Capítulo 08
⁺˚⋆。°✩ Capítulo 08
Diziam que a onda de calor daquele verão seria brutal, e como se a noite fresca tivesse sido mentira, desde a manhã já era uma fornalha escaldante.
Ao voltar para a mansão, Dojin foi imediatamente atendido por um médico para tratar seus arranhões e então guiado, não para os aposentos dos funcionários que ele deveria usar, mas para um dos quartos dentro da mansão. Ele queria voltar, preocupado com a bagagem que trouxera e os itens do favor, mas aquilo permaneceu apenas um pensamento. Ele estava tão cansado que apagou assim que se lavou.
Ele acordou de manhã, quando a luz do sol que se filtrava pelas grades da janela ardia sobre ele. Enquanto abria os olhos piscando, uma pontada de dor o atravessou. A bochecha em que havia sido atingido no dia anterior ainda latejava, e o interior de sua boca estava cortado e ardendo. Se olhasse no espelho, tinha certeza de que veria uma visão patética, inchada ou roxa da noite para o dia.
— Ah… meu corpo inteiro está doendo…
Sinceramente, até Dojin ficou intrigado sobre por que seu corpo latejava tanto. Não era como se ele tivesse apanhado tão feio no dia anterior, e embora tivesse sido grave se sua cabeça tivesse sido pisoteada, ele havia se defendido rapidamente disso. Ele praticamente não tinha ferimentos reais, mas, estranhamente, seu corpo inteiro doía.
…Seria por causa do que aconteceu ontem?
Enquanto a sonolência lentamente se dissipava, a noite anterior se repetiu na mente de Dojin. O momento em que Yoonyoung havia gritado de raiva, e todos haviam congelado, incapazes de se mover.
Enquanto ele ruminava sobre o fenômeno que não podia ser explicado pelo senso comum, as palavras do homem de meia-idade — Alfa Dominante, Choque de Feromônios — vieram à mente.
Um Alfa Dominante. O que diabos era aquilo?
Ele ouviu dizer que o sistema de Traços havia sido estabelecido no exterior há muito tempo, mas na Coreia, era um fenômeno que só havia aparecido cerca de 80 anos atrás. O Traço não havia se espalhado pelo mundo simultaneamente, mas se manifestou de forma diferente em cada país. Países do Leste Asiático como a Coreia estavam no lado mais tardio, e ele ouvira que ainda havia países sem o Traço.
A razão exata pela qual a humanidade havia desenvolvido Traços além do sexo ainda estava sob investigação, mas nenhuma causa clara havia sido encontrada. Havia apenas inferências baseadas em pesquisas sobre hormônios ambientais ou razões evolutivas.
Como resultado, a Coreia e seus países vizinhos estavam num estágio em que a pesquisa sobre Traços estava apenas começando, e a maior parte da educação era baseada em conhecimento do exterior. Na época em que Dojin nasceu, os Traços já eram tidos como certos, então ele os havia aceitado como uma parte natural da vida.
Mas ele não tinha memória de jamais ter ouvido falar de um Alfa Dominante durante o primário, o ginásio ou o ensino médio. Alfa, Beta, Ômega. Ele havia sido ensinado que aquilo era a totalidade do sistema de Traços.
Ele procurou o celular para pesquisar, então de repente se lembrou de que o havia perdido no local da briga no dia anterior. Era mais do que natural que ele tivesse deixado cair o celular enquanto rolava e brigava.
Ah, que droga. Ele não tinha dinheiro para comprar um celular novo, e o pensamento das mensagens que Doyeon devia ter mandado o fez se levantar às pressas. Ele havia dormido sem trocar de roupa e, justo quando estava prestes a sair disparado pela porta, ouviu uma batida.
— Sr. Jin Dojin, o senhor está acordado?
Era uma voz familiar. O homem de meia-idade de quem ele já havia ouvido mais do que o suficiente na noite anterior.
— …Sim.
— Então, se não se importar, posso entrar?
— Não, eu vou sair.
De qualquer forma, não era seu quarto, então Dojin abriu a porta com força. Um homem num terno de verão elegante estava ali com um sorriso radiante. Vendo-o à luz do dia, ele parecia ainda mais uma pessoa gentil saída de um livro didático. Embora o que houvesse por dentro fosse tudo menos isso.
— Descansou bem ontem? Você ganhou um arranhão nesse rosto bonito.
Dojin se lembrou da sensação de inquietação que vinha sentindo. O homem estava sendo excessivamente educado. Com um olhar cauteloso, Dojin fez um pedido ao homem.
— Por favor, fale à vontade, Chefe.
Quando ele proferiu o título que havia escutado, o homem soltou uma gargalhada.
— Estou fazendo isso porque me sinto mal por todos os erros que cometi ontem, então não se importe comigo. Você deve estar com fome, então vim mostrar onde tomar o café da manhã. O refeitório fica no segundo andar.
— …Ãh, o senhor não precisa fazer tudo isso. Eu vou aos aposentos e pego algo por conta própria.
A julgar pelas palavras do homem, parecia que ele não havia sido demitido. Ele checou discretamente o relógio; eram 10 da manhã. Parecia que ele já estava bem e verdadeiramente atrasado, e a preocupação começou a se insinuar. Naquele momento, o homem disse algo inesperado.
— Não, a partir de hoje, Sr. Dojin, você vai ficar ao lado do Sa Yoon-nim.
Diante da ordem repentina, Dojin não conseguiu controlar a expressão. Antes de dormir, ele havia considerado várias coisas que poderiam acontecer naquele dia, mas nunca havia imaginado o que acabou de ouvir.
— Não sei se sou qualificado para isso. Como o senhor sabe, sou um substituto, então não tenho as habilidades para esse tipo de proteção pessoal.
Não era que ele desgostasse de Yoonyoung, mas Dojin não queria se envolver em mais assuntos problemáticos. Depois de uma boa noite de sono, sua cabeça havia clareado. Ele estava sentindo agudamente que havia ultrapassado seus limites no dia anterior.
Embora tivesse conseguido revidar de alguma forma, ele havia enfrentado o momento mais perigoso de sua vida. Se Yoonyoung não tivesse intervindo, ele poderia ter sido esfaqueado, e mesmo que tivesse fugido, não havia como pessoas daquele calibre não conseguirem encontrá-lo.
E se Doyeon ou seus tios fossem prejudicados? Ele podia lidar com estar em perigo ele mesmo, mas não podia deixar sua família se meter em apuros.
Então, de agora em diante, ele deixaria as coisas como estavam, como sempre fazia, e estava determinado a nunca mais ser um enxerido. Se dependesse dele, largaria o emprego, mas largar no meio do trabalho também criaria problemas, então ele só queria fazer o que originalmente deveria fazer.
Será que eu deveria ter só fingido não ver nada?
Dojin pensou brevemente, voltando ao começo de tudo, que talvez tivesse sido mais vantajoso ter fingido não ver Yoonyoung mesmo depois de tê-lo avistado.
Mas então, a lembrança das pequenas coisas que aconteceram depois que ele pegou Yoonyoung, as palavras que o garoto deixara escapar na noite anterior, e o olhar triste que ele vira no carro trouxeram uma pontada de culpa. Ele se sentiu excepcionalmente egoísta por se arrepender de ter ajudado o garoto.
Ugh, não. Não vamos remoer o que já passou. No fim das contas, nada de grave aconteceu, certo?
Tendo chegado a uma conclusão, Dojin abaixou levemente a cabeça, evitando o olhar do homem de meia-idade. O homem, ao ouvir a recusa de Dojin, ficou em silêncio por alguns segundos antes de perguntar suavemente.
— Qual é a sua diária agora, Sr. Dojin? Uns 300 mil wones? Acho que mandei contratarem alguém nessa faixa.
Diante da menção de dinheiro, Dojin teve um sobressalto e ergueu a cabeça. O homem de meia-idade sorriu abertamente para ele.
— Vou dobrar para você, então fique ao lado do Sa Yoon-nim. É na verdade mais fácil que o seu trabalho original. É claro que haverá uma troca de turno à noite, e você não terá que ficar de pé lá fora o dia inteiro; só precisa ficar perto do Sa Yoon-nim lá dentro. Quando ele sair, outro pessoal será naturalmente designado, então você não terá que protegê-lo sozinho.
As condições que o homem oferecia eram maldosamente tentadoras. Não ter que sair no calor era uma coisa, mas acima de tudo, o dinheiro o balançou.
Uma diária de 600 mil wones seria mais de 50 milhões em três meses. Aquele dinheiro seria mais do que suficiente para cobrir a mensalidade e as taxas universitárias de Doyeon. Uma vez resolvido aquilo, Dojin não teria que se desdobrar por qualquer trabalho que conseguisse, de trabalho braçal a serviço de segurança.
Dinheiro é tudo neste mundo. Pode haver valores maiores, mas sem dinheiro, você não consegue viver.
Diante daquela verdade óbvia, Dojin ficou seriamente abalado. Para alguém que havia vivido a vida toda na pobreza, não havia tentação maior do que uma grande quantia de dinheiro.
Mas… não faz sentido se eu morrer. Qual é o sentido se eu bater as botas antes mesmo de conseguir o dinheiro?
Dojin precisava de uma rede de segurança. Yoonyoung havia usado um truque estranho no dia anterior, mas aquilo fora um golpe de sorte único. Ele não queria depender de um garoto, e depender do poder de outra pessoa só o deixaria mais ansioso.
— O senhor não pode pedir a outra pessoa em vez de a mim?
Dojin decidiu testar o quão útil ele era para o homem. Na verdade, ele também se perguntava por que, dentre tantas pessoas, ele havia sido o escolhido.
— Bem, dentre o pessoal atualmente empregado, o Sr. Jin Dojin é o mais próximo em idade do Sa Yoon-nim. Não há muito o que fazer no interior, e o Sa Yoon-nim não gosta particularmente de coisas como computadores ou consoles de videogame, então parece uma boa ideia ter um par de idade ao lado dele. Mente sã, corpo são, você não concorda?
— Então que tal trazer alguém parecido…?
Como se percebesse que Dojin estava testando-o, o sorriso do homem esmaeceu levemente. Sem o sorriso, os olhos do homem de meia-idade eram de um preto profundo, dando a sensação de que podiam ver através de uma pessoa.
— Sr. Jin Dojin.
— Sim.
— O que você viu ontem é algo que apenas um número muito pequeno de pessoas deve saber. Ao menos até que o Sa Yoon-nim desperte plenamente e reine sobre os outros. O Presidente não deseja que mais ninguém saiba sobre o Sa Yoon-nim.
O sorriso voltou ao rosto do homem.
— Então, diga suas condições. Contanto que não sejam excessivas, eu as concederei.
Ele não sabia a razão exata, mas o homem queria que Dojin ficasse. O que ele havia dito antes era o raciocínio dele, mas havia claramente outra razão além da superficial. Nesse caso, ele provavelmente vai aceitar minhas exigências até certo ponto.
— Aquele tal de Kim Seok-ju e o senhor, Chefe, vocês dois passam um ar de que não se importariam se alguém morresse.
Diante das palavras de Dojin, o homem engoliu uma risada. Não foi uma negação nem uma afirmação, mas um sinal claro de afirmação.
— Não quero morrer. Espero que algo como o de ontem não aconteça de novo, e quero que o senhor me deixe ir limpo quando este trabalho acabar. Tenho certeza de que seria fácil para o senhor se livrar de alguém como eu, se quisesse. Ainda assim, preciso de uma promessa.
O homem ouviu em silêncio as palavras de Dojin antes de assentir. Então ele olhou para cima e chamou.
— Madame Ju, poderia trazer o terno que pedi mais cedo?
De longe, um “Sim” ecoou. Enquanto Dojin observava franzindo a testa, o homem sorriu radiante. Aquele sorriso parecia ser um hábito. Como que para esconder o que ele guardava por dentro. Era como uma máscara que ele não conseguia tirar.
— O Sa Yoon-nim não gostaria disso de qualquer forma. Você vai sair daqui com as suas próprias pernas, então estarei em suas mãos durante o verão.
— Por favor, deposite a diária todos os dias.
— Haha.
O homem assentiu. Então estendeu a mão a Dojin.
— Eu sou Park Hyun-bae. Você pode me chamar de Chefe Park, ou Sr. Park. O que for mais confortável para você.
— …Eu sou Jin Dojin.
Dojin apertou a mão de Park Hyun-bae. Sentindo-se inquieto com a bravata que acabara de demonstrar, ele curvou a cintura respeitosamente. A risada que ressoou acima de sua cabeça era tão morna quanto a mão de Hyun-bae — nem fria, nem quente.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Bella donna&Faby&Othello