Capítulo 03
⁺˚⋆。°✩ Capítulo 03
O vilarejo do interior era notavelmente silencioso à noite. Uma larga divisa de arrozal se estendia de um lado, e uma fileira de árvores ficava do outro. As casas velhas, espalhadas e as montanhas arredondadas que cercavam a área davam uma sensação acolhedora. O cheiro de esterco de vaca que vinha de um pequeno estábulo espetou seu nariz, exatamente como a casa da sua avó materna da infância.
Ele deve ter caminhado por uns trinta minutos. O mercadinho deve estar logo mais adiante, pensou Dojin, os olhos varrendo o caminho, quando alguém entrou em seu campo de visão.
— Hã?
Um rapaz de pele clara, que à primeira vista não parecia ter crescido num vilarejo do interior, era visível mais adiante. Um pressentimento ruim tomou conta de Dojin, e ele caminhou em direção ao rapaz, abafando os passos. Provavelmente é só alguma outra criança visitando a avó, pensou, mas conforme se aproximava lentamente, ele conseguiu ver claramente o rosto do rapaz.
— …Sa Yoon-nim?
Ele havia pensado, “de jeito nenhum, não pode ser”, mas ali, parado imóvel numa bifurcação da estrada, estava o jovem mestre que ele vira durante o dia. O rapaz, que estava olhando para frente com o olhar vazio como uma criança perdida, agora tinha uma expressão cautelosa no rosto. Virou a cabeça bruscamente e, ao ver Dojin em seu terno, franziu a testa e saiu correndo.
Dojin ficou momentaneamente perplexo com a situação inesperada. Ele nem devia falar com o rapaz sem permissão, então se perguntou se tinha o direito de persegui-lo, mas era óbvio que o rapaz havia fugido de casa. Uma dor de cabeça já começava a surgir enquanto ele se perguntava como diabos o rapaz havia conseguido escapar de uma segurança tão rígida. Afinal, seriam eles a levar a bronca.
Mas isso era um problema à parte.
— Sa Yoon-nim, espere um momento!
Dojin também começou a correr, com o pressentimento de que estaria completamente ferrado se o perdesse. O esporte que ele praticava era bem diferente de corrida, mas Dojin era do tipo mais leve e naturalmente rápido de pés. Ele até havia sido convidado para entrar no time de atletismo, então diminuir a distância foi coisa rápida.
O jovem mestre era um corredor muito bom. Embora menor que ele, era bastante alto, com pernas longas, então sua velocidade era surpreendentemente decente.
Mas ele não era páreo para Dojin. Conforme ele chegava perto o suficiente para ser pego, o rapaz não parava de olhar para trás com um rosto ansioso. Perseguindo-o, os olhos de Dojin se arregalaram.
— Espere! Na frente, olhe para a frente!
Talvez porque o som da perseguição fosse tão ameaçador, o rapaz, que vinha correndo olhando quase inteiramente para trás, desviou do caminho e entrou na divisa do arrozal. Justo quando Dojin gritou, o rapaz olhou para a frente, mas sem tempo de parar, perdeu o equilíbrio e caiu.
O rapaz levou um belo tombo. Suas roupas ficaram instantaneamente encharcadas de água lamacenta enquanto ele caía no arrozal onde brotos verdes de arroz cresciam. Um alto som de água ecoou, e as plantas de arroz foram esmagadas no formato de uma pessoa.
Dojin gritou internamente e correu até ele. O desastre que estava por vir era uma coisa, mas a preocupação de saber se o garoto estava machucado teve prioridade.
— Você está bem? Está machucado?
Esquecendo seu posto como acompanhante, Dojin se precipitou dentro do arrozal. Seus sapatos sociais pretos pisaram na água.
Atravessando pela água que batia no tornozelo, ele se aproximou do rapaz caído e viu suas roupas arruinadas. Seu jeans e sua camisa branca estavam ambos encharcados de água lamacenta, e respingos de lama pontilhavam seu rosto pálido.
O rapaz, apoiando ambas as mãos no chão, levantou-se lentamente, de cabeça baixa e em silêncio. Aquele não era um estado adequado para um jovem mestre criado com tanto esmero.
— Nossa, você está uma bagunça. Aqui, segure minha mão. Vou te ajudar a levantar.
Vendo seu silêncio, Dojin imaginou que ele devia estar sentindo muita dor e se abaixou, estendendo a mão. Diante disso, o rapaz silencioso lentamente ergueu a cabeça.
Sob o céu que começava a escurecer, os olhos do rapaz reluziram ferozmente. Um dourado como o do pôr do sol tremeluzia em seus olhos castanhos, que antes pareciam tão gentis, e uma voz assassina fluiu para fora.
— Por que diabos você está me seguindo? E quem disse que você podia largar as formalidades?
O tom não era apenas espinhoso, mas francamente grosseiro, e Dojin sentiu um lampejo de raiva. Ele não queria ser preconceituoso, mas, sinceramente, era típico de um filho rico de Seul. Garotos que cresciam tendo tudo e não viam as outras pessoas como gente. Era uma cena que ele já vira tantas vezes que lhe dava enjoo.
— Minhas desculpas. Mas é perigoso para você estar sozinho a esta hora.
Dojin rapidamente abaixou a cabeça em desculpas e ofereceu a mão novamente. O rapaz encarou a mão elegantemente estendida e a bateu para longe com violência. Um tapa seco ecoou, e o calor irrompeu no dorso da mão de Dojin.
— O que quer que eu faça não é da sua conta…
O rapaz, que vinha recusando Dojin com raiva, de repente parou de falar. Seus olhos, arregalados de alarme, dispararam para baixo, em direção à sua perna. Um caroço longo e marrom-escuro estava grudado em seu tornozelo branco.
Uau… uma sanguessuga.
Ele as via com frequência quando criança, mas fazia muito tempo que não cruzava com uma. A sensação de nostalgia o invadiu. Houve uma época em que ele pegava e brincava com gafanhotos, até fritava e comia, então Dojin estava acostumado com esse tipo de coisa. Depois de observar a sanguessuga por um momento com uma sensação de admiração, Dojin percebeu que o rapaz havia congelado por causa dela.
Um sorriso se espalhou internamente em seu rosto. Por mais distante e espinhoso que você aja, você ainda é só um garoto. Ele pensou que aquele era o momento perfeito para usar a expressão “menino da cidade” e deu um passo sutil para trás.
— Uau, é uma sanguessuga. Como uma tão grande foi grudar no tornozelo do Sa Yoon-nim? Vai doer se ela chupar seu sangue.
Um sobressalto. O rosto já pálido do rapaz ficou um tom mais branco, e ele ergueu o olhar para Dojin. Diferente de antes, seus olhos, agora cheios de medo, o fitavam desesperadamente.
Ele estava prestes a debochar internamente, bem-feito pra esse pirralho, mas o rosto do rapaz ao olhá-lo era tão belo e digno de pena que o coração de Dojin amoleceu num instante.
Droga, ele é absurdamente bonito. Com um rosto desses, ele conseguiria se safar de qualquer coisa.
A boca do rapaz abria e fechava, mas nenhum som saía. Parecia que ele sentia que a sanguessuga faria algo com ele no momento em que falasse. Quando a umidade finalmente começou a se acumular em seus olhos castanhos, Dojin parou de provocá-lo.
— Quer que eu tire isso pra você?
Antes mesmo que a pergunta terminasse, o rapaz assentiu com a cabeça. A forma como ele balançava a cabeça desesperadamente, com os lábios firmemente pressionados, mostrava o quanto ele detestava aquilo.
Dojin rapidamente se abaixou para examinar o tornozelo do rapaz. O caroço marrom-escuro era bem grande. Dizem que é difícil ver essas coisas hoje em dia, mas esta aqui conseguiu sobreviver bem. Com esse pensamento, ele estendeu a mão.
— Dói?
— …Não… senhor.
Uma resposta pequena e desajeitadamente formal escorreu do rapaz.
Então ela ainda não deve estar chupando seu sangue. Aproveitando a oportunidade, Dojin rapidamente agarrou a sanguessuga. Um arrepio instintivo percorreu sua espinha enquanto tocava a massa escorregadia e contorcida.
Ele cuidadosamente desgrudou a sanguessuga e a jogou na água com a força exata. Não havia necessidade de matá-la, então ele a mandou cuidadosamente para bem, bem longe.
— Pronto, já foi.
Dojin encontrou os olhos do rapaz e sorriu abertamente. Seus belos olhos se curvaram gentilmente, e seus lábios finos formaram um sorriso descontraído. O rapaz, que estivera encarando o rosto de Dojin, que sorria radiante, lentamente abaixou a cabeça. Então, ele murmurou, quase inaudível:
— Me dê carona nas costas.
O sussurro foi tão fraco que Dojin não ouviu direito. Ele inclinou a cabeça e aproximou o rosto um pouco mais.
— Hã?
Ele só estava tentando ouvir melhor, mas a distância entre eles se fechou abruptamente. Os olhos castanhos que o fitavam de forma emburrada se arregalaram.
Ao ver os longos cílios piscando de surpresa, seu primeiro pensamento foi que ele era fofo. Ele era grosseiro e espinhoso, mas sua covardia era igualzinha à da sua irmã mais nova. Embora Doyeon fosse mais do tipo que gritava e entrava em pânico.
— Eu disse, me dê carona nas costas. Não quero pisar na água lamacenta.
O pensamento de sua irmã, que ele não via há dias, sem que percebesse, havia suavizado sua expressão, mas a voz cortante do rapaz o trouxe de volta à realidade. Dojin piscou, e então deixou escapar uma risadinha. Ele era um garoto e tanto, exigindo uma carona nas costas de braços estendidos enquanto ainda agia de forma espinhosa. Ele provavelmente tem mais medo de pisar em insetos do que na água.
— Sim, Sa Yoon-nim.
Dojin virou-se de costas para ele e se agachou. Embora tivesse pedido por conta própria, o rapaz pareceu hesitar, fazendo uma pausa de alguns segundos antes de finalmente, lentamente, apoiar o corpo contra as costas de Dojin. Ao contrário de sua aparência delicada, o peso em suas costas era considerável. Foi inesperado.
Não era um peso que sobrecarregava Dojin, que conseguia arremessar caras de porte maior que o dele, mas ele achou estranho como um corpo que não parecia ter muito músculo podia pesar tanto. Pensando bem, os ombros dele são bem largos e ele também é alto.
Com esse pensamento, Dojin primeiro saiu do arrozal. “Uh-rá”, ele grunhiu ao pisar na estrada, o sol se pondo bem baixo.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Bella donna&Faby&Othello