Capítulo 23
⁺˚⋆。°✩ Capítulo 23
O canto das cigarras batia alto em seus tímpanos. Maem maem, maem, maem. Ouvindo em silêncio os sons que ecoavam de todos os lados, Dojin encarou brevemente os campos abertos.
Quando era jovem, seu pai pegava gafanhotos e erguia a garrafa PET em que estavam presos, e sua mãe caía na gargalhada com a visão. O verão que ele passou com a família no interior depois do tratamento de Doyeon era a única força que permitia a Dojin viver o presente. Todas as suas memórias felizes estavam atadas ao passado.
A gente até assava e comia os gafanhotos que pegava… É totalmente nojento de pensar agora.
No interior, gafanhotos refogados eram uma espécie de iguaria de verão. Quando uma Doyeon enojada corria até ele, Dojin brincalhonamente colocava um galho dentro da garrafa PET para fazer os gafanhotos subirem para fora. Quando Doyeon finalmente saía correndo aos prantos, a mãe dele o repreendia gentilmente.
Pensar naquela época o fez se sentir um pouco melhor, e ele quis contar a Yoonyoung sobre os gafanhotos fritos. Era algo que poucas pessoas da idade dele teriam experimentado, então ele achou que pareceria novo para Yoonyoung também. Justo quando ele estava prestes a provocá-lo com o pensamento, Yoonyoung falou primeiro.
— Eu não os conheço, mas sinto que eles devem ter sido boas pessoas. Dizem que os filhos aprendem com os pais. A razão de você ser tão gentil e corajoso não é porque seus pais eram bondosos? Você deve sentir muita falta deles.
Como que nervoso só de trazer aquilo à tona, Yoonyoung falou lentamente enquanto observava Dojin.
Dojin nunca havia ouvido tais palavras de conforto na vida. Ele podia tê-las ouvido de passagem de adultos em algum momento.
Mas ele nunca as havia ouvido de um estranho que soubera de suas circunstâncias depois. Porque lidar com um assunto que nem a própria pessoa envolvida trazia à tona facilmente era algo muito desconfortável de se fazer. As pessoas geralmente só seguiam em frente ou ofereciam pena, elas não se aproximavam com tanta consideração.
— É realmente difícil quando você não consegue ver alguém de quem sente saudade.
Yoonyoung parou ali e ficou em silêncio. Então ele inclinou levemente a cabeça, avaliando a reação de Dojin.
— Desculpe se te chateei dizendo isso. Você só parecia solitário, Ahjussi…
Solitário? Eu?
Os olhos de Dojin se arregalaram como se ele tivesse sido atingido, e ele olhou para Yoonyoung. Os olhos castanhos puros que o encaravam diretamente eram sinceros e transparentes.
Era por isso que parecia que seus pensamentos internos estavam sendo lidos. Era estranho que Yoonyoung tivesse identificado com precisão o vazio oco que brevemente havia roçado Dojin. Porque o próprio Dojin nunca havia realmente pensado que estava solitário.
Eu tenho a Doyeon, e tenho meus tios, então como eu poderia estar solitário?
Incapaz de entender sua própria agitação, Dojin repetiu as palavras de sempre. Depois de murmurar aquilo, seu coração gradualmente se acalmou. Por algum motivo, parecia que ele não devia admitir estar solitário.
— Eu pareci daquele jeito? Você não acha que é só porque você é gentil, Sa Yoon-nim?
— …Não, é só… Você fica daquele jeito às vezes, Ahjussi. É porque você tem muito o que fazer sozinho? Acho que já ouvi que pessoas que só cuidam dos outros são solitárias. Você cuida tão bem da sua irmã.
Com cada palavra que Yoonyoung falava suavemente, o estômago de Dojin revirava. Momentos passados em que ele murmurava para si mesmo que estava bem porque tinha Doyeon, que não estava nem um pouco solitário, lampejaram. Parecia que o coração que ele havia construído com tanto cuidado estava desmoronando num instante.
A parede resistente vacilou com apenas um olhar de Yoonyoung, uma única palavra de conforto de Yoonyoung.
— Você faz eu não me sentir solitário, Ahjussi, então espero que você também possa ser assim. Enquanto eu estiver aqui, vou me endireitar pra que você não seja o único fazendo o cuidado.
Depois de habilmente mexer com o coração de uma pessoa, Yoonyoung rapidamente encontrou seu lugar de novo. Talvez ele desistisse rápido, mas Yoonyoung nunca importunava Dojin mais de uma vez.
— Eu seguro a sombrinha agora. Você vem segurando ela faz tempo.
Em vez disso, como se estivesse apenas observando Dojin, ele mais uma vez apontou uma parte na qual ele nem havia pensado.
— Me dá.
Uma mão delicada se estendeu e tocou o cabo da sombrinha que Dojin segurava. Dedos brancos tocaram o dorso de sua mão bronzeada, que segurava a parte arredondada do cabo de madeira. Ao contrário das mãos grossas e robustas de Dojin, as mãos de Yoonyoung eram macias e suaves, como seu rosto.
No momento em que o toque gentil o alcançou, uma onda quente de emoção surgiu no coração de Dojin. Um nó se formou em sua garganta.
— …Não, é meu trabalho. Nem está pesada.
— Mas você está segurando de um jeito que toda a sombra fica do meu lado.
Yoonyoung leu toda a consideração dada a ele. A sombrinha era estreita demais para dois homens de ombros largos, então ele já sabia e era grato pela sombra que Dojin havia deliberadamente criado ao inclinar a sombrinha em sua direção.
— Cresci no interior, então sou resistente ao sol escaldante e ao calor. Está tudo bem, sério.
Dojin foi deliberadamente teimoso, temendo que Yoonyoung notasse sua agitação. Diante disso, um Yoonyoung desanimado deu um passo para trás e pensou por um momento, então finalmente começou a abanar a mão gentilmente diante do rosto de Dojin.
— Então vou fazer uma brisa pra você.
Como que envergonhado e desajeitado com a alternativa que havia inventado, Yoonyoung enrugou levemente o nariz. Mas ele não parou de abanar. Sua mão branca e pálida esvoaçava diante dele, criando uma pequena brisa.
Dojin apertou os olhos. O sol batendo de cima era certamente forte; o calor subia em seu corpo, e era difícil manter os olhos abertos. O brilho era tão forte que ele não conseguia ver direito a mão de Yoonyoung esvoaçando diante dele.
— Sa Yoon-nim, você é…
Certa palavra estava na ponta da língua. Mas o próprio Dojin não conseguia descobrir como expressá-la.
Depois de ponderar por um longo tempo, Dojin viu que Yoonyoung havia parado, esperando que ele falasse, e soltou uma risada que era como um suspiro tonto.
— Você é mesmo como um velho.
Como… como uma pessoa pode crescer para ser tão gentil? Num lar onde ninguém cuidava dele, como ele floresceu tão lindamente?
Dojin pensou aquilo e sorriu abertamente. Yoonyoung, que vinha gentilmente abanando-o, arregalou os olhos diante da alfinetada repentina.
— …O que você disse?
— Abanar com a mão… e aquela coisa de se casar só de segurar as mãos, tem muita coisa em você que não é como os garotos de hoje em dia. Você é singularmente maduro entre os garotos que carregam mini ventiladores ou ventiladores de clipe pra celular.
— Ei… quando foi que eu disse que a gente ia se casar só de segurar as mãos?
— Verdade, você pode acabar se casando por acidente então. Você teria que se casar depois de ajudar um idoso na rua.
— Por que você fica me provocando, Ahjussi? Eu sou o seu empregador…!
Parecendo verdadeiramente injustiçado, Yoonyoung suplicou, os cantos dos olhos até ficando vermelhos.
Bom, essa era uma boa pergunta. Quando ele estava com Yoonyoung, era fácil brincar, e emoções que ele havia enterrado enquanto tentava se virar na vida vinham à tona.
Era um pouco diferente de provocar sua irmã, Doyeon. Provocar Doyeon era divertido, e provocar Yoonyoung era fofo. Um impulso continuava a surgir de dentro dele, querendo ver várias expressões florescerem naquele rosto bonito.
— Sim, sim, desculpe.
— Eu estava te abanando porque estava pensando em você, então por que você está me provocando? Eu não sou um velho.
— Claro que não. Você é um bebê, Sa Yoon-nim.
— Não, bebê de novo…
Enquanto provocava o irremediavelmente atrapalhado Yoonyoung, os dois chegaram ao mercadinho. Eles haviam chegado mais rápido do que o esperado, tendo caminhado enquanto batiam papo sobre isso e aquilo, mas o calor era inevitável, e gotas de suor haviam se formado em suas testas.
Vendo os dois aparecerem sob uma sombrinha, a moça do mercadinho sentada no banco de madeira os cumprimentou.
— Dojin, meu rapaz, chegou? Nossa, olha só você suando. O tempo tá dos brabos, e você sempre usando essa coisa preta?
A moça, que nunca parecia ter uma preocupação no mundo, calçou os chinelos e desceu do banco.
Havia bastante gente no banco, que ficava na sombra fresca de uma grande oliveira-do-paraíso. Da última vez, eram só idosos, mas hoje, uma mulher que aparentava uns quarenta anos e algumas jovens comiam melancia. Elas se pareciam o suficiente para serem família da moça do mercadinho.
— Ei, Yunae. Acho que são os rapazes bonitos de quem a sua tia estava falando.
A mulher de meia-idade exclamou surpresa assim que os viu. A moça do mercadinho interveio.
— Aquele pálido ali tem mais ou menos a idade da Yunae.
— Ai, é mesmo, mana. Ai, meu Deus, santo Deus. Ele é tão bonito. Mais bonito que uma celebridade.
Como que encontrando um espetáculo que nunca vira antes, a mulher desceu do banco primeiro. Fazendo um escândalo, ela veio até eles e, incapaz de conter suas exclamações, bateu palmas enquanto olhava de um lado para o outro entre Yoonyoung e Dojin.
— Ouvi dizer que vocês dois são de Seul? A gente mora em Seul também, só descemos de férias pra ver minha irmã. Em que parte vocês moram?
Era uma pergunta sem sentido, mas Dojin decidiu bloquear fundamentalmente qualquer conversa relacionada aos seus dados pessoais. A informação de Yoonyoung era um assunto delicado, e além disso, ele nem sabia onde Yoonyoung morava.
Era só isso? A verdade era que havia um monte de coisas que ele não sabia sobre Yoonyoung.
— Bom, eu moro em algum lugar na Província de Gyeonggi, mas não sei bem onde meu primo mora. Meu tio se mudou recentemente.
Enquanto dizia aquilo, ele deu uma olhada, preocupado que Yoonyoung pudesse falar primeiro, mas Yoonyoung encarava o banco de lábios firmemente selados. Para ser preciso, ele estava fuzilando as garotas que davam olhadelas furtivas em Dojin, mas a visão de Dojin estava bloqueada pela moça, então ele não conseguia ver direito. Depois de confirmar isso, Dojin ficou aliviado e continuou.
— Ele é muito tímido… então provavelmente não vai responder mesmo que a senhora fale com ele.
Não tenho certeza, mas… provavelmente. O Yoonyoung fica um pouco espinhoso até conhecer alguém.
— Ah, entendi. É porque tem gente demais como eu? Desculpa por ser tão repentina. É que eu nunca vi rapazes tão bonitos na vida.
A mulher era tão tagarela quanto a irmã, mas não era completamente sem consideração.
— Já que vocês estão aqui, comam uma melancia antes de ir. É super doce.
O olhar de Dojin caiu sobre a melancia. Fatiada em triângulos limpos e afiados, ela parecia refrescante só de ver. Um único olhar bastou para fazer sua boca salivar com o cheiro doce e fragrante da fruta vermelho-vivo.
Realmente parece deliciosa. Faz tempo que não como melancia.
Dojin desgostava de vegetais mas adorava frutas. No entanto, para alguém como ele, tanto carne quanto frutas eram luxos que ele raramente tinha a chance de aproveitar.
A última vez que ele comeu melancia, em particular, foi no verão retrasado. Seus tios não eram muito de comer frutas, então parecia desajeitado comprá-la só para ele comer em casa.
— Obrigado pela oferta, mas…
— Vamos comer e ir.
Sobressaltado pela súbita interjeição de Yoonyoung, Dojin virou a cabeça. Era porque, mesmo que Yoonyoung tivesse se aberto com ele, não era do tipo de baixar a guarda com estranhos logo de cara. Se perguntando o que havia dado nele, ele deu uma olhada, e uma voz agradável se seguiu.
— Quero comer melancia.
— Ai, meu Deus, como a voz dele pode ser tão gentil e bonita também. Come, vai, come. Coloquei outra melancia inteira na geladeira.
A mulher soltou um grito de admiração assim que Yoonyoung falou. Como ele secretamente vinha querendo a melancia ele mesmo, o rosto de Dojin se iluminou um pouco.
Um sorriso inconsciente no rosto, Dojin checou de novo. Como acabara de inventar a história de serem primos, ele deliberadamente se inclinou e sussurrou no ouvido de Yoonyoung.
— São estranhos, você está de boa com isso?
Era a primeira vez que ele sussurrava tão perto. A orelha clara de Yoonyoung ainda tinha um pouco de penugem e era de formato perfeito.
Enquanto ele fazia concha com a mão para sussurrar, o pomo de adão de Yoonyoung subiu e desceu notavelmente. Mas Dojin, distraído com a melancia, não viu.
— …Sim, vamos comer e ir.
— Então vamos sentar só por um momento. Ah, e estou dizendo isso por via das dúvidas, mas se elas perguntarem sobre dados pessoais, só invente alguma coisa. Desculpe por ter dito que você era meu primo antes.
— Eu não me importo com isso, mas… você tinha que dizer primo?
Yoonyoung fez bico como se algo o desagradasse e murmurou baixinho. Querendo agradar o fofo Sa Yoon-nim que havia permitido que ele comesse melancia, Dojin sussurrou ainda mais afetuosamente no ouvido dele.
— Então o que eu deveria ter dito? Vou ter em mente pra próxima vez.
— Esquece.
— Então na frente dos outros, você tem que me chamar de hyung, tá?
Dojin perguntou, meio de brincadeira, meio a sério. Afinal, seria um pouco estranho um primo chamar o primo mais velho de “Ahjussi”.
Yoonyoung escutou em silêncio enquanto Dojin sussurrava, e então, como se as palavras o tivessem assustado, ele se apressou para o banco. O lugar ao lado dele pareceu vazio conforme Yoonyoung rapidamente deixou a sombra da sombrinha.
Acho que o Sa Yoon-nim também gosta de melancia. Devo contar à madame.
Dojin deu uma risadinha e fechou a sombrinha. Conforme Yoonyoung se aproximava do banco, a moça rapidamente deu tapinhas no lugar ao lado da filha para ele sentar, então acenou para Dojin também.
Dojin estava empolgado por comer melancia, já que vinha sofrendo com o calor. Entre as frutas, ele gostava mais de melancia no verão e morango no inverno.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Bella donna&Faby&Othello