Episódio 58
Yeonwoo encarou seu perfil por um instante antes de se aproximar de forma desajeitada. Ele não esperava que ele viesse até ali, então não sabia como agir.
Gratidão, constrangimento e um desejo de evitá-lo estavam todos emaranhados em sua mente.
— Cadê a mãe?
— Ela disse que se sentiu sufocada e saiu para tomar ar.
— Entendi.
Yeonwoo assentiu. Chahyun examinou o velório humilde e escasso. As instalações eram em geral desorganizadas. A qualidade do retrato do pai de Yeonwoo era ruim, fazendo-o parecer borrado e tênue. E Yeonwoo estava de pé no meio de tudo aquilo.
— Se algo assim aconteceu, você deveria ter dito alguma coisa.
Chahyun não se deu ao trabalho de esconder suas emoções crescentes. Yeonwoo baixou a cabeça.
— Eu estava muito distraído. Eu saí assim que recebi a ligação…
A voz de Yeonwoo estava cheia de profunda fadiga. Ouvir aquela desculpa deixou Chahyun ainda mais furioso, mesmo sabendo que não era hora nem lugar.
— Mesmo assim, faz sentido desaparecer por mais de três dias sem uma palavra?
— …Desculpa.
Ouvir o pedido de desculpas só o fez se sentir pior. Yeonwoo, que estava com a cabeça baixa sem ânimo, era simplesmente frustrante.
— Mas como você soube?
— Eu perguntei ao funcionário do café.
— Entendi… De qualquer forma, obrigado por vir, Chahyun-ah.
— Por que o seu rosto está nesse estado?
Chahyun esticou a mão para o rosto de Yeonwoo sem perceber. A pele lisa e brilhante que costumava ser radiante estava seca e áspera. Seu rosto, que ele só havia visto alguns dias antes, estava pálido e abatido, desprovido de qualquer cor.
Ver Yeonwoo agradecê-lo por vir, mesmo estando bravo e chateado assim que o viu, fez Chahyun se sentir sufocado. O interior de seu peito parecia pesado, como se alguém estivesse pisando em seu esterno.
Porra. No fim, Chahyun não suportou e abraçou Yeonwoo.
— Chahyun-ah.
Yeonwoo chamou seu nome, surpreso. Mas Chahyun não o soltou, em vez disso apertou os braços. O corpo em seus braços estava magro demais. Era por isso que ele ficava com raiva.
Antes, quando ele o segurava assim, o peso de seus ombros redondos o envolvendo era simplesmente adorável e macio, mas agora…
Espera. O que ele quis dizer com “antes”? Ele não deveria ter sentido esse tipo de sensação com Yeonwoo.
Chahyun ficou confuso consigo mesmo, recordando sentimentos que nunca havia experimentado. Mas ele abraçou Yeonwoo ainda mais forte e afagou suas costas, que tinham pouca carne restando.
Suas emoções estavam se agitando como loucas. Seu peito estava pesado, mas ele não conseguia descobrir a causa, o que era frustrante.
— Desculpa por eu ter vindo tão tarde, hyung.
— ……
— Eu deveria ter vindo antes.
Chahyun nem sabia exatamente o que estava dizendo, e só soltava o que lhe vinha à cabeça. E de repente percebeu a origem da raiva desconhecida que vinha sentindo desde antes. Era raiva de si mesmo por chegar ali tarde demais.
Ele era tão patético por adiar o contato por causa do seu orgulho idiota, por deixar Yeonwoo sozinho num lugar daqueles por três dias inteiros.
Chahyun engoliu o gemido que tentava escapar por entre seus dentes. Todo lugar em que ele tocava Yeonwoo parecia quente e pulsante, como se queimasse.
Ele não sabia por que seu coração estava doendo tanto, como se estivesse compartilhando as emoções de Yeonwoo.
— ……
— ……
— …Você pode me soltar agora, Chahyun-ah.
Depois de um longo tempo, uma atmosfera desconfortável fluiu entre os dois. Yeonwoo, que havia afastado seu corpo dele, abriu a boca primeiro, desviando do seu olhar.
Seus olhos, que não descansavam como devia haviam um tempo, estavam muito inchados. Mais do que tudo, seu corpo havia ficado encovado e magro, incomparável a alguns dias antes.
— Ah. Você pode se sentar onde se sentir confortável. Você pode ir primeiro se estiver ocupado.
Ele não estava só magro, estava emaciado. Chahyun cerrou os dentes.
— Você comeu?
Yeonwoo pareceu incomodado diante da pergunta de Chahyun. Chahyun ficou frustrado de novo. Ele não sabia por que suas entranhas estavam constantemente fervendo.
— Você ainda não comeu?
— Eu não tive tempo…
Mentiroso. Ele havia esquecido completamente disso.
Chahyun lançou um olhar feroz a Yeonwoo.
— Você esqueceu a promessa de comer como devia tão rápido? O contrato é brincadeira?
Ele então tentou à força arrastar Yeonwoo até a mesa. No entanto, o corpo de Yeonwoo se inclinou para um lado por causa do movimento repentino. Seu pé direito torceu, e ele estava a ponto de cair, mas Chahyun o segurou e enlaçou o braço em sua cintura para recuperar o equilíbrio.
— É tão difícil comer na hora certa?
— Eu ia comer.
— Mas você está desse jeito? Vá olhar no espelho e diga isso.
— ……
— Se você deve um bilhão, você deveria pelo menos fingir que tenta.
Chahyun mal suprimiu sua voz que se elevava e conduziu Yeonwoo de volta à mesa.
— Coma rápido.
No fim, Yeonwoo não conseguiu resistir à pressão de Chahyun e começou a comer a comida diante dele. No entanto, ele largou a colher antes de conseguir dar sequer algumas garfadas.
— Não me irrite e coma tudo o que está aí. Antes que eu enfie na sua boca eu mesmo.
Chahyun se sentou de frente para ele, cruzou os braços e encarou Yeonwoo com dureza, como se o vigiasse.
Yeonwoo assentiu diante da voz fria. Observá-lo fazer uma cara como se quisesse vomitar toda vez que engolia a comida, como se estivesse sendo torturado, era absurdo.
Ele está protestando porque eu o fiz fazer algo que ele não queria?
A expressão de Chahyun gradualmente se distorceu, chegando ao limite de sua paciência, quando Yeonwoo finalmente largou a colher de novo.
— …Desculpa. Eu não consigo comer agora.
— Por quê?
— ……
— Hong Yeonwoo.
— Não é que eu não queira comer, é que o meu estômago não aceita.
Chahyun não entendeu as palavras de Yeonwoo de imediato e franziu o cenho.
— Você vai reclamar dos acompanhamentos nessa situação?
— Não é isso…
Yeonwoo baixou a cabeça e murmurou baixinho.
— …Enjoo.
— O quê? Eu não estou te ouvindo.
Chahyun repreendeu Yeonwoo, perdendo a paciência. Só então ele elevou a voz.
— Por causa do enjoo matinal…
— Enjoo matinal?
Yeonwoo olhou de relance para Chahyun e assentiu.
— Eu fico vomitando, não importa o que eu coma.
— Então… você não conseguiu comer nada?
— …É.
— ……
Chahyun encarou Yeonwoo sem expressão como se tivesse sido atingido por um raio. Ele parecia estar ouvindo a palavra “enjoo matinal” pela primeira vez.
Yeonwoo, que estava com sede por causa do olhar evidente, bebeu a água na mesa. Seu estômago doía de encher constantemente o estômago vazio com água. Ainda assim, era melhor aguentar do que comer algo porque estava com fome e depois vomitar de novo.
— Se você não consegue comer arroz, o que você consegue comer?
Chahyun não conseguiu esconder seu constrangimento e passou a mão pelo rosto antes de jogar o cabelo para trás. Era a primeira vez que ele estava tão abalado desde que perdeu a memória, e Yeonwoo se sentiu sem graça de erguer o rosto.
— Eu não sei.
— Se você não sabe, quem sabe?
— ……
— Ah, eu não estou tentando ficar com raiva. Você deve ter experimentado outras comidas.
Chahyun se corrigiu com um tempo de atraso, preocupado que suas palavras pudessem ter soado cortantes.
Yeonwoo sacudiu a cabeça. Então a expressão de Chahyun endureceu.
— Você não consegue aceitar nada?
— Eu estava ocupado demais no funeral para experimentar outras comidas.
— Então você não comeu nada além de yukgaejang?
Nem isso, ele disse que vomitou tudo, então, falando com rigor, ele não havia comido nada de nada.
Não havia restaurantes decentes por perto, e era ainda mais difícil encontrar um supermercado, então era compreensível. A loja de conveniência mais próxima ficava a cinco minutos de carro. Não era uma distância caminhável.
Chahyun abriu e fechou a boca, sem saber o que dizer. Ele engoliu os xingamentos brutais que tentavam subir por sua garganta várias vezes.
— Desde quando isso vem acontecendo?
Ele encarou com atenção o estômago de Yeonwoo, que estava escondido pelas roupas de luto, e abriu a boca.
— Quero dizer, o enjoo matinal.
— ……
Yeonwoo se perguntou o que e quanto deveria dizer.
Isso porque Chahyun não recebeu bem a gravidez de Yeonwoo e traçou uma linha firme, dizendo que era filho de outro Alfa. Ele não queria ficar falando sem parar sobre quão dolorosos eram os sintomas do enjoo matinal.
— Me conte em detalhes. Assim eu posso perguntar a um médico depois e conseguir um diagnóstico.
Chahyun estava falando, e lembrou que havia saído antes de o exame terminar na primeira consulta. Ele cerrou os dentes com força, olhando o rosto de Yeonwoo, com algo pesado na cabeça.
Mas Yeonwoo não parecia ter nenhum pensamento. Ele só sacudiu a cabeça devagar, exausto.
— Eu não sei exatamente. Uns dez dias atrás? Eu acho que foi há cerca de uma semana atrás.
Então ele tinha sintomas de enjoo matinal quando foi à primeira consulta. Chahyun franziu o cenho conforme calculava a data.
— Piorou desde que eu vim para o funeral.
— É só que você não quer comer? Ou tem mais alguma coisa incômoda?
Chahyun afagou o queixo com nervosismo.
— Na verdade, eu também estou incomodado com os feromônios das pessoas…
— Ah.
Ele podia imaginar quão difícil deveria ter sido. Pela natureza do local, o funeral era um lugar onde as pessoas iam e vinham constantemente.
Não havia como haver um inibidor de feromônios num lugar tão xexelento, então ele teria sido exposto à força a todo tipo de feromônio na posição de principal enlutado.
Pensando na dor que Yeonwoo havia sofrido por três dias, a cabeça de Chahyun ficou complicada. E ele se sentiu um pecador por ter negligenciado isso.
Porra. Por que eu vim tão tarde? Se eu tivesse simplesmente perguntado diretamente quando descobri que Hong Yeonwoo não havia vindo trabalhar. Eu não o teria deixado definhar desse jeito.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna