. ₊ ⊹ Capítulo 03.1
. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 3 – Nova Vida
Pt. 01
No centro do dispositivo mecânico, encaixada perfeitamente numa cavidade arredondada, havia uma pedra mágica lapidada em formato esférico, do tamanho do punho de um adulto. Quando um dos magos fez a mana fluir para dentro, o que parecia apenas um pedaço de pedra comum começou a brilhar.
Piii, pi, piiiii… Ouviu-se um ruído parecido com o som de um flautista inábil tocando. Um brilho de interesse surgiu nos olhares das pessoas que observavam o progresso. Alguns soltaram um baixo suspiro de admiração. Logo depois, vozes de pessoas começaram a se misturar intermitentemente ao ruído. Era difícil identificar o que diziam, mas eram, sem dúvida, vozes humanas.
— É um sucesso!
Alguém entre os que observavam o dispositivo gritou isso, e a agitação aumentou. Mas o som durou apenas um instante; a voz que saía do receptor conectado ao dispositivo logo se cortou. A luz que envolvia a pedra mágica também se apagou.
Em meio às pessoas agitadas, Gizel Zibedad, o Grão-Duque de Oldenland, que observava a cena em silêncio, franziu levemente o cenho.
— Mais um fracasso.
— Ainda assim, a voz está sendo transmitida em certo grau. Se aperfeiçoarmos um pouco mais a instabilidade que surge na conversão da mana, logo teremos sucesso.
Diante da fala de Larkov, Gizel abriu, sem dizer nada, um livro grosso ao lado. O livro, que já havia sido lido diversas vezes, estava repleto de anotações e sublinhados.
Como dizia o mago real, a longa pesquisa vinha mostrando resultados lentos, mas constantes. Nem sempre saía o resultado esperado, mas, no ponto em que não havia retrocesso, o investimento estava sendo recompensado o suficiente. Recentemente, os magos reais estavam absortos na pesquisa de construir uma magia de comunicação que reduzisse a defasagem de tempo entre Laudken e a mina de Tirgabeim. A mina era, sem exagero, o maior tesouro de recursos de Oldenland, mas, por estar longe do centro urbano e localizada nas montanhas, era difícil receber notícias imediatamente e responder quando ocorria algum acidente ou uma invasão súbita de monstros.
Os sucessivos monarcas de Oldenland sempre se preocuparam com o fato de só poderem lidar com as consequências depois que algo acontecia numa mina tão importante. Mas se essa pesquisa tivesse sucesso, seria possível observar a situação da mina de Tirgabeim mesmo estando no meio do castelo de Laudken. Seria um avanço incomparável na administração e no controle da mina.
— Vossa Alteza, o Grão-Duque, é hora do jantar.
Enquanto os magos discutiam calorosamente os resultados avançados do experimento, a porta do laboratório subterrâneo se abriu e a governanta Samlit entrou, junto com alguns criados. Como sempre, a comida foi servida na mesa com rodas, mas ele nem olhou para a mesa e disse calmamente:
— Deixem aí. Comerei devagar.
Mas Samlit não se retirou imediatamente, como de costume.
Gizel, que estava perdido em pensamentos, só depois de um momento percebeu que ela tinha algo mais a dizer e virou a cabeça.
— O que foi?
— Vossa Alteza, já se passaram mais de dez dias desde o casamento.
Ela falou baixando a voz, quase sussurrando.
Gizel rememorou distraidamente as datas. O tempo já tinha passado tanto assim? Sem nada de especial acontecendo, ele vivia indo e voltando apenas entre o laboratório e o quarto depois que os assuntos oficiais terminavam, e vivia sem nem perceber o tempo passar. Ultimamente, concentrado na pesquisa de magia de teletransporte, isso era ainda mais verdadeiro.
Mas, exceto pela diferença de estar mais ou menos ocupado, essa era a rotina comum que se repetia desde que Gizel Zibedad assumira o trono como monarca. Sem entender por que ela trouxera de repente o assunto do casamento, ele perguntou, virando a página do livro sem mudar de expressão:
— O que tem isso?
— Sei que Vossa Alteza está muito ocupado com os assuntos oficiais, mas seria bom se, ao menos uma vez, visitasse o quarto da Grã-Duquesa.
Larkov, que estava comendo linguiça e queijo entre fatias de pão, também se aproximou, como se tivesse se lembrado de algo. Ele também abaixou bastante a voz, para que os outros não ouvissem.
— Pensando bem, é verdade. Depois do casamento, o senhor continua fazendo pesquisas aqui todos os dias. Como está muito ocupado, ainda nem discutimos o que fazer com o futuro dela, mas pelo menos deveria ir visitá-la de vez em quando.
Gizel piscou devagar, olhando para os dois.
— Isso significa que falta algo no tratamento dado a ela? A governanta cuida pessoalmente do serviço, então não deve faltar nada, e o quarto da Grã-Duquesa não deve ser desconfortável para se viver.
— Não é nesse o sentido…
Samlit hesitou, parecendo constrangida, mas então enfatizou com firmeza:
— Ela vive presa no quarto como uma prisioneira, encontrando apenas a mim e alguns poucos criados o tempo todo.
— …Deve ser mesmo entediante. Se for para evitar contato com as pessoas, ficar apenas no quarto é o melhor, mas, se necessário, não há problema em fazer um passeio pelo castelo principal, devidamente vestida.
— Mesmo assim, o fato de que ela só pode cobrir o rosto e conversar apenas comigo não muda. E o cavalheiro mago aqui presente ou o comandante da ordem dos cavaleiros também não podem simplesmente entrar e sair do quarto da Grã-Duquesa.
Gizel encarou a senhora sem responder. Ela suspirou, parecendo frustrada, e olhou para o livro sobre os joelhos dele, dizendo:
— Vossa Alteza, nem todas as pessoas se contentam apenas estudando e lendo livros.
Ele já sabia disso. O outro Zibedad, que estava servindo na fortaleza mais ao norte, fora dos limites de Laudken, para defender a muralha, já dissera algo parecido uma vez.
Gizel olhou por um momento para os próprios joelhos e fechou o livro. Colocou sobre a mesa o livro grosso, de couro marrom-escuro com letras douradas gravadas, e se levantou. Não importava o motivo, não era difícil reservar um tempo para atender ao hóspede que ele mesmo decidira receber.
— Entendi. Então vou fazer a refeição no quarto da Grã-Duquesa. Levem para lá.
— Obrigada, Vossa Alteza.
Deixando para trás a governanta com o rosto iluminado, Gizel saiu do laboratório e subiu a escada em espiral. Os criados o seguiram.
Entre o quarto do Grão-Duque, o gabinete e o porão, havia dispositivos de transporte construídos para ir e vir entre eles, mas, como era natural, o quarto da Grã-Duquesa, onde até pouco tempo atrás ele nunca tivera motivo para ir, não tinha dispositivo algum instalado, então ele teria que ir a pé.
Ao sair do porão e subir para o primeiro andar, foi só então que ele notou o clima lá fora. Havia entrado no laboratório logo pela manhã, e enquanto isso o sol já havia se posto, deixando tudo escuro. Ele parou e murmurou, olhando pela janela:
— Está chovendo.
— Sim. Começou a chover há pouco.
Assim que o criado terminou de falar, um trovão distante se seguiu.
Oldenland é um país onde neva com mais frequência do que chove, mas às vezes chove também. Nessas ocasiões, os raios sempre acompanhavam. O céu já começava a ribombar, então logo iluminaria a noite, lançando relâmpagos cintilantes sobre a floresta negra e as montanhas nevadas.
Ao chegar diante do quarto da Grã-Duquesa, Gizel mais uma vez afastou as pessoas.
— Não se aproximem até que eu chame. Quando a refeição estiver pronta, batam na porta de fora.
— Entendido.
Rangendo, a porta pesada se abriu. Gizel entrou silenciosamente no quarto.
O quarto da Grã-Duquesa não estava muito diferente de quando recebera seu primeiro dono. A lenha queimava na lareira, e as velas iluminavam o quarto com uma luminosidade adequada. As cortinas penduradas nas colunas da cama estavam fechadas com cuidado, sem deixar nem uma brecha para o vento, e tudo estava silencioso ao redor.
…Rensley Maelocen parecia estar dormindo. Ainda era cedo demais para ir dormir, mas, para alguém que não tinha nada em especial para fazer, não seria estranho que estivesse tirando uma soneca prolongada à tarde ou já indo dormir cedo à noite.
Gizel ficou parado no mesmo lugar, hesitante. Achara que a fala da senhora Samlit fazia sentido e viera visitá-lo depois de tanto tempo, mas, se ele estivesse dormindo, não queria acordá-lo à toa. Pensando bem, ele havia se tornado um visitante inconveniente que aparecera sem sequer avisar antes.
Mesmo tendo realizado um casamento de fachada, a relação com Rensley Malocen não passava, no fim das contas, de senhor do castelo e hóspede hospedado nele.
“Aparecer assim de repente é uma falta de educação.”
Gizel se virou silenciosamente em direção à porta. Pensando que da próxima vez seria melhor avisar antes de visitar, ele colocou a mão na maçaneta.
— Argh, começou a chover de repente e virou um caos.
Naquele momento, o ar do quarto, que estava mais do que quieto, quase totalmente estático, de repente se agitou com um estrondo. Uma voz alegre, soltando reclamações, avançou como gotas de chuva. Gizel, que estava prestes a sair do quarto de novo, virou-se reflexivamente. A janela, que parecia estar fechada com cuidado, se escancarou, e alguém começou a rastejar para dentro por ela. O invasor, que se esforçava para espremer o corpo pela janela estreita, caiu com estrondo no chão.
Mesmo tendo batido o corpo no assoalho duro, parecia não se importar; ele sacudiu o pó dos joelhos e se levantou. O quarto estava relativamente escuro, sem muitas velas acesas, mas o cabelo loiro molhado, refletindo a luz da lareira, brilhava mesmo à distância.
— Que frio, que frio. Achei que só nevava aqui, mas parece que chove também. Que pena. Se não tivesse tropeçado, hoje eu teria vencido a partida…
O monólogo de reclamações parou de repente. Os braços e pernas, que se moviam agitadamente, ficaram rígidos como se tivessem sido atingidos por uma magia de paralisia. Era como um cervo que tinha acabado de encontrar um caçador. Ao cruzar o olhar com aqueles olhos roxos, Gizel observou o intruso recém-entrado, sem dizer uma palavra.
Não havia véu cobrindo o rosto nem vestido de Grã-Duquesa. Assim como no primeiro encontro no porão, Rensley Malocen, vestido com roupas de homem comum, adequadas a um plebeu, estava parado, congelado como uma estátua, com água pingando das pontas das roupas e do cabelo.
Enquanto ninguém abria a boca e os dois ficavam frente a frente, encarando-se de longe, alguém bateu na porta lá fora.
— Vossa Alteza, a refeição está pronta.
— Deixe aí.
Gizel respondeu curtamente à fala da criada e, com atraso, começou a andar. Enquanto ele se aproximava, Rensley permanecia imóvel, grudado no lugar.
Só quando ele se aproximou completamente é que os ombros de Rensley se contraíram um pouco, mas ainda assim não recuou nem fugiu. Ao ver que ele estava se inclinando para curvar o corpo enquanto inspirava, Gizel falou rapidamente:
— Não se prostre.
Rensley, que estava prestes a se deitar de bruços novamente para implorar por sua vida, parou de repente. O corpo, que estava curvado de forma desajeitada, se endireitou lentamente de novo, e a cabeça, que estava bem abaixada, se ergueu.
Seus olhos, que rodavam apressadamente para a esquerda e para a direita como se não soubesse onde pousar o olhar, acabaram se voltando para o chão. Os lábios, tremendo, começaram a se mover apressadamente.
— Des… Desculpe. Como fico sempre sozinho no quarto, era muito chato… entediante…, não, era solidão…
— …
— Hoje foi a primeira vez! Isso nunca acontece com frequência.
— Não foi você que disse há pouco que “hoje” era a partida que você estava vencendo?
A cabeça de Rensley foi se abaixando aos poucos. Conforme o ângulo de sua cabeça descia, a voz também ia enfraquecendo.
— …Na verdade, é a segunda vez. Por favor, acredite em mim. Além disso, juro pela minha honra, não é mais que isso.
— Foi apostar jogos de azar lá fora?
— Jo… jogos de azar?! Foi só uma brincadeira. Não é algo em que se aposta dinheiro…
Atchim. Rensley parou de falar e espirrou levemente. As roupas e o cabelo completamente encharcados chamaram atenção de novo.
Gizel puxou uma toalha de banho grande e grossa que estava pendurada perto da banheira vazia. Ao colocá-la sobre o cabelo loiro molhado e enxugar a água, Rensley ficou apenas piscando os olhos, sem dizer nada.
— Vá perto da lareira. Primeiro, troque de roupa.
— Si-sim…
Rensley assentiu com a cabeça e se colocou diante da lareira. O roupão de estar em casa, que provavelmente ele havia tirado ao sair, estava pendurado no encosto da poltrona.
Diante do olhar fixo que o observava como quem vigiava, ele desabotoou desajeitadamente os botões, hesitando e errando a mão como uma criança que estivesse tirando a própria roupa pela primeira vez na vida.
Ao abrir a parte da frente do casaco grosso, acolchoado com algodão, apareceu por baixo a túnica que, molhada pela chuva, tinha grudado no corpo. A pele transparecia levemente através do tecido branco e fino.
Gizel franziu de leve o cenho. Rensley Malocen ainda parecia não conhecer bem o clima daqui. Um casaco e uma camisa fina, e mais nada? Será que ele tinha saído com esse tipo de roupa numa tarde chuvosa como esta?
Enquanto Gizel o observava, atônito, Rensley, sem jeito, fechou de novo o casaco.
— Ta-talvez seja melhor não tirar?
Era uma fala sem sentido. Em vez de responder, Gizel devolveu a pergunta:
— Como pretende trocar de roupa sem tirar a que já está usando?
— Vossa Alteza, pode olhar para outro lado. Afinal, para os olhos de um homem, o corpo nu de outro homem não deve ser algo tão agradável de ver…
— Todo corpo humano é igual. Não existe corpo que valha a pena ver e corpo que não vale.
Rensley não conseguia apagar a expressão constrangida do rosto, mas por fim se virou de lado e começou a terminar de tirar a roupa. Ao tirar a camisa, apareceram as costas molhadas e lisas; ao puxar para baixo até as calças, surgiram as pernas retas e o traseiro empinado. Embora fosse um pouco magro, dava para perceber de imediato que era um corpo bem treinado. Sombras claras e escuras se espalhavam suavemente pela pele, tingida pela luz alaranjada.
Ele secou o corpo de qualquer jeito e vestiu o roupão folgado. Quando terminou de trocar de roupa e se virou, Rensley tinha uma expressão que parecia perguntar “agora está bem, não é?”
Gizel, enquanto se movia, deu um conselho:
— Fique mais um pouco perto do fogo.
Rensley assentiu com a cabeça e se aproximou ainda mais da lareira. Enquanto isso, Gizel abriu a porta e trouxe para dentro a mesa que as criadas haviam deixado do lado de fora.
Sobre a mesa, havia uma comida mais variada e luxuosa do que o normal. Para Gizel, que não tinha interesse em comer, não era uma visão particularmente agradável, mas era compreensível. Rensley era alguém que apreciava as refeições, então talvez as criadas tivessem se esforçado especialmente.
Ao empurrar a mesa para perto da lareira, o homem que estava se aquecendo virou a cabeça. Um olhar cheio de curiosidade, sem entender por que motivo Gizel estava ali, encarou-o de baixo para cima.
— Recebi a sugestão de que, às vezes, seria bom visitar o quarto de um hóspede, e achei que fazia sentido, então subi.
— Que consideração tão generosa! Vossa Alteza, muito obrigado mesmo.
— Parece que, de qualquer forma, essa acabou se tornando uma visita incômoda para o Lorde Malocen.
— Não, não, Vossa Alteza.
Rensley balançou a cabeça e voltou a se curvar profundamente.
— Não sei nem como pedir desculpas. Recebi uma graça e uma bondade tão altas quanto o céu e tão profundas quanto o mar, concedidas a este miserável por compaixão, e por minha falta de discernimento acabei sendo tão leviano e imprudente assim…
— Chega disso, coma primeiro.
Gizel se sentou na cadeira e empurrou a mesa. Apoiando o cotovelo no braço da cadeira, ele sustentou o queixo com o dorso da mão.
— A saída em si não é o problema. Só que, da última vez também, você acabou saindo e entrando pela janela e foi visto por outra pessoa. Se isso acontecer de novo, será um problema.
— Ah, eu sei disso. Por isso, desta vez, tomei bastante cuidado para que ninguém pudesse se aproximar do quintal dos fundos, de onde se vê a janela. Fiz uma cerca que pode ser aberta e fechada com a madeira que sobrou e empilhei feixes de palha, especialmente para que crianças não entrassem por engano…
Gizel ficou em dúvida se de fato as saídas se limitavam a apenas duas vezes, mas desistiu de perguntar. O que já tinha sido feito não podia ser desfeito, e, se ninguém tinha percebido, bastava tomar cuidado dali para frente.
Quando Rensley fechou a boca, não houve mais conversa entre os dois. A refeição começou em silêncio. O som do ponteiro do relógio e o crepitar da lenha na lareira pareciam soar particularmente altos naquele dia.
Rensley engoliu pão, queijo, um pouco de linguiça e chá, um após o outro. Gizel achara que as criadas tinham preparado tanta comida porque ele gostava de comer, mas mesmo Rensley beliscava pouco e não conseguia comer muito. Gizel, que também provava um pouco de cada prato, logo parou de comer e se levantou.
— Então descanse. Da próxima vez que eu vier, avisarei com antecedência.
— Já, já vai embora?
Rensley se levantou de repente. Gizel assentiu com a cabeça enquanto ajeitava a capa.
— Parece que descansar sozinho seria mais confortável, então faça isso. Só peço uma coisa. Da próxima vez, avise a governanta antes de sair, e gostaria que você se comportasse como a Grã-Duquesa.
— Espere, Vossa Alteza. A senhora Samlit não sabe de nada. Fiz isso escondido, então, por favor, não a responsabilize por meu erro. Eu imploro.
Desde o início, ele nunca tivera intenção de responsabilizá-la. Se ela soubesse com antecedência sobre a saída secreta do quarto, jamais teria sugerido a ele visitar a Grã-Duquesa. Se fosse para apontar culpados, o maior erro estava, na verdade, no próprio Gizel Zibedad, que não designara uma criada pessoal e confiara todo o serviço apenas à governanta.
Ele havia dado essa instrução pensando que, para alguém que ficaria no quarto o dia todo, ter uma criada pessoal poderia ser inconveniente, mas, vendo o que aconteceu hoje, parecia que precisava mudar de ideia. Alguém que fizesse companhia a Rensley Malocen e, ao mesmo tempo, pudesse restringir suas ações.
Enquanto considerava por um momento como agir dali em diante, o semblante de Rensley foi escurecendo a cada segundo, talvez por não saber como interpretar o silêncio dele. Percebendo o sinal silencioso de que Rensley ia se preparar para se prostrar de novo, Gizel falou rapidamente:
— Não se prostre.
Diante disso, Rensley voltou o rosto para ele com uma expressão de quem não sabia o que fazer. Não é preciso isso. Gizel estava prestes a dizer que não pretendia repreender a senhora Samlit, mesmo sem ele se ajoelhar para pedir desculpas, quando o céu ribombou forte e um estrondo, capaz de sacudir o mundo, atingiu o espaço entre os dois.
Gizel olhou para a janela fechada e caminhou até lá, abrindo a portinhola de madeira. Bem naquele instante, um relâmpago brilhou. Num instante rápido como o piscar de um olho, uma luz prateada, que cobriu tudo ao redor, tingiu palidamente até o interior do quarto.
Depois de um intervalo abafado, o som do céu se rachando ecoou mais uma vez. Era um som tão grande que dava a ilusão de que até a fortaleza de aço, firme há centenas de anos, estava balançando.
“Está começando a cair pesado.”
Trovões e relâmpagos sempre acompanhavam a chuva, mas o raio de hoje era maior que o normal. Gizel fechou a janela e ainda puxou as cortinas grossas. Isso não impedia completamente que o som do céu se rachando invadisse o quarto, mas fazia alguma diferença.
— Vai chover a noite toda. Em Oldenland, não chove com frequência, mas, quando começa, geralmente demora bastante e vem acompanhado de raios. Vai ser um pouco barulhento, mas não há o que fazer.
— Sim…
Rensley, parecendo assustado, mantinha o olhar fixo apenas na janela fechada. Gizel ficou de repente curioso.
— Em Cornia, o clima em dias de chuva também é bem diferente?
Ele tinha interesse por diversas áreas do conhecimento, mas a maior parte de seu conhecimento era apenas teórico. O número de vezes que saíra de Oldenland dava para contar nos dedos, então, especialmente em termos geográficos, isso era ainda mais verdadeiro.
A geografia das redondezas, ele aprendera desde criança, indo e vindo, e recentemente também se tornara possível, até certo ponto, observar sem defasagem de tempo através da magia, mas isso se limitava apenas à vizinhança. Ainda nem tinham conseguido ampliar o raio até a mina de Tirgabeim. Lugares distantes, especialmente descrições sobre o clima ou o ambiente de países estrangeiros, para ele não passavam de linhas escritas em livros, nem mais nem menos.
— Ah, sim. É diferente. Em Cornia, mesmo quando chove, a temperatura não cai muito, e também não chove por muito tempo. Quando saí, vi que os moradores de Laudken, assim que começou a chover, todos entraram para dentro de casa ou do trabalho. Em Cornia, os adultos também costumam se abrigar da chuva, mas é comum ver crianças brincando na chuva. Eu também gostava de brincar na chuva quando era criança. Naquela época, achava fascinante ver a água caindo sem parar. Quando se formava uma poça, eu brincava lá dentro também. Claro que às vezes há trovões e relâmpagos também, mas relâmpagos tão grandes assim, não muito…
A explicação, que vinha animada, parou. Foi porque outro estrondo tremendo invadiu o quarto atravessando a parede, com força suficiente para parecer que ia destruir o mundo.
A conversa, uma vez interrompida, não foi retomada. Quando o som do relâmpago diminuiu, Rensley engoliu em seco, como se estivesse com soluço, e soltou um suspiro profundo, como se estivesse segurando a respiração.
Ele não continuou falando, baixando os olhos. Parecia hesitar se queria dizer algo. Mesmo sem ouvir, Gizel conseguia imaginar o que ele estava prestes a dizer. Como já dissera que nunca vira um raio desse tamanho, provavelmente queria dizer que estava assustado por ter visto um raio tão gigantesco.
— Posso lançar uma magia para o senhor.
— O quê?
Diante da fala de Gizel, Rensley ergueu a cabeça de repente.
— Não posso apagar o som em si, mas é possível paralisar temporariamente a audição. Assim, o senhor conseguirá dormir tranquilamente esta noite, pelo menos.
— …
— Se quiser, eu faço isso para o senhor.
Como esperado, parecia ser uma proposta tentadora; ele parecia ter mudado a direção da hesitação. Uma expressão de quem estava pensando qual das duas opções era melhor pairou por um momento em seu rosto, e então Rensley, semicerrando os olhos, perguntou:
— Então não vou ouvir nenhum outro som além do trovão também, certo?
— Isso mesmo. Vai passar amanhã, mas o senhor mergulhará num silêncio completo.
— Isso é meio assustador…
Se é só ficar quieto, o que há de assustador nisso? Mas Gizel não perguntou isso em voz alta e apenas observou o homem à sua frente, como se o examinasse.
Claro que existem riscos numa magia que paraliza os sentidos. No caso da magia de paralisia auditiva que ele acabava de sugerir, havia o risco de que, sem perceber o que acontecia ao redor, a pessoa pudesse cair em perigo. Se houvesse um incêndio ou um ladrão entrasse e a pessoa continuasse dormindo sem perceber, isso poderia se tornar um grande problema.
Mas este era o quarto da Grã-Duquesa, na torre principal do castelo de Laudken. Mesmo que o próprio Rensley Malocen não prestasse atenção ao redor, criados, cavaleiros e guardas o protegeriam de qualquer perigo.
— Não haverá nenhum risco para o senhor só por não ouvir os sons ao redor por uma noite. Se estiver preocupado, posso reforçar a segurança.
— Não. Não é isso… é que, se ficar tão quieto assim, acho que vou me sentir muito sozinho.
— O fato de o Lorde Malocen estar sozinho no quarto não é uma questão de sentimento, é a realidade.
— É verdade. É isso mesmo o que o senhor disse.
Rensley murmurou constrangido e passou a palma da mão pela bochecha algumas vezes. Nesse momento, um relâmpago se intrometeu de novo na conversa entre os dois. Crack! Um som ainda maior do que até então.
Aquele barulho violento parecia ter trazido alguma mudança ao coração de Rensley Malocen, e um olhar de determinação firme surgiu enquanto encarava Gizel. Ele deu alguns passos decididos, aproximando-se, e, erguendo levemente o queixo, como se fizesse uma declaração, mudou de atitude de forma desnecessariamente confiante e falou:
— Vossa Alteza, o Grão-Duque, eu nunca dormi sozinho numa noite de trovoada. Eu não gosto de trovão e relâmpago.
— …Entendo.
Gizel inclinou levemente a cabeça, como se estivesse ponderando.
— Que problemático. Não é frequente, mas os relâmpagos de Oldenland são sempre assim.
— Se me permitir, gostaria de passar esta única noite fora do castelo, como Rensley Malocen.
— Fora, onde exatamente?
— Tenho amigos que fiz aqui em Laudken. Se eu pedir, eles vão me deixar dormir lá por uma noite.
Gizel o encarou calmamente. Voltou a se perguntar se as saídas secretas de Rensley Malocen, juradas pela honra, realmente se limitavam a apenas duas vezes, mas deixou isso de lado e continuou a conversa.
— Não sei por quanto tempo mais o senhor ainda vai ficar aqui, mas, de qualquer forma, por enquanto não há prazo definido. Pretende dormir fora toda vez que chover? Isso não é uma solução.
— Hoje é assim, mas vou me esforçar para me adaptar ao clima daqui.
— Se em Cornia também o senhor nunca conseguiu dormir sozinho à noite até agora, parece que não vai ser fácil…
O jovem senhor de Laudken mergulhou por um breve momento em reflexão. O trabalho da governanta Samlit era cuidar da vida cotidiana de Rensley Malocen; ela não podia receber a ordem de passar a noite sozinha num quarto com um jovem homem.
Larkov era um mago que se dedicava aos estudos a qualquer hora do dia ou da noite, conforme sua própria vontade. Trovões e relâmpagos eram uma fonte natural que muitos magos estudavam, então, num dia como hoje, ele provavelmente queria se dedicar à pesquisa a noite toda; Gizel não queria tomar seu tempo à toa por causa disso.
O comandante da ordem, Anton, tinha uma família para cuidar. Ordenar que alguém assim voltasse à torre principal numa noite chuvosa, não para vigilância, mas para atender um hóspede, não era algo que um monarca devesse fazer.
Como o número de pessoas que sabiam da verdadeira identidade da Grã-Duquesa era limitado, não foi preciso muito tempo para chegar a uma conclusão.
— Então hoje vamos dormir juntos.
— Sim! Muito obrigad… o quê?
Rensley, que estava se curvando respeitosamente para agradecer, ergueu a cabeça de repente. Gizel tirou a capa e a pendurou.
— Se for preciso alguém para dormir junto, posso assumir essa tarefa.
— O quê? Ma-mas… por que Vossa Alteza teria que… se incomodar com isso…
— Onde quer que se durma, dormir é dormir, não há motivo para incômodo. Considerar sair para fora com frequência por esse motivo parece dar muito mais trabalho.
Originalmente, ele pretendia passar mais tempo no laboratório depois da refeição, mas a agenda de um senhor de castelo às vezes é interrompida por coisas imprevistas. Ele não era do tipo que aceitava esse tipo de situação de bom grado, nem mentindo, mas não havia o que fazer.
O ponteiro do relógio marcava que já passava das oito da noite. Os plebeus, que economizavam óleo para as lamparinas, talvez já estivessem se preparando para dormir, mas para Gizel, que gostava de ler, ainda era um horário bem cedo.
Ele considerou por um momento pedir a um criado que trouxesse um livro até ali, mas desistiu. Seria possível desfrutar de uma leitura tranquila e sozinha ao lado de alguém que dissera precisar de companhia para dormir por não gostar de trovões e relâmpagos? Parecia que não havia mais nada a fazer além de dormir cedo.
— Se não houver nenhum assunto especial, vamos nos preparar para dormir. Quando acordarmos, a chuva provavelmente já terá parado.
— Ah… entendi.
Rensley assentiu com a cabeça e se aproximou da lareira. Ao afastar o pano preto que cobria um objeto abaulado ao lado da lareira, apareceu um balde cheio de carvão. Ele pegou algumas brasas com uma pinça, transferiu-as para outro recipiente de metal com cabo, e o levou para perto do fogo da lareira.
Gizel, que estava prestes a chamar uma criada para preparar tudo para dormir, observou em silêncio Rensley se movimentando com agilidade e, com atraso, perguntou:
— O que está fazendo?
— Estou acendendo o carvão. Vou colocar no aquecedor de cama. Aquele objeto simpático que mantém a cama quente durante a noite toda.
O cenho de Gizel se franziu levemente.
Ele nunca imaginara que suas criadas fossem pessoas negligentes que abandonavam suas obrigações, mas nunca soubera que estavam sendo tão desleixadas com o hóspede que ele mesmo recebera. As brasas deveriam ser acesas separadamente em outro cômodo e trazidas prontas para o quarto da Grã-Duquesa.
— …Por acaso, até agora, tem sido você mesmo quem aquece a cama todas as vezes?
— Ah, a senhora Samlit e os outros tentaram fazer isso, mas achei que seria trabalhoso para eles ficarem indo tarde da noite toda vez. Já que eu nem sou de verdade a Grã-Duquesa, não preciso incomodar tanta gente. E, se por acaso outras criadas além da senhora entrassem e saíssem, eu teria que ficar usando o véu toda vez, o que também é chato… Não é uma tarefa tão difícil, então isso eu consigo fazer sozinho sem problemas. Acender carvão é meio divertido, na verdade.
A expressão de Rensley, que respondia sorrindo, ficou de repente rígida, como se tivesse percebido algo tarde demais.
— Fui eu que insisti em fazer. Elas, é claro, tentaram me impedir, mas fiquei sem jeito… Eu gostaria que o senhor não repreendesse as criadas por causa disso.
Enquanto os dois conversavam por um momento, o carvão pegou fogo, ficando vermelho, e Rensley, olhando de relance para Gizel, retirou-o de volta com a pinça. Enquanto o carvão esfriava para poder ser usado no aquecimento da cama, nem ele nem Rensley disseram mais nada.
Rensley colocou o aquecedor de cobre dentro das cobertas, como as criadas costumavam fazer, e o passou pela cama como se estivesse passando ferro. Se estivesse sozinho, teria apenas aquecido de qualquer jeito o espaço onde deitaria e guardado tudo, mas hoje se esforçou para o hóspede. Para espalhar o calor uniformemente por toda a cama grande, ele foi mudando de posição, indo e vindo apressadamente pelos quatro cantos da cama.
— Pronto, Vossa Alteza. Agora pode se deitar quando quiser.
Rensley retirou o aquecedor de dentro das cobertas e apontou para a cama com uma expressão orgulhosa. Gizel parou de observá-lo e se aproximou. Havia várias coisas que queria perguntar, mas não era algo que precisasse confirmar diretamente com ele, então manteve o silêncio.
Aquele que se dizia filho bastardo do rei de Cornia, olhando apenas para suas ações, não era diferente de plebeus que se acautelavam diante de nobres. De qualquer forma, se ele realmente fosse membro da família real, mesmo sem receber o mesmo tratamento que os filhos legítimos, deveria ter tido pelo menos uma criada pessoal na vida; sua atitude de se sentir incomodado com os cuidados também causava certa estranheza.
“Será que até a parte de ser filho bastardo era mentira?”
Gizel só agora tinha essa nova dúvida. Percebeu que, no momento em que Rensley Malocen revelara sua própria identidade por trás do véu, e diante das histórias que ele contara, seu julgamento objetivo havia ficado temporariamente turvo, pois achara aquilo bastante interessante.
Pensando bem, era estranho não ter desconfiado desde o início. Se o cargo tinha sido criado apenas porque não queriam enviar de fato uma princesa a um país distante e inóspito, por que precisariam usar um membro da família real de qualquer forma? Mesmo sabendo que fora enganado, uma vez realizado o casamento, não importava mais qual era a verdadeira identidade dele, mas uma curiosidade pura sobre a verdade e a mentira começou a surgir dentro de Gizel.
Kururung, nesse momento o céu ribombou como se estivesse se preparando para rugir. Rensley, que estava guardando o recipiente de brasas e lavando as mãos e o rosto, se assustou e se aproximou de Gizel.
— Parece que vai trovejar de novo.
Foi exatamente como ele previra. Antes mesmo que terminasse de falar, seguiu-se o som de uma grande barra de luz batendo com estrondo no chão. Ao se aproximarem, Gizel sentiu a respiração contida de Rensley. Os olhos, olhando para a janela fechada, e os longos cílios que tremiam sutilmente por cima deles, também entraram no campo de visão dele.
Quando o som que ecoara com força se afastou, Gizel falou calmamente:
— Trovão e relâmpago são apenas fenômenos naturais. Nem a luz nem o som têm nenhuma malícia, e, enquanto estivermos dentro do castelo, não há possibilidade de sofrer nenhum acidente.
— Eu sei disso também. É só que o trovão é muito alto… Não é que eu tenha medo, é que é a primeira vez que vejo um trovão e um relâmpago tão grandes assim, por isso fico surpreso.
Rensley, que estava olhando fixamente apenas para a janela, deu uma olhada de relance para Gizel. Sentindo-se estranho de ficar parado sem fazer nada, ele mesmo tomou a iniciativa:
— Que tal irmos dormir agora?
— Vamos fazer isso. Deite-se primeiro na cama.
Assim que Gizel terminou de falar, Rensley se aproximou da cama e jogou o corpo dentro dela. A cama, cuidadosamente aquecida, estava macia e quentinha como um pão recém-saído do forno. Como se estivesse vestindo uma armadura capaz de bloquear qualquer ataque, a tensão se dissolvia, e surgia coragem para enfrentar a noite contra os trovões.
O calor envolvendo o corpo, o travesseiro fofo, o pelo macio e o cobertor puxados até o queixo. Só de estar cercado por objetos quentes e aconchegantes, sem nenhuma capacidade de defesa, por que será que dava a sensação de estar sendo protegido pela coisa mais poderosa do mundo? Ele sabia que era uma ilusão ridícula, mas que importância tinha isso? Rensley se consolava com aquela doce ilusão.
Quando o céu começou a se preparar para ribombar de novo, Gizel, já preparado para dormir, também entrou na cama. Rensley, assustado, se deslocou um pouco para o lado, deitando-se.
A cama da Grã-Duquesa era larga o suficiente para que dois homens adultos deitassem à vontade, e, mesmo deitados lado a lado, não se tocariam nem a ponta dos dedos. Gizel, sem se deitar completamente, se apoiou com o corpo levemente erguido e perguntou:
— Vamos fechar as cortinas da cama também?
— Não precisa. Hoje acho que é melhor ter um pouco de luz. Ah, o senhor não consegue dormir se não estiver escuro?
— Não. Eu durmo até na frente da lareira.
Ao ouvir isso, Rensley acabou rindo sem perceber. Foi porque se lembrou da imagem dele que vira quando descera ao porão.
O Grão-Duque Gizel, afundado na poltrona diante da lareira, lendo documentos. Se em vez de papéis com textos difíceis, houvesse um gato ou um cachorro em seu colo, teria sido uma cena extremamente pacífica.
— Por que está rindo?
— Ah…
Rensley disfarçou rapidamente.
— Estou feliz porque Vossa Alteza vai dormir junto comigo.
Mesmo tendo dito que não era necessário fechar as cortinas, Gizel não se deitou e continuou com o corpo erguido, olhando para ele de cima. Rensley também olhou de volta para ele. Vistos num lugar de luz fraca, os olhos âmbar dele pareciam ter uma cor ainda mais profunda. Pareciam até a cor suave e rica do chá preto.
Tendo tirado a capa e as vestes formais e deitado na cama, Gizel Zibedad, com a atmosfera solene de monarca amenizada, estava mais fácil de encarar do que pouco antes. Assim como o ato de se envolver num cobertor que na verdade não conseguia protegê-lo de nada, mas afastar o medo dentro do coração, Rensley aceitou sem se precaver a ilusão criada pela combinação da situação peculiar, da luz das velas e das sombras das cortinas.
— Então.
Gizel, que não tinha dado nenhuma outra resposta, abriu a boca lentamente.
— Vamos dormir juntos amanhã também?
— O quê?
Diante da proposta inesperada, Rensley arregalou os olhos. Quem tinha feito a pergunta parecia não ter pensado muito nisso, e continuou a falar com indiferença.
— Dormir sozinho se tornou um hábito por muito tempo, então não percebi… mas, se o senhor preferir dormir acompanhado, não há problema em fazer assim.
— Não, Vossa Alteza. Não quero causar incômodo por muito tempo. Hoje foi por causa do trovão, mas eu também sempre vivi sozinho normalmente. Apesar da aparência, já sonhei em ser cavaleiro uma vez.
Rensley balançou a cabeça, assustado. Por mais que o ambiente estivesse mais confortável do que o normal, como seria possível fechar os olhos tranquilamente compartilhando a cama todas as noites com este monarca grande e taciturno? Talvez ele acabasse desenvolvendo aquela insônia de que só ouvira falar.
— Cavaleiro?
Gizel chegou a apoiar o braço, sustentando a lateral da cabeça com a mão, e se inclinou de lado ao deitar. Achou que tinha soltado uma fala desnecessária, mas já era tarde demais. Rensley riu para disfarçar.
— É uma história de quando eu era criança. Existem muitos nobres dispostos a nomear cavaleiro um filho bastardo sem educação adequada? Depois que descobri que havia muitos cavaleiros corruptos também, perdi o interesse.
— Em Cornia, o tratamento entre filhos legítimos e bastardos é muito diferente?
— Bem… isso o senhor pode perceber olhando para mim, não é? Não é assim em todo lugar?
O olhar que recebeu de volta não parecia muito convencido.
“Por que ele está perguntando isso de repente?”
Só então Rensley ficou um pouco tenso. Gizel também deve ter percebido isso, pois, sem se esforçar para esconder, trouxe à tona o que estava pensando:
— O senhor não parece muito acostumado a receber serviço de outras pessoas, para alguém da família real.
— Ah, isso é… porque, na verdade, quase nunca recebi. Fui reconhecido como sangue do rei e passei a viver dentro do castelo real, mas só recebi um quarto; na prática, era tratado como criado. Como o rei tinha poucas filhas, deu a Yvette o sobrenome Elbanes e a reconheceu como princesa, mas a mim nem me permitiram usar um sobrenome.
Rensley deu de ombros, deitado.
— Para falar a verdade, todos os membros da família real de Cornia são desagradáveis. As crianças que a atual rainha teve ainda são fofas, mas… Talvez seja porque cresci entre criados, mas felizmente não me tornei uma pessoa tão detestável assim. Quem me maltratou e discriminou foram os membros da realeza e os nobres, não os criados e plebeus. O atual príncipe herdeiro é especialmente um lixo; se eu contasse todas as atrocidades que aquele sujeito cometeu, a noite toda não seria suficiente. Por que colocaram alguém assim no trono de príncipe herdeiro… Só sinto pena do povo de Cornia. No futuro, ele com certeza vai se tornar um tirano que ficará na história.
Rensley, que ia falando cada vez mais rápido, de repente fechou a boca e baixou os olhos.
— Falei coisas desnecessárias demais. Me desculpe.
— Não há problema. Se o príncipe herdeiro de Cornia for assim, não é uma figura totalmente alheia a Oldenland também no futuro. O nome dele era Félix, não era?
— Sim. Em Oldenland, a discriminação entre filhos legítimos e bastardos não é tão forte?
— Devido ao ambiente inóspito, dizem que antigamente as crianças costumavam morrer com facilidade. Por isso, não havia margem para diferenciar legítimos e bastardos. O adultério é julgado, mas não se discrimina pela origem.
— Entendo…
Kwang, nesse momento outro estrondo ressoou de novo. Rensley, que tinha esquecido completamente do clima lá fora, graças ao silêncio que durara um tempo e à conversa com Gizel, se assustou e soltou um breve grito, puxando as cobertas para cima com força.
Depois disso, as orelhas dele ficaram quentes. Um homem que já passara da maioridade, que acabara de admitir que quisera ser cavaleiro, ter medo de um mero “fenômeno natural” também não era algo de que se pudesse orgulhar.
Rensley, já sem conseguir esconder que tinha ficado com medo, puxou lentamente para baixo o cobertor que cobria até o topo da cabeça e começou, aos poucos, a se justificar diante do companheiro de cama que continuava a observá-lo de cima sem nenhuma mudança de expressão.
— Eu também, não é que eu tenha odiado trovões desde o início… mas o que mencionei há pouco, aquele desgraçado do príncipe, uma vez me deixou amarrado a noite toda numa árvore do jardim do pátio interno do castelo, num dia de trovão, como se fosse um castigo. O raio poderia cair na árvore, ele não é mesmo um louco? E sabe qual é a parte mais terrível ainda? A árvore em que eu estava amarrado foi mesmo atingida por um raio e pegou fogo!
— E o que aconteceu depois?
Até mesmo Gizel perguntou, parecendo um pouco surpreso. Acidentes em que árvores altas eram atingidas por raios, pegando fogo ou caindo, aconteciam de vez em quando mesmo em Oldenland, com suas amplas planícies e muitas árvores.
Na maioria das vezes, apenas a árvore era afetada, mas não eram poucos os casos em que lenhadores ou caçadores que trabalhavam por perto se envolviam e sofriam ferimentos, maiores ou menores. Isso sem falar de alguém amarrado a uma árvore atingida por um raio.
— Felizmente, só a árvore se partiu e eu não me feri nem um pouco.
— …
— Ah, o senhor não está acreditando, não é? Quando conto essa história, muitas pessoas acham que estou exagerando, mas juro pela minha honra que é verdade. Até eu mesmo e as outras pessoas ficamos muito surpresos. Como eu era criança na época, e fiquei tão assustado que passei vários dias e noites tendo pesadelos. Naquela época, realmente achei que ia morrer. Mesmo assim, aquele sujeito só levou uma bronca do professor que ensinava etiqueta e ficou por isso mesmo. Eu estar bem depois de ser atingido por um raio foi só sorte minha, sabe!
Em vez de questionar mais a veracidade da história, Gizel ergueu levemente as sobrancelhas, como se não conseguisse entender.
— Realmente é uma pessoa estranha. Esse tipo de ação não poderia ter sido um castigo com sentido algum.
— Claro que não era castigo! Ele só queria me maltratar mesmo sem eu ter feito nada de errado. Não fui só eu que sofri com isso. Ele também costumava implicar com Yvette sem motivo, à toa.
— Por que maltratar alguém sem motivo?
— É exatamente isso que estou dizendo! Por isso ele não é normal, é um louco.
Só então Gizel balançou a cabeça, como se compreendesse até certo ponto. Ele ergueu o dedo e traçou uma linha simples no ar, e de repente a cortina se abriu com um movimento rápido, e a portinhola de madeira dentro da janela de vidro se escancarou.
Como um palco depois do fim de uma peça, o céu noturno chuvoso, antes cuidadosamente escondido, se revelou diante dos dois. Uma luz branca brilhou ao longe no céu, e o mundo clareou por um instante. A voz animada de Rensley diminuiu rapidamente, perdendo força no tom.
— Vossa Alteza… será que o senhor também quer me maltratar…?
— Se assistirmos juntos, não vai dar medo.
Gizel se aproximou um pouco mais. Rensley, deitado, sentiu o peito dele tocar seu ombro.
Logo em seguida veio o som estrondoso. Desta vez, Rensley não se cobriu com o cobertor, mas apenas estremeceu levemente. O desagrado por trovões e relâmpagos continuava o mesmo, mas agora ele estava um pouco mais atento à ação de significado desconhecido de Gizel. Mas o homem, que tinha se aproximado, parecia não se importar nem um pouco e continuou falando calmamente:
— Veja. Primeiro vem a luz, depois vem o som. Então é melhor prestar atenção no que se vê, para não se assustar com o som.
— …É, é mesmo verdade…
— As pessoas de Oldenland gostam de relâmpagos. Já que o senhor também passará a viver aqui, gostaria que entendesse isso.
Havia muita gente que não tinha medo de trovões e relâmpagos, mas por que gostar deles especificamente? Especialmente um trovão que caía à noite como o de hoje só atrapalhava o sono.
Rensley olhou para fora da janela com uma expressão intrigada. O céu, agora silencioso, estava escuro como piche. Uma voz baixa pousou perto de seu ouvido.
— Dizem que o primeiro rei que fundou Oldenland nasceu de um relâmpago.
— …Uma pessoa nasceu de um relâmpago?
— É uma história de tempos antigos, quando ainda não existiam nem a muralha nem o castelo de Laudken. Naquela época, dizem que os monstros que viviam na floresta negra do norte e no mar invadiam a terra dos humanos com muito mais frequência do que hoje, matando e atormentando pessoas. Antes de Oldenland existir, esta era uma terra sem nação, onde pessoas expulsas ou fugitivas se reuniam para viver.
Sem perceber, Rensley estava atento à história dele. Esquecendo por um momento quem estava falando, a voz baixa e clara tinha algo que acalmava o coração das pessoas. O tom, com entonação contida, era elegante, digno de um membro da família real.
Ainda assim, havia impregnado em toda a voz aquela secura fria característica do norte, semelhante ao vento que tinha sentido antes de chegar ao castelo, mas agora, envolvido pelas cobertas quentes, isso não parecia frio.
— Entre as pessoas reunidas, havia um general de grande renome, que fora expulso da terra natal por acusações caluniosas. Ele percebeu que, nos dias de trovão e relâmpago, os monstros não invadiam a terra onde as pessoas viviam reunidas, e passou a acreditar que havia um poder místico nos relâmpagos.
— …É verdade que, nos dias em que caem relâmpagos, os monstros realmente não invadem?
— Sim. Não chove com frequência, mas até hoje nunca houve invasão de seres além da muralha nesse tipo de clima.
Ao ouvir isso, o relâmpago que até pouco antes só causava medo passou a parecer um pouco mais um aliado. Quando Rensley se calou, Gizel, esperando um breve intervalo, continuou a história.
— No fim das contas, numa certa noite de relâmpagos, o general saiu em busca do local onde o raio havia caído. Depois de uma jornada árdua, ele finalmente encontrou o destino. No lugar onde chegou, havia uma fonte formada pelo raio que caíra na terra, acumulando-se num único ponto e brilhando em prata.
Rensley, que ouvia atentamente a história, virou a cabeça de repente para olhar para o narrador.
— Não faz sentido. Um relâmpago virar uma fonte?
— É uma história antiga, afinal.
Ah, é verdade. Isso não era algo que realmente tinha acontecido, era um mito de Oldenland. Rensley, convencido rapidamente, voltou a assentir com a cabeça.
— Ele pensou que, se pegasse a água da fonte, poderia proteger as pessoas do perigo. Mas a fonte formada por relâmpagos era diferente de água comum, e por mais que se esforçasse, não conseguia colocá-la em um frasco; depois de repetir esforços em vão, ele acabou caindo na fonte.
— Que pena… Então ele morreu?
— Não. Escolhido pela fonte, ele renasceu. Manteve a forma humana, mas se tornou meio divino, ganhando o poder de usar livremente os relâmpagos para proteger a terra e as pessoas. Ele voltou para onde as pessoas viviam, fundou Oldenland e se tornou o primeiro rei, cuidando do povo. Ele sacudiu a terra para que a fonte de relâmpagos pudesse fluir para longe, transformando-a em rio, e esse rio se tornou o maior de Oldenland, o rio Vals.
Um rio, é. Rensley, que tinha acabado de chegar ao norte, ainda não tinha ido além de Laudken. Muito menos fora do castelo principal, ele nunca tinha visto. Naquela noite em que atravessou, chorando compulsivamente, os campos frios e áridos, sentira que era uma terra tão desolada que nem seres vivos poderiam habitar, mas, pensando bem, como o mar era próximo, certamente havia rios ou riachos aqui também.
Rensley adorava, mais do que qualquer um, nadar no mar ou em rios em dias de sol e no verão quente. Podia visualizar claramente a superfície da água brilhando ofuscantemente sob o sol e o fundo arenoso transparecendo claramente por baixo.
Quando poderia tirar a roupa de novo, tomar sol e nadar? Ao pensar que talvez nunca mais pudesse voltar aos belos lugares à beira d’água que amava desde criança, sentiu um aperto no peito, como se tivesse perdido algo precioso.
— O senhor ainda não viu, mas o rio Vals, visto de longe, tem a cor prateada. Dizem que é porque há membril, um tipo de prata, distribuído no leito do rio, ou que é um fenômeno criado pelo clima daqui. Mas as pessoas de Oldenland gostam da história de que o rio surgiu de um relâmpago.
— Que governa a floresta negra e o rio prateado, e obedece ao dever da dominação sagrada…
O chamado que ele ouvira distraidamente no dia do casamento ainda permanecia em algum canto da memória de Rensley. Ao lançar o olhar para fora da janela, bem naquele instante um brilho cruzou o céu.
A luz alongada se fragmentou como as fendas entre casas juntas umas às outras, como as estreitas passagens formadas entre essas fendas. Aparecia e desaparecia repetidamente de forma abrupta, e o céu roncava a cada vez, como uma fera se preparando para rugir.
A luz, que se fragmentava aos poucos, logo se tornou um imenso feixe que caiu direto na terra. Em seguida veio o estrondo, e o quarto ficou branco de novo. Mas desta vez, Rensley não desviou o olhar, nem se assustou escondendo-se sob as cobertas.
O feixe do relâmpago parecia uma cachoeira despencando. Agora Rensley também conseguia imaginar a luz branca e fria tingindo de prata a terra rachada, fluindo suavemente como uma via láctea.
— Essa é a história de por que as pessoas de Oldenland gostam de relâmpagos. Ter sido atingido por um raio e sobrevivido ileso… digamos que o clima de hoje é a saudação da terra do norte dando as boas-vindas ao Lorde Malocen.
— …
— Ainda está com medo?
Diante da pergunta de Gizel, Rensley, em vez de responder, cruzou o olhar com o dele. Hesitou por um momento antes de responder, e então soltou de repente:
— Não.
Livrar-se assim tão rápido de algo que temera por tanto tempo. Dessa forma, o medo que confessara antes acabava parecendo exagero ou mentira. Rensley ficou um pouco constrangido com a própria mudança de coração tão rápida diante da história dele.
Enquanto ele chorava implorando por perdão, o príncipe herdeiro que lhe dera aquele castigo nem apareceu, e aquela noite de infância, tremendo de medo sob a chuva forte, com medo de que o raio caísse na árvore em que estava amarrado, ainda estava vívida na memória; e apesar disso, bastara apenas uma breve história antiga inventada. Talvez fosse por esse tipo de coisa que todo mundo o zombava dizendo que ele era leviano.
“…Bem, mesmo assim, se isso significa que não vou mais ter medo daqui pra frente, não é bom?”
No lugar onde antes havia vergonha, agora entrava com mais força um sentimento de alegria. Rensley se virou para o lado de Gizel.
— Vossa Alteza também consegue controlar relâmpagos livremente?
— Se pudesse, já teria feito o relâmpago parar por causa do senhor.
O tom de Gizel era consistentemente sério, tanto que era difícil distinguir se era brincadeira ou verdade. Rensley, sem esconder o riso que saía, agradeceu:
— Obrigado só pelas palavras, Vossa Alteza.
— Ainda bem que a história ajudou. Agora vou fechar a janela de novo.
Gizel fez um gesto. A janela de madeira que estava aberta se fechou, e a cortina se fechou com um movimento rápido. Ele, que estava apoiando a cabeça e deitado de lado, inclinado em direção a Rensley, voltou para sua posição original. Deitou-se de costas, apoiando a cabeça no travesseiro largo.
— Então vamos dormir agora.
— Sim.
Os dois se prepararam, lado a lado na mesma cama, para dormir de verdade agora. Gizel logo fechou os olhos, e depois disso não houve mais nenhuma conversa entre os dois.
Rensley piscava os olhos na escuridão, onde apenas a luz das velas oscilava. Estava acostumado a compartilhar a cama com outras pessoas, mas, quando o companheiro era o Grão-Duque de Oldenland, não era fácil dormir como de costume. Não podia comparar Gizel Zibedad aos incontáveis amigos com quem dançara e bebera até desmaiar na mesma mesa, ou aos amigos que jogavam cartas ou conversavam a noite toda e depois, achando trabalhoso ir embora, se deitavam displicentemente na cama do dono da casa.
Sem sequer ousar se mexer, com medo de atrapalhar o sono de Vossa Alteza, o Grão-Duque, ele ficou deitado rígido, prendendo a respiração. O peito firme e o calor que tocava seu ombro coçavam estranhamente, e a única ação que Rensley tomou foi esfregar suavemente aquele local.
Mesmo depois de tentar dormir, o som do trovão continuou ressoando sem parar. A cada vez, ele se assustava e estremecia, mas isso era apenas uma reação a um som alto repentino; o medo antigo que costumava intimidar Rensley em toda noite de trovoada estava se dissipando aos poucos, esmaecendo.
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↫─✧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna