↫─☾ Episódio 06 ☽─↬
↫─☾ Episódio 06 ☽─↬
— Desde o começo nós dormíamos em quartos separados?
Alguém poderia dizer que isso não era o mais importante naquele momento, mas, tratando-se de um casal, a não ser que a relação estivesse realmente ruim, o normal não seria dividirem o quarto principal? Se a casa tinha nada menos que quatro quartos, até dava para usarem cômodos separados por conveniência, mas não se podia dizer que fosse comum um casal em plena lua de mel dormir em quartos diferentes.
— …
Ao fim de um breve silêncio, o homem abriu a boca.
— Sim. Eu quase não circulo por nenhum cômodo além do quarto principal, então pode usar a sala e os quartos restantes como preferir.
Que história era essa? Por mais que eu olhasse, aquilo não parecia um casal, e sim dois colegas de quarto que não se davam bem e se aguentavam a duras penas porque o contrato de aluguel ainda não tinha terminado; minha cabeça se encheu de dúvidas. A distância constrangedora e, ainda por cima, aquele modo de vida estranho. As coisas suspeitas não eram uma ou duas.
Como se aquilo bastasse, o homem tentou fugir direto para o quarto principal, e eu enfiei de repente o pé na fresta da porta prestes a se fechar e perguntei:
— Ah, e mais uma coisa. Como estive internado esse tempo todo, deixei passar por ora, mas o que aconteceu com o meu trabalho?
— Ah.
Quanto ao trabalho na televisão, não sabia como andavam os bastidores, mas parecia que não havia nenhum programa em gravação. Já no trabalho da empresa, alguém em cargo de diretor de divisão havia sumido de uma hora para outra, então devia ter dado um bom rebuliço; será que estava tudo bem? Perguntei, escondendo a inquietação diante de uma situação que não tinha como estar bem, e o homem soltou uma breve interjeição antes de responder.
— Como não sabíamos quando você se recuperaria, providenciei por ora uma licença de um ano. Não há necessidade de voltar às pressas, então pode viver como preferir até recuperar a memória.
Desde antes, ele repetia demais aquela maldita frase de “viva como preferir”. Não parecia dizer aquilo com alguma má intenção, mas, para quem não conseguia se sentir nem um pouco à vontade, aquilo soava quase como uma provocação.
“Será complexo de inferioridade?”
Eu mesmo conseguia perceber isso mais ou menos. Era porque essa situação, em que eu não fazia ideia do que estava acontecendo, nem de quem eu era, nem do que deveria fazer, era sufocante demais. Reflexivamente, pensar que meu marido era alguém que sabia de tudo, mas dava um passo atrás e agia como um estranho, tornava o caminho à frente ainda mais nebuloso. Diante da aflição de não saber em que acreditar, minha voz subiu sem que eu percebesse.
— Espere um pouco. É que eu não estou entendendo direito. Para viver à vontade, como você diz, acho que eu precisaria pelo menos saber quem eu sou e o que eu fazia. Posso pedir um instante do seu tempo?
Então o homem cerrou os lábios por um momento e, com uma expressão melancólica, como se tivesse engolido um suspiro, falou:
— Está bem.
Assim que o consentimento saiu da boca do homem, apontei depressa para o sofá da sala.
— Sente-se, antes de tudo. Não me parece um assunto para se conversar de pé.
Quantas dúvidas eu não vinha acumulando sobre aquele homem até então? Pelo cartão de visita que ele me entregara e por buscas na internet, eu já havia descoberto que tipo de gente ele era, mas ainda havia infinitas outras coisas a descobrir a respeito dele.
— …
Diante da minha imposição disfarçada de sugestão, o homem deu passos pesados e foi na frente, até a sala. Sobre nós dois, sentados desajeitadamente cada um numa ponta do sofá de quatro lugares, separados apenas pela mesinha da sala, desceu um silêncio gélido.
— O que você quer perguntar?
Ao contrário de todo o entusiasmo que eu sentia, assim que nos sentamos frente a frente, minha mente ficou em branco. “Ah, quer dizer… o que eu vinha querendo perguntar… isso, o meu acidente.” Pigarreei de leve, hum-hum, e falei:
— Sobre o meu acidente. O funcionário da seguradora disse que foi um acidente sem envolvimento de terceiros. É verdade?
É claro que eu não tinha esperança de ouvir uma resposta decente. Quando ouvi pela primeira vez que aquele homem era meu marido, soltei uma risada seca, pensando que, se era para entender errado, eu tinha entendido de um jeito completamente absurdo; agora, porém, eu não conseguia ter certeza de nada. Se realmente nos amássemos com ardor e um acidente terrível tivesse tentado nos separar, eu poderia confiar plenamente nele, mas…
“Por mais que eu olhe, parece que era um casamento de fachada.”
Também era suspeito que, sendo a casa de recém-casados, não houvesse sequer uma foto de casamento à vista. No fim das contas, será que esse sujeito não era o culpado, e o plano era me matar e depois se livrar de mim? Enquanto eu me esforçava para dissipar aquela imaginação que ia se espalhando feito história de família rica de novela apelativa, o homem falou:
— Pelo que sei, sim. Quando recebi a ligação e cheguei ao hospital, você já estava na sala de cirurgia. Se está curioso sobre o estado do veículo, tenho as fotos que recebi da seguradora.
E então, num gesto rápido, acendeu a tela do celular e abriu as fotos numa mensagem que parecia mesmo ter sido enviada pelo funcionário da seguradora. Ugh. No instante em que vi as manchas de sangue escorrendo devagar de dentro da carroceria completamente transformada num amontoado de sucata, um arrepio subiu pelas minhas costas sem que eu percebesse.
— O veículo não tinha a menor condição de reparo, então mandei para o desmanche. Quanto à câmera do painel, você mesmo havia tirado alguns dias antes, de modo que não foi possível verificar nada.
— …
Tudo exatamente como o funcionário da seguradora havia explicado. Um acidente sem terceiros, causado pela tentativa de desviar de algum animal selvagem. Um acidente casual e infeliz, cujos ferimentos foram mais graves justamente por causa do relevo do lugar onde o carro despencou.
Era mesmo uma história de filme, mas eu pensava que, se tudo tivesse sido armado por aquele homem, ele se abalaria ao menos um pouco. Teria sido um delírio despreocupado e otimista demais? Não havia o menor tremor na expressão dele.
Restava então outra dúvida. O celular. Por que ele me dera um número recém-ativado em vez do número que eu usava antes? Pensando que, se não perguntasse agora, talvez nunca viesse a saber, perguntei apressado:
— Então, e quanto ao número? Entendo que o celular tenha sido perdido, mas o número é completamente diferente do que está no meu cartão de visita.
Diante da pergunta lançada como uma cobrança, o homem respondeu com serenidade:
— Assim como a câmera do painel, o celular também não foi encontrado no local. Quanto ao número, como Soohan é uma figura pública e ele poderia ser usado de má-fé, solicitei a suspensão da linha; e sei que você usava dois números em um único aparelho. Se eu reativasse o número antigo, chegariam ligações de todos os lados procurando por você, e imaginei que isso o deixaria confuso, então achei melhor que usasse o novo até recuperar a memória. Desculpe pela explicação tardia.
Diante de uma conclusão lógica à sua maneira, não tive o que dizer. Sem celular e sem câmera do painel, o que diabos eu pretendia fazer? Se eu estava indo para algum lugar levando apenas aquele carro, que mais parecia uma lata velha, porque precisava fazer algo que não podia deixar rastro nenhum, ou se alguém havia forjado tudo para que parecesse assim, eu continuava sem saber.
E então, quando o silêncio constrangedor voltou a se instalar, o homem disse baixinho:
— Você está desconfiando de mim.
Levei um susto e, atingido em cheio, cocei a nuca e desviei o olhar.
— Sim, é como você disse. A situação não é nada comum e, ainda por cima, não tenho lembrança alguma, então muita coisa me confunde. Estou numa posição em que não posso deixar de ser cauteloso, então, se isso o incomodou, peço desculpas.
De qualquer forma, quem se responsabilizava por mim naquele momento era esse homem à minha frente. Eu não podia confiar nele com facilidade, mas também não ganharia nada partindo para cima dele de uma vez. Quando me desculpei, como quem dá um passo atrás, o homem respondeu com a voz ainda sem qualquer vacilo:
— Não tem problema. É uma situação em que não seria estranho pensar assim. Não sei se ajudará a tranquilizá-lo, Soohan, mas, por último, vou lhe mostrar o lugar onde a localização do celular foi rastreada e o local do acidente.
Em seguida, o homem trouxe um notebook do quarto principal. Um aparelho sem nenhum enfeite digno de nota, nem sinais de uso, praticamente novo. Ainda assim, ao ver a tela abarrotada de arquivos que pareciam documentos de trabalho, todos sistematicamente organizados, dava a impressão de ser um objeto usado há bastante tempo.
“Será que ele é só… uma pessoa naturalmente exagerada e obsessiva por ordem?”
O pensamento idiota durou pouco: o homem abriu uma página de mapa e marcou o lugar onde o celular fora localizado e a região em que o acidente ocorrera.
— O último sinal do celular foi captado em Incheon e, depois disso, o aparelho foi completamente desligado, então não há como verificar a localização. O acidente aconteceu nesta rodovia da região.
O local que o homem mostrou era, sem dúvida, a mesma estrada que aparecia nas fotos da seguradora. O horário registrado na última recepção de sinal do celular era o de logo depois do acidente. Ou seja, se alguém tivesse surrupiado o celular do local, isso significaria ter se deslocado do meio de uma rodovia de Gangwon até Incheon em menos de dez minutos.
“Isso não faz o menor sentido.”
Agora restava apenas uma dúvida na minha cabeça.
“Afinal, que tipo de relação nós dois temos?”
Aquilo parecia ser o mais importante. Mas justamente essa última pergunta eu não consegui pôr para fora. Porque, depois que mencionei que desconfiava dele, embora não houvesse nenhuma mudança perceptível, eu não conseguia ignorar que o rosto do homem havia, de algum modo, se abatido friamente.
↫─☾⋆⋅☆⋅⋆☽ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Flower