Episódio 104
Capítulo 104 ── ⋆⋅☆⋅⋆
Sempre achando que poderia deixar aquele lugar a qualquer momento, Yeonwoo mal acumulara pertences. As únicas coisas novas que tinha eram a veste budista e a bolsa de pano que recebera do templo.
Embora os dois monges do Templo Nuvem Carmesim fossem Betas, eles faziam questão de arejar o quarto todos os dias, preocupados que os feromônios dele pudessem ficar impregnados. Felizmente, talvez por causa do incenso queimando por todo o templo, os feromônios não eram facilmente detectados ali.
— Fiel Seongju-nim. O que está fazendo?
O monge Hyewon, que avistou Yeonwoo arrumando os pertences com a porta aberta, se aproximou de longe.
— Ah. Estava pensando em descer a montanha para ir ao hospital hoje.
Ele planejava descobrir a data prevista para o parto desta vez que descesse.
No momento em que pisasse no hospital, havia uma grande chance de Chahyun pegá-lo, mas não podia pular a consulta completamente. Fazia tempo que não sabia do estado de Saebyeok, e ficava mais ansioso a cada dia que passava.
Vendo que Chahyun ainda não o pegara, chegou até a ter o pensamento ingênuo de que, ao contrário de suas preocupações, Chahyun talvez já o tivesse esquecido.
— Vamos juntos.
O monge Hyewon disse depois de refletir sobre as palavras de Yeonwoo por um momento. Yeonwoo se surpreendeu e ergueu os olhos.
— O senhor tem que preparar a palestra do Dharma.
— Isso pode ser feito depois.
— Posso ir sozinho.
— É demais para o senhor descer e subir a montanha sozinho nessas condições.
— Mesmo assim…
— O caminho da montanha é perigoso tanto na descida quanto na subida. Até o monge superior diria o mesmo que eu, se ouvisse.
Yeonwoo ficou constrangido com a atitude firme do monge Hyewon.
— Pode demorar bastante…
— Não tem problema. Por favor, espere só cinco minutos.
O monge Hyewon saiu do quarto de Yeonwoo, dizendo que ia arrumar suas coisas e voltar. Yeonwoo não conseguiu apagar a expressão aflita e continuou arrumando a bolsa.
O monge Hyewon vinha sendo particularmente atencioso com Yeonwoo desde que ele mencionou o monge mirim no dia em que subiu ao Templo Nuvem Carmesim. Ele se perguntava se o monge Hyewon achava, equivocadamente, que ele tinha sido um benfeitor quando ele era monge mirim.
Por isso, Yeonwoo sentia uma pontada de consciência toda vez que o via. Principalmente agora, quanto mais meticulosamente ele o tratava, mais culpado se sentia. Eles só tinham se encontrado uma vez, mas ele mentira como se tivessem um grande vínculo.
Yeonwoo, que vinha se incomodando com isso o tempo todo, finalmente decidiu confessar a verdade ao monge Hyewon no caminho montanha abaixo.
— Monge Hyewon.
— Sim.
— …Há uma coisa pela qual quero me desculpar.
— O que é?
— Quando pedi para o senhor me deixar ficar no Templo Nuvem Carmesim, falei como se soubesse muito sobre o senhor, mas…
Yeonwoo respirou e continuou.
— Na verdade, o vínculo não é tão profundo quanto o senhor pensa.
— Por quê?
— Porque eu não era um fiel que vinha com tanta frequência. Para dizer a verdade, só vi o senhor uma vez. Então o senhor provavelmente não se lembra de mim, e não precisa ser tão gentil comigo…
— Eu me lembro.
— Como?
Yeonwoo, que desfiava diligentemente as palavras organizadas na cabeça, parou.
— O senhor me deu chocolate, não deu?
— …Ah? Sim, sim. Isso mesmo….
Yeonwoo percebeu que o monge Hyewon se lembrava dele com precisão e ficou momentaneamente sem palavras. Logo o calor subiu ao rosto.
Como diabos ele se lembra? E, nesse meio-tempo, menti como se tivesse sido um grande fiel.
— O senhor não mora aqui desde que era monge mirim? Ah, minha mãe é fiel aqui, então vim algumas vezes quando era pequeno. Acho que vi o senhor, que era monge mirim, naquela época.
Yeonwoo, relembrando as palavras que ele próprio disse, quis se esconder em algum lugar diante da vergonha avassaladora.
Será que o monge Hyewon até sabe meu nome verdadeiro?
Por um momento, essa preocupação surgiu de repente. Mas Yeonwoo nunca disse seu nome ao monge mirim na época. Foi literalmente um encontro passageiro.
— Cuidado. É fácil escorregar aqui porque há muitas folhas caídas.
O monge Hyewon disse a Yeonwoo, que caminhava meio fora de si. Como ele disse, folhas que tinham acabado de começar a cair estavam amontoadas ao redor.
Yeonwoo interrompeu os pensamentos dispersos e se concentrou em descer a montanha em silêncio. O monge Hyewon não o apressou nem uma vez, embora devesse estar frustrado com o ritmo mais lento que o esperado.
— Mas, fiel Seongju-nim.
Quando achava que tinham descido bastante, o monge Hyewon chamou Yeonwoo, no momento em que trilheiros subindo a montanha pelo lado oposto começaram a aparecer.
— Haa, haa…. Sim?
— O senhor não estava numa situação em que precisava se esconder de alguém?
A resposta de Yeonwoo saiu com atraso diante da pergunta inesperada.
— …É verdade.
— Então seria melhor cobrir o rosto ao descer a montanha.
O monge Hyewon tirou algo da bolsa e entregou a Yeonwoo. Era uma máscara descartável vendida no mercado.
— Ah… Obrigado. Mas é mesmo necessário aqui…
Yeonwoo disse, olhando ao redor. Havia pouquíssimas pessoas naquele caminho, de qualquer forma. Era também o motivo de o Templo Nuvem Carmesim ter poucos visitantes.
Os trilheiros do lado oposto logo entrariam na trilha exclusiva mais à frente, então não haveria encontros frente a frente.
Ele já estava de boné, e era raro as pessoas olharem de perto o rosto ou a aparência de quem encontravam nas montanhas, então Yeonwoo hesitou em aceitar a máscara. Mas o monge Hyewon foi firme.
— Se o senhor tem uma aparência marcante, não consegue evitar chamar atenção onde quer que esteja.
— O senhor também diz coisas assim, monge?
Yeonwoo riu diante do elogio repentino.
— Só porque raspei a cabeça e moro num templo não significa que eu não tenha olhos.
— É verdade.
Diante das palavras muito sérias dele, Yeonwoo acabou colocando a máscara.
Como o ritmo de Yeonwoo era muito lento, os dois levaram quase duas horas só para descer a montanha. Era porque sua barriga ficou ainda mais pesada do que quando ele fugiu imprudentemente da casa de campo e subiu até o Templo Nuvem Carmesim.
Mesmo com roupas folgadas e a bolsa usada na frente, ele estava ansioso porque a barriga estava muito cheia. Talvez porque a data prevista se aproximava, Saebyeok crescia visivelmente a cada dia. Os movimentos também eram ativos, e agora ele frequentemente acordava de dor porque as costelas doíam.
— Já descobriu a qual hospital vai?
— Sim. Felizmente, há uma clínica de obstetrícia e ginecologia por perto…. Haa.
— Entendi.
— Achei que seria demais ir a um lugar muito longe.
Yeonwoo disse, acariciando a barriga.
Depois de descer a montanha e ver a estrada, os dois pegaram imediatamente um táxi e foram ao hospital que Yeonwoo encontrou com antecedência.
O hospital em que chegaram era muito menor, até por fora, do que o hospital que ele frequentava ao lado de Chahyun.
— Bom, então, já volto.
Yeonwoo, que saiu do táxi, disse ao monge Hyewon na entrada do hospital. Então ele assentiu.
— Sim. Vamos juntos.
— …Como?
— O senhor disse que ia ao hospital.
Yeonwoo, que parou na entrada, não conseguiu esconder o olhar constrangido, e o monge Hyewon olhou de volta como se perguntasse por quê.
— O senhor também vai, monge?
— O senhor vai a um lugar aonde eu não posso ir?
— Não, não é isso…
Um monge e uma clínica de obstetrícia e ginecologia. Era uma combinação descombinada demais.
Era algo tão ímpio que ele nem conseguiria imaginar, mas estava fazendo. De algum modo, sentia pena do monge Hyewon.
— Sinto que estou dependendo demais do senhor, monge.
— Não é um fardo. Não fui eu que disse primeiro que iria com o senhor?
No fim, os dois entraram juntos na clínica. Não havia clientes, então Yeonwoo foi imediatamente encaminhado ao consultório.
Devido às circunstâncias, ele não podia fazer tantos exames quanto antes, então fez apenas um ultrassom.
O médico disse que não havia problemas com o crescimento de Saebyeok, mas havia risco de parto prematuro. Felizmente, era um hospital que podia fazer partos, então ele informou a Yeonwoo a data prevista aproximada e pediu que viesse ao hospital se tivesse contrações ou problemas por essa época.
Enquanto Yeonwoo era examinado, o monge Hyewon esperava sentado ereto na sala de espera. Yeonwoo, terminado o exame, fingiu não notar que a enfermeira olhava de um para o outro de forma estranha e foi ao balcão.
— Vou pagar.
— O acompanhante já pagou.
— Acompanhante? …Ah.
Diante da resposta da enfermeira, Yeonwoo se surpreendeu e encarou o monge Hyewon. E se aproximou dele.
— Terminou tudo?
— Sim. Mas por que o senhor pagou a conta do hospital, monge? Quanto custou? Eu lhe devolvo.
Yeonwoo perguntou com urgência. Tinha que pagar muito dinheiro porque se consultou sem plano de saúde para não ser identificado, mas seu coração pesava ao pensar que ele já tinha pagado.
— Não tem problema. Agora vamos tratar sua perna.
Yeonwoo se ofereceu para pagar várias vezes mais, mas o monge Hyewon recusou obstinadamente.
Quando passaram na clínica ortopédica e saíram, a hora do almoço já tinha passado. O ortopedista recomendou que Yeonwoo fizesse um exame detalhado, mas Yeonwoo não tinha tempo para um tratamento de longo prazo naquele momento, então apenas colocou um gesso novo.
Os dois fizeram uma refeição simples num restaurante de pratos de arroz ali perto. O certo seria voltar imediatamente ao Templo Nuvem Carmesim, já que ele estava fugindo, mas era especialmente difícil suportar a fome no fim da gestação, então ele não podia subir a montanha sem comer.
Ainda assim, uma coisa boa era que o tornozelo ficou firme com o novo gesso, tornando muito mais fácil usar a perna.
Descer do Templo Nuvem Carmesim com o tornozelo bambo o deixou louco, mas parecia que subir seria mais confortável que aquilo.
— Acho que deveríamos voltar logo.
O monge Hyewon disse depois de conferir o horário.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna