Capítulo 06
SCAN: Ignis Tales
Tradução: Riny
Revisão: Imperatriz
Capítulo 6
Nox perguntou, embora já soubesse.
— Khalid?
— …Ele não é o tipo de criança que faria uma coisa dessas.
Diante das palavras de Maeta, Nox sorriu amargamente para si mesmo.
*É verdade. Khalid não é esse tipo de criança.*
E, ainda assim, a partir daquele momento, Nox pretendia transformá-lo exatamente nesse tipo de criança.
— Por que está decidindo isso por conta própria?
— Como?
Maeta pareceu assustada. Sabia muito bem que Nox costumava prezar Khalid.
Nox desceu a escada devagar. Podia ver os criados reunidos lá embaixo. Cochichavam entre si, todos de olhos voltados para o centro do saguão.
— O jovem mestre chegou…!
Diante do grito baixo de alguém, os criados abriram caminho às pressas. Ao fim da passagem que se formou, Nox viu Khalid ajoelhado no meio do saguão. Uma das criadas da mãe apontava para a criança e gritava. Sua voz era tão aguda e alta que ecoava pelo salão.
— Eu vi essa criança roubando o broche de Sua Graça!
A mãe saíra de seus aposentos pela primeira vez em muito tempo e estava de costas eretas. A doença estava estampada em seu rosto, mas os cabelos presos estavam impecáveis. O pai estava ao seu lado, sem fazer nada além de vigiar o humor dela.
Um riso vazio escapou de Nox.
O pai jamais venceria a mãe. Nem mesmo numa situação como aquela.
— N-não! Eu não roubei!
Khalid protestou aos gritos. A criança fora forçada a se ajoelhar, contida pelos criados.
Então, de repente, Khalid olhou para Nox.
Diante daquele olhar lastimável, Nox baixou os olhos para o chão por um instante. Não tinha coragem de encontrar aqueles olhos.
— Eu mesma tirei o broche de Sua Graça da mão dessa criança! Ele está mentindo!
A criada ergueu a mão bem alto, exibindo o broche azul. Engastado numa moldura dourada que abraçava a gema azul, parecia mais caro do que qualquer outra coisa naquele salão.
Khalid olhava para Nox com olhos suplicantes, tentando encontrar o seu olhar.
Mas Nox não o encarou de volta.
Como se pressentisse algo de mau agouro, Khalid o chamou com a voz trêmula.
— J-Jovem Mestre…
— ……
— Jovem Mestre, o senhor me mandou fazer o serviço. O s-senhor pediu que eu trouxesse o broche de Sua Graça. Não foi?
— ……
Nox não disse nada.
Não, seria mais correto dizer que não conseguia dizer nada.
Sua garganta se fechara.
Arrependimento, por não saber se podia mesmo fazer algo assim com a criança. Dúvida, sobre se aquela era de fato a melhor forma de tirá-lo da propriedade. E, por cima de tudo isso, a racionalização que ele mesmo construíra.
Seus lábios se moveram várias vezes.
E, por fim, ele forçou as palavras para fora.
— ……Eu nunca lhe pedi uma coisa dessas.
As palavras saíram quebradas, uma a uma.
No instante em que as disse, Nox cerrou os dentes sem perceber.
Os olhos de Khalid se arregalaram tanto que pareciam prestes a rachar. Ele se debateu contra os criados que o seguravam e chamou por Nox.
— Jovem Mestre, Jovem Mestre…!
Nox virou o rosto de propósito.
Quando a criança fosse expulsa assim, ele pediria a outro criado que a colocasse em outra casa. Poderia enviar um recado separado a essa casa. O jovem Nox acreditava que tudo transcorreria conforme a sua vontade.
Mas havia algo que Nox deixara passar.
O olhar atento de Olga sobre ele e sobre Khalid. E o estado de uma mulher cuja doença lhe afiara o temperamento até o limite.
Olga olhou para a criança com expressão sombria e pronunciou com frieza:
— Pelo crime de ousar pôr as mãos nos bens do seu senhor, e pelo crime de usar outro senhor como desculpa.
Diante do gelo na voz da mãe, Nox sentiu a tensão tomá-lo antes que percebesse. Teve o pressentimento de que algo estava prestes a dar terrivelmente errado.
— Como a sua intenção é insolente, ele será açoitado cem vezes com um chicote trançado de vinhas de espinhos e, depois, expulso da casa.
— Mamãe!
Nox chamou Olga de imediato. Os olhos tremiam, incapazes de se manter firmes.
— Isso é severo demais.
— Severo demais?
Os olhos de Olga brilharam de raiva e de loucura.
— Ele ousou roubar os bens do senhor e ainda usar o senhor como desculpa, e você chama isso de severo?
— Ele ainda é só uma criança. Expulsá-lo da casa já seria suficiente…
— Meu filho.
Olga o chamou, a voz agora mais calma, a ponto de ser assustadora.
— Sei muito bem que aquela criança é seu criado. Mas não se pode aplicar uma punição ambígua dessas por sentimentos pessoais.
— Mas…!
Sem pensar, Nox a contradisse, e, ao ver o olhar vacilante do filho, ela gritou:
— Silêncio!
Com um olhar que deixava claro que não toleraria mais nenhuma afronta, Olga deu a ordem.
— Apliquem os cem açoites imediatamente.
— Sim, Vossa Graça!
O corpo inteiro de Nox tremeu.
O jovem Nox jamais quisera que nada daquilo acontecesse. Se a mãe expulsasse a criança, o pai, ciente dos olhos dela sobre ele, não ousaria trazê-la de volta. Nesse meio-tempo, Nox pretendia colocá-la em outra casa. Assim, a criança estaria completamente a salvo.
Mas planos de criança eram só isso: planos de criança.
Que situação era aquela agora?
— Vossa Graça!
Naquele instante, Khalid se desvencilhou das mãos dos criados e correu a se lançar aos pés de Olga, inclinando a cabeça até o chão.
— Vossa Graça, Vossa Graça. Eu errei. Estou arrependido do que fiz. Então, por favor, por favor…
Lágrimas pesadas caíam dos olhos de Khalid enquanto ele implorava.
— Por favor, não me expulse da casa. Por favor, por favor…
— Então ainda não caiu em si. Chefe das criadas, o que está esperando?
— S-sim!
Maeta pegou o chicote que um dos criados trouxera. O açoite, trançado de vinhas de espinhos, estava coberto de farpas. Nunca fora algo destinado a ser usado em cem golpes, para começar.
Nox tentou falar com a mãe. Dizer que era verdade, que fora ele quem ordenara à criança que fizesse aquilo. Que, se houvesse castigo, ela deveria castigá-lo em seu lugar.
Mas, no instante em que tentou abrir a boca, os olhos verde-escuros de Olga faiscaram num aviso sombrio.
— Mantenha a boca fechada.
A mãe se aproximou, pousou a mão em seu ombro e sussurrou em seu ouvido.
— Achou que eu não saberia que foi você quem mandou aquela criança?
Os olhos de Nox se arregalaram.
— Então, no fim das contas, você puxou mesmo ao seu pai imundo. Achou que eu não perceberia que você nutre por aquela criança sentimentos que vão além de simples afeição?
Nox compreendeu, então, que a mãe ainda estava acima dele.
O que ele não enxergara por estar acostumado a lidar com o pai tolo. O preço da estupidez que o fizera esquecer que havia alguém acima de si só porque sempre fora elogiado como mais capaz do que os da sua idade.
— Preciso tirar essa criatura da minha frente. Ver primeiro seu pai e agora você darem esse espetáculo é mais do que posso suportar.
Naquele momento, Maeta cerrou os dentes e ergueu o chicote bem alto.
**Zás!**
O tecido fino da roupa da criança não serviu de proteção alguma. Um grito rasgou o salão.
Era o grito de Khalid, com a voz começando a mudar da adolescência.
Os ombros de Nox se sacudiram.
Olga apertou com força o seu ombro e virou-lhe o corpo para que tivesse uma visão clara de Khalid sendo açoitado.
Então sussurrou de novo.
— Olhe a tolice que você fez. No fim, você não passa de uma cria imunda do seu pai, mas farei de você um ser humano de verdade.
A mão de Olga apertou ainda mais. As unhas se cravaram, e doeu.
Nox mordeu a língua dentro da boca.
**Zás!**
A criança continuava gritando.
Nox mordeu mais forte. Mais ainda. O gosto de sangue começou a se espalhar por sua boca. Mesmo assim, nenhuma lágrima caiu dos olhos arregalados. Mas os vasos rompidos tingiam o branco de um vermelho cru.
O corpo inteiro tremia sem controle.
De repente, Nox quis fugir daquele lugar e salvar a criança. Mas, toda vez que tentava dar um único passo, lá estava a mão da mãe, pressionando com força o seu ombro.
— Olhe bem. Este é o seu pecado. A sua tolice. A sua culpa.
— M-mamãe. Mamãe…
Nox falava aos tropeços.
Khalid continuava recebendo os golpes, e seus gritos ecoavam pelo salão sem parar. Nox não olhou para a mãe nem uma vez. Fitava apenas Khalid, que desabava e sangrava sob o chicote.
Não conseguia desviar os olhos.
— Eu errei. Eu errei. Por favor, por favor, façam parar.
— Meu filho.
Por fim, as unhas de Olga atravessaram o tecido e rasgaram a pele por baixo. O ponto ardeu.
— O que você pôs em movimento, deve suportar até o fim.
A voz de Olga era como um pingente de gelo afiado. Fria, penetrante e dolorosa.
— Aquela pobre criança sofreu só por sua causa.
Depois de dizer isso, Olga tirou a mão do ombro de Nox. Então, olhando com frieza para a criança que ainda era açoitada, disse:
— Nunca mais deixe essa coisa aparecer diante dos meus olhos.
Aquelas palavras eram para Nox.
— ……
E também para o pai, que estava ali curvado, observando a situação.
No instante em que Olga se retirou, o pai fugiu para o próprio quarto sem sequer endireitar os ombros. Só Nox permaneceu enraizado no lugar.
Khalid já não se movia. Devia ter desmaiado sob a surra.
Nox correu até Maeta, que ainda golpeava a criança inconsciente.
— Pare, por favor, pare!
— J-Jovem Mestre…
— …Maeta. Por favor. Só desta vez, me ouça.
— ……
A chefe das criadas, Maeta, sabia muito bem o quanto Nox prezava Khalid.
Ela imediatamente começou a gritar com os outros ao redor.
— O que estão todos aí parados, encarando? Voltem aos seus postos agora mesmo!
— Sim, senhora!
Os criados se dispersaram às pressas, e logo restaram no salão apenas Maeta, Nox e o inconsciente Khalid.
Com os olhos injetados de sangue, Nox o fitou.
Aquelas costas, que sempre se mantiveram tão eretas enquanto o seguia, agora estavam cobertas de sangue de ponta a ponta.
Nox encarou as costas destruídas de Khalid e cerrou o punho com força.
E então se lembrou do que a mãe, Olga, dissera.
*O que você pôs em movimento, deve suportar até o fim.*
(Continua)