↫─☾ Episódio 08 ☽─↬
↫─☾ Episódio 08 ☽─↬
— Ops.
Que desperdício. Fechei a torneira depressa e, ao mergulhar o corpo naquela água quente a ponto de deixar a pele avermelhada, as juntas doloridas foram se soltando devagar e o corpo derreteu.
— Aah, que bom.
Sem que eu percebesse, escapou uma interjeição de tiozão, e não tive como conter. Afundando de vez o corpo e escaldando-me por inteiro, foi como se todo o cansaço acumulado em camadas voasse embora.
Pois é, uma pessoa precisa também de uma cura tranquila assim, e não só daquela reabilitação que fica alternando entre a tortura elétrica e a térmica, para a vida ter algum gosto. A preocupação de estar despreocupado demais para alguém que não lembrava de nada foi levada pelo ralo junto com a água que transbordou da banheira.
De qualquer forma, eu sobrevivi. Não é que pense de forma obsessiva que tudo no mundo tem uma razão. Mas eu queria acreditar que estar respirando assim, inteiro, e me movendo com os braços e as pernas em ordem significava que ainda havia um motivo para estar vivo.
“…O motivo eu vou arranjando aos poucos, ora.”
Fechei os olhos, desviando o olhar do corpo magro, com os músculos derretidos e cheio de marcas da cirurgia, que se refletia no espelho.
Na manhã seguinte, acordei com a luz do sol que entrava por entre as cortinas e, hum, ergui o corpo entorpecido enquanto bocejava.
— Aaah.
A que horas eu dormi ontem? Acho que foi bem cedo. Jo Yeonseo fechou a porta do quarto principal e entrou, não vazava nem um som, era um silêncio total; e eu, depois de sair da banheira quentinha, fui tomado por tal sono que não consegui mais aguentar. Não importava se ainda nem eram dez da noite, eu ia dormir. Desabei sobre o edredom, engatinhei até achar uma posição e me enfiei debaixo dele.
“Será que o edredom também é o que eu já usava?”
Como as estações tinham mudado enquanto eu estava internado, já teria dado tempo de sobra para trocar o edredom de inverno pelo de primavera. O edredom, assim como muitos outros objetos, quase não tinha sinais de uso. Eu não tinha o talento de distinguir se aquilo era um produto novo feito desse tipo de material ou se era uma coisa com histórico de algumas lavagens, usada com esmero.
“Pensando bem, o celular, o notebook, a carteira, as roupas que ele levou para o hospital, tudo era novo.”
Será que dar-se ao trabalho de procurar as coisas que eu usava era chato e ele simplesmente comprou tudo novo… Se a pessoa é de família bilionária, esse tipo de raciocínio até é plausível. Ou será que ele não gostava da ideia de eu usar os objetos que usava antes? Não dava para saber a intenção, mas era como se aquilo separasse o eu atual do ‘verdadeiro Lee Soohan’, e de repente me deu uma sensação estranha.
“Espera aí, que negócio é esse de verdadeiro Lee Soohan? Eu que sou o Lee Soohan.”
De repente, sentindo-me injustiçado, chutei o edredom para longe e pisei no chão. Ugh, ainda doía nas juntas cada vez que dava o primeiro passo, e uma fisgada esquisita me acompanhava até eu me acostumar com algum nível de atividade.
Chega de pensar bobagem. Hoje vou vasculhar o quarto com calma, para começar. Se ele fosse o culpado por ter me feito mal e, na esperança de que minha memória não voltasse, tivesse escondido alguma coisa, já teria tido tempo mais que suficiente para destruir as provas. Nesse caso, os objetos que restavam neste quarto seriam apenas coisas que, por mais que eu olhasse, não representariam o menor perigo para ele.
E, sem muita expectativa, no momento em que abri a gaveta debaixo da estante…
— Opa.
Logo de cara, tirei uma espécie de prêmio. Diferente do notebook, que ele parecia ter comprado novo, este era um produto com sinais de uso. Virei-o e conferi o ano de fabricação e o código do produto: era um modelo antigo, lançado uns dois anos atrás.
“É este.”
Afinal, do histórico de buscas aos arquivos que eu usava, se nada tivesse sido especialmente apagado, estaria tudo ali. E, se algo tivesse sido apagado, até o registro da exclusão ficaria. Achei rapidamente um carregador na régua de tomadas arrumada com esmero ao lado, conectei e liguei o aparelho; um som de inicialização familiar ecoou.
“Ah, mas eu não sei a senha, não é?”
Por um instante achei que tinha vacilado, mas, para minha imensa sorte, havia leitura de digital configurada. Uau, caramba, que susto. Aliviado, pousei o polegar sobre o sensor e, com o aviso de que o bloqueio fora desativado, a área de trabalho apareceu.
“Que organizado.”
Foi só essa a primeira impressão. Os ícones na área de trabalho não chegavam a dez. E, mesmo esses, eram todos de mensageiros corporativos e programas de documentos. Ao abrir uma pasta que parecia reunir materiais de trabalho, dentro havia arquivos classificados por ano e por projeto.
“Oh.”
Os arquivos que abri, junto com uma breve interjeição, eram vídeos, imagens e arquivos de texto extraídos de vários lugares, além de materiais de apresentação.
[Lista de recomendações de promoção de importação por região vinícola da França] <> [Plano de negócios do setor de alimentos e bebidas — segundo semestre de 2023] <> [Relatório de análise de vendas do 1º trimestre de 2021] <> ‘Espanha_20190428’ <> [Proposta de novos produtos do Hotel Seosang Grand Castle — 1º trimestre de 2023] <> [Plano de negócios anual da linha de alimentos e bebidas do Resort Seosang Le Nimen — 2023]
Uma montanha infindável de documentos confidenciais. Já entendi que eu era um fantasma do trabalho, que trabalhava até em casa. Acho que já basta saber disso. Depois, examinei também a estante repleta de livros, mas eram todos livros estrangeiros, no idioma original, relacionados à culinária.
Chega dessa maldita culinária! Chega de trabalho também! Não é à toa que a cozinha me pareceu enorme em comparação com uma casa comum. Deu para deduzir que o motivo de a cozinha ser ampla não era para eu mesmo preparar algo, e sim porque nem em casa eu descansava da pesquisa de novos produtos. No fim, depois de vasculhar até o guarda-roupa e revirar até os bolsos das roupas, chegando a conferir um cupom de loja de conveniência de dois anos atrás, cheguei de novo a uma conclusão.
Neste quarto não há nada que sirva de pista sobre o Lee Soohan como pessoa, só sobre o Lee Soohan, especialista em gastronomia. A única coisa que consegui descobrir foi o fato de que eu era um sujeito viciado em trabalho.
“Mesmo assim, como é que uma pessoa só trabalha desse jeito…?”
Vivendo assim, não é de admirar que um dia a pessoa enlouqueça, perca o juízo e saia atirando por aí. Um advogado trabalhista não deveria agarrar o sujeito pelo colarinho e impedi-lo, dizendo “vivendo assim, o senhor vai morrer”? De repente me veio a ideia idiota de “Ah. Será que foi por isso que eu provoquei o acidente de propósito?”, e balancei a cabeça com força para dissipá-la.
Vamos pensar ao contrário. Uma pessoa tão motivada com o trabalho, que fez um monte de planos para este ano, não iria de repente querer morrer, não é? Fiquei remexendo aleatoriamente aquelas perguntas sem resposta até que minha cabeça doeu e parei.
Será que fora do quarto não seria diferente? Ao abrir a porta e sair, como Yeonseo tinha dito ontem, ele já havia saído para o trabalho fazia tempo.
[11:21]
A essa altura, os trabalhadores comuns já tinham chegado ao serviço. Como eu tinha pulado o café da manhã e emendado num sono direto, estava com fome. Será que havia algo comível para servir de café da manhã e almoço ao mesmo tempo? Ao abrir a porta da geladeira, estava cheia de ingredientes que, assim como os outros objetos, pareciam ter sido comprados recentemente.
Desde algum vegetal esquisito que eu nunca tinha visto até produtos básicos como cebola, alho-poró, batata, e ainda molhos, que eu nunca vi nem ouvi falar, e até vinho. Fiquei pensando: “Como é que eu deveria preparar isso para comer?”
“Será que, se eu pegasse uma frigideira ou uma faca de cozinha na mão, as memórias do passado surgiriam num estalo e eu conseguiria cozinhar, deixando o corpo se mover sozinho…?” Esse pensamento idiota atravessou meu lobo frontal, mas é claro que não havia a menor chance disso.
↫─☾⋆⋅☆⋅⋆☽ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Flower