↫─☾ Episódio 09 ☽─↬
↫─☾ Episódio 09 ☽─↬
“Mas estou com fome.”
Meu estômago não tinha tempo suficiente para esperar por uma entrega, caso eu abrisse um aplicativo e fizesse um pedido, então não teve jeito e fui remexer no armário. Por mais que fosse a casa de um especialista em culinária, ainda era um canto onde gente morava, então pensei que haveria pelo menos um miojo.
— …
Mas, lamentavelmente, o que enchia o armário eram, do mesmo modo, todo tipo de especiarias e temperos que eu nem sabia o que eram. Havia tantos ingredientes em casa e não havia uma única coisa que eu conseguisse preparar? Sem conter o absurdo da situação, por ora, enchi uma panela de água e a pus para ferver.
Se ao menos houvesse arroz instantâneo, era só esquentar, jogar molho de soja, óleo de gergelim e um ovo de gema mole, misturar tudo e pronto. Porém, o que havia era só arroz cru. E quando é que eu ia deixar o arroz de molho, cozinhar e finalmente comer? No fim, o que escolhi foi uma dieta ultranaturalista.
Colocar batatas na água fervente e cozinhar. Espetar com o hashi para ver se cozinharam. Se o hashi entrar fundo, está cozida, então tirar, salpicar sal ou açúcar e comer. Seguindo essa receita, que não podia ser mais simples, a batata cozida estava, desesperadoramente, meio crua.
— Aah…
O humor, que até ontem à noite não estava nada mau, despencou num instante para o lamaçal.
O medo que eu vinha encobrindo esse tempo todo me invadiu. Aquela impotência sufocante de ter virado alguém que não sabia fazer nada. E se a memória não voltasse assim? Se, mesmo depois do fim da licença médica, eu não conseguisse desempenhar o que Lee Soohan deveria devidamente executar, não conseguisse fazer o papel necessário, a empresa com certeza não ia ficar quieta. Diante daquela pressão momentânea, como se eu estivesse sendo arrastado para baixo dos meus próprios pés, minha respiração travou. E, no instante em que meu raciocínio foi empurrado até a beira do penhasco, subiu uma revolta.
“Mas isso é culpa minha?”
O acidente ter acontecido, o eu do passado ter deixado um monte de assuntos complicados demais para se resolver caso perdesse a memória, ter passado a viver sob o mesmo teto que um cônjuge cujos pensamentos eu não conseguia decifrar, não saber preparar uma única comida direito e acabar comendo batata meio crua de brunch*. Pensando bem, nada disso era responsabilidade minha.
Como é que eu ia saber que seria assim? Como se eu quisesse ter ficado desse jeito. Acordar de repente e a memória ter voado, não saber nada sobre o que eu fazia nem sobre o que pretendia fazer, e ser atormentado pela pressão de recuperar logo a memória de qualquer jeito, pela sensação de que eu tinha que fazer alguma coisa. Não foi nada que eu tenha atraído por ter feito algo errado.
Mesmo que houvesse alguma responsabilidade pelo acidente, isso era assunto para o senhor Lee Soohan do passado, que provocou o acidente, assumir; não dava para dizer que fosse algo causado por um erro meu, que virei uma folha em branco.
— Estou pensando cada besteira…
Eu mesmo sabia que aquilo era sofisma*, uma vez que o Lee Soohan do passado e o eu de agora eram a mesma pessoa. Mas, para recuperar a memória e voltar a ser o eu original, não seria mais proveitoso que o eu de agora, de todo modo, comesse bem, descansasse bem, vivesse bem e mantivesse a paz e o bem-estar de corpo e mente? E, para isso, o que eu precisava naquele momento era pôr a culpa nos outros. Nem que fosse para suportar essa situação confusa.
*N/T: são argumentos/raciocínios que aparentam ser verdadeiros, mas são inválidos. Criados com o intuito de enganar e induzir ao erro.
— Se controla direito, Lee Soohan.
Murmurando aquelas palavras sem saber para quem as dizia, pus a panela com as batatas de volta ao fogo. Depois de mais uns dez minutos cozinhando, as batatas, agora completamente macias e farinhentas, me deram as boas-vindas. Enquanto eu ia devagar, resolvendo primeiro a questão da batata, murmurando “de todo modo, eu não fiz nada de errado”, me acalmei tão depressa que o calor que subiu num instante passou a parecer idiotice.
“Está gostoso, isso sim.”
Será que eu deveria ter refogado na manteiga? Depois de encher o estômago junto com uma pontinha de arrependimento, recuperei um pouco de energia. Resolvida a fome de forma simples, voltei direto para o quarto e abri o guarda-roupa. Havia roupas apropriadas para o fim da primavera, arrumadas com perfeição. Escolhi a que parecia mais neutra e vesti; por mais que tivesse me empenhado na reabilitação, depois de quase três meses deitado eu havia perdido peso e músculo, então a peça ficou um pouco larga.
Quando uma pessoa está estressada, os pensamentos acabam sempre indo para o lado negativo. Como se diz, o dia é longo e o tempo é muito. Aproveitar para fazer exercício junto com a reabilitação, sem forçar, sair para caminhar… E, antes de tudo, deixar de lado aqueles ingredientes de altíssimo padrão que só quem tem intimidade com a cozinha consegue transformar em comida e ir comprar coisas com as quais alguém, cuja única habilidade culinária é ferver miojo, consiga sobreviver. Como eu tinha cartão, a partir do jantar dava para pedir delivery também. Quando comecei a desenrolar os pensamentos um a um, com calma, meu peito ficou bem mais leve.
E se a memória não voltasse dentro de um ano? Ora, não foi por vontade minha que ficou assim, então adiantaria alguma coisa me atormentar? Não havia uma sentença definitiva declarando que seria assim e, mesmo que fosse, bastava me preocupar com isso quando chegasse a hora.
Depois de definir o que fazer imediatamente, minha cabeça ficou limpa.
— Aliás, onde será que fica o mercado deste bairro…?
Quando saí de casa com o celular numa das mãos, pesquisando, felizmente havia um grande supermercado a menos de dez minutos a pé.
“Com essa infraestrutura, nessa região, e ainda sendo uma construção nova, dava para viver o resto da vida sem trabalhar, só com o valor do imóvel, não?”
É claro que uma coisa dos sonhos, como esta casa estar no meu nome, não ia acontecer. Mesmo assim, não é que fossem me expulsar agora mesmo por eu ser um desempregado incompetente. No caminho, ia passar também no centro administrativo do bairro para pedir a segunda via do documento de identidade. Era como se minha cabeça, que estava vazia, fosse sendo preenchida aos poucos.
—— ☆•✯•☆•✯ ——
Um tempo depois, quando voltei para casa com as duas mãos cheias, abarrotadas não só de instantâneos, mas de produtos que bastava esquentar, já passava bem das quatro horas. Entre o estúdio fotográfico, o centro administrativo e o supermercado, andei por aí com a determinação de dar conta de tudo, já que tinha saído, e o tempo passou sem que houvesse brecha para pensamentos deprimentes.
Disseram que o documento estaria pronto para retirada em cerca de duas semanas, e a foto 3×4, que enfiei no bolso, ficou boa, com um ar bastante simpático, o que me deixou satisfeito. As compras também estavam bem estocadas, a ponto de aguentar até uma guerra, então não havia mais nada com que me preocupar.
“Pensando bem, deve ter chegado a notificação por mensagem.”
Por mais que ele tenha dito que eu podia usar à vontade, era meio desagradável que uma notificação fosse para ele toda vez que eu gastasse dinheiro. Assim que o documento saísse, eu precisava ir ao banco pedir a segunda via do cartão de segurança e registrar um novo certificado digital para conferir todos os meus bens de uma vez. Não é que eu fosse alguém sem atividade econômica; eu pertencia a uma categoria profissional de salário bem alto, então não era possível que não houvesse dinheiro guardado.
Com o coração bem mais leve, olhei para a geladeira em que enfiei tudo que comprei e, hum, endireitei os ombros. Um especialista em organização, ao ver aquela cena, gritaria perguntando se aquilo era mesmo uma arrumação, mas congelados no congelador, refrigerados na parte refrigerada — classifiquei sem errar, então, de todo modo, estava bom assim. Junto com essa racionalização leve, me joguei no sofá e o sol já estava se pondo aos poucos.
Estou confuso agora. Julgando a um passo de distância, como quem contempla a vida alheia, consegui perceber de novo o quão instável eu estava. Então nada de me afligir à toa com cada coisinha. Sofrer por situações que eu não podia controlar era um jeito de me corroer por dentro.
Um tempo depois, a fome começou de novo e comi um kalguksu*, que bastava jogar tudo na quantidade certa de água e ferver. Depois de encher a barriga, recuperei um pouco de energia.
Como antes eu tinha visto o quarto em que durmo, fiquei curioso sobre o que haveria no outro quarto e abri a porta; realmente não havia nada de especial. Chamaram minha atenção um armário de exposição, com toda sorte de placas de premiação e de mérito que recebi trabalhando, além de emblemas de jurado, e alguns porta-retratos que meu enigmático coabitante parecia ter trazido da casa dos pais.
— Ué, que fofo.
Fotos tiradas desde a infância estavam cuidadosamente guardadas em molduras e penduradas. Desde uma foto de bebê que devia ter sido tirada por volta dos dois anos até o ensino fundamental, o ginásio e o ensino médio. Aquelas imagens gravadas, como se registrassem, uma a uma, o processo de crescimento, foram bastante marcantes. Em geral, eram fotos com um ar dócil, mas, na época do fundamental, sabe-se lá o que o havia irritado tanto; ele estava de pé com o rosto todo franzido, tendo ao fundo um mar em que se via uma pequena ilha.
“Os pais cuidaram bem dele.”
No instante em que, sem perceber, me aproximei e toquei de leve o rosto franzido do menino, a moldura, que talvez estivesse pendurada quase na pontinha do prego, entrou para dentro e houve um barulho de algo batendo na parede.
— Ãh?
Levei o maior susto, achei que tinha quebrado o porta-retrato dos outros. Depois de finalmente pendurar a moldura direito, vi pelo vão da cortina que havia um monte de coisa empilhada também na varanda.
“Ali também tem tanta tralha assim.”
Empurrei a cortina para o lado e fui até a varanda; havia móveis sem uso e quinquilharias empilhadas. Ao lado, havia um armário que parecia ter sido feito para servir de depósito. Mesmo remexendo, não havia sinal de que a memória fosse voltar, mas, já que eu tinha ido até ali, me deu o impulso de dar uma olhada.
Será que aqui também tem um monte de porta-retratos? Pelo vão levemente aberto, vi uma moldura e pensei que foto seria essa, tão grande… E, ao conferir o conteúdo do armário, acabei tomando um susto.
— Então estava aqui.
Era o objeto sobre o qual, desde que cheguei em casa ontem, eu vinha me perguntando por que não estava à vista, se aquela era a casa de recém-casados.
☰ ⌀ ⌀ ⌀ NOTA ⌀ ⌀ ⌀ ☰
Brunch: é uma refeição que é realizada em um horário entre café da manhã e almoço, normalmente entre 10h e 15h;
Kalguksu: prato tradicional coreano que consiste em uma sopa quente com macarrão de farinha de trigo cortado à faca.
↫─☾⋆⋅☆⋅⋆☽ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Flower