. ₊ ⊹ Capítulo 03.3
. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 3 – Nova Vida
Pt. 03
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Não houve nenhum relatório particularmente complicado, mas a reunião oficial se estendeu mais do que o normal por causa da mediação de um conflito entre a associação de comerciantes e a igreja sobre o horário de uso da praça de Laudken. Cerca de trinta minutos depois de terminada a reunião, o Grão-Duque de Oldenland, que revisava documentos no gabinete, ergueu a cabeça ao sentir que alguém entrava.
O comandante da ordem, de cabelo castanho curto e semblante sério, curvou a cabeça respeitosamente em cumprimento e avançou. Embora ocupasse o cargo mais alto na ordem dos cavaleiros de elite, ele estava numa idade relativamente jovem, tendo acabado de entrar na casa dos trinta e cinco anos. Gizel colocou de lado o documento que estava lendo e o recebeu. Depois de fazer perguntas um tanto protocolares — se o treinamento tinha ido bem, se havia algo incomum — Gizel logo lançou uma nova pergunta.
— Como está o ambiente na ordem dos cavaleiros ultimamente?
— Os novatos que entraram neste trimestre são cheios de energia, o clima está bom.
Que aconteceu? — Anton parecia perguntar com a expressão.
Gizel fixou por um momento o olhar no espelho, que agora tinha voltado a ser um espelho comum, e então desviou o olhar.
— Já criou algum animal?
— Criar… bem, já cuidei do meu cavalo ou de cães de caça, mas se o senhor se refere a animais pequenos como gatos ou pássaros, nunca criei.
— Eu também nunca criei. Mas vi outras pessoas criando quando eu era criança.
— Como no castelo real se criam tantos tipos de animais, deve ter sido assim mesmo.
Enquanto respondia às perguntas de Gizel, Anton não conseguia conter a curiosidade. Como fora chamado logo pela manhã, dizendo que havia algo a perguntar, certamente devia haver algum assunto relacionado ao trabalho; mas o senhor, que sempre gostava de ir direto ao ponto sem preâmbulos, hoje não estava indo direto ao assunto.
— Dizem nos livros também que, no mundo, os animais se dividem entre os que se criam presos e os que se criam soltos.
— Hum. É verdade. Se prendermos por muito tempo os que precisam ser criados soltos, adoecem com facilidade. Mesmo que não precisem pastar, animais como ovelhas, cabras ou cavalos precisam ser levados para longe de vez em quando, não é?
— As pessoas também não devem ser diferentes.
Diante dessa fala, o comandante da ordem encolheu os ombros, achando graça.
— Se compararmos com animais, os humanos são, sem dúvida, animais que precisam ser criados soltos. Ficam angustiados se ficam presos em algum lugar, por isso vira punição, e é por isso que se prendem os criminosos. Se os humanos fossem seres que podem ser mantidos presos, a pena de prisão não seria um castigo.
— …Essa fala é correta.
Gizel assentiu com a cabeça e se recostou na cadeira. Diante daquela expressão um tanto séria, o comandante Anton Sorel não pôde deixar de se sentir tenso internamente.
Ultimamente, Oldenland estava mais pacífico do que nunca. Gizel Zibedad, que assumira o trono do Grão-Duque com apenas dezesseis anos após a morte do monarca anterior, era um garoto peculiar em comparação com seu tio, que governara Oldenland até então — ou até mesmo em comparação com todos os monarcas anteriores.
O Grão-Duque anterior era, entre os monarcas de Oldenland, famosos por gerações por serem belicosos, alguém especialmente destacado em feitos militares, e sua filha, a princesa Frida, também herdara o temperamento do pai, empunhando espadas sem hesitação mesmo fora das muralhas do castelo desde a infância. Diferente dela, Gizel Zibedad sempre fora quieto, e, em vez de demonstrar espírito combativo, gostava de se trancar na biblioteca ou em seu próprio quarto, lendo.
Havia poucas pessoas, mesmo dentro de Oldenland, que previram que ele, que preferia ouvir as histórias de estudiosos ou magos e explorar sozinho o conhecimento em vez de conquistar feitos militares e se relacionar com as pessoas, se tornaria o próximo monarca.
Oldenland era um país que, acima de tudo, precisava se concentrar em defender contra a invasão de monstros. O monarca adequado para esta nação do norte não seria a princesa Frida?
Naquela época, muitas pessoas, incluindo Anton, que ainda não tinha assumido o cargo de comandante da ordem, tinham esse tipo de dúvida e, mais ainda, insatisfação. Mas decidir o próximo líder era uma poderosa prerrogativa concedida ao monarca anterior.
A sucessão do trono se deu de forma tranquila, sem nenhum conflito, e Gizel Zibedad assumiu o cargo de novo Grão-Duque. Depois disso, a princesa Frida, dizendo que não tinha talento nem interesse por política, foi nomeada comandante da fortaleza do extremo norte para a defesa da muralha e passou a viver lá.
Mas agora, já se passaram alguns anos desde que Gizel Zibedad assumiu o trono do Grão-Duque, e ninguém mais tem dúvidas sobre o motivo pelo qual ele se tornou o novo governante. O jovem Grão-Duque, com profundo interesse por estudos e magia, fez com que a magia, que até então só era usada em combates contra monstros, se enraizasse em diversas áreas necessárias para Oldenland, sob seu comando.
Agora, Laudken não se comunica instantaneamente por magia apenas dentro do castelo real, mas também dentro da capital fortificada e até em algumas pequenas propriedades governadas por nobres fora de Laudken.
O suprimento de alimentos, que sempre dependera do comércio com outros países devido à terra agrícola inóspita, passou a ser produzido em quantidade muito maior através de estufas administradas por mana e melhoramento de sementes, e a tecnologia de armazenamento também avançou surpreendentemente. Resolver a crônica escassez de alimentos foi um grande feito de Gizel Zibedad.
A velocidade com que os telegramas iam e vinham entre a fortaleza do extremo norte e Laudken aumentou, e, acima de tudo, o poder da magia de combate usada na prática se tornou incomparavelmente mais forte do que na era anterior.
Anton não entendia muito de magia, mas sabia que a mana não era um poder infinito, e que o atual monarca, que sabia extrair e usar de forma eficiente ao máximo esse poder limitado, não era uma pessoa comum. Nomear Anton, que na época da nomeação tinha acabado de completar trinta anos, como comandante da ordem também foi uma escolha de pessoal ousada, sem precedentes.
Em resumo, sob o governo de Gizel Zibedad, Oldenland estava vivendo uma inovação e uma paz sem precedentes. Vendo-o enfrentá-lo com um clima pesado logo pela manhã, o comandante da ordem não pôde deixar de se preocupar.
— Há algo o preocupando?
— Gostaria de pedir sua opinião sobre o que fazer com o Lorde Malocen.
Ah, era esse o assunto que o preocupava.
Anton assentiu com a cabeça. Mesmo tendo se encontrado apenas brevemente, é claro que ele também se lembrava. O infeliz filho bastardo da família real de Cornia, que chegara aqui no lugar da princesa que deveria ter se tornado a Grã-Duquesa.
Quando ouviu pela primeira vez a declaração do Grão-Duque de que iria realizar o casamento com ele, ficou extremamente surpreso. Pensou em balançar a cabeça, dizendo que Vossa Alteza era mesmo uma pessoa peculiar, mas, ao ouvir a explicação da situação, a condição daquele tal Rensley Malocen era de fato lamentável, e a fala do Grão-Duque também fazia sentido.
O Grão-Duque dissera que, quando o tratamento futuro de Rensley Malocen fosse decidido, ele poderia precisar da ajuda de Anton, e por isso revelara também a ele o segredo por trás do casamento e da Grã-Duquesa.
— Já decidiu o que vai fazer?
Por enquanto, como o casamento já fora realizado, seria mais seguro dar um intervalo de tempo, criar um motivo adequado para fazê-lo se afastar do posto de Grã-Duquesa e, em vez de manter Rensley Malocen em Laudken, enviá-lo para viver numa propriedade isolada.
De qualquer forma, como era um hóspede que o próprio Grão-Duque acolhera pessoalmente, seria preciso enviar alguns membros da ordem como escolta na hora certa. Talvez até alguns tivessem que ficar lá por alguns anos…
— Decidimos dizer publicamente que a Grã-Duquesa está reclusa por ser fraca de saúde.
— Sim. Até agora, ninguém parece ter nenhuma dúvida. Se dermos um pouco mais de tempo para anunciar…
— Ocorreu-me que não é necessário fazer o Lorde Malocen ficar apenas confinado no quarto.
— …Até certo ponto, é verdade.
Como não conseguia captar completamente o que o Grão-Duque queria dizer, Anton concordou de forma vaga.
Pensando bem, ninguém desconfiaria se a Grã-Duquesa realmente morava ou não no quarto da Grã-Duquesa. Como a única pessoa que podia entrar e sair livremente era a governanta, bastava que só ela enganasse discretamente as pessoas, e essa situação poderia ser mantida indefinidamente.
…Mas, em vez disso, seria mais simples calcular o momento apropriado e enviar Rensley Malocen para uma propriedade distante. Enquanto organizava seus pensamentos sozinho, Gizel continuou a falar.
— Segundo o que ele mesmo contou, é habilidoso em esgrima e equitação; gostaria de pedir sua opinião sobre a possibilidade de fazê-lo prestar o exame de admissão na ordem dos cavaleiros.
— …Está se referindo ao exame de admissão da ordem dos cavaleiros reais?
— Hum. Desperdiçar talento não é algo condizente com Oldenland; se ele tiver capacidade, não seria justo aproveitá-lo?
— O exame de admissão pode ser preparado, mas… não seria perigoso? Se a Grã-Duquesa, digo, o Lorde Malocen, andar livremente por fora ou conversar com as pessoas, a possibilidade de sua identidade ser descoberta pode aumentar bastante.
Diante da preocupação de Anton, o Grão-Duque Gizel apenas deu um leve sorriso amargo, quase imperceptível, por algum motivo. Como seu senhor era alguém cuja expressão quase não mudava mesmo passando o dia inteiro junto, aquela pequena diferença chamou bastante atenção. Anton esperou silenciosamente pela explicação.
— Ainda assim, não posso prendê-lo numa cela.
— Não entendo o que quer dizer…
— Chamei você porque queria saber a opinião de um comandante da ordem. Se o Lorde Malocen tiver talento, você estaria disposto a aceitá-lo como membro?
— Se Vossa Alteza ordenar, obedecerei.
Mesmo que não pudesse entender a ordem, Anton pretendia se submeter a ela. Desde que ele assumira o trono pela primeira vez, sempre houve mais coisas incompreensíveis do que compreensíveis.
Não importa se ele mesmo concorda ou não com o que o monarca decide. O fato de que Gizel Zibedad era um líder digno de destaque, mesmo entre todos os monarcas de Oldenland ao longo da história, já era evidente.
Gizel assentiu com a cabeça. Baixou levemente o olhar em silêncio, como se ponderasse algo, e então murmurou, como o monólogo de alguém que se lembrara tardiamente de algo que tinha esquecido:
— É verdade. Preciso ouvir a opinião dele mesmo também.
— Os dois já não conversaram sobre isso antes de me chamar?
— Logo mandarei um recado. Pode se retirar por enquanto.
— Entendido.
Internamente intrigado, Anton não acrescentou mais nada e saiu do gabinete do Grão-Duque. Ao fechar a porta, deu uma olhada rápida para dentro; o Grão-Duque estava olhando para o espelho.
Caminhando de volta para a ordem dos cavaleiros, quando a distância do gabinete aumentou, ele soltou um suspiro cético. O Grão-Duque era, sem dúvida, um líder excelente, mas havia uma coisa: por mais erudito que fosse, ele não era um especialista em equitação ou artes marciais.
Havia muita gente que só ficava se gabando de andar bem a cavalo e usar bem a espada, gente suficiente para encher carroças sem parar o dia todo. Ele se encontrara brevemente com Rensley Malocen para discutir o plano do falso casamento e da vida como Grã-Duquesa, mas não sentira nada que indicasse potencial de guerreiro.
Não havia sinal algum de seriedade nele, e o corpo também era esguio se comparado aos homens do norte. Será que ele conseguiria sequer sustentar direito a lança pesada de Oldenland, famosa por ser feita para enfrentar monstros? Mesmo que fosse aceito como aprendiz, levaria bastante tempo e esforço até que ele conseguisse cumprir sua parte de trabalho.
Se fosse uma ordem, ele obedeceria, mas Anton Sorel precisou, depois de muito tempo, digerir um pequeno ressentimento em relação ao julgamento de seu senhor.
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↫─✧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna