↫─☾ Episódio 10 ☽─↬
↫─☾ Episódio 10 ☽─↬
— …
Os cantos da minha boca, que lá dentro do quarto tinham desenhado um arco enorme ao ver as fotos fofas, despencaram rumo ao submundo. Quem, ao ver aquilo, iria imaginar que éramos um casal apaixonado? Nem se cada um fosse fotografado separadamente e depois tudo fosse montado numa colagem ficaria tão constrangedor assim. Diferente dos outros porta-retratos, que dentro do quarto eram mantidos bem impecáveis, aquela fotografia gigantesca, coberta por uma camada esbranquiçada de poeira, era, nada menos, a nossa foto de casamento, minha e de Yeonseo.
Uma foto daquelas, normalmente, mesmo num casamento de fachada qualquer, não é tirada com os dois fingindo felicidade, fingindo estar muito contentes em se casar? Aquilo ali estava no nível de uma foto tirada na marra, como se dez minutos antes da sessão tivesse rolado uma briga feia, e eles quisessem adiar a agenda de qualquer jeito, mas fosse uma situação em que, se não fotografassem naquele dia, uma faca lhes seria posta no pescoço.
“Nesse nível, até quem tirou a foto deve ter ficado sem graça.”
Na foto, eu estava com o olhar claramente desviado de Yeonseo. E Yeonseo também apenas encarava o chão em silêncio, sem me olhar de frente. Se alguém quisesse considerar aquilo uma direção artística com certo clima, até poderia parecer.
“Convenhamos, é forçado. Se fosse isso, que ao menos estivessem grudados.”
A hipótese de que ‘Jo Yeonseo não me detesta’, da qual eu tinha certeza por causa daquela breve reação de ontem à noite, cambaleou perigosamente.
“Quer dizer que foi um casamento que nenhum dos dois queria, mas somos próximos o bastante para ele ter pena de mim por eu ser um coitado…”
Com a sensação de ter aberto a caixa de Pandora, fechei a porta do armário. De todo jeito, como eu tinha sobrevivido, o fato de que eu precisava seguir caminhando a passos firmes não mudava, mas, pensando que eu não enxergava um palmo à frente nem atrás, meu ânimo continuava a oscilar e a se agitar.
“Nessas horas eu não deveria pensar em nada.”
Quando voltei ao sofá e, recostando o corpo de qualquer jeito, fechei os olhos, a voz da moradora que me reconheceu no supermercado voltou nítida à memória. Como eu não sabia o que responder caso encontrasse algum conhecido, tinha enfiado bem fundo na cabeça um boné que estava no guarda-roupa, mas, ao que parece, isso não foi suficiente para esconder minha aparência.
“Nossa, na TV você aparece todo esnobe, mas visto assim tem uma cara bem aberta, hein~”, Tirililim, tac, tirililim, bip bip bip bip bip, Tirililim, tum tum, quase como quem vem cobrar uma dívida.
— Senhor Jo Yeonseo! Por acaso o senhor desmaiou aí dentro?
E então gritei, descarado, como se estivesse encenando:
— A pessoa entrou aí e não responde, fico preocupado. Não aconteceu nada, né? Se eu tiver que arrombar a porta…
Quando ergui a voz a ponto de quase ser ouvido no apartamento de baixo, lá dentro houve um estrondo, o som de algo tombando, e ele abriu a porta com uma cara de susto. Estaria lavando o rosto assim que chegou? A toalha com que enxugou a água às pressas ainda estava pendurada no pescoço, e a roupa de estar em casa, que trocou nesse meio-tempo, tinha um caimento folgado e solto, o que deixava totalmente à mostra as gotas de água que escorriam do rosto, passavam pelo queixo e molhavam até a nuca.
— …Sim?
O coração humano é uma coisa curiosa. Antes de ver o rosto dele, eu estava ansioso e incomodado por causa de todas as incertezas, e a cabeça revirada. Mas, no instante em que encarei aquele rosto que, assustado por minha causa, não sabia o que fazer, curiosamente me senti bem. As bochechas coradas e ruborizadas o deixavam ainda mais jovem. Diante dele, que tinha saído correndo às pressas e trazia estampado no rosto o susto, puxei levemente os cantos da boca e mostrei o que tinha na mão.
— Eu saí durante o dia. Chegou o aviso do gasto no cartão, né? Havia uma padaria que parecia boa aqui perto, então comprei alguns a mais.
Então ele me olhou fixamente de cima, com aqueles olhos molhados, como se aquilo não tivesse nada a ver com ele. Não sei o que pensava, mas era um olhar que parecia um pouco triste e um pouco alegre também. O fato de que era eu que estava pendurado na ponta daqueles olhos indecifráveis não me era desagradável.
— Acho que é muito para eu comer sozinho. Coma um pouco comigo. Se agora não der para comer, pode levar para a empresa.
— …
O olhar de Yeonseo transitou por um momento entre mim e o saco de pães. Então, de repente, ele desviou os olhos e virou o rosto.
— Não precisa.
Era uma expressão de recusa evidente. Mas eu também não tinha intenção de recuar assim.
— Não. É que eu não estou bem.
Talvez fosse uma resposta que ele não tivesse sequer imaginado, pois se assustou de repente, os ombros estremeceram e ele me olhou por um instante. Assim como eu tinha ficado perplexo pensando “que raios esse desgraçado está pensando?” pouco antes, ele também parecia não ter esperado que eu viesse com essa resposta e aparentava ter dado um branco sobre como responder. Segurei firme a maçaneta com uma das mãos para que ele não pudesse fechar a porta e insisti à força.
— É que eu comprei demais mesmo e não vou conseguir comer sozinho. Disseram que é uma delícia, e seria um desperdício jogar fora, não? Então pense nisso como dividir o sofrimento e coma um pouco.
E, quando lhe empurrei nos braços aqueles pães com nomes pomposos como kouign-amann* e mont-blanc*, ele, que não teve coragem de deixá-los rolar pelo chão, os recebeu atrapalhado.
— Escolhi só os que estavam marcados como os melhores. Disseram que, se você for tarde, esgotam e não dá para comer. Então, até amanhã.
E então, como se eu já tivesse dito tudo o que tinha a dizer, fechei a porta num segundo e nenhum som veio lá de dentro. Pouco antes de a porta se fechar, aqueles olhos arregalados de susto, feito os de um coelho, ficaram vagando diante de mim. Alto, como um varapau, com um rosto de ator sofisticado da cidade grande, e mesmo assim ficando acanhado daquele jeito — sem perceber, achei aquilo fofo.
Depois de empurrar os pães na marra, quando, muito tempo depois, vazou de dentro o som farfalhante de embalagens plásticas individuais sendo abertas e de alguém comendo pão, tive de me esforçar para não rir alto.
☰ ⌀ ⌀ ⌀ NOTA ⌀ ⌀ ⌀ ☰
Kouign-amann: é um bolo tradicional da Bretanha, na França. Feito com massa folhada, manteiga e açúcar, é assado lentamente até ficar caramelizado, resultando em uma casquinha crocante por fora e o interior macio e amanteigado;
Mont-blanc: é uma sobremesa clássica francesa e que homenageia a montanha mais alta dos Alpes, pois o doce se assemelha a um pico nevado.
↫─☾⋆⋅☆⋅⋆☽ Continua…
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Flower