Capítulo 02
ᥫ᭡. Capítulo 02
Talvez por causa do som ameaçador da perseguição, o rapaz, que corria olhando quase inteiramente para trás, desviou do caminho e entrou na divisa do arrozal. No momento em que Dojin gritou, ele olhou para a frente, mas não teve tempo de parar e acabou perdendo o equilíbrio e levando um tombo feio.
Suas roupas ficaram instantaneamente encharcadas de água lamacenta enquanto ele caía no arrozal, onde brotos verdes de arroz cresciam. Um som alto de água ecoou, e as plantas de arroz foram esmagadas no formato de uma pessoa.
Dojin gritou internamente e correu até ele. O desastre que estava por vir era uma coisa, mas a preocupação de saber se o garoto estava machucado era prioridade.
— Você está bem? Está machucado?
Esquecendo seu posto como acompanhante, Dojin se apressou em entrar no arrozal. Seus sapatos sociais pretos afundaram na água.
Vadeando pela água, que batia no tornozelo, ele se aproximou do rapaz caído e viu suas roupas arruinadas. O jeans e a camisa branca estavam ambos encharcados de água lamacenta, e respingos de lama pontilhavam seu rosto pálido.
O rapaz, apoiando as mãos no chão, levantou-se lentamente, de cabeça baixa e em silêncio. Aquele não era um estado adequado para um jovem senhor criado com tanto esmero.
— Nossa, você está uma bagunça! Aqui, segure minha mão. Vou te ajudar a levantar.
Notando seu silêncio, Dojin imaginou que ele devia estar sentindo muita dor e se abaixou, estendendo a mão. Diante disso, o rapaz silencioso ergueu lentamente a cabeça.
Sob o céu que começava a escurecer, os olhos do rapaz brilharam ferozmente. Um dourado como o do pôr do sol brilhou em seus olhos castanhos, que antes pareciam tão gentis, e uma voz assassina fluiu para fora.
— Por que diabos você está me seguindo? E quem disse que você podia largar as formalidades?
O tom não era apenas espinhoso, mas francamente grosseiro, e Dojin sentiu um lampejo de raiva. Ele não queria ser preconceituoso, mas, sinceramente, aquilo era típico de um filho rico de Seul. Garotos que crescem tendo tudo e não enxergam as outras pessoas como gente. Era uma cena que ele já viu tantas vezes que lhe dava enjoo.
— Minhas desculpas. Mas é perigoso para você estar sozinho a esta hora.
Dojin rapidamente abaixou a cabeça em desculpas e ofereceu a mão novamente. O rapaz encarou a mão elegantemente estendida e a bateu para longe com violência. Um tapa seco ecoou, e o calor irrompeu no dorso da mão de Dojin.
— O que quer que eu faça não é da sua conta…
O rapaz, que vinha recusando Dojin com raiva, de repente parou de falar. Seus olhos, arregalados de alarme, dispararam para baixo, em direção à sua perna. Um caroço longo e marrom-escuro estava grudado em seu tornozelo branco.
“Uau… uma sanguessuga.”
Ele as via com frequência quando criança, mas fazia muito tempo que não cruzava com uma. A sensação de nostalgia o invadiu. Houve uma época em que ele pegava e brincava com gafanhotos, até fritava e comia, então Dojin estava acostumado com esse tipo de coisa. Depois de observar a sanguessuga por um momento, com uma sensação de admiração, Dojin percebeu que o rapaz havia congelado por causa dela.
Um sorriso se espalhou internamente em seu rosto. “Por mais distante e espinhoso que você aja, você ainda é só um garoto.” Ele pensou que aquele era o momento perfeito para usar a expressão “menino da cidade” e deu um passo sutil para trás.
— Uau, é uma sanguessuga. Como uma tão grande grudou no tornozelo do Sayoon-nim? Vai doer se ela chupar seu sangue.
Um sobressalto. O rosto já pálido do rapaz ficou ainda mais branco, e ele ergueu o olhar para Dojin. Diferente de antes, seus olhos, agora cheios de medo, o fitavam desesperadamente.
Ele estava prestes a debochar internamente, “bem-feito pra esse pirralho”, mas o rosto do rapaz, ao olhá-lo, era tão belo e digno de pena que seu coração amoleceu num instante.
“Droga, ele é absurdamente bonito! Com um rosto desses, conseguiria se safar de qualquer coisa.”
A boca do rapaz abria e fechava, mas nenhum som saía. Ele parecia sentir que a sanguessuga faria algo com ele no momento em que falasse. Quando a umidade finalmente começou a se acumular em seus olhos castanhos, Dojin parou de provocá-lo.
— Quer que eu tire isso pra você?
Antes mesmo que a pergunta terminasse, o rapaz assentiu com a cabeça. A forma como ele balançava a cabeça, desesperado, com os lábios firmemente pressionados, mostrava o quanto detestava aquilo.
Dojin se abaixou rapidamente para examinar o tornozelo do rapaz. O caroço marrom-escuro era bem grande. “Dizem que é difícil ver essas coisas hoje em dia, mas esta aqui conseguiu sobreviver bem.” Com esse pensamento, ele estendeu a mão.
— Dói?
— …Não… senhor.
Uma resposta pequena e desajeitadamente formal escorreu do rapaz.
“Então ela ainda não deve estar chupando seu sangue.” Aproveitando a oportunidade, Dojin agarrou rapidamente a sanguessuga. Um arrepio instintivo percorreu sua espinha enquanto tocava a massa escorregadia e contorcida.
Ele desgrudou cuidadosamente a sanguessuga e a jogou na água com a força exata. Não havia necessidade de matá-la, então ele a mandou cuidadosamente para bem, bem longe.
— Pronto, já foi.
Dojin encontrou os olhos do rapaz e sorriu abertamente. Seus belos olhos se curvaram gentilmente, e seus lábios finos formaram um sorriso descontraído. O rapaz, encarava o rosto de Dojin, que sorria radiante, e abaixou a cabeça lentamente. Então, ele murmurou, quase inaudível:
— Me dê carona nas costas.
O sussurro foi tão fraco que Dojin não ouviu direito. Ele inclinou a cabeça e aproximou o rosto um pouco mais.
— Hã?
Só estava tentando ouvir melhor, mas a distância entre eles se fechou abruptamente. Os olhos castanhos que o fitavam de forma emburrada se arregalaram.
Ao ver os longos cílios piscando de surpresa, seu primeiro pensamento foi que o garoto era fofo. Ele era grosseiro e espinhoso, mas sua covardia era igualzinha à da sua irmã mais nova. Embora Doyeon fosse mais do tipo que gritava e entrava em pânico.
— Eu disse, me dê carona nas costas. Não quero pisar na água lamacenta.
Sem que percebesse, o pensamento de sua irmã, que ele não via há dias, havia suavizado sua expressão, mas a voz cortante do rapaz o trouxe de volta à realidade. Dojin piscou, e então deixou escapar uma risadinha. Ele era um garoto e tanto, exigindo uma carona nas costas com os braços estendidos, enquanto ainda agia de forma espinhosa. Provavelmente tem mais medo de pisar em insetos do que na água.
— Sim, Sayoon-nim.
Dojin virou-se de costas para ele e se agachou. Embora tenha pedido por conta própria, o rapaz pareceu hesitar, fazendo uma pausa de alguns segundos antes de, lentamente, apoiar o corpo contra as costas de Dojin. Ao contrário de sua aparência delicada, o peso em suas costas era considerável. Foi até inesperado.
Não era um peso que sobrecarregava Dojin, que conseguia arremessar caras de porte melhor que o dele, mas achou estranho como um corpo que não parecia ter muitos músculos podia pesar tanto. “Pensando bem, os ombros dele são bem largos e ele também é alto.”
Com esse pensamento, Dojin saiu primeiro do arrozal. “Hngh”, ele grunhiu ao pisar na estrada, com o sol se pondo baixo no horizonte.
Estava escurecendo, então decidiu abandonar o favor e voltar para casa primeiro. Numa estrada sem um único poste de luz decente, a visibilidade seria difícil assim que escurecesse.
— Então, vamos para a residência por enquanto. Não sei o quão gravemente você está machucado. Devíamos chamar um médico também. Tem um de plantão, certo?
— …Não quero. Não vou.
— Como?
— Aonde você ia? Estava indo a algum lugar antes de me encontrar.
— Bem…
Dojin hesitou. Tudo tinha acontecido tão de repente que ele havia se esquecido da gravidade da situação, mas, agora que voltara a si, não era hora de enrolar. No fim das contas, aquilo não era um caso em que a pessoa que ele deveria proteger estava fugindo?
“Quem diabos estava de vigia que não conseguia nem ficar de olho num garoto doente do ensino médio? Eles pareciam tão intimidadores.”
De qualquer forma, se fossem uma equipe de segurança minimamente eficiente, a esta altura já teriam percebido que o garoto sumiu. Prolongar isso por mais tempo só colocaria todos em apuros. É claro que o procedimento correto era levá-lo de volta.
— Eu estava a caminho do mercadinho. Estava fazendo um favor.
— Então vamos ao mercadinho e depois voltamos.
— Eu adoraria, mas todos vão ficar preocupados. Está ficando tarde, então que tal voltarmos? Podemos mandar alguém comprar o que você quiser amanhã.
O rapaz não respondeu por um tempo. Sentindo o peito subir e descer contra suas costas, Dojin esperou pela resposta. Um batimento cardíaco instável pulsava de onde eles se tocavam.
— …Não há ninguém que se preocupe comigo. — Sussurrou o rapaz, quebrando o silêncio.
Não era a atitude espinhosa ou cortante que ele havia demonstrado até então, mas uma voz tão seca e sem emoção que soava quebradiça.
— Todos são pessoas que trabalham por dinheiro, iguaizinhas a você, e meus desejos não são da conta deles. É uma contradição pessoas que nem sabem o meu nome se preocuparem comigo. Eu sou só um objeto.
Dojin congelou diante da explicação inesperadamente impactante. Eram palavras tristes demais para vir de um estudante do ensino médio, quatro ou cinco anos mais novo que ele.
O rapaz parecia levar uma vida melhor do que qualquer um poderia desejar, mas cada um tem seus próprios parâmetros. As circunstâncias que levaram o jovem garoto a pensar daquela forma pesaram em sua mente. Poderia ser o que chamavam de angústia adolescente, ou ele podia ser genuinamente infeliz.
Mas… os assuntos pessoais do rapaz não eram da sua conta. Se de qualquer forma eles tinham que voltar, era melhor que se apressassem. As roupas dele estavam molhadas e poderia ser perigoso assim que escurecesse.
Era digno de pena que ele tivesse chegado a pensar daquela forma, mas, no fim das contas, estava fazendo birra. Várias pessoas teriam de se responsabilizar por essa aventura passageira.
Por mais bonito que fosse, seu rosto não iria persuadir Dojin. Ele queria durar três meses sem causar mais problemas. Um momento de hesitação poderia levar o dinheiro da mensalidade de Doyeon a virar fumaça.
— Desculpe. Eu não tinha me dado conta disso. Mas você ainda tem que voltar.
— Me põe no chão.
— Como?
— Eu disse: “Me põe no chão”. Vou andar com as minhas próprias pernas.
Com os sentimentos feridos pela recusa de Dojin, o rapaz empurrou os ombros que o seguravam e sussurrou em voz baixa.
“Fazer birra não vai te levar a lugar nenhum. Seus sentimentos estão feridos, não os meus.” Dojin não entrou em pânico e rapidamente soltou os braços que apoiavam o rapaz. E… no momento em que seus pés tocaram o chão, o garoto começou a correr, antes que Dojin pudesse agarrá-lo. Ao ouvir o som dos passos apressados, ele ergueu a cabeça bruscamente e o viu correndo em direção ao mercadinho.
— Sayoon-nim!
“Uau, isso é loucura.”
Dessa vez, Dojin saiu imediatamente no encalço do rapaz, que corria sem olhar uma única vez para trás. O repentino jogo de pega-pega só terminou quando Dojin finalmente o alcançou e agarrou o ombro do rapaz. A essa altura, eles já estavam perto o suficiente para ver o mercadinho mais adiante.
Dojin estava sem fôlego, seu peito arfava enquanto ele apertava mais a mão que detinha o rapaz. Era um ato desrespeitoso, mas ele não podia deixá-lo fugir de novo. Se o soltasse agora, não tinha como saber para onde ele fugiria.
— Por favor, vamos voltar. As coisas só vão piorar se demorarmos. Não há postes de luz, então logo ficará escuro demais para enxergar. As estradas do interior são perigosas à noite.
Era uma pena que tivessem ido até o mercadinho, mas Dojin queria voltar o quanto antes. Sua súplica pareceu funcionar, pois o rapaz parou de se debater e se virou. Ele parecia menos cansado que Dojin, o que fazia alguém se perguntar se era mesmo um garoto doente. No entanto, sua expressão estava longe de ser boa.
— …Eu… — Uma tristeza que beirava o desespero turvou seus olhos. O rapaz, com a cabeça pateticamente baixa, murmurou baixinho: — Preciso de permissão só para sair?
Embora estivesse falando com Dojin, não era muito diferente de um monólogo.
— Se era para ser assim, eu preferia que eles simplesmente me deixassem morrer…
O sussurro que se seguiu era algo que Dojin não teria ouvido se não fosse por sua boa audição. Ele vinha tentando ao máximo ignorar os murmúrios do rapaz, mas aquela frase era difícil de ignorar. A palavra “morte” tocou uma corda em seu coração.
Para Dojin, a vida era uma luta. Começando por ele mesmo, que lutava para sobreviver de algum jeito, cada dia era precioso para sua mãe e seu pai, que tinham vontade de viver. Mas aquele garoto, tão jovem, exibia uma expressão de quem havia desistido da vida.
Para descartar a hipótese de que se tratava da chamada “síndrome do oitavo ano¹”, a expressão do rapaz era vazia demais. Um momento atrás, quando estava fugindo, ele estava animado o suficiente, mas, depois de ser pego por Dojin, ficou conformado.
“Por que ele ficaria tão desapontado por passar alguns minutos no mercadinho?”
Depois de ouvir algo assim, tornou-se difícil ignorar o rapaz, como havia feito antes. Seu rosto estava tão sombrio que Dojin temeu que ele pudesse realmente cometer suicídio se o arrastasse de volta. Então, no fim das contas, para evitar um desastre maior, Dojin cedeu.
— …Hmm. Sayoon-nim?
Ele chamou com cautela, mas não houve resposta. Ele apenas ficou parado ali com olhos mortos. Era um contraste gritante com sua própria irmã, cujos dias eram alegres e cheios de energia. Percebendo que estava ficando cada vez mais preocupado, Dojin o chamou de forma mais gentil, como faria com a irmã.
— Eu estava errado. Já que viemos até aqui, vamos dar uma olhada no mercadinho antes de voltar. O Sayoon-nim corre tão rápido que chegamos ao nosso destino num piscar de olhos.
Ele não sabia das circunstâncias, mas conseguia perceber que aquela questão trivial era importante para o rapaz. Enquanto Dojin falava da forma mais gentil possível, o garoto o encarou.
— Um minuto atrás você estava implorando para eu voltar.
“Esse pirralho. Está fazendo drama mesmo quando estou dando o que ele quer.”
Mas seu olhar afiado e desafiador era melhor do que seus olhos vazios e mortos. Garotos dessa idade, como Doyeon, ficavam bem melhor correndo por aí e aprontando. Um canto de sua mente ficou pesado, sabendo que sua decisão não era racional, mas ele decidiu considerá-la como tendo evitado um incidente potencialmente maior.
— Mudei de ideia porque o Sayoon-nim ficou tão chateado.
— Quando fiquei?
— Bom, vamos dar uma olhada no mercadinho?
Em vez de responder a cada réplica de Yoon-young, Dojin redirecionou sua atenção. Ele rapidamente se virou e começou a caminhar a passos largos em direção ao mercadinho, e o rapaz começou a segui-lo lentamente ao seu lado. Um olhar furtivo revelou que o rapaz, talvez sem estar acostumado a conseguir o que queria, tinha uma expressão desajeitadamente rígida.
Um silêncio pairou entre eles por um tempo. Dojin se perguntou o que dizer. A coisa certa a fazer seria passar o tempo em silêncio, como faria com qualquer outra pessoa, mas, depois do que acabara de acontecer, ele não quis fazer isso.
— …Posso perguntar seu nome? Já que vamos ao mercadinho juntos.
Já que o pior já havia acontecido, Dojin decidiu ao menos cair nas boas graças de seu empregador. Ele não era seu empregador direto, mas aquilo poderia servir de desculpa, dizendo que fizera a escolha a pedido de seu superior. Embora, de acordo com as regras do ramo, falar com a pessoa sob proteção não fosse de forma alguma uma boa escolha…
— …Young.
— Como?
— Sa Yoon-young.
O nome era tão bonito quanto seu dono. Ao contrário de sua personalidade afiada, era arredondado e fofo, e o sobrenome Sa era incomum, o que soava legal. Era um nome memorável.
— É um nome bem raro. É bonito, não é?
Era um elogio sincero, mas Yoon-young rebateu friamente.
— Você está dizendo isso só para ser gentil?
— Não, eu realmente achei isso.
— Não gosto muito de ser chamado de bonito. Não é um elogio para um Alfa.
Yoon-young era verdadeiramente diferente de sua aparência. Ele não conseguia sentir seus Feromônios, mas havia naturalmente presumido que ele fosse um Ômega. A resposta de que era um Alfa tornava aquela suposição sem sentido. Mas, pensando bem, não era particularmente surpreendente. O gênero secundário não era um fator que determinava a aparência física.
— Você achou que eu fosse um Ômega no momento em que me viu, não achou? Foi por isso que ficou me encarando daquele jeito.
Como se já tivesse passado por aquilo muitas vezes, Yoon-young disparou outro comentário para ele. Dojin se sentiu constrangido com o tom cansado em sua voz. Não era como se ele pudesse mentir e dizer que não, já que era exatamente o que estivera pensando até um momento atrás.
— Desculpe. Você é tão bonito… Vou ser honesto, foi isso que pensei.
— Tanto faz. Todo mundo é igual.
— Mas pessoas como eu, que pensam assim, é que estão erradas. É preconceito, não é?
Yoon-young fechou a boca diante das palavras de Dojin.
— Não dê a mínima para o que pessoas insensíveis dizem. As palavras dos outros não podem ter efeito nenhum sobre você, Sayoon-nim.
Enquanto trocavam algumas palavras, um mercadinho entrou em seu campo de visão. O letreiro com “Mercado Balsamina” escrito em uma caligrafia antiquada, devia estar naquele local há muito tempo, pois sua placa estava enferrujada.
Um rápido olhar mostrou que, felizmente, ainda estava aberto. Um grupo de idosos que jogava cartas num banco de madeira em frente à loja voltou o olhar para os dois rapazes que haviam aparecido de repente. Entre eles, uma velhinha que se abanava bateu palmas e se levantou do banco.
— Ora, ora, vocês parecem muito distintos. O que os traz aqui?
— Nesse calor dos infernos, todos vestidos de preto… Não estão com calor?
— Ai, meu Deus, o que aconteceu? Você caiu num arrozal e rolou? Santo Deus.
Enquanto as pessoas instantaneamente ficavam agitadas, Yoon-young, parecendo desconfortável, deu um passo para trás, como que para se esconder atrás das costas de Dojin. Ele parecia ser tímido com estranhos. A atitude, tão contrária à forma como ele vinha rebatendo tão asperamente, era um pouquinho, só um tiquinho, fofa. Um sorrisinho escapou sem querer, e ele deliberadamente endireitou ainda mais a postura.
— Olá, senhores. Gostaríamos de comprar algumas coisas, tudo bem?
— Mas que bobagem é essa? Comprem à vontade, viu.
— Os corações de vocês são tão adoráveis quanto os rostos. Obrigado.
Dojin queria comprar logo o que precisava e voltar, então foi direto para dentro do mercadinho. Yoon-young, não querendo ser deixado para trás, seguiu-o rapidamente e foi visto olhando ao redor de forma desajeitada. A cabeça que balançava por perto era cerca de uma falange de dedo mais baixa que a de Dojin.
“Agora que olho com atenção, ele realmente parece um Alfa.”
Era só que Dojin era do tipo mais alto; Yoon-young também não era baixo. Como ele mesmo tinha por volta de 1,88 m, Yoon-young devia ter mais de 1,80 m também, e havia pensado desde o primeiro olhar que ele tinha um bom porte. Se alguém prestasse menos atenção ao rosto dele, poderia facilmente ser visto como bastante viril. Não que definir esse tipo de coisa tivesse algum sentido.
Ele o olhou de relance e seus olhos se encontraram. Os olhos de Yoon-young eram calmos e adoráveis quando não estava com raiva. Tinham um formato que as pessoas costumavam chamar de “raposino”, com as pontas viradas para cima, dando à sua expressão um ar sorridente. No momento em que Dojin fez uma pausa, surpreso com a sensação peculiar de pressão que as pessoas bonitas emanam, Yoon-young perguntou:
— O que você vai comprar?
— Hã…
Dojin olhou ao redor do interior do mercadinho. Varreu preguiçosamente os petiscos nas prateleiras de ferro enferrujadas, os produtos deixados em caixas no chão e o expositor de bebidas manchado com marcas de dedos, procurando onde ficavam as bebidas alcoólicas.
— Vim comprar uma bebida de adulto. Crianças não devem olhar.
Disse com sinceridade, mas, naquele momento, Yoon-young soltou um “tsc”. Foi a primeira vez que Dojin o viu rir, tendo visto apenas o seu lado espinhoso. Os seus belos olhos se suavizaram e o rosto se iluminou como se uma flor tivesse desabrochado. E isso foi apenas um estalo de língua.
A cena era tão bonita que Dojin, sem pensar, deixou escapar:
— Você é incrivelmente bonito quando sorri.
Ao ouvir isso, a expressão de Yoon-young ficou instantaneamente fria. Retraindo o sorriso que mal tinha mostrado, ele repreendeu Dojin:
— Eu não sorri. Não fique dizendo o que der na telha.
— Você acabou de sorrir.
Quando ele imitou o estalo, Yoon-young apertou os lábios com firmeza. Poderia simplesmente ter ignorado, mas, depois de alguns segundos de silêncio, Yoon-young se deu ao trabalho de responder.
— Foi porque fiquei pasmo. Podia só ter dito que veio comprar bebida. Qual é a dessa de “bebida de adulto”? Você provavelmente também está na casa dos vinte, não está, moço? Qualquer um que te ouvisse pensaria que é um adulto de verdade.
Yoon-young caminhou até o expositor no lugar de Dojin, que o seguiu e ficou ao seu lado enquanto ele abria a geladeira para olhar as bebidas, e perguntou em voz baixa:
— Que idade eu aparento?
— Perguntar desse jeito te faz parecer velho.
— É por isso que você me chamou de moço? Pareço mesmo um moço?
Ele estava genuinamente preocupado, e Yoon-young, que estava dando batidinhas nas garrafas de bebida, disse baixinho:
— Não, você é bonito, então não parece.
Dojin conseguiu captar a voz murmurada. Satisfeito com o elogio do garoto espinhoso, enfiou astutamente o rosto à sua frente enquanto ele escolhia a bebida. Olhando-o de cima com um sorriso, Dojin disse numa voz brincalhona.
— Você achou que eu era bonito?
𑣲⋆ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Flower
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¹Síndrome do oitavo ano: é um termo popular usado para se referir a fase da pré-adolescência ligada à timidez e à vontade de chamar atenção.
Aviso: Todos os fatos, personagens e situações retratados nesta obra são inteiramente fictícios. Não contendo nenhuma relação com fatos reais.
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