↫─☾ Episódio 07 ☽─↬
↫─☾ Episódio 07 ☽─↬
Aquela impressão melancólica parecia… não sei bem se posso usar essa expressão, mas seria o caso de dizer que era o rosto de alguém que tinha perdido o cônjuge. Na realidade, o ‘Lee Soohan’ que ele conhecia estava agora praticamente meio morto, então talvez não fosse uma afirmação errada.
— Há mais alguma coisa que gostaria de saber?
O homem examinou meu rosto com cautela, com uma expressão de quem reprimia algo à força. Sem saber bem por quê, eu me senti constrangido. Pensar uma coisa dessas já era meio estranho, mas… as memórias enquanto Lee Soohan tinham sumido de forma tão limpa, como se alguém as tivesse formatado de propósito, e a situação era como se eu tivesse virado outra pessoa. Dava a impressão de que eu havia tirado dele o verdadeiro Lee Soohan.
Ainda assim, eu não podia deixar passar o que precisava perguntar. Sem me deixar levar por aquele rosto que parecia digno de pena, criei coragem e perguntei:
— Então posso considerar que as bagagens e os objetos que estão fora do quarto principal são meus?
De qualquer forma, eu estava numa posição em que precisava recuperar a memória o quanto antes. Se examinasse com calma as coisas que eu usava até então, talvez me viesse alguma lembrança. No estado em que eu estava, não tinha como saber até onde podia mexer, então toquei no assunto com cuidado, e o homem hesitou um instante antes de responder.
— Sim. Se por acaso ajudar a recuperar a memória, pode examinar não só os cômodos que você usa, mas a casa inteira.
Diante da permissão concedida com mais facilidade do que eu esperava, um breve “oh” de admiração escapou por dentro. Já que o assunto tinha surgido, não perdi o fio e perguntei:
— Nesse caso, tem mais uma coisa que eu gostaria de perguntar. — O homem assentiu levemente com a cabeça, como se esperasse que eu falasse. Na hora de pôr aquilo para fora, senti certo constrangimento, mas era o que eu vinha querendo perguntar esse tempo todo. — Que tipo de pessoa eu era?
A única pessoa capaz de responder a essa pergunta filosófica, até onde eu sabia agora, era esse homem.
Ele inspirou de leve, como se surpreso, e um silêncio gélido desceu sobre nós.
Será que eu não deveria ter perguntado? Que a relação não devia ser lá muito boa já parecia meio confirmado. O clima constrangedor durou pouco; o homem finalmente abriu a boca.
— Competente… e, acho, uma pessoa que gozava da confiança de muita gente.
Mas isso não era o Lee Soohan enquanto cônjuge, não é? Como eram as relações familiares? Como era a relação com os sogros? Como foi que nós dois acabamos nos casando? Havia muito mais do que uma ou duas coisas que eu queria investigar em detalhes, mas o clima não era propício para perguntar.
— Então acho que, por ora, já disse tudo que queria perguntar.
Como o clima constrangedor era mútuo, era melhor mandá-lo logo descansar. Quando o deixei ir sem resistência, o homem assentiu de leve e se levantou.
— Sim. Nos dias de semana costumo sair cedo pela manhã e só voltar tarde da noite, então não precisa se preocupar comigo.
E então baixou a cabeça numa reverência silenciosa e seguiu direto para o quarto principal. O corredor que ia da sala até o quarto principal era bem comprido. Graças a isso, enquanto eu continuava sentado no sofá, observando-o se afastar, percebi que tinha esquecido uma pergunta não menos importante.
“Ah, preciso perguntar aquilo também.”
Depressa, tirei o traseiro do sofá e gritei na direção do quarto principal:
— Ah, me desculpe mesmo, mas vou perguntar só mais uma coisa, agora é a última.
O homem se virou e olhou para mim com o rosto ainda sem grandes mudanças, como se perguntasse o que havia acontecido. Fiquei momentaneamente sem jeito por tê-lo incomodado, mas não me abati e perguntei:
— Como eu devo te chamar?
Que o nome dele era Jo Yeonseo, isso eu sabia. Mas, uma vez descoberto que, ao menos no papel, éramos um casal, eu não podia continuar chamando-o de “você aí” ou “ei, moço”. Ainda mais porque agora não era como no hospital, em que ele ia e vinha só enquanto eu dormia; nós vivíamos na mesma casa.
A expressão do homem se enrijeceu por um instante e ele ficou calado, como se mergulhado em pensamentos. Só depois de um bom tempo é que falou, um pouco encabulado:
— Como preferir…
Aquela expressão, que de algum modo parecia até envergonhada, de repente não foi nada desagradável de ver. Como dizer, foi um instante bem breve em que aquele rosto, sempre duro feito um manequim, pareceu humano. Naquele silêncio constrangedor, meu olhar foi atraído sem querer, e me deu vontade de me enfiar por aquela fresta humana. Não havia má intenção nem razão especial; era só que aquele clima árido demais estava difícil de suportar.
— Você é cinco anos mais novo que eu, não é?
Lembrando das informações do responsável que vi na hora dos trâmites da alta, lancei de repente aquela pergunta sem propósito, e uma dúvida se estampou no rosto do homem.
— Sim, isso mesmo, mas…
Diante daquele rosto perplexo, em que parecia estar escrito ‘Por que isso, do nada?’, engoli o riso e soltei uma piada boba:
— Então posso te chamar de “Yeonseo-ya”?
Naquele instante ouvi a alucinação auditiva de um ‘crac’, como se o homem, rígido feito pedra, estivesse rachando. Perturbado, sem saber o que fazer, ele balançou a cabeça em negativa.
— …Isso seria um pouco… complicado.
Claro, claro. Nessa situação, você não ia querer, assim de repente, passar a se tratar sem formalidade, né? Sem conseguir mais segurar, soltei uma risadinha e o acalmei:
— Entendi. Então “Yeonseo-ssi” pode ser, certo?
O homem, ou melhor, Yeonseo, que de uma hora para outra virou alvo de provocação, respondeu cobrindo com o dorso da mão o rosto que ficara vermelho num segundo.
— Sim, isso seria bom. Então, preciso me preparar para o trabalho amanhã, com licença.
E então fugiu depressa, como uma tartaruga que esconde a cabeça dentro do casco, e aquilo de algum modo me pareceu fofo; num instante, foi como se um pouco de calor circulasse pela casa que até então era só aridez. De qualquer forma, ele não dava a impressão de não gostar de mim. E, já que ele vivia entrincheirado no quarto principal, teria de voltar para esta casa de qualquer jeito. Tempo era o que não faltava, então bastava ir conhecendo aos poucos enquanto esperava a memória voltar.
De repente, tive a sensação de que parte da inquietação daqueles dias era levada embora. Na verdade, eu só tinha feito uma piada à toa e provocado um garoto; nada havia sido resolvido nem mudado. Ainda assim, só o fato de não ter sido bloqueado, como se nem uma agulha pudesse penetrá-lo, já deixou meu coração um pouco mais leve.
“Então agora vou dar uma olhada pela casa…”
Mal terminei de pensar isso e o cansaço me atingiu de uma vez, já que, durante todo aquele tempo, minhas atividades tinham se resumido a ficar deitado e sair uns quinze minutos por dia ao jardim da cobertura para tomar ar.
“Antes de dar a volta, vou tomar um banho primeiro.”
Como o período de internação no hospital tinha sido bastante longo, os ossos quebrados, embora ainda não pudessem receber esforço, estavam razoavelmente bem consolidados.
Quando soltei o protetor de fixação removível — não era um gesso fechado — e entrei no banheiro, vi uma banheira ampla e limpa. Parecia ter sido instalada de propósito, pois era maior do que os produtos que se costuma encontrar numa casa comum. Como se fosse para caber, ainda que um pouco apertado, dois homens adultos com mais de 1,80 m. No entanto, não se sentia o menor sinal de uso, o que dava a entender que, morando sozinho, ele nunca havia usado o banheiro da sala.
“Se o quarto principal tem banheiro e closet anexos, imagino que não houvesse necessidade de usar o banheiro da sala.”
Dando uma olhada rápida, todos os produtos que enchiam a prateleira eram novos, com o lacre recém-aberto. Como se tivessem sido preparados esperando a minha chegada.
Enquanto enchia a banheira com água quente, apertei um pouco de sabonete líquido e fiz espuma; exalava um cheiro refrescante, mas não leve demais. Parecia ter um toque amadeirado ou cítrico misturado. Não entendo de perfumes, mas não é ruim, pensei enquanto enxaguava na pia, e então me veio a curiosidade: será que isto também foi ele quem escolheu para mim?
Será que achou que eu gostaria de algo assim? Ou serão os produtos que eu já usava antes? Não dá para dizer que o tempo em que fiquei internado tenha sido curto, mas também não foi longo a ponto de exigir que se jogassem fora todos os produtos de banheiro que eu usava. Haveria algum motivo para trocá-los por novos de propósito, ou então…
Eram todas suposições idiotas e delírios meus, de certo, havia bem pouca coisa. Que eu e ele tínhamos realizado uma cerimônia de casamento um ano atrás e nos unido legalmente como cônjuges. Que Yeonseo era um marido cinco anos mais novo que eu. E…
Que ele não parecia me detestar.
“O coração humano é uma coisa engraçada.”
Até pouco antes eu estava rosnando por dentro, pronto para mostrar os dentes: como é que eu vou confiar nesse desgraçado? Não é ele o culpado pelo meu acidente? E agora, só porque uma piadinha à toa pegou, meu humor de repente afrouxou e eu já tirava conclusões do tipo “de todo modo, ele não parece me detestar”. O coração é mesmo uma coisa leve, feito uma folha de papel.
Em que ele teria pensado enquanto enchia de coisas novas este banheiro sem uma única mancha de limo? Talvez tenha mandado outra pessoa fazer isso. Que não éramos íntimos, ao menos isso parecia certo. Fiquei curioso para saber onde e como nos conhecemos e como acabamos chegando ao casamento. Eu não conseguia de jeito nenhum imaginar minha figura ao lado dele.
A cena do casamento que tentei imaginar uma vez era só constrangedora. O noivo de rosto bonitinho estava com uma expressão de quem ia fugir a qualquer momento, e isso me fez rir. Pouco antes que a curiosidade se prolongasse, a água que enchia a banheira transbordou.
↫─☾⋆⋅☆⋅⋆☽ Continua…
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Flower