Episódio 89
Capítulo 89 ── ⋆⋅☆⋅⋆
Sem desistir ali, Yeonwoo se virou e caminhou em direção à varanda da sala do primeiro andar. Estava trancada da mesma forma que a porta da frente.
Não só isso, mas todas as janelas e a varanda do segundo andar também estavam trancadas.
Só depois de conferir cada uma delas com as mãos Yeonwoo finalmente parou.
— Quanto tempo eu dormi?
— Umas três horas….
Três horas. Mesmo que tivesse ido ao hospital nesse tempo, não seria fácil chamar um técnico e instalar novas fechaduras em todas as portas daquela casa de campo enorme.
Então devem ter sido instaladas quando ele chegou àquela casa de campo, três meses atrás. Para serem trancadas por fora.
Então aquilo era uma prisão. Chahyun o trouxe para lá com isso em mente desde o início.
— Haha….
Yeonwoo soltou uma risada curta sem perceber. Só agora entendia por que muitas vezes sentiu uma vaga inquietação durante sua vida, de resto tranquila, ali. A intuição de uma pessoa é assustadora a esse ponto.
No fim, acabou assim de novo. E, desta vez, ele se trouxe tolamente para aquela prisão.
Enquanto Yeonwoo estava parado no meio da sala escura, perdido em pensamentos, ouviu o som da porta da frente se abrindo.
— Chefe!
A administradora caminhou em direção à porta quando a luz se acendeu. Yeonwoo virou a cabeça e viu Chahyun entrando na sala.
— Acordou?
— ……
— Comeu?
Ele perguntou calmamente, olhando para Yeonwoo na sala. Depois acionou o interruptor e iluminou o ambiente. Como se nada tivesse acontecido antes.
Yeonwoo cerrou os dentes e encarou Chahyun. Encarar o rosto dele o deixava sem fôlego. Ao mesmo tempo, as brasas da raiva que restavam reacenderam instantaneamente.
Se ele comeu? Yeonwoo ficou atônito. Como ele podia ser tão descarado? Deixando para trás todo o engano que cometera contra ele e Saebyeok, como podia colocar uma máscara tão gentil e se aproximar de novo como se nada tivesse acontecido?
Se pudesse, queria entrar na cabeça de Chahyun. A essa altura, não conseguia dizer se ele estava zombando dele, se simplesmente se divertia com a situação ou se realmente havia algum traço de sinceridade nele.
— Não.
Yeonwoo conseguiu responder depois de empurrar para um canto todos os pensamentos complicados sobre ele.
— A médica disse que você pode comer o que quiser. Não pule refeições.
Chahyun tinha voltado ao seu normal. Diferente de Yeonwoo, que estava exausto, ele não parecia sentir nem um pouco de cansaço naquela peça cheia de tragédia.
— Aonde você foi? Acordei e você não estava aqui.
— Tinha um assunto, então saí por um tempo.
Se era trabalho, era trabalho de verdade da empresa? Ou o casamento? Ele não sabia. Agora, tudo o que saía da boca de Chahyun soava como mentira.
Sabendo que Yeonwoo estava desconfiado, Chahyun não se deu ao trabalho de se aproximar e manteve uma distância adequada. Só essa distância provava a discórdia entre os dois poucas horas antes.
— E você? Comeu?
— Eu me viro.
— …Coma comigo se não comeu.
Em vez de perguntar por que todas as portas da casa de campo estavam trancadas, Yeonwoo o convidou para uma refeição juntos.
Os olhos de Chahyun se arregalaram levemente antes de voltarem ao normal. Yeonwoo acrescentou, como se ele hesitasse em responder.
— Estou entediado de comer sozinho.
Chahyun estreitou os olhos, como se tentasse ler sua mente. Mas logo abriu a boca.
— Prepare a refeição. Para nós dois.
Diante da instrução de Chahyun, a administradora assentiu e desapareceu na cozinha. Quando ficaram só os dois na sala, Chahyun colocou algo sobre a mesa.
— Vou me trocar.
— …Tá.
— Vá se sentar primeiro.
— Tá.
Depois de encarar Yeonwoo, que respondia a cada palavra, Chahyun foi para o closet.
Só quando ficou sozinho Yeonwoo conferiu o objeto que Chahyun acabara de colocar na mesa.
〈Bolhas Redondinhas〉.
Era um livro ilustrado fofo.
— ……
Yeonwoo tentou ignorar a sensação que insistia em deixá-lo fraco e apático e passou pelo livro como se não o tivesse visto. Sentou-se à mesa e esperou, e logo a comida foi servida.
Assim que o arroz, os acompanhamentos e a sopa recém-fervida foram colocados na mesa, Chahyun entrou na sala de jantar. Então sentou-se de frente para Yeonwoo.
Yeonwoo provou a comida primeiro. Desde a gravidez de Yeonwoo, Chahyun sempre se certificava de que ele conseguia comer tudo sem enjoo antes de começar a refeição, então passar por esse processo agora era tão familiar quanto respirar.
Vendo que ele não teve ânsia, Chahyun finalmente pegou os hashis.
Os dois se concentraram na refeição por um tempo sem dizer uma palavra. Yeonwoo tinha muitas perguntas que queria fazer, mas mastigou todas junto com a comida e as engoliu.
Não devia se exaltar. Não queria cometer o mesmo erro de antes. Yeonwoo aprendera, através de vários incidentes, que não conseguiria nada provocando Chahyun. Ele não se lembraria, porém.
Foi justamente por isso que Yeonwoo conseguiu conter a raiva rapidamente. Sabia exatamente como devia agir para agradar Chahyun e o que ele queria que dissesse. Yeonwoo se lembrava do que Chahyun não sabia.
— Quando eu era pequeno. Por volta das 4 da tarde, passava um ônibus de jardim de infância no bairro.
Foi Yeonwoo quem quebrou primeiro o silêncio sólido. Chahyun parou de comer e encarou Yeonwoo.
— Eu costumava ver as crianças descendo dele com suas mochilinhas todo dia.
— Por quê?
— Era incrível porque elas usavam a mesma roupa. Eu nunca fui ao jardim de infância, então não sabia que era uniforme.
Yeonwoo respondeu calmamente.
— As crianças que desciam do ônibus amarelo com aquelas roupas seguravam a mão da mãe e iam embora sorrindo.
Quando Yeonwoo era pequeno, o pai estava ausente e, quando a mãe saía para trabalhar para ganhar a vida, ele sempre passava o tempo sozinho em casa. Um quarto estreito, com uma mesinha baixa e um armário sobre um piso de linóleo amarelo cheio de manchas, era o mundo do Yeonwoo de seis anos.
Todo o resto era estranho. Era tão incrível e desconhecido que ele nem sentia inveja, e observava as crianças voltando da escola por cima do muro todas as vezes.
— Diferente de mim, o cabelo delas era arrumadinho e, pensando agora, as roupas amarelas também eram fofas. Sempre tinha uma professora sorridente no ônibus também….
Olhando para trás agora, era uma cena comum, mas parecia realmente brilhante e especial para Yeonwoo.
— As crianças daquele jardim de infância também carregavam cataventos feitos à mão.
Yeonwoo hesitou antes de dizer as próximas palavras.
— Deixe o Saebyeok ir a um jardim de infância assim.
Ele queria que Saebyeok conhecesse todos os mundos que ele nunca conhecera. Então esse mundo tinha que ter um pai, estar cheio de brinquedos coloridos e cheio de pessoas gentis.
Mesmo sabendo que tal mundo não existiria, já que Chahyun tinha escolhido Oh Yumin, Yeonwoo falou como se ainda houvesse um lugar de conto de fadas em algum lugar.
— Você consegue fazer isso?
Então Chahyun largou a colher que segurava com sua mão longa e grande, como se tivesse ouvido algo estranho.
— Eu te disse.
Uma voz monótona entrou no ouvido de Yeonwoo.
— Vou criar o Saebyeok sem nenhuma preocupação no mundo.
— …É mesmo, você disse.
Yeonwoo deu uma risada curta e assentiu. E voltou a comer.
Pensando bem, só Saebyeok e ele sairiam perdendo se ele não comesse direito. Para de algum jeito convencê-lo e sair dali, era importante comer bem e dormir bem.
— Quer mais?
Chahyun perguntou, vendo que o prato de Yeonwoo já estava vazio. Yeonwoo balançou a cabeça.
— Estou satisfeito.
— Então que bom.
Em vez de se levantar logo depois de terminar a refeição, Yeonwoo continuou a conversa.
— Por que comprou o livro infantil?
— Encontrei passando por aí.
— Está me dizendo para fazer estimulação pré-natal?
— Eu vou ler para você.
Chahyun disse como se fosse natural.
Yeonwoo ficou atônito. Ele tinha saído e causado toda aquela confusão, mas tivera tempo de comprar um livro infantil para ler para uma criança que nem nascera ainda.
— Tenho outra pergunta.
— Diga.
— Você vai continuar vindo aqui mesmo depois de se casar?
A testa de Chahyun se franziu levemente. Yeonwoo inclinou a cabeça, observando as rugas se formarem na testa lisa dele.
— Por que está fazendo essa cara? Estou perguntando se você vem.
— Venho.
— Quantas vezes por semana?
— Todo dia. Como agora.
Chahyun disse sem hesitar.
— …Mentiroso.
— Eu já te disse que nada vai mudar quando eu me casar.
— Quando vou poder sair?
— Quando o Saebyeok nascer.
Desta vez também, ele respondeu sem hesitar.
— É como a história da fada e o lenhador.
Yeonwoo murmurou com autodepreciação. Mas não havia hostilidade em sua voz.
— A fada teve dois filhos. Você só precisa ter um.
— Seria ainda melhor se tivesse dois. — Chahyun acrescentou. Yeonwoo fechou o punho com força sob a mesa.
— E você pegou meu celular. Não consegui achar quando procurei.
— Peguei.
— Quando vai me devolver?
— Depois do casamento.
Era o esperado. Yeonwoo assentiu sem vacilar.
— Pare agora.
Chahyun cortou as perguntas irritantes. Yeonwoo decidiu se contentar com aquilo por ora. Tinha descoberto bastante. Na verdade, era incrível que Chahyun tivesse respondido de tão bom grado, sem se irritar nem uma vez.
Talvez fosse porque ele ficara cauteloso em consequência da briga física que acabara de acontecer.
— Ah, mas quanto da sua memória voltou?
Chahyun não respondeu de imediato e encarou Yeonwoo, sentado à sua frente, como se quisesse enxergar através dele. Yeonwoo achou que desta vez ele poderia se irritar ou parar de falar, mas, inesperadamente, ele logo abriu a boca.
— Só me lembrei da cena em que você me drogou com o sonífero que pegou no hospital porque seu tornozelo doía e depois fugiu. Eu te chamei tão desesperadamente, mas você não olhou para trás nem uma vez.
Os lábios dele se torceram levemente, como se fosse desagradável só de pensar. Isso também era esperado. Se a memória dele tivesse voltado totalmente, não teria apertado seu tornozelo com tanta força antes. Se fosse o Chahyun que ele conhecia.
— Você não me odeia?
— Não, não te odeio.
Chahyun disse facilmente que tinha perdoado Yeonwoo.
— Só não vou ser enganado de novo.
— ……
Com essas palavras, a refeição numa paz instável terminou.
⛧°. ⋆༺♱༻⋆. °⛧
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna