Capítulo 07
SCAN: Ignis Tales
Tradução: Riny
Revisão: Imperatriz
Capítulo 7
Nox sabia exatamente o que ela quisera dizer.
Metade do sangue de Nox vinha do pai imundo. A outra metade, da mãe pura. Tolo, mas não estúpido. Essa era uma das desgraças de Nox.
— …Levem Khalid para o meu quarto.
— Mas…
Sua Graça ordenara que ele fosse expulso. A voz preocupada de Maeta chegou até ele. Nox fechou e abriu os olhos devagar, os cantos ardendo como se lágrimas pudessem escorrer a qualquer momento, e falou.
— Tudo bem.
Sua voz já estava embargada e abafada.
— Quando tudo terminar, eu mesmo o mando embora direito.
Maeta hesitou por um momento, depois assentiu e ordenou que os criados carregassem Khalid até o quarto de Nox. Gota a gota, o sangue escorria pelas costas de Khalid.
O caminho até o quarto estava marcado por pegadas e manchas de sangue.
Nox os seguiu devagar, acompanhando aquele rastro. Cada passo era pesado.
Queria esconder o menino em seu quarto, do jeito que estava, e nunca mais deixar que ninguém o visse. Mas, pelo bem de Khalid, pela segurança da criança, não tinha escolha senão admitir que seria melhor mandá-lo para longe de si.
O pai, sempre à espreita de uma chance, já era problema bastante, mas Nox jamais sonhara que a mãe, Olga, também estivesse de olho em Khalid. Com os olhos afundados, escuros e negros, fitou as costas de Khalid enquanto os criados o carregavam.
**Creeeeec—**
Percorreu o corredor longo, longo. Um criado abriu primeiro a porta de Nox. Então entrou e deitou Khalid com cuidado, de modo que as costas ficassem voltadas para o teto. Nox sinalizou com os olhos para o criado se retirar, e o criado, entendendo o recado, fechou a porta e saiu.
**Creec, clique.**
No instante em que a porta se fechou, o quarto se encheu apenas da respiração entrecortada da criança e do som do coração do próprio Nox, batendo como se também prendesse o fôlego.
Nox arrastou devagar uma cadeira e a colocou ao lado da cama. Então se sentou e ficou olhando o sangue encharcar o lençol. Não tinha coragem de olhar diretamente para o rosto de Khalid.
**Tique, taque.**
O tempo foi passando aos poucos. O sangue que escorria das costas da criança foi, gradualmente, parando. Mas os ferimentos deixados pelo chicote de vinhas de espinhos eram terríveis. Nox pensou que, assim que Khalid deixasse a propriedade, teria de garantir que recebesse tratamento adequado.
É claro que teria de fazer parecer que não vinha do próprio Nox.
— Ugh…
Quanto tempo se passara?
Khalid soltou um gemido baixo e abriu os olhos. A voz da criança estava rachada e arruinada.
Nox estivera encarando o chão. Devagar, com os olhos afundados, negros e escuros, olhou para ele. O rosto de Khalid estava encharcado de suor frio.
Queria estender a mão e enxugá-lo. Queria pedir desculpas, dizer *eu errei, fiz a escolha errada*. Mas mordeu a língua com força e se conteve. Se não cortasse aquilo ali, a mãe, Olga, cortaria à força.
— Acordou?
— Jovem… Mestre?
— Sim. Khalid.
A voz de Nox não era a voz que um dia chamara Khalid com doçura.
Era infinitamente fria. Dura. Uma voz que soava como se falasse com um completo estranho. Diante daquele tom, os olhos de Khalid, que mal recobrara a consciência, tremeram de inquietação. Khalid estendeu os dedos, tateando.
E esperou que Nox lhe tomasse a mão.
Reprimindo o impulso de apertar com força a mão que se aproximava devagar, Nox afastou a mão da criança com as costas da sua, devagar, mas com firmeza.
Os olhos da criança se arregalaram, como se não pudesse acreditar.
— …E-eu cometi um erro.
Então Khalid abriu a boca, como se tentasse de algum modo consertar a situação. Era lamentável. O menino se esforçava tanto para sorrir que era doloroso de ver. Com as costas em tiras de sangue. Tentando, de algum modo, apagar a onda de terror que se fechava sobre ele.
— O s-senhor nunca disse nada assim, Jovem Mestre, então devo ter entendido errado por conta própria, e o senhor está com raiva, não está?
A mão que Nox já afastara uma vez se estendeu de novo e agarrou a sua.
Nox tentou recuar, mas o aperto, mais forte agora sem que ele percebesse, fortalecido pelo tempo, não soltou sua mão. Nox mordeu a língua com mais força. As pontas dos dedos tremiam violentamente. Tentou não deixar que Khalid notasse.
— Khalid.
— Não diga.
— Khalid.
— Por favor. O que eu fiz de errado?
Khalid agia como alguém que já pressentira algo. É claro que sim. Nox lhe pedira para trazer o broche e depois fingira não saber de nada. Só por isso, Khalid já devia ter achado que havia algo errado. E, quando começou a receber uma surra que nunca precisaria ter sofrido, devia ter tido certeza de que tudo se retorcera.
Olhando para os cabelos loiros acinzentados úmidos de suor, Nox falou. Não conseguia encontrar seus olhos.
— Achei que seria melhor você deixar a propriedade.
Khalid se calou. Seus olhos azuis se arregalaram.
— Estou na idade em que logo terei de firmar um noivado adequado.
Nox inclinou a cabeça. Como se estivesse perfeitamente à vontade. Como se nada daquilo importasse para ele. Forçou-se a vestir uma compostura.
— Khalid, você me ama?
E então disse a coisa mais cruel de todas.
— A culpa é sua.
Khalid, tão jovem, não conseguiu dizer uma única palavra. Diante da voz que lhe dizia que o próprio coração estava errado, a criança congelou, como se a fala lhe tivesse sido arrancada.
— O fato de deixar tão óbvio, com o corpo inteiro, que me ama… isso é culpa sua.
— Jovem… Mestre…
A voz de Khalid mal escapou, como se tivesse de arranhar a garganta para sair.
Um corpo encharcado de suor e sangue. E Nox, de pé diante dele, com palavras cruéis nos lábios.
A mente de Khalid girava. Parte dele queria desmaiar ali mesmo. Aquilo só podia ser um sonho. Não conseguia acreditar que o Jovem Mestre que o olhava com tanta ternura momentos antes pudesse simplesmente desaparecer assim.
Khalid apoiou um braço na cama e se ergueu, tentando se levantar. Observando-o, Nox arrancou a mão da de Khalid mais uma vez.
— Assim que conseguir se mover, quero que deixe a propriedade o mais rápido possível.
— O-o senhor está falando sério?
— Estou. Você consegue entender as minhas intenções, não é? Eu até usei mamãe para isso.
Nox ergueu os cantos da boca. Parecia que os músculos em volta dos lábios estavam em câimbra, mas, de algum modo, conseguiu. Só podia torcer para que parecesse um sorriso.
Khalid se pôs de pé.
Com aquele corpo encharcado de sangue.
Nox achava que Khalid ficaria com raiva dele. Que perguntaria como podia traí-lo assim. Que o amaldiçoaria e despejaria toda a fúria.
Mas…
**Tum.**
Foi o oposto.
Khalid caiu de joelhos diante da cadeira onde Nox estava sentado. Os olhos de Nox se arregalaram.
— Desculpe. Desculpe.
Khalid agarrou a barra da calça de Nox.
— Não vou deixar transparecer de novo.
E então, chorando, implorou. Assim como implorara desesperadamente diante de Olga para poder permanecer naquela propriedade.
— Vou tentar não ser visto pelo senhor.
Logo a criança soltou a perna da calça de Nox e juntou as duas mãos. Olhos azuis arregalados. Mãos unidas, pedindo perdão por algo que não era culpa sua.
Cada detalhe daquilo fazia Nox sentir que enlouquecia.
— Por favor. Só me deixe ficar nesta propriedade.
Nox não conseguia fazer a voz sair. Apenas os lábios se moviam.
Pensara que Khalid ficaria com raiva dele. Que despejaria sua fúria. Mas aquilo fora apenas o erro de alguém que não amara a criança o bastante. O amor de Khalid já crescera muito além de qualquer coisa que Nox imaginara.
Nunca tivera a intenção de deixar que crescesse tanto.
Nunca soubera que se tornaria tão grande.
Não…
nunca nem percebera que estava crescendo.
— ……Khalid.
— S-sim. Sim, meu Jovem Mestre…
Nox lutava para manter o sorriso no rosto. Era, literalmente, como se suas entranhas estivessem apodrecendo. Cada palavra que saía de sua boca parecia cortar não apenas Khalid, mas ele mesmo. Mesmo assim, com o desespero de quem morde a própria língua até atravessá-la, Nox forçou as últimas palavras.
— Você não é alguém que possa me amar.
Khalid parou de respirar.
— Não pense que pode me amar.
**Tum.** A mão da criança se soltou, trêmula.
— Saiba o seu lugar.
Nox se levantou devagar. Então se virou, como se não houvesse mais nada que valesse a pena ver.
— Tenho de ir ao treino dos cavaleiros. Quero que tenha ido embora antes de eu voltar.
Khalid não disse nada.
Nox apertou as duas mãos com força onde Khalid não podia ver. O tremor não parava.
— Viva bem.
Depois de expulsá-lo com mais crueldade do que qualquer outra pessoa poderia, mandou que vivesse bem.
— Você é bonito, então tenho certeza de que se dará bem aonde quer que vá.
Nox pensou que aquilo se tornaria o ressentimento de Khalid e lhe daria forças para odiá-lo.
Sem olhar para trás, Nox saiu do quarto do jeito que estava. A porta se fechou com um clique, e, como se o espaço entre Nox e Khalid tivesse sido cortado, a escuridão pareceu cair.
O corredor parecia estranhamente escuro hoje.
Nox ficou ali por um momento, olhando para o teto. Os olhos queimavam. Mas sabia melhor do que ninguém que não tinha o direito de chorar.
— Jovem Mestre…
Maeta, que esperava do lado de fora, o chamou baixinho.
Nox começou a andar devagar pelo corredor. Maeta o seguiu atrás.
No lugar onde Khalid deveria estar caminhando.
— Encontre algum lugar que possa tratar Khalid. Escreva-lhe uma carta de recomendação e providencie um lugar para ele ficar, com dinheiro suficiente para viver por um tempo.
— Sim, senhor.
— E não deixe que ele saiba que nada disso veio de mim.
Diante daquelas palavras, Maeta parou por um momento. Seu rosto estava contorcido de dor.
— Mas, se o senhor fizer isso…
Sabendo muito bem o que Maeta ia dizer, Nox balançou a cabeça.
— Não importa.
*Não importa se ele crescer me odiando a ponto de querer minha morte.*
Como se entendesse perfeitamente o coração de Nox, Maeta respondeu com silêncio.
Nox vagou do lado de fora por muito tempo.
Tempo suficiente para a criança se recompor da dor.
Tempo suficiente para odiá-lo por completo.
E tempo suficiente para deixá-lo completamente para trás.
(Continua)