. ₊ ⊹ Capítulo 02.2
. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 02 – Cerimônia de Casamento
Pt. 02
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Antes que o som ondulante se dissipasse por completo, o sacerdote fez a taça ressoar mais algumas vezes. Estranhamente, ao ouvir aquela ressonância parecida com sinos, o coração agitado de Rensley foi se acalmando aos poucos.
Como se tivesse lido a mente de Rensley, o sacerdote só então começou a falar.
— Gizel Zibedad, Protetor de Oldenland.
O Grão-Duque manteve a cabeça baixa em silêncio. Rensley deveria se mover como se fossem um só corpo com ele, mas, tomado pela curiosidade diante de um ritual estrangeiro que via pela primeira vez, ele levantou um pouco a cabeça e observou de relance o sacerdote, vestido em trajes sacerdotais diferentes dos de Cornia.
— Que governa a Floresta Negra e o Rio Prateado, e obedece ao dever da dominação sagrada. Você concorda com a união de almas que se realizará hoje?
— Concordo.
Quando o Grão-Duque respondeu, o sacerdote virou a cabeça em direção a Rensley. Como se ele conseguisse enxergar através da sua verdadeira identidade, Rensley baixou os olhos rapidamente. O chamado continuou.
— Yvette Elbanes, Companheira de Laudken, que cuida das montanhas de gelo e da terra firme, e acompanha o Protetor em seu caminho. Você concorda com a união de almas que se realizará hoje?
— Concordo.
Ele piscou os olhos, surpreso com a própria voz pronunciando a frase, quando sentiu um olhar sobre si. Ao virar levemente a cabeça, viu o Grão-Duque Zibedad olhando para ele.
“É verdade, minha voz é engraçada, não é?”
Rensley sorriu sem jeito por trás do véu. O olhar do Grão-Duque pousou brevemente sobre ele antes de se afastar.
Como Larkov havia avisado, algumas perguntas cerimoniais mais se seguiram. Perguntas se juravam dizer somente a verdade neste ritual, se juravam se dedicar a Oldenland até que corpo e alma se esgotassem — perguntas óbvias e cerimoniais desse tipo.
Era irônico ter que mentir logo na pergunta sobre dizer somente a verdade, mas Rensley apenas respondeu obedientemente “sim”.
Depois disso, vários sub-sacerdotes vieram em fileira e começaram a rezar como se recitassem um encantamento, numa língua que Rensley não entendia. Era um momento em que se deveria estar tenso, mas o tédio de ficar ouvindo por um longo tempo um encantamento incompreensível era inevitável, e ele quase cochilou.
— Yvette Elbanes, levante-se.
— Sim!
Rensley se levantou de repente, como quando era repreendido na sala de aula por deixar a mente vagar para outro lugar. Talvez porque se levantou com energia demais. Um silêncio peculiar tomou conta da plateia.
Yvette Elbanes, que nascera fraca de saúde e ficaria trancada apenas no quarto dali em diante, não deveria cometer esse tipo de erro. Rensley baixou a cabeça rapidamente, com recato. O sacerdote, sem parecer notar nada de estranho, continuou a falar.
— Se você for verdadeiramente inocente e disse somente a verdade até agora, poderá superar a provação.
Provação? Enquanto ele ainda estava confuso, sem entender do que se tratava, quatro sub-sacerdotes trouxeram um grande braseiro com pernas. Visto de perto, o braseiro era um recipiente sem fogo aceso. Mas, diferente dos braseiros comuns, sua superfície tinha padrões delicados esculpidos.
O sacerdote se posicionou à frente, recitou um encantamento e desenhou um círculo mágico, e de repente um fogo amarelo brotou no braseiro vazio. Mesmo usando o véu, Rensley fechou os olhos, momentaneamente ofuscado.
Não havia fumaça, mas era, sem dúvida, fogo. Ao ouvir as palavras seguintes do sacerdote, os olhos que ele havia fechado se arregalaram.
— Yvette Elbanes, mergulhe as mãos no fogo purificador e comprove sua verdade.
“…Mergulhar o quê em quê?”
Rensley alternou o olhar entre o fogo em chamas e o sacerdote, e então se virou para Gizel Zibedad, ainda sentado diante do estrado. O marido cruel apenas o olhava com uma expressão indiferente, como se olhasse para um completo estranho, como se não houvesse problema algum.
Sua boca ficou seca. Será que tudo isso era uma armadilha? Desde a proposta de realizar o casamento como planejado, até a senhora Samlit e o velho Larkov, que haviam cuidado dele naquela manhã — todos. Na verdade, será que haviam decidido queimar o criminoso vivo, e todas essas pessoas reunidas ali estavam prestes a brindar vendo ele mesmo ser queimado…
Não existe espetáculo mais popular do que uma execução realizada em público. Em Cornia, nos dias de execução pública, especialmente as fogueiras, terminavam o serviço na parte da manhã para que aqueles que quisessem assistir pudessem fazê-lo. Especialmente aquele príncipe herdeiro cruel — como ele se divertia enganando os criminosos, fazendo-os acreditar que seriam poupados, só para pronunciar a sentença de morte no final. No momento da morte, o riso arrepiante daquele desgraçado, rindo dos prisioneiros mergulhados em desespero e traição, parecia ressuscitar em seus ouvidos.
— Yvette Elbanes, apresse-se a passar pela comprovação do fogo purificador.
Mesmo que, por acaso, fosse verdade o que o sacerdote dizia — que era um fogo místico capaz de comprovar a verdade —, alguém que só disse mentiras não conseguiria “comprovar” coisa alguma. O fogo se alastraria imediatamente pelas roupas e pelo corpo, e este lugar se transformaria em um animado festival de execução na fogueira.
Enquanto Rensley permanecia rígido de pé, as pessoas começaram a murmurar pesadamente, e por fim o Grão-Duque se levantou. Ele se colocou atrás de Rensley, curvou-se e sussurrou.
— Coloque a mão no braseiro.
— …Mas está queimando…
Rensley sussurrou de volta, olhando-o de relance. Ele já não conseguia mais confiar cegamente no Grão-Duque também. Havia um leve tom de estranheza no fim de sua fala.
— Você não recebeu explicação sobre isso antes? Instruí Larkov a lhe explicar o procedimento da cerimônia com antecedência.
De fato, ele explicara. Só que dissera que haveria algumas perguntas sem importância, e bastava responder “sim”. Como podia ter deixado passar por completo uma informação tão importante como um ritual assustador de queimar as mãos. Em vez de perder tempo falando bobagens sobre a noite de núpcias, deveria ter avisado sobre isso com antecedência.
O Grão-Duque suspirou levemente e segurou os dois pulsos de Rensley. O sacerdote pareceu um pouco surpreso, mas não os impediu, apenas observando o que faziam. Sem conseguir dizer para que o soltasse, Rensley o chamou com urgência.
— Vossa Alteza.
— Você disse que se dedicaria com lealdade, não disse?
As orelhas de Rensley ficaram um pouco vermelhas. Mesmo estando de pijama, foi um momento em que sentiu vergonha de ter fingido ser cavaleiro há apenas alguns dias. Não devia ter feito uma imitação inútil daquelas.
Os lábios secos se aproximaram quase a tocar a orelha aquecida. Uma voz abaixada a ponto de ninguém além de Rensley conseguir ouvir se infiltrou baixinho para dentro.
— Lorde Malocen, eu não traio quem confia em mim.
Rensley olhou de volta para os olhos âmbar silenciosos que o encaravam por trás do véu.
“O que eu estou fazendo?”
O medo que por um instante confundira Rensley se dissipou como poeira. O Grão-Duque Gizel era a pessoa que chegara a dizer que, se houvesse alguém amado, seria melhor ter encontros secretos dentro do castelo, já que fugir o colocaria em perigo.
Talvez fosse exagero usar a palavra traição, mas se havia alguém entre ele e o Grão-Duque que usara de artimanhas, sem dúvida era ele mesmo. Disfarçado de princesa, chegou e dormiu no quarto que fora preparado para a noiva, saiu escondido em busca de uma brecha para fugir, e quando esteve prestes a ser descoberto, mentiu dizendo ser um acompanhante para escapar da crise.
As perguntas e juramentos deste casamento não importavam muito, mas pelo menos quanto à promessa feita com o Grão-Duque, ele precisava ser sincero.
Rensley assentiu com a cabeça. Isso significava que estava pronto, mas o Grão-Duque não soltou seus pulsos. Ele continuou de pé atrás de Rensley, sem se afastar, e lentamente puxou as mãos para baixo.
As mãos de ambos foram envolvidas simultaneamente pelo fogo ardente. Rensley segurou com força para conter o gemido que quase escapou, cerrando os dentes.
Depois de um tempo, o sacerdote pigarreou e bateu novamente na taça de metal vazia, como um sino.
— Yvette Elbanes, sua verdade foi comprovada.
Olhando para as chamas ardentes, sem calor nem frio algum, toda a força de Rensley se esvaiu do corpo. Ele conteve a vontade de xingar a si mesmo por ter ficado com tanto medo.
Não havia poder de comprovação nenhum — era, de fato, um truque perfeito de ilusão de ótica. Senhor sacerdote, eu tenho mentido o tempo todo até agora, sabia?
— A partir de agora, suas almas, antes incompletas, se tornarão uma só e completa, ligadas uma à outra.
O sacerdote recitou um novo encantamento. O fogo do braseiro foi diminuindo aos poucos até se transformar em um único filete de luz dourada, fino e longo.
Aquilo flutuou como a semente de um dente-de-leão, voando levemente até se aproximar entre Rensley e o Grão-Duque, e num instante enrolou os pulsos dos dois, como uma pulseira de nó entrelaçado, antes de desaparecer, absorvido para dentro da pele.
“Isso também deve ser truque de ilusão de ótica.”
Rensley olhou para o próprio pulso com olhos frios.
Quando o truque terminou, o casamento também caminhava para o fim. A afirmação de Larkov, de que Oldenland não prolongava o casamento, era verdade.
O sacerdote abriu o juramento de casamento. Agora era a vez de o noivo e a noiva deixarem, por fim, a assinatura que comprovaria a validade deste casamento. Gizel Zibedad, segurando uma pena com tinta preta, deixou seu nome com uma caligrafia elegante.
<Gizel Zibedad>
Era a vez de Rensley. Recebendo a pena, ele imitou a caligrafia de Yvette que guardava na memória e deixou sua assinatura.
<Yvette Monte Elbanes>
O falso juramento da falsa Grã-Duquesa também parecia bastante convincente, uma vez adicionados o papel elaborado e o selo. O sacerdote fechou o livro grosso onde estavam encadernados os juramentos de casamento históricos da família real, e ordenou solenemente.
— Abram as portas!
Os porteiros abriram as portas do castelo principal, e o coro começou a cantar. Quando as portas se abriram, apareceram os guardas e, além deles, a multidão densamente reunida.
Ao som de uma música mais alegre do que até então, o Grão-Duque e a Grã-Duquesa caminharam em direção ao portão do castelo. Diferente dos convidados de status elevado, que assistiam ao ritual com discrição dentro do salão, a reação dos moradores do lado de fora do castelo principal foi entusiasmada.
Aplausos, vivas e o som de instrumentos baratos e estridentes receberam o casal recém-casado. As vozes das pessoas, em sua maioria, se fundiram em um único bloco de barulho, mas algumas frases chegaram vivas aos ouvidos de Rensley.
— Meu Deus, a Grã-Duquesa é realmente linda!
— Mesmo de véu, dá para perceber como ela é bela. Finalmente Oldenland terá uma Grã-Duquesa…
— Que deslumbrante. Parece a deusa Adriel das lendas.
Bem. Com tanta maquiagem e um véu branco translúcido cobrindo o rosto, praticamente qualquer pessoa pareceria bonita.
Ele apostava que, se pegassem aleatoriamente qualquer uma das moradoras que olhavam para cima naquele momento, e a banhassem desde a manhã, penteassem seus cabelos, aplicassem maquiagem, a vestissem com um vestido caro, a adornassem com joias e colocassem um véu, ela pareceria muito mais bela do que ele.
Um dos ministros de pé ao lado de Rensley falou com cautela.
— Vossa Alteza, a Grã-Duquesa, já que o casamento foi realizado, por favor, cumprimente o povo. Todos vão ficar felizes.
Ele estendeu um pingente parecido com uma pequena trombeta. Rensley já vira várias vezes as pessoas da família real fazendo discursos, então conhecia a função daquele objeto: um instrumento mágico que fazia a voz alcançar longas distâncias. Prendendo-o ao peito, Rensley endireitou os ombros e se manteve de pé.
Apesar de tudo, é claro, receber as boas-vindas das pessoas não era uma sensação ruim. Exceto quando fingia bravata em uma taverna, ele nunca havia falado recebendo a atenção de tantas pessoas assim, mas, ainda assim, Rensley sorriu com naturalidade, como se emanasse do fundo do coração, e cumprimentou.
— Só ouvi dizer que Oldenland era um país muito frio.
Antes mesmo de terminar a frase, uma grande exclamação irrompeu.
— Ah, até a voz dela é linda!
Elogios foram ouvidos de todos os lados. O sorriso de Rensley se abriu ainda mais.
— Com uma recepção tão calorosa, nem senti o frio. Para mim, Oldenland parece que vai se tornar o país mais quente do continente.
O clamor ficou tão alto que ecoou pelo castelo, e quando Rensley acenou com a mão, quase virou gritaria. Diante de uma recepção tão inesperada, o próprio Rensley também quis gritar junto.
“Que loucura é essa? As pessoas gostam muito da Grã-Duquesa?”
Mesmo sabendo que a recepção era para a Princesa “Yvette Elbanes” e não para Rensley Malocen, ele ficou feliz. Se não estivesse usando o véu, o brilho de alegria nos olhos de Rensley teria sido visível para a multidão, mas por causa do véu que cobria suavemente o rosto, apenas um sorriso gentil chegava até eles — e isso mesmo, apenas para as pessoas na primeira fila ou com visão especialmente boa.
Mas só isso já foi suficiente para que a notícia se espalhasse rapidamente dentro e fora do castelo sobre quão gentil era o sorriso da nova Grã-Duquesa.
O tempo de encontrar o povo não foi longo. Os ministros e sacerdotes guiaram o casal grão-ducal de volta para dentro do castelo principal, e Rensley os seguiu, olhando para trás com pesar.
— Parabéns de coração pelo casamento, Vossa Alteza o Grão-Duque, Vossa Alteza a Grã-Duquesa.
— Bênçãos eternas para a muralha de Oldenland e Laudken!
Quando a cerimônia terminou, até os convidados nobres, antes discretos, começaram a falar sorrindo. Os dois responderam adequadamente aos cumprimentos e voltaram a se sentar nos lugares de honra.
O banquete começou imediatamente. A música lenta e pesada que ressoara solenemente pelo salão durante toda a cerimônia desapareceu, e a orquestra passou a tocar músicas de dança em ritmo rápido, uma após a outra. Embora o sabor provavelmente não fosse bom, mesas repletas de comidas festivas, ricas e vistosas, enchiam a mesa, e taças de cerveja e vinho eram servidas sem parar.
Rapidamente o salão ficou barulhento. Vozes conversando enquanto bebiam, sons de pratos e taças se chocando, risadas de pessoas dançando ao som da música — tudo alcançava o alto teto. As bordas das capas coloridas esvoaçavam e os vestidos volumosos giravam, fazendo o salão de festas parecer um grande campo de flores.
Rensley engoliu em seco ao vê-los. Seus pés, escondidos dentro do vestido, batiam no chão sem que ele percebesse, marcando o ritmo da música.
— Vamos subir.
Absorto em observar as pessoas, Rensley não entendeu de imediato o que o Grão-Duque disse, continuando a olhar para frente. Ele perguntou de novo depois de um breve intervalo.
— O quê?
— Não precisamos ficar até o fim do banquete festivo. Vamos subir.
— Ah…
O verdadeiro sentimento de Rensley era que, mesmo sem poder dançar no salão, ele gostaria de observar um pouco mais. Mas não estava em posição de insistir em fazer o que queria, e a expressão do Grão-Duque revelava, de forma bem clara, que não tinha o menor interesse na festa à sua frente.
Sem opção, Rensley se levantou, ajeitando hesitante a barra do vestido. Quando os dois se levantaram dos lugares de honra, a atenção das pessoas ocupadas se divertindo se concentrou imediatamente neles.
Foi então que o Grão-Duque se aproximou e, de repente, apoiou as costas de Rensley, abraçando-o. Antes que pudesse perguntar o que estava acontecendo, o Grão-Duque se curvou levemente e, cobrindo-o até embaixo da saia, o ergueu no ar de corpo inteiro. Uauuu! As pessoas soltaram vivas e aplausos misturados com risadas.
Rensley enrijeceu o corpo. O brilho das luzes da festa feriu seus olhos, e o teto girava em cima dele, tonteante. Ele já havia carregado alguém no colo assim antes, mas nunca estivera na posição oposta — e suor frio brotou em sua testa e nas costas.
— Vo… Vossa Alteza. I-isso é o que…
A voz de resposta do Grão-Duque era baixa e calma.
— É parte do procedimento do casamento.
— Ah, sim. É… é isso mesmo…
Pensando bem, independentemente do status social, a maioria dos casamentos terminava com o noivo carregando a noiva no colo até o quarto nupcial. Era algo comum, algo comum.
Rensley tentou afastar com afinco a pergunta ansiosa que rastejava para dentro de sua mente, mas não conseguia.
“Será, será, será mesmo que ele pretende realmente consumar a noite de núpcias? Estou vestindo um vestido e usando uma voz de mulher agora, mas será que ele esqueceu que, tirando apenas uma camada, existe um homem com o mesmo tipo de objeto que ele tem entre as pernas?”
Nunca ouvira boato algum de que o Grão-Duque Gizel gostava de homens, mas, tendo confirmado que os boatos estranhos sobre ele até então não tinham nenhuma credibilidade, agora estava com medo justamente por não conseguir prever o que poderia acontecer. Ele nem conseguia trazer o assunto à tona, com medo de que uma resposta firme e indesejada saísse daquela boca taciturna.
Como se a ansiedade de Rensley não importasse em nada, o Grão-Duque, sem uma única palavra de resposta às bênçãos e felicitações que continuavam chovendo, saiu do salão a passos largos. Vestido com a armadura cerimonial, ele parecia desnecessariamente ainda mais robusto. Vários criados os seguiram atrás.
O quarto do Grão-Duque ficava no andar mais alto do castelo principal. Depois de subir a escada em espiral, curva após curva, finalmente chegaram ao quarto do Grão-Duque, e os criados avançaram alguns passos à frente para abrir a porta grande.
O interior era parecido com o quarto da Grã-Duquesa, mas tudo — desde o tamanho do quarto até as janelas, a cama, a lareira, e móveis como a poltrona — era maior, e uma grande bandeira com o brasão da família real estava pendurada na parede.
Era um quarto que, apesar de parecer confortável, tinha naturalmente um ar de dignidade, mas não havia tempo para admirá-lo à vontade. Rensley gostaria que ele o colocasse no chão logo, mas o Grão-Duque, ainda o carregando, deu ordens aos criados.
— Todos podem se retirar. Ninguém deve se aproximar até que eu chame.
— Entendido.
A porta foi fechada em silêncio, e todo sinal de presença desapareceu por completo.
Caminhando sem hesitação até a cama, o Grão-Duque colocou Rensley no chão devagar. A sensação de seu corpo afundando no ar, contra a própria vontade, era estranha. Rensley soltou um som meio tolo enquanto caía sentado no colchão macio.
Imediatamente, a mão do Grão-Duque se aproximou de sua cabeça. A coroa dourada que envolvera sua cabeça durante todo o casamento foi retirada, e o véu delicado que ainda cobria vagamente seu rosto até então também foi levantado.
Na visão agora clara de Rensley, entraram nitidamente as feições daquele homem que, ao menos formalmente, se tornara seu marido. Rensley, sem perceber, acabou chamando em voz alta o homem que o observava calmamente de cima.
— Vossa Alteza…
Ah. A voz havia voltado.
Rensley tocou o próprio pescoço. Recuperar a voz assim que saíra do salão de festas… Será que Larkov havia calculado até o momento em que os dois deixariam o salão?
O Grão-Duque, que havia curvado a cabeça para retirar o véu de Rensley, ergueu o corpo.
— Vou descer novamente para o laboratório.
— …Laboratório? Está se referindo ao porão?
Agora, no fim das contas, ele iria mesmo para aquele porão, e não nem sequer para o salão de festas?
Diante da fala inesperada, Rensley o encarou, atônito. Mas o Grão-Duque respondeu com o mesmo tom de sempre, sem nenhuma mudança.
— Há algo em que venho pesquisando ultimamente. Gostaria de compensar o tempo perdido por causa do casamento. Como está previsto que passemos a noite de núpcias juntos hoje, Lorde Malocen, descanse aqui.
— Então Vossa Alteza vai…
— Há uma cama no laboratório também, vou dormir lá. Você também não vai se sentir mais à vontade dormindo sozinho? Seja para trocar de roupa ou para comida, o que precisar, a governanta Samlit trará qualquer coisa. Vou avisar para que ninguém mais se aproxime, então não se preocupe e descanse.
Enquanto falava, ele foi retirando um a um os adornos presos aos ombros e à gola. Colocou-os displicentemente sobre a mesa, com uma expressão de quem achava incômodas as vestes formais do casamento, e passou os dedos pelos cabelos, antes bem arrumados, desfazendo-os novamente.
— A partir de amanhã, você pode voltar a ficar no quarto da Grã-Duquesa. Até que os próximos passos sejam decididos, conforme planejado, seria melhor não sair de lá o máximo possível.
— Ah, sim. Entendo… Está bem.
Sem sequer olhar uma vez para o rosto de Rensley, o Grão-Duque terminou aquela conversa quase como um comunicado, e foi se posicionar sobre uma laje redonda de pedra em um canto do quarto.
— Então.
Ele subiu na laje onde estava desenhado um círculo mágico e, ao fazer um gesto, uma luz azul brilhou de repente. No momento seguinte, a figura do Grão-Duque Zibedad já não estava mais visível em nenhum canto do quarto.
O castelo real de Cornia também tinha um dispositivo de magia de teletransporte, mas o quarto de Rensley, é claro, não tinha nenhum, e ele quase nunca vira algo assim sendo usado de verdade. Rensley piscou os olhos, olhando para o local onde ele desaparecera, e depois desviou o olhar para observar o quarto ao redor.
Sentado na cama, ele ficou atento aos sons ao redor, olhando fixamente para o vazio. Talvez por ser o andar mais alto da torre principal, nem um som do lado de fora vazava — um silêncio completo. No quarto amplo, ele estava realmente sozinho.
A festa animada e as vozes empolgadas das pessoas, que ele observara há pouco, já pareciam um sonho. De repente, sentindo um arrepio, ele agarrou o cobertor de onde estava sentado.
“Vou ter que continuar praticamente preso dentro do quarto daqui em diante?”
Rensley, que ficara abatido, balançou a cabeça de repente. Que pensamento mais atrevido. Fazia poucos dias que se debatia entre a vida e a morte. Ele disse que seria até que os próximos passos fossem decididos. Até lá apenas…
Rensley olhou distraidamente para a ponta dos próprios pés antes de se levantar. No quarto do Grão-Duque também havia, assim como em outros lugares, um cordão pendurado ao lado da cama.
— Rensley!
Assim que puxou o cordão, não demorou muito para a senhora Samlit entrar no quarto. Ela se aproximou de Rensley sorrindo alegremente.
— Você estava tão, tão linda hoje. Foi a perfeita Grã-Duquesa. Observando de longe, fiquei tão orgulhosa. Está com fome? Quer que eu prepare uma refeição?
— Sim. Acho que estava tão tenso que agora estou com fome.
— Mas primeiro seria bom trocar de roupa. Tirar a maquiagem também, e tomar um banho para aliviar o cansaço. E então, há mais alguma coisa que você precise?
Rensley assentiu com a cabeça, sorrindo de volta para ela, e respondeu de imediato, como se já estivesse esperando a pergunta.
— Bebida.
— Bebida? Quer beber?
— Sim. Traga bastante, sem economizar. Cerveja está bom, vinho está bom, rum também está bom. Ver as outras pessoas bebendo me deixou com tanta vontade. Estou curiosa para saber como é o sabor da bebida de Oldenland.
A senhora Samlit assentiu com a cabeça logo em seguida, sorrindo calorosamente. Enquanto desfazia os laços do vestido de Rensley, ela começou a se gabar.
— Claro que sim! O sabor da cerveja de Oldenland é excelente. O clima é assim tão difícil para a agricultura, mas graças às nascentes há regiões com alta temperatura geotérmica. Nesses lugares a terra não congela, e podemos cultivar. Apesar de tudo, temos o mar perto, minas, florestas extensas, e conseguimos suprir quase tudo por conta própria. Só a comida mesmo é que precisamos importar bastante de outros países… Mas veja bem. Para a bebida, o ingrediente é importante, mas a técnica de fermentação também importa, não é? Quanto à técnica de fazer bebida, podemos nos orgulhar muito mesmo. As pessoas daqui adoram bebida, então mesmo sem comer, nunca deixam de tomar cerveja em cada refeição. No inverno, a bebida é o melhor prazer.
— Senhora, se não estiver muito ocupada, quer beber comigo?
— Agora mesmo? Hmm. Como estamos no meio da festa, preciso dar uma olhada por lá. Depois que você comer, volto logo. Ou quer que eu mande Larkov subir? Aquele homem deve estar se divertindo no salão de festas de qualquer forma.
Rensley balançou a cabeça rapidamente.
— Está tudo bem. Pensando bem, todos devem estar ocupados, e acho que falei uma bobagem à toa. Acho que hoje também é melhor eu dormir cedo e bem. Já está bom. Daqui em diante posso tirar a roupa sozinho.
— Certo. Então vou preparar a água do banho e mandar a refeição. Volto rápido, então espere só um pouquinho.
Se fosse a verdadeira Grã-Duquesa, até a roupa íntima seria vestida e retirada pelas damas de companhia, mas por mais experiente que fosse a governanta, não poderia cuidar do corpo nu de Rensley, que era homem. Mas também era difícil ter um criado homem entrando sozinho no quarto onde a Grã-Duquesa supostamente ficava.
E também não podia se tornar a verdadeira companheira de Gizel Zibedad como Grã-Duquesa de fato. Assim, de forma tão indefinida, nem homem nem mulher, nem existindo nem deixando de existir — por quanto tempo mais ele teria que viver assim?
De repente, a lembrança do vento frio cortante que o fizera derramar lágrimas quando pisara pela primeira vez naquela terra do norte roçou sua mente. Comparado àquele momento, uma sensação de desamparo, não menos intensa, cobriu seu coração como uma nuvem escura.
Ele sussurrava para si mesmo que não faltava muito, que era apenas um curto período de suspensão antes de encontrar uma solução sensata, mas a ansiedade, uma vez instalada, não desaparecia facilmente.
A senhora Samlit trouxe uma mesa com rodas repleta de bebida e comida. Depois de fazer companhia por um momento, ela pareceu estar ocupada com as tarefas de baixo, deixou um “durma bem” e saiu do quarto. Rensley abriu a janela, muito maior e mais comprida do que a do quarto da Grã-Duquesa, tirou toda a roupa e mergulhou na banheira.
Como esperado, foi revigorante. O frio soprava através da janela, mas o corpo mergulhado na água quente, ao lado da lareira, não sentia nenhum frio. Rensley bebeu cerveja dentro da banheira.
Talvez por ser um país frio, rico em gelo. Diferente da de Cornia, a cerveja de Oldenland era tão gelada que fazia os lábios formigarem. A cerveja de que a senhora Samlit se gabara tão orgulhosamente tinha, de fato, um sabor e aroma muito mais intensos do que qualquer bebida que Rensley já tivesse tomado até então.
Isso deve embriagar só com alguns goles. Mergulhado profundamente na água quente, Rensley suava em bicas enquanto bebia a cerveja gelada. Quente e frio, frio e quente. Poder desfrutar sensações em polos opostos ao mesmo tempo. Numa emoção que nunca sentira, vindo de um país morno o ano todo, ele sentia que poderia se viciar a qualquer momento.
— Ah, estou com fome.
Rensley estendeu a mão para a bandeja de prata e pegou um pedaço de queijo. O prato de carne que provou por precaução estava, como esperado, sem gosto. Ainda assim, o que era comível eram apenas queijo e pão. O sabor da bebida era bom, mas a comida sem gosto deixou Rensley um pouco triste.
Lavou as mãos na banheira e saiu pingando água. Fechou a janela, vestiu displicentemente um roupão macio — sem saber se era do Grão-Duque ou dele mesmo — e desabou na cama larga e macia.
Por ter deixado a janela aberta por tanto tempo, a cama esfriara, e o corpo que ele tanto se esforçara para aquecer voltou a sentir frio. Puxou rapidamente o cobertor e o casaco de pele até o queixo, mas o frio não desapareceu por muito tempo.
↫─✧ Fim do capítulo.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna