Episódio 98
Capítulo 98 ── ⋆⋅☆⋅⋆
— Entendido.
Chahyun ia voltar para dentro da casa de campo quando parou e se virou.
— …Aliás. O Yeonwoo já esteve aqui antes?
— Não, ele não veio enquanto eu trabalhava aqui.
— Há quanto tempo você trabalha aqui?
— Já faz quatro anos que assumi a administração.
Conhecer uma porta que nem a administradora mais antiga conhecia significava que Yeonwoo estivera ali muito antes.
Mas como? Que ligação ele tinha?
Chahyun vasculhou desesperadamente suas memórias fragmentadas. Pensando bem, a mãe de Yeonwoo, que ele conhecera no funeral, o conhecia. Não só conhecia, como o tratava com bastante carinho.
Era improvável que os dois adultos tivessem algum convívio familiar. Então ele não podia descartar a possibilidade de conhecer Yeonwoo havia mais tempo do que pensava.
Sentiu que algo estava prestes a vir à tona, então tentou se aprofundar nas memórias, mas, quanto mais o fazia, mais sua dor de cabeça se intensificava. Era uma dor aguda e lancinante, como se estivesse sendo espetado por uma agulha pontiaguda.
— Chefe. O senhor está bem?
O assistente, que estava ao telefone repassando as instruções de Chahyun, notou que ele franzia a testa segurando a cabeça e se aproximou.
— Não se preocupe comigo e faça o que estava fazendo.
Sentindo uma sede ardente, Chahyun dispensou o assistente e foi para a cozinha. Abriu a geladeira e estendeu a mão para uma garrafa de água, mas então notou a sobremesa que Yeonwoo lhe pedira para comprar.
— Tem alguma coisa que você queira comer? Compro na volta.
— Tem!
— O quê?
— …Hum. Tem uma confeitaria chamada Sweet Sweet perto da sua empresa. Me compre uma pavlova de lá.
— Pavlova?
— É, é o nome de uma sobremesa.
Apesar de todo o alvoroço por querê-la, a pavlova permanecia quase intacta, como quando Chahyun a comprara na confeitaria. Ele só tinha dado uma ou duas mordidas.
A lembrança daquela ligação passou pela mente de Chahyun.
Ele tinha acabado de sair de uma reunião e voltado ao escritório, onde ia atacar a pilha de documentos sobre a mesa. O assistente e o secretário estavam ambos fora, em compromissos diferentes.
Assim que terminou de falar com Yeonwoo, Chahyun ia mandar o secretário comprar a sobremesa, mas percebeu que ele estava fora a trabalho e decidiu ir ele mesmo.
— Quantos grupos estão esperando?
— Não sei. Acho que vamos ter que esperar uns 30 minutos.
— Ah, devia ter vindo um pouco mais cedo.
A confeitaria era famosa, e já havia muita gente na fila em frente. Irritado com a multidão, Chahyun ia se virar, pensando que deveria mandar o secretário comprar quando ele voltasse do compromisso.
Até ouvir as mulheres na frente dele.
— E se esgotar?
— Não, não diga coisas tão agourentas.
Chahyun, que estava parado sem jeito na longa fila que se estendia para fora da loja, parou.
Parecia que a quantidade já estava no limite e, se o secretário chegasse tarde depois do compromisso, a sobremesa que Yeonwoo pedira provavelmente estaria esgotada, como as mulheres disseram.
— Com licença. O senhor está na fila?
Um casal se aproximou de Chahyun, que estava parado num lugar ambíguo. Chahyun endireitou a postura e voltou ao seu lugar.
— Estou.
Era o bolo que ele comprara depois de esperar quase 40 minutos. Ele zombou de si mesmo por ir tão longe, mas sentiu considerável satisfação ao pagar e comprar a sobremesa com sucesso.
Mas o bolo ficou ressecando na geladeira.
De repente, ele percebeu que Yeonwoo talvez nem quisesse comê-lo.
O fato de ter pedido para ele comprar o bolo de forma tão carinhosa, as palavras de que estava preocupado porque ele não comia direito e as reclamações que fizera agarrado a ele de madrugada eram todas apenas mentiras para tranquilizá-lo e encontrar o momento certo para ir embora.
Ironicamente, os cálculos meticulosos de Yeonwoo tinham sido todos certeiros. Chahyun ficara encantado toda vez que Yeonwoo olhava para ele e falava com ele.
Ao perceber isso, um desconforto parecido com um verme rastejou por seu estômago. Era mais do que desconforto; sentia como se seu humor estivesse atolado na imundície.
Ele prometeu assumir a responsabilidade por Saebyeok. Pretendia cumprir as promessas feitas a Yeonwoo de qualquer jeito. Queria estimá-lo o suficiente para lhe dar o que quisesse.
Mas Yeonwoo acabou escolhendo cobrir os olhos dele de novo e fugir. Com a barriga inchada pela semente de outro moleque maluco e com as pernas nem curadas. Tinha que fazer isso.
Chahyun apertou a garrafa de água com força e fechou a porta da geladeira. A sobremesa diante dele perfurava sua retina de forma aguda, tornando aquilo insuportável.
Por quê? O casamento era um obstáculo tão grande que não podia ser tolerado?
O casamento que Chahyun conhecia era só uma formalidade. Talvez fosse até o oposto do amor.
E se ele tivesse escolhido Yeonwoo como cônjuge em vez de Oh Yumin? Yeonwoo nunca poderia sonhar com a vida luxuosa e estável que desejava. O mesmo valia para Saebyeok.
Não havia nada mais tolo e perigoso do que ter como cônjuge a pessoa que era sua maior fraqueza. Yeonwoo precisava entender isso.
Que era uma posição precária, como estar à beira de um penhasco. Que o cônjuge era o primeiro a perder o fôlego se algo acontecesse a ele.
Colocar Yeonwoo, que não tinha nada, nessa posição? Isso nunca aconteceria.
Chahyun sabia como o pai subira até a posição atual. O método era simples. Começar abalando o marido da tia, que não tinha posição social nem base. Pessoas assim tendem a ser abaladas até a raiz e cair facilmente quando o vento sopra.
A tia, que perdera status, honra e família por ter se casado com um homem insignificante, enlouqueceu, e a lembrança do dia em que ela o confundiu com o pai dele e o estrangulou ainda era vívida.
Os olhos completamente transtornados, injetados e vermelhos, os gritos enfurecidos e a sensação arrepiante dos dedos apertando seu pescoço com intenção assassina.
Chahyun sabia exatamente como uma pessoa ficava quando perdia tudo. E como as pessoas ao redor eram feridas e lhe davam as costas.
— Chefe.
A voz educada do assistente despertou Chahyun, que estava perdido em pensamentos imundos. Só então ele saiu do devaneio e ergueu os olhos, como se perguntasse o que havia.
— Recebemos uma ligação informando que a revisão do acordo pré-nupcial, que tinha sido devolvida aos advogados na última fase de ajustes, foi concluída.
O assistente transmitiu a mensagem que acabara de receber da forma mais concisa possível.
— Dada a natureza do assunto, seria melhor ir pessoalmente ao escritório do representante legal para revisar o conteúdo ajustado…
— Marque para depois de amanhã.
Chahyun respondeu sem ouvir o secretário até o fim. Depois jogou com força na pia a garrafa de água que segurava. O estrondo ecoou por toda a cozinha.
— E traga o Hong Yeonwoo até mim até amanhã, de qualquer jeito.
Chahyun acrescentou com uma voz que mal continha as emoções.
* * *
— Se o senhor for por aquela estrada, vai encontrar um templo famoso chamado Cheongho. É um templo bem grande, devia visitar algum dia.
Yeonwoo relembrou as palavras do jardineiro que o levara de carro quando ele tentara sair da casa de campo pela primeira vez. Em meio à tensão que enrijecera todo o seu corpo, aquelas palavras, que poderiam ter sido facilmente descartadas, ficaram em seus ouvidos por um tempo incomumente longo.
Ponderando o porquê, a razão lhe veio de repente. Era porque Yeonwoo tinha visitado o Templo Cheongho com a mãe quando era pequeno.
Enquanto morava na casa de campo com a mãe, que cuidava de Chahyun, então no ensino fundamental, Yeonwoo costumava fazer pequenos passeios com ela a lugares próximos nos feriados.
Um desses lugares era o Templo Cheongho. A mãe, que era budista, visitava templos de vez em quando, mas o Templo Cheongho, sendo o mais próximo da casa de campo e tão grande e famoso, estava sempre lotado.
Então, certa vez, eles visitaram um templo bem longe da casa de campo, mas tão remoto e pequeno que ninguém o visitava.
— Por favor, vá até o Templo Nuvem Carmesim.
Yeonwoo, que estava no terceiro ano do ensino fundamental, e a mãe disseram o destino ao taxista. A região era a mesma, mas devia levar quase uma hora a partir da casa de campo.
O Templo Nuvem Carmesim que ela queria visitar ficava na encosta da montanha, então tiveram que andar bastante depois de sair do táxi.
— Ah, é longe demais… Não vou mais.
— Estamos quase lá, filho. Aguente só mais um pouquinho.
A mãe convenceu Yeonwoo, que resmungava, e eles chegaram ao Templo Nuvem Carmesim. Como o Aniversário de Buda se aproximava, lanternas coloridas estavam penduradas por todo o templo.
— Gostaria de pendurar uma lanterna. Com quem devo falar?
A mãe perguntou a um budista que passava.
— Pode falar com eles ali.
— Ah, obrigada.
Yeonwoo olhou ao redor do Templo Nuvem Carmesim enquanto a mãe se informava.
— Mãe. Acho que tem monges mirins aqui também.
Yeonwoo disse, admirado, ao notar algumas crianças que pareciam estar nas primeiras séries do ensino fundamental andando por ali. As crianças estavam todas de cabeça raspada e usavam vestes monásticas, como gêmeos.
— Estou vendo. É um templo bem pequeno, mas é incrível.
A mãe, que já tinha vindo ali sozinha, olhou para os monges mirins que davam risadinhas.
Então Yeonwoo notou uma mulher com a barriga saliente. Ela estava quase no fim da gravidez.
— Nossa. Aquela pessoa parece grávida, mãe. Mas como ela subiu até aqui?
— Não sei. Talvez não tenha problema se ela vier devagar? Perguntei ao monge da última vez e ele disse que ela mora aqui.
— Tudo bem isso?
— Cada um tem suas circunstâncias. Se não tem para onde voltar…
Yeonwoo, que ouvia distraidamente as palavras da mãe, de repente sentiu fome e tirou uma barra de chocolate que trouxera de lanche.
Quando ia tirar a embalagem, cruzou o olhar de repente com um monge mirim. O monge mirim olhou fixamente para o lanche que Yeonwoo segurava e depois desviou rapidamente o olhar.
Achando graça na reação, Yeonwoo sorriu e se aproximou da criança.
— Quer comer?
Ele podia ver a boca do monge mirim se contraindo enquanto fingia manter a dignidade. Quando Yeonwoo estendeu a barra de chocolate, a criança abaixou a cabeça e a pegou com cuidado.
Depois disso, Yeonwoo pendurou uma lanterna com a mãe, passeou pelo Templo Nuvem Carmesim e voltou para a casa de campo.
Foi uma coincidência as palavras do jardineiro o lembrarem daquela memória de mais de uma década atrás. Graças a essa coincidência, desde o momento em que decidiu sair pela porta dos fundos da casa de campo, o destino de Yeonwoo passou a ser o Templo Nuvem Carmesim.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna