•.¸ ♫ Capítulo 11.4
11. Fine (Parte 4/13)
Por isso era natural que, a cada vez que via os dois, sentisse curiosidade e ao mesmo tempo ruminasse a emoção chamada amor. Que tipo de sensação seria para se morrer de contentamento assim, ele pensava.
Ele passou a sentir aquilo um pouco na pele num certo inverno, aos vinte e três anos. Num dia em que a neve branca caía forte como se fosse cobrir a cidade inteira, era uma noite fria em que até os pés dentro dos sapatos pareciam congelar com o frio.
Yejun, em vez de entrar direto no bar onde trabalhava, caminhou por entre os prédios. Pouco depois, o que escapou por entre seus lábios foi fumaça esbranquiçada de cigarro. No rosto límpido feito água despontou um sorriso amargo.
‘Bom, está tudo bem, mas…’
A pessoa que lhe veio à mente foi um colega de turma de Yejun. Era também um amigo que gostava de Yejun, que desafiava não só a música clássica de sua especialidade, mas vários gêneros, e o ajudava com dedicação. Examinando uma música que Yejun ia inscrever num concurso para OST de uma novela, o colega fez uma expressão complexa e ambígua.
‘Hum, está escrito aqui, né? Componha uma OST em estilo jazz que combine com amor.’
Yejun pediu que ele fosse ao ponto. O colega, que silenciava, encostou a caneta no cartaz do concurso. Logo um “X” foi traçado sob a palavra ‘amor’, e Yejun, ao olhar aquilo, soltou um riso débil. Era uma observação precisa o bastante para não deixá-lo bravo.
Levando o cigarro à boca, estreitou os olhos. O outro Yejun, dentro do coração, confessou seu estado com franqueza.
‘É difícil.’
Era a sensação de estar diante de um quebra-cabeça em que era difícil até tocar. Uma música que combine com amor, é. Não fazia ideia de com que sensação devia começar. Yejun se deu conta de novo de que nunca havia namorado, quem dirá, nunca havia sequer reparado em alguém.
Soltando de novo a fumaça sobre a escuridão densa, fechou os olhos. O vento que grudava em sua bochecha era frio e seco. Yejun tornou a fazer a pergunta que lhe vinha toda vez que via o irmão.
‘O que é o amor.’
Ruminando uma pergunta cuja resposta não conseguia encontrar, sentiu-se esvaziado. Ficar parado sozinho remexendo a cabeça, o que mudava com isso? Ler um livro, assistir a uma novela. Ou então perguntar aos casais ao redor.
Surgiu a tentação de tentar outro concurso, mas ele logo se conteve. Desistir dizendo “não sei” não combinava com o feitio de Yejun, que sempre vivera se esforçando.
Tornando a abrir os olhos, remexeu no bolso. A carteira de cigarros logo veio parar em sua palma. Decidiu que era hora de terminar e ir embora. Foi quando dirigiu o olhar ao cigarro, que ainda tinha uma brasa vermelha.
Na bochecha em que transpareciam fadiga e inquietação grudou a voz de alguém.
— …Só desperdiçou o cigarro.
Nas pupilas de pigmentação clara circulou uma luz. O murmúrio seco parecia justamente algo que ele próprio diria.
Yejun apenas virou a cabeça e olhou para o dono da voz. A pessoa que estava de pé não muito longe era um homem tão bonito que os olhos se arregalaram por um instante.
A ponto de fazer pensar que era um sonho, o homem tinha uma aparência que não combinava com aquele espaço escuro e sujo. As roupas que realçavam as costas retas e as pernas longas eram, à primeira vista, caras.
Não era só a roupa que dava a sensação de que era difícil tratá-lo com displicência. Yejun, prendendo até a respiração, observou o perfil do desconhecido.
O rosto do homem, que carregava as cores que escapavam das janelas, dos letreiros e das luzes grandes e pequenas, exalava uma atmosfera afiada. Era alta a probabilidade de ser a sensação criada pelos cabelos negros e pelos olhos erguidos sem pálpebra dupla. Ou talvez fosse por causa das sobrancelhas grossas e franzidas com força e da boca em linha reta.
Normalmente ele logo teria desviado o olhar, mas Yejun não conseguia parar de observar. Por quê? Porque os cabelos, bem ajeitados, estavam um pouco desalinhados pelo vento? Ou porque a voz de algum modo parecia cansada? A veia abaixo de sua orelha começou a pulsar sem parar, ao seu bel-prazer.
Atrapalhado com o som intenso, só então Yejun retirou o olhar. Ao se dar conta de que havia percorrido de modo viscoso alguém que via pela primeira vez, o calor subiu. Por que estou assim? Foi quando a boca ficou completamente seca. O que penetrou o buraco de sua orelha tensa foi o som dos passos do homem.
Diante do sinal de que ele ia embora, o que Yejun fez foi produzir um sinal de presença. Pisando de propósito na neve acumulada, tragou o cigarro fundo. A fumaça, sugada às pressas, espetou sua garganta, mas ele reprimiu a tosse. Mesmo em meio à confusão, Yejun percebeu que queria deter o homem.
‘Por quê.’
Nem teve tempo de encontrar resposta à pergunta. Era porque, inesperadamente, o homem parou os passos e o fitou como se fosse trespassá-lo. O olhar que grudava em sua bochecha era quente feito fogo. Ao contrário da aparência de traço seco, o olhar era intenso. Yejun apenas virou a cabeça e olhou diretamente nos olhos dele.
Uma das sobrancelhas do homem se contorceu. Era uma reação de quem sentira interesse por Yejun, que não se atrapalhava.
— O dia está frio.
Quem puxou conversa primeiro foi Yejun. Ele queria despertar simpatia no homem. Foi por isso que chegou a esboçar o sorriso que só mostrava a pessoas próximas.
— …É mesmo.
Terão passado alguns segundos de silêncio; o homem, que ele achou que fosse ignorá-lo, inesperadamente lhe deu uma resposta. Yejun captou que pelas pupilas negras dele passou, feito um clarão, a curiosidade. Teve forte o pressentimento de que talvez o outro estivesse sentindo exatamente o mesmo que ele.
O choque arrepiante de uma faísca que se acendera assim que se viram à primeira vista, será que aquela pessoa também não sentira?
…Vamos confirmar.
Foi por isso que ele moveu os pés e de repente encurtou a distância. Não havia o menor sinal de cautela ou acanhamento.
Caminhando enfeitiçado, Yejun engoliu o riso. Teve o pensamento de que era como uma mariposa diante de uma chama. Uma mariposa que avança sem pensar, esteja ou não a queimar as próprias asas na luz quente.
Yejun achava divertido esse seu estado. A ponto de esquecer toda a angústia e a dificuldade com o ‘amor’.
— É. Não é um clima bom pra fumar.
Aproximando-se, Yejun ergueu ainda mais os cantos da boca. Na esperança de que, assim como ele não conseguia tirar o olhar da aparência do outro, o outro também o visse com bons olhos.
O homem apenas fitava Yejun em silêncio, como se ele fosse um objeto curioso. A figura de quem percorria sem disfarce cada canto do rosto alheio era, para qualquer um, um comportamento grosseiro. Mas até isso era bastante atraente, de tão peculiar que era a atmosfera do homem.
Yejun, sob o olhar que acariciava a linha que descia de sua bochecha ao queixo, fez os olhos reluzirem. A diversão ia ficando cada vez mais intensa.
Parecia que não era só Yejun quem sentia contentamento. No ar em que pairava um calor estranho, o homem fez sem disfarce uma expressão de “que fofo”. Diante da figura elegante e cheia de folga, o cotovelo formigou sem motivo.
De repente, o homem, mantendo o olhar fixo, soltou a fumaça.
— …Cof.
— Ora.
No instante em que Yejun tossiu diante da fumaça acre, o homem de súbito agarrou-lhe a mão. Foi só por um instante a surpresa; o calor subiu até o topo da cabeça. Naquele contato do outro, que firmava o polegar e acariciava a pele, transparecia sem disfarce uma intenção sexual.
Bum, bum, bum.
A respiração ficou áspera e o peito inchou como se fosse explodir. Ao mesmo tempo em que a concha da orelha ardia, cruzou o olhar com o outro. Ele riu de leve, exibindo os olhos que se curvavam languidamente. No olhar que o fitava como se olhasse para uma criança havia, não sem razão, um ar de desdém.
— O que você… fez?
— Segurei sua mão.
A mão já fora solta havia muito, mas a textura permanecia nítida. A sensação de ter a pele pressionada, acariciada e esfregada de leve aqui e ali ainda estava viva.
Enquanto a cabeça fervia borbulhante feito espuma, o homem foi o primeiro a ir embora. Yejun fitou por um bom tempo as costas do homem, que caminhava vagaroso com a aba do casaco esvoaçando.
Uma excitação estranha se ergueu feito eletricidade estática. De repente ele percebeu que, sem que se notasse, o vão entre suas pernas estava duro, ereto. A cor da concha da orelha, já avermelhada, ficou ainda mais intensa.
— …Que loucura.
Murmurou baixinho, com o cabelo desalinhado pelo vento. O que acabara de acontecer parecia irreal feito um sonho. Os olhares, a conversa, o toque, o ar trocados com um homem que via pela primeira vez. Tudo aquilo estimulou cada canto de seu corpo.
Yejun, que soltava o fôlego sem se dar conta, percebeu que a ponta dele tremia de leve. Era estranho a si mesmo ter se comovido tanto em tão pouco tempo.
Yejun, que hesitava sozinho, no fim não teve senão que rondar o lugar em círculos. Era porque o calor grudado em sua orelha não desaparecia, e porque o sexo ereto não voltava ao estado original.
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Pouco depois, Yejun, sem esconder o rosto ruborizado, riu por dentro.
‘Não faz sentido.’
Só depois de a muito custo recompor corpo e mente é que entrou no bar. Ao abrir a porta, Yejun concluiu que não devia ruminar demais o que acabara de acontecer.
O homem que encontrara por acaso era atraente a ponto de dar vertigem, mas já havia desaparecido feito vento logo em seguida. Achou correto esquecer logo, já que não experimentaria duas vezes aquela sensação arrepiante feito corrente elétrica.
Ainda que tivesse a muito custo organizado os pensamentos, no lugar onde trabalhava havia uma figura inesperada.
Em meio aos clientes aglomerados, era um homem que se destacava em especial. Um homem que exalava uma sensação abatida, sozinho, e no qual não havia como o olhar não se fixar, com aquela atmosfera cinza-azulada. Era a pessoa que, como que zombando, remexera em sua mão.
O peito bateu com mais força que nunca. Ouvindo o som do coração que batia, bum, bum, a ponto de fazer a cabeça ressoar, Yejun percebeu que estava contente.
Um cliente do lugar onde eu trabalho. Que coincidência é esta.
— Bem-vindo.
Quando cumprimentou, o olhar do homem se fincou em Yejun. No rosto que parecia estranhamente cansado despontou um ar de surpresa. Era também uma reação de quem não imaginava reencontrar o garoto com quem fumara junto. Diante da expressão que se desmanchava, um júbilo se somou.
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(Continua na parte 5)
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna