão de outro homem, chegando a estremecer o corpo, era vergonhoso demais.
Ele esperava que Gizel não interpretasse mal. Rensley Malocen não era esse tipo de pessoa tímida. Era só que agora tudo — ambiente, situação — ainda era estranho, então acabava ficando muito atento aos outros, mas de jeito nenhum sua personalidade era assim originalmente…
Enquanto Rensley murmurava desculpas para si mesmo, que nem sequer chegariam aos ouvidos dele, seu coração foi ficando cada vez mais quieto.
Depois de se acostumar, tocando algumas vezes, a sensação da mão do Grão-Duque Zibedad deslizando pelas costas não só não era desagradável, como era suave o suficiente para deixar uma pessoa relaxada, mesmo estando de pé.
Depois que a ponta dos dedos passava sobre as costas, a tira de couro se apertava suavemente, e o tecido macio ia envolvendo lentamente o corpo. Não havia nenhuma conversa entre os dois, e Rensley ficava parado quieto, como um cachorro sendo escovado.
Finalmente, quando o vestido cobriu completamente as costas de seu dono, uma frase curta se soltou.
— Pronto.
Rensley, que tinha ficado meio distraído, só então se recompôs e se virou. Mesmo tendo feito diretamente o trabalho que era das criadas, o rosto de Gizel não demonstrava nenhuma emoção. Esse tipo de pessoa é o mais difícil de entender. Rensley se curvou profundamente diante dele em agradecimento.
— Muito obrigado mesmo, Vossa Alteza. Depois vou pedir à senhora Samlit que prepare também roupas com laços que eu possa amarrar sozinho no futuro.
— Não é nada demais, não precisa se preocupar com isso.
— Mesmo assim… obrigado.
Rensley se curvou mais uma vez e envolveu a cabeça com o véu. Por baixo do tecido opaco, mas de cor densa, o brilho do cabelo loiro e o olhar roxo se escondiam, como um desenho oculto sob camadas de tinta.
Já que o quarto não era tão claro quanto lá fora, ao colocar o véu, que cobria até os olhos, ficou difícil ver à frente. Sem perceber, ele franziu o cenho, tentando examinar o campo de visão, quando o homem parado à sua frente estendeu a mão.
— Segure a minha mão. Seria um grande problema se você caísse.
Ele queria dizer que estava tudo bem, mas, do jeito que estava, descendo a escada assim, achou que realmente poderia cair. Rensley segurou a mão dele sem reclamar. O calor transmitido pela mão acalmou um pouco a ansiedade de sair do quarto novamente como Grã-Duquesa, depois de tanto tempo.
Os dois saíram do quarto lado a lado e caminharam pelo corredor. Um guarda parado à distância curvou levemente a cabeça em cumprimento. Mesmo com o véu, era possível sentir que ele se surpreendera silenciosamente.
O gabinete ficava no primeiro andar, onde havia mais movimento de pessoas. O olhar das pessoas que circulavam pelo castelo por diversos motivos se concentrou abertamente na Grã-Duquesa, que se mostrava pela primeira vez em quase duas semanas desde o casamento.
Mesmo abaixando o tom de voz, a agitação não conseguia ser escondida, e as vozes chegavam de vez em quando até os ouvidos de Rensley.
— Meu Deus, quanto tempo! Coitada da Grã-Duquesa. Dizem que ela vinha de um país quente e não aguentou o frio daqui, ficando muito fraca de saúde. No dia do casamento ela parecia tão saudável. Por isso dá ainda mais pena.
— É mesmo. Ver que ainda está usando o véu, o boato deve ser verdade mesmo. Dizem que ela ficou tão debilitada que não gosta de aparecer diante das pessoas.
— A Grã-Duquesa também merece pena, mas, para ser sincera, estou mais preocupada com a gente. Se ela já está tão fraca de saúde assim, será que vai conseguir produzir um herdeiro com segurança?
Rensley revirou os olhos por baixo do véu. A sensação de que estava enganando todas as pessoas deste país com uma farsa se tornou dolorosamente real de repente. Fosse ele ouvindo ou não as vozes das pessoas, o Grão-Duque Gizel mantinha uma expressão serena.
Os dois caminharam de mãos dadas até o final, chegando ao gabinete. O Grão-Duque deu uma ordem severa para que ninguém mais entrasse ali, e mandou chamar o comandante da ordem dos cavaleiros.
— Já pode tirar o véu.
Rensley assentiu com a cabeça e retirou o véu. Mesmo sem estar quente, um leve suor tinha se formado na testa. Achando que isso ficaria bem visível para o homem ao seu lado, ele forçou um sorriso.
— Estou nervoso, tendo que fingir ser a Grã-Duquesa depois de tanto tempo.
— Não se preocupe. Ninguém vai desconfiar.
“Não é bem por medo de ser descoberto que estou nervoso, sabe.”
Enquanto engolia essa fala em vez de esclarecer, alguém bateu na porta do gabinete lá fora.
— Sou eu, Anton.
— Entre.
O comandante Anton entrou no gabinete. Andando com passos firmes, ele percebeu Rensley, parado no interior do gabinete, com um instante de atraso. O olhar dele oscilava, confuso, entre o rosto de Rensley e o vestido que ele usava. O comandante, de aparência claramente séria e rígida, hesitou por um momento, parecendo confuso e sem jeito, mas logo se recompôs e cumprimentou educadamente.
— Há quanto tempo, Lorde Malocen.
— Há quanto tempo mesmo, comandante.
Para Rensley, também era igualmente estranho. Depois de uma breve saudação, Anton virou a cabeça. Era uma pergunta que poderia ter feito diretamente ao interessado, mas ele preferiu que passasse pela boca de seu senhor.
— O Lorde Malocen também concordou em prestar o exame de admissão?
— Sim. Então explique a ele o processo.
No fim das contas, os dois acabaram tendo que conversar diretamente.
Depois de pigarrear baixinho, Anton se aproximou de Rensley, que estava sentado na cadeira de honra. Sua expressão era severa.
— A ordem dos cavaleiros reais de Oldenland é uma tropa de elite que, além de proteger Oldenland de invasões externas, desempenha a missão de proteger Vossa Alteza o Grão-Duque nas proximidades.
Anton começou a explicação. Antes mesmo de o assunto principal começar, Rensley já prendia a respiração internamente. A julgar pela atitude dele, era certo que não se tratava simplesmente de dar um posto qualquer de soldado.
— Portanto, o exame de admissão também não termina de uma só vez. Primeiro se faz uma prova escrita, e apenas os candidatos aprovados na prova escrita são avaliados através de combates e torneios a cavalo, decidindo-se a aprovação final com base na capacidade de cumprir as funções de um cavaleiro.
— …Prova escrita?
Diante de uma palavra completamente inesperada, Rensley perguntou, atônito.
Um cavaleiro não era alguém que só precisava ser leal ao senhor e ser bom em combate? Anton respondeu num tom que indicava ser óbvio.
— Claro que sim. Além disso, como o Lorde Malocen vem de outro país, esse processo é ainda mais necessário. Como se pode ter afeição por Oldenland sem ter conhecimento sobre ela, e como se pode servir lealmente a Vossa Alteza o Grão-Duque sem ter afeição por Oldenland?
Era uma fala completamente correta, ponto por ponto. Rensley fechou a boca e engoliu em seco.
Anton, sem esperar até que Rensley se recompusesse do susto, continuou explicando o exame.
— A história e a cultura de Oldenland são o básico. É preciso conhecer também a geografia e as características de cada região, as relações com o exterior. Além dos parentes de Vossa Alteza, também é preciso decorar informações básicas sobre as famílias nobres influentes. Depois de aprovado, para proteger Vossa Alteza, também será necessário conhecer certos assuntos pessoais dele.
— Ah… ha ha. É verdade. Tudo o que disse faz sentido.
— Na verdade, o exame de admissão regular já foi encerrado recentemente, e o exame que o Lorde Malocen vai prestar é um exame especial, ordenado por Vossa Alteza o Grão-Duque. Como o senhor mesmo se gabou de ter excelentes habilidades em esgrima e equitação, e também é nosso ilustre hóspede, quero dar a maior consideração possível.
Não me gabei de ser excelente… Ele só tinha exagerado ao máximo todas as habilidades possíveis para tentar se agarrar de alguma forma neste lugar.
Ao dar uma olhada rápida em Gizel, recebeu de volta uma expressão neutra, sem malícia. Rensley não tinha como saber se o Grão-Duque realmente tinha dito isso ou se o comandante interpretara à sua própria maneira.
— Minhas habilidades são bem insuficientes para me apresentar diante do comandante. Mas vou me esforçar ao máximo para atingir o padrão da ordem…
— Quanto tempo o senhor precisa para se preparar?
Antes mesmo de terminar a fala de modéstia, o comandante interrompeu com a pergunta.
Rensley não conseguiu responder imediatamente e ponderou internamente. Bem. Parecia que precisaria ler pelo menos alguns livros grossos, mesmo que fosse por alto; será que não seria difícil num período curto? Um mês? Dois meses? Não seria tempo demais?
— Quanto tempo os outros candidatos costumam levar para se preparar…
— Varia de pessoa para pessoa, mas o exame de admissão acontece uma vez por ano, então pode usar isso como referência.
Uma nuvem escura foi se formando aos poucos no coração de Rensley. Se o exame acontecia uma vez por ano, isso provavelmente significava que a preparação também levava um tempo semelhante.
Ele rapidamente percebeu a situação. O desejo de fazê-lo prestar o exame de admissão era só do Grão-Duque; o comandante da ordem estava claramente descontente com a candidatura de Rensley.
Como é ordem de Vossa Alteza, vou fingir que sigo, mas se você tiver algum senso de decência, deveria desistir logo aqui — parecia ser a voz que ecoava na cabeça de Rensley.
“Bem, é claro…”
Achando estranho que finalmente uma oportunidade tão respeitável tivesse chegado até ele. Rensley sorriu amargamente.
Embora seu coração animado tenha ficado abatido, não perdeu nada só por ter provado um pouco de empolgação, mesmo que passageira, nesses dias entediantes e sufocantes. Além disso, se reabrissem um exame já encerrado só por causa dele, para ser bem dito, seria um “exame especial”, mas não deveria ser chamado de admissão irregular?
Enquanto pensava em algum motivo plausível para recusar a proposta que já havia aceitado, Rensley escolhia as palavras com um sorriso no rosto.
— Uma semana.
Nesse momento, de repente, uma voz que não era de nenhum dos dois se intrometeu. Rensley e Anton viraram a cabeça ao mesmo tempo.
A pessoa que apenas ouvira a conversa até então acrescentou com uma expressão serena:
— Uma semana é suficiente. Vamos fazer o exame daqui a uma semana.
— O quê?
Quem perguntou de volta, atônito, foi justamente o interessado no exame, Rensley Malocen. Gizel se levantou e caminhou para perto.
— Também conheço o conteúdo do exame de admissão da ordem. Se estudar com concentração, uma semana será suficiente.
O comandante da ordem teve uma expressão de quem tinha algo a dizer subindo à garganta, mas foi só um instante. Ele fechou a boca firmemente e engoliu de volta sua opinião.
— Então vou preparar o exame para daqui a uma semana. Consulte isto para as matérias correspondentes.
Anton tirou de dentro do casaco um pequeno pergaminho e o entregou. Ao recebê-lo com cuidado e abri-lo, exatamente como fora dito antes, estavam listadas detalhadamente as diversas matérias do exame: história, cultura, geografia, teoria de táticas militares e técnicas de combate que um cavaleiro deveria conhecer, além da árvore genealógica da família real e das famílias nobres de Oldenland.
“Como vou estudar tudo isso em uma semana…?”
Rensley se sentiu perdido. Não era motivo de orgulho, mas Rensley nunca tivera interesse algum em estudar sentado diante de uma mesa, e também nunca tivera nenhum talento para isso.
Mesmo assim, como era descendente da família real, chegou a participar de várias aulas ministradas por professores reais, com a justificativa de que não deveria ser muito ignorante. Mas costumava cochilar de tédio e ser repreendido com frequência. Além disso, como as pessoas que participavam das aulas junto com ele eram crianças da família real, o horário de aula acabava se tornando praticamente um horário de bullying e zombaria; longe de criar gosto pelo estudo, a sala de aula só foi se tornando cada vez mais um lugar em que ele não queria entrar.
Seguindo o julgamento dos superiores de que bastava não manchar a honra da família real, e que um filho bastardo não precisava estudar muito, Rensley foi liberado das entediantes aulas por volta dos treze anos. De qualquer forma, graças a ter aprendido a ler e escrever, continuou a gostar de ler depois disso, mas só buscava histórias interessantes, como relatos de viagem de aventureiros, romances de amor ou de guerra; fazia muito tempo que não fazia algo que pudesse ser chamado de estudo.
Enquanto Rensley, sem conseguir dizer nada, olhava perplexo para o pergaminho, Gizel o tomou de suas mãos e o examinou. Ele falou com firmeza:
— Todos os livros relacionados a isso estão na biblioteca da torre do castelo. Vamos começar a estudar hoje mesmo, ainda esta noite.
— Acho que, mesmo virando a noite todos os dias a partir de hoje, não vou conseguir em uma semana, Vossa Alteza…
Não é mesmo, comandante?
Rensley olhou para Anton, buscando internamente sua concordância. Então, ele, que até pouco antes parecia estar cheio de hostilidade em relação a Rensley, também hesitou, franzindo o cenho, e respondeu em seu lugar com um olhar de leve concordância e comiseração.
Não podia lamentar abertamente diante de Gizel, que abrira aquela porta fechada por ele, então Rensley apenas soltou um leve suspiro pelo nariz.
Depois de ter dito que apostaria, não dá para voltar atrás. Se essa era a regra até nos jogos de azar de canto de mercado, quanto mais numa proposta feita pelo monarca de um país. Ele apertou o punho e se decidiu.
— Vou me esforçar ao máximo.
— Boa postura.
Rensley não conseguiu responder a isso e apenas piscou os olhos. Se não tinha visto errado, ele sorriu, um pouco, ainda que muito pouco.
Só eu que estou vendo isso, comandante? Rensley virou a cabeça bruscamente para olhar para Anton. O comandante, com um rosto internamente surpreso, ajeitou rapidamente a expressão ao cruzar o olhar com Rensley.
— Então vou me retirar. Desejo boa sorte ao Lorde Malocen.
Anton se curvou e se retirou, a capa vermelha esvoaçando. Depois de olhar por um momento para aquelas costas, Gizel logo se virou para Rensley.
— Não há motivo para adiar; vamos começar agora mesmo.
***
↫─✧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna