Capítulo 92
Enquanto Qin Ai estava na cozinha apertada preparando a sopa para a ressaca, Zuo Bian pegou o diário novamente.
O 555, que pensou ter escapado de um desastre, agora sentia que estava realmente morrendo, morrendo de vergonha.
Zuo Bian folheou até a seção em que o 555 se gabava e começou a ler em voz alta. Sua pronúncia era clara, e ela lia com ainda mais emoção do que quando recitava as falas do “Manual da Chá Verde”¹.
— Fui esbofeteada hoje de novo. Não, eu fui apenas acariciada gentilmente pela realidade. Eu nunca estou errada. Se a verdade for diferente do que eu disse, deve ser porque os céus estão com inveja da minha excelência.
— Ah! Esta manhã, fui despertada por um senso de missão. A luz do sol brilhou em meu rosto esculpido, e eu me olhei no espelho, maravilhada com minha beleza perfeita… — Zuo Bian lia em voz alta com um toque dramático.
Para o 555, aquilo era uma execução pública. Ele queria gritar como um marmota.
O Pequeno Sapo, que estava dormindo profundamente, foi despertado pelas palavras descaradas. Ele estalou a língua, pensando que o 555 era narcisista demais.
Qin Ai, que fazia a sopa na cozinha, ouviu tudo claramente. Ela olhou para trás e viu Zuo Bian lendo o diário com atenção.
Seus olhos estavam cheios de diversão. A Zuo Bian bêbada era carente e exigente, um pouco mais difícil de lidar do que o habitual, mas Qin Ai não se importava.
Zuo Bian não leu por muito tempo. Após terminar uma página, suas pálpebras começaram a pesar.
O diário escorregou de sua mão e caiu no chão com um baque. Seus olhos se fecharam e ela adormeceu, com metade do corpo pendurado para fora da cama.
Ela estalou os lábios durante o sono, saboreando o gosto do vinho.
Qin Ai saiu da cozinha com a sopa e viu Zuo Bian dormindo profundamente.
No entanto, sua postura era desconfortável, com a parte inferior do corpo no chão e a superior sobre a cama. Ela devia estar exausta depois de toda a agitação para adormecer naquela posição.
Qin Ai colocou a sopa na mesinha e sacudiu o ombro de Zuo Bian.
Zuo Bian resmungou algo e afastou a mão de Qin Ai.
Qin Ai se inclinou e apertou o nariz de Zuo Bian.
Subitamente incapaz de respirar, Zuo Bian não abriu os olhos imediatamente. Ela gemeu e balançou a cabeça, tentando se livrar do que quer que estivesse cobrindo seu nariz.
Qin Ai usou a outra mão para segurar a nuca de Zuo Bian, impedindo-a de se mover.
Finalmente, Zuo Bian abriu os olhos, mas seu olhar estava confuso. Ela nem sequer reconheceu a pessoa à sua frente.
— Eu quero dormir… — Ela esfregou o nariz e tentou empurrar a mão de Qin Ai.
Qin Ai finalmente soltou o aperto e a ajudou a subir na cama.
— O chão está frio, suba na cama.
Assim que se sentou, o corpo de Zuo Bian amoleceu, como se todos os seus ossos tivessem virado geleia. Ela fechou os olhos satisfeita. — Então eu vou dormir na cama.
Qin Ai segurava a tigela de sopa, com uma expressão exasperada enquanto ajudava Zuo Bian a se sentar novamente. — Beba a sopa primeiro, depois você pode dormir.
— Não, não. — Zuo Bian enterrou o rosto no travesseiro, de costas para Qin Ai.
Qin Ai a persuadiu pacientemente, mas Zuo Bian se recusava a beber, como se a tigela contivesse veneno.
Sentindo o rumo que a cena estava tomando, o 555 rapidamente arrastou o Pequeno Sapo para o modo de censura. Era melhor deixar as duas pombinhas a sós; até mesmo entidades não humanas deveriam se retirar.
— Tem uma recompensa se você terminar. Você não quer uma recompensa?
Ao ouvir a palavra “recompensa”, as orelhas de Zuo Bian se mexeram. Ela finalmente levantou a cabeça do travesseiro.
— Recompensa?
— Hum, uma recompensa.
Zuo Bian pensou sobre isso seriamente e então sorriu. — Eu quero que você seja minha esposa e durma comigo!
— Você é muito trabalhosa. — Qin Ai riu.
Mas não era um fardo; ela estava disposta a fazer qualquer coisa por Zuo Bian.
— Tudo bem? — Zuo Bian olhou para Qin Ai com olhos suplicantes, como um cachorrinho indefeso.
Como Qin Ai poderia recusar seu pedido? Ela levou a sopa aos lábios de Zuo Bian.
— Eu prometo, apenas beba a sopa, está bem?
— Uhum. — Zuo Bian assentiu obedientemente e tomou a tigela inteira de sopa. Depois de terminar, ela olhou para Qin Ai com expectativa, como se esperasse um elogio.
Qin Ai deu um tapinha em sua cabeça como recompensa e estava prestes a guardar a tigela quando Zuo Bian de repente abraçou sua cintura. Aquela cena parecia familiar.
Mais cedo, quando Qin Ai tinha ido à cozinha fazer a sopa, Zuo Bian também a abraçara, recusando-se a deixá-la ir, como um doce humano, impossível de largar.
— Onde você vai? — Zuo Bian descansou o queixo no ombro de Qin Ai, roçando o pescoço dela inquietamente.
Seu perfume, uma mistura de sua fragrância natural com o aroma do vinho, era inebriante. Como um pêssego maduro, tentador e doce. Qin Ai levantou a mão e segurou a bochecha de Zuo Bian.
A pele sob seus dedos era macia e suave. Se aplicasse um pouco mais de pressão, deixaria uma marca.
Com a voz mais baixa, ela disse: — Não vou a lugar nenhum, só estou levando a tigela de volta para a cozinha. Volto logo.
Zuo Bian, com o cérebro entorpecido pelo álcool, pensou sobre isso com cuidado, então assentiu, soltando-a relutantemente.
Como prometido, Qin Ai retornou após guardar a tigela.
Assim que se aproximou da cama, Zuo Bian a puxou para baixo ansiosamente.
Mas ela foi precipitada demais. Perdeu o equilíbrio e puxou Qin Ai junto.
O mundo girou, e Zuo Bian se viu deitada na cama, com a mão de Qin Ai apoiando sua cabeça, seus longos cabelos negros caindo em cascata, obscurecendo grande parte de sua visão.
Seus rostos estavam próximos, suas respirações se misturando, a temperatura subindo.
Os olhos de Qin Ai, escondidos nas sombras, estavam brilhantes, como brasas ardentes.
Zuo Bian olhou para Qin Ai com olhos nebulosos, sentindo que algo estava errado, mas não conseguia processar a informação.
— Qin Ai… — Ela simplesmente chamou o nome de Qin Ai, sem nem saber por que fizera isso.
Cada vez que ela dizia seu nome, era uma declaração de seu amor apaixonado.
Qin Ai, que estivera em silêncio, riu suavemente. Seus traços, geralmente frios e distantes, suavizaram-se, deixando apenas ternura.
Ela se deitou ao lado de Zuo Bian e puxou o cobertor sobre as duas.
Zuo Bian se virou para ela, abraçando sua cintura e enterrando o rosto no peito de Qin Ai.
O perfume suave e fragrante preencheu seus sentidos. Ela se aninhou no peito de Qin Ai satisfeita, com uma expressão de felicidade no rosto.
Qin Ai não fez mais nada, apenas ficou ali, abraçando Zuo Bian.
A cama era pequena. Era boa para uma pessoa, mas parecia apertada com duas.
Para não caírem, elas estavam pressionadas uma contra a outra. Mas essa proximidade também trouxe seus corações para mais perto. Abraçando uma à outra, era como se estivessem segurando o mundo inteiro.
Sentiam-se contentes e seguras.
O despertador em forma de porco na mesa de cabeceira fazia “tique-taque”, o tempo passando lentamente. A luz do sol que entrava pela pequena janela perdia gradualmente seu calor.
O sol poente lançava sombras longas, esticando a silhueta do pequeno vaso de lírios-da-chuva na janela.
À medida que os últimos raios de sol desapareciam abaixo do horizonte, a cidade movimentada se iluminava, mas o pequeno apartamento permanecia escuro.
Qin Ai abriu os olhos na escuridão. Ela virou a cabeça e viu a luz tênue do prédio do outro lado da rua.
Ela tinha acordado sozinha na escuridão muitas vezes antes.
Forçada a assumir a responsabilidade de reviver a família Qin tão jovem, ela teve que lidar com a bagunça que seu pai e seu avô deixaram, os parentes sanguessugas e as pessoas que queriam devorar a família Qin. Ela teve que esconder sua vulnerabilidade e revidar com punho de ferro.
Qin Ai sempre fora voluntariosa, fazendo o que bem entendia. Sua família, diferente de outras, não se opunha aos seus passatempos; eles a apoiavam.
Mas o destino fora cruel, e ela teve que desistir das coisas que amava, como tocar piano e correr.
Zuo Bian invadira sua vida, vendo através de sua fachada e reconhecendo quem ela era de verdade.
Depois de todos esses anos, ela não podia voltar e recomeçar, não podia se tornar uma pianista profissional ou uma corredora de carros.
O piano e as corridas só podiam ser hobbies agora. Mas, mesmo tendo tempo e não estando tão ocupada quanto antes, ela ignorara deliberadamente seus próprios desejos.
Foi Zuo Bian quem a ajudou a redescobrir aquelas paixões esquecidas. Qin Ai estava feliz por poder experimentar aqueles sentimentos novamente.
Nesse momento, ela ouviu Zuo Bian gemer suavemente. Ela pressionou o botão do abajur, e o quarto foi banhado de luz.
Zuo Bian abriu os olhos, o olhar ainda confuso. Ela sorriu antes mesmo de ver o rosto de Qin Ai. — Qin Ai, bom dia.
— Já não é mais de manhã, é noite.
— Hum? — Zuo Bian levou um momento para processar. Então ela viu as luzes no prédio do outro lado da rua. Não era de manhã, era noite.
Seu estômago roncou.
— Com fome? — Qin Ai perguntou, sua voz tingida de diversão.
Zuo Bian não se sentiu envergonhada. Ela assentiu naturalmente. — Hum, estou com fome.
— Vou fazer algo para você comer. — Qin Ai saiu da cama.
Zuo Bian esfregou o rosto, tentando acordar. Ela estava sóbria agora, mas ainda tinha dor de cabeça.
Se não fosse pela sopa que Qin Ai fizera, ela provavelmente ainda estaria sentindo-se tonta.
Olhando para as costas de Qin Ai enquanto ela ia para a cozinha, Zuo Bian disse em tom de desculpa: — Desculpe, Qin Ai, eu não deveria ter bebido tanto. Fiz você cuidar de mim.
Qin Ai virou-se para olhá-la. — Você é um pouco trabalhosa quando está bêbada, mas não me importo. Não tem muita comida sobrando na cozinha. Que tal macarrão para o jantar?
— Tudo bem. — Zuo Bian sorriu e assentiu, com o coração aquecido.
O macarrão foi feito rapidamente, o aroma preenchendo o pequeno apartamento. Zuo Bian sentiu-se ainda mais faminta.
***
*¹ Nota: “Manual da Chá Verde” (Green Tea Bitch/Handbook) é uma expressão comum em novelas chinesas para se referir a alguém que finge ser inocente e pura para manipular os outros.*