Capítulo 05
SCAN: Ignis Tales
Tradução: Riny
Revisão: Imperatriz
Capítulo 5
Olga, antes serena e inabalável, ficava mais histérica a cada dia que passava e que a doença se agravava. Toda vez que tossia sangue, virava a casa de cabeça para baixo.
O pai se encolhia diante dela o máximo que podia. Mais do que isso, evitava até passar perto do quarto dela para não chamar sua atenção. Nox o observava e o achava desprezível, e então permanecia ao lado da mãe. Às vezes objetos voavam pelo ar, mas nunca a ponto de ser insuportável. O que o machucava era apenas ver a mãe ficando mais magra a cada dia.
E, à medida que surgiam sinais de que até a mãe, de vontade de ferro, começava a ruir, passou a sentir o olhar do pai, como um rato farejando sem parar uma brecha.
Se a mãe de fato ficasse acamada, não haveria mais ninguém para detê-lo. Nox, o herdeiro, ainda não era maior de idade, e até lá toda a autoridade e todo o poder passariam às mãos do pai.
*Se mamãe desabar de vez, então Khalid…*
Khalid, a criança que correria o maior perigo se o pai tivesse liberdade para andar pela casa sem freio.
Por ora, a mãe ainda aguentava de algum modo, ainda aparecia em público e mantinha as aparências. Mas, se perdesse até essa pouca força, a criança estaria em perigo. O pai saciaria seus apetites sem se importar com quem estivesse olhando.
Numa noite em que o vento frio havia se tornado profundo e cortante, Nox estava sentado na cadeira de balanço do quarto, lendo. Ao seu lado, Khalid revisava as letras que ele lhe ensinara. Sem tirar os olhos do livro, Nox falou num tom leve, como se não fosse nada.
— Khalid.
— Sim, Jovem Mestre.
Com o passar das estações, a criança crescera bastante. Agora chegava quase à ponta do nariz de Nox. Mas os cabelos loiros acinzentados, macios como penugem, e os olhos azuis e redondos não haviam mudado.
— O que acha de ir para outra casa?
— …O quê?
Khalid, que revisava as letras ao seu lado, congelou e ergueu o rosto. Nox manteve os olhos na página e a virou como se nada estivesse errado. Então continuou em tom calmo.
— Você poderia ir para outra casa e receber um tratamento melhor lá. É bonito o bastante para que não faltem pessoas dispostas a contratá-lo…
— Jovem Mestre…!
De repente, Khalid se pôs diante de Nox e caiu de joelhos no chão.
Nox, sobressaltado no meio da leitura, ergueu os olhos arregalados. Mas os de Khalid também estavam. As sobrancelhas franzidas, as pupilas trêmulas, ele falou ainda de joelhos, com toda a agitação à mostra.
— O-o que eu fiz de errado?
— Khalid, levante-se.
— Jovem Mestre, se fiz algo errado, eu conserto. Então, por favor, não me mande para outro lugar…
— Você não fez nada de errado.
— Então por quê…? Jovem Mestre…
Khalid segurou com cuidado o tornozelo de Nox e encostou a testa no seu joelho. Nox ficou ali, atônito demais até para pensar em largar o livro, fitando aquele pequeno topo arredondado da cabeça.
Inspirou de leve e soltou o ar. Talvez tenha soado como um suspiro, pois os ombros estreitos da criança estremeceram.
Nox estendeu a mão, empurrou-o com delicadeza pelo ombro e olhou seu rosto.
Nos grandes olhos azuis, lágrimas tremiam, prestes a cair.
— Você não fez nada de errado.
— E-então por quê…
— …Só estou pedindo que pense a respeito uma vez.
— Não.
Khalid respondeu com firmeza. Tanta firmeza que, ao contrário do costume, a voz saiu baixa e carregada de peso.
— Vou ficar ao seu lado, Jovem Mestre.
— …Khalid.
— Sim, meu Jovem Mestre.
Khalid baixou a cabeça mais uma vez e pressionou um beijo no joelho de Nox.
Diante daquele gesto totalmente inesperado, o joelho de Nox se contraiu. Ao ver isso, Khalid ergueu o rosto para ele, com os olhos cheios de lágrimas, e sorriu radiante.
Por dentro, Nox sentia apenas turbilhão.
*O que eu devo fazer com você? O que eu faço…?*
Nox desejava que a mãe aguentasse só mais um pouco. Até ele mesmo ficar um pouco mais velho. Ou, ao menos, até a criança crescer mais.
Mas, no ano em que Nox completou dezesseis anos, a mãe finalmente foi para a cama.
E o pai começou, aos poucos, a ampliar seu território.
Mesmo quando Nox tentava barrar aquela imundície sozinho, havia um limite para o que conseguia impedir.
— Aonde foi aquela criança?
— …Mandei-o fazer um serviço.
— Entendo.
Depois que a mãe ficou acamada, o pai não fazia esforço algum para esconder o bom humor. E não parava de perguntar a Nox por Khalid, de novo e de novo.
Como se o pressionasse.
Como se ordenasse, sem palavras, que entregasse o menino por conta própria.
Nox rangeu os dentes. Não podia mais manter a criança naquela propriedade.
Mas, mesmo que o expulsasse à força, o menino certamente voltaria à sua procura.
E não parecia provável que o pai fosse deixar Khalid ir tão facilmente.
Mesmo que Nox o mandasse embora, se a criança se recusasse a partir e ficasse rondando fora da propriedade, o pai poderia simplesmente mandar trazê-lo de volta.
Nox começou a pensar em como separar a criança daquela propriedade com segurança.
Logo chegou a uma conclusão.
Uma conclusão da qual mais tarde se arrependeria mais do que de qualquer outra coisa.
— …Está na hora de esse primeiro amor infantil chegar ao fim.
Nox queria que Khalid abandonasse os sentimentos que nutria por ele. Ele não era alguém grandioso ou nobre, não do jeito que a criança imaginava. Não passava de um aristocrata que carregava o sangue imundo do pai. Alguém diferente daquela criança desde o início: uma criança ainda capaz de amar outra pessoa e olhá-la com afeto caloroso.
*Se Khalid quer viver em segurança, precisa ficar longe desta propriedade e de mim.*
Embora acamada, a mãe não estava totalmente confinada ao quarto. De tempos em tempos ainda convidava amigas para o chá. Aos olhos de Nox, parecia menos lazer do que um apego teimoso, à força de pura vontade, ao seu lugar na sociedade, mas ele não podia negar que isso o ajudava.
— …Se for mamãe quem expulsar Khalid, papai não poderá chamá-lo de volta.
Foi assim que Nox concebeu um único método.
Um pensamento que só alguém ainda jovem e tolo poderia ter.
Uma escolha estúpida, feita inteiramente sozinho, sem entender nem uma fração do coração da criança.
O pai vivia o amaldiçoando, dizendo que ele puxara à mãe.
Mas agora Nox pensava diferente.
O sangue do pai corria nele também.
Aquele sangue estúpido, tolo e vil da aristocracia.
* * * * *
Era um dia comum.
Depois de terminar a rotina da manhã, Nox se trancara no quarto com Khalid e separava documentos. Khalid, agora quase da altura do nariz de Nox, de costas eretas, preparava-lhe o chá.
O tilintar da porcelana roçou os ouvidos de Nox.
O mesmo som de sempre. O mesmo Khalid de sempre.
Mas Nox sabia muito bem que agora aquilo precisava mudar.
Respirou fundo.
Naturalmente.
Como se não fosse nada.
No tom mais comum que conseguiu.
— Traga-me o broche azul do quarto de mamãe.
— O broche de Sua Graça?
— Sim.
Khalid inclinou a cabeça, achando aquilo um pouco estranho. Mas jamais ousaria duvidar da palavra do seu precioso jovem mestre. Após um momento, assentiu e abriu um sorriso radiante.
Diante daquele sorriso, que Nox sabia ser provavelmente o último, algo em seu peito se apertou, pesado.
Nox cerrou os dentes em silêncio, depois os soltou e chamou a criança para perto.
— Mamãe tem andado irritada ultimamente, então tome cuidado para não incomodá-la.
— Sim, senhor. Já volto!
Khalid saiu do quarto a passos largos. Nox não conseguia tirar os olhos daqueles cabelos loiros acinzentados, visíveis pela fresta que se estreitava enquanto a porta se fechava.
Porque tinha certeza de que aquele seria o último dia em que veria a criança.
Nox fechou os olhos devagar.
Não queria pensar em nada.
Só esperava que a escolha que fizera fosse a certa.
Mas não havia ninguém que pudesse lhe dar essa certeza.
Ninguém, exceto o seu eu mais jovem.
Nox ficou sentado sozinho no quarto, encarando o vazio.
Um. Dois. Três.
Contava os números mentalmente, um por um. Era como se algo no fundo do estômago estivesse apodrecendo. As criadas e atendentes da mãe eram mais rigorosas do que quaisquer outros criados da casa. Não havia a menor chance de deixarem passar Khalid pegando o broche.
Nox sentia que mal conseguia respirar. Por mais fundo que inspirasse, não era o bastante. Devagar, inspirou e expirou. E de novo.
E logo…
**Toc, toc, toc…**
Um som apressado de batidas veio da porta.
Nox virou-se para olhar.
Quanto tempo se passara desde que Khalid saíra?
Seus olhos foram até o relógio.
Apenas uns vinte minutos.
Tempo suficiente para a criança ser flagrada por alguma das criadas.
— …O que foi?
Nox esperava que sua voz soasse tranquila, e Maeta, agitada, pareceu não notar nada de estranho.
— Jovem Mestre, acho que o senhor deveria vir. É sobre Khalid…
— Já vou.
Nox não perguntou o que acontecera.
Não havia necessidade. Já sabia exatamente como tudo se desenrolaria.
Quando se levantou e abriu a porta, Maeta se curvou fundo e tentou explicar a situação, mas Nox a interrompeu com um único gesto de mão e começou a andar com calma deliberada.
Normalmente, se um criado pusesse as mãos nos pertences de um senhor, era arrastado até o saguão de entrada, no primeiro andar.
Para que todos os criados da casa vissem.
Muito tempo atrás, houvera um criado que tocara nos pertences do pai e fora expulso sem sequer uma carta de recomendação.
Era só isso que Nox também queria.
Uma carta de recomendação era algo que ele mesmo resolveria depois.
Nox chegou à escada que descia para o primeiro andar. Maeta se aproximou logo atrás e sussurrou:
— Parece que Khalid tocou em algo pertencente a Sua Graça.