•.¸ ♫ Capítulo 10
10. Agitato (Parte 1/5)
Agitato: precipitadamente, com inquietação
Ele falara de um jeito meio detestável, é verdade. Sihu não deixava de admitir que cometera um erro. Diante do timbre quente feito um dia de primavera, e do pedido de desculpas, do afeto, da alegria e da ternura ali comprimidos com força, ficara atrapalhado e o tratara com aspereza.
Ainda assim, não imaginava que ele fosse desligar até o celular e bloquear o contato. Sihu, a cada brecha, pegava o celular e o fitava. No olhar de quem acha aquilo um absurdo havia um pouco de irritação.
Quem aqui quase teve as vísceras estouradas por causa de alguém? Até agora, basta descer uma escada e a cintura pontua de dor e o buraco de baixo inchado protesta de agonia. Fora ele o primeiro a entrar em contato, sem culpar a dor latejante, e o que recebia em troca era desprezo.
Vendo o rosto de Sihu, tornado frio feito gelo, os secretários perceberam que algum problema havia surgido. Contudo, sem nem sonhar que fosse por causa do sumiço do jovem parceiro, o máximo que faziam era revirar as pupilas atrapalhadas, sem entender a razão.
Enquanto várias pessoas ficavam receosas, Sihu apenas fitava o celular sobre a mesa como se fosse trespassá-lo. Como que dizendo que jamais entraria em contato primeiro, agarrando o braço da poltrona.
Terão passado umas duas horas assim, quando o celular vibrou de leve. Diante do nome “Yu Yejun” que surgiu no visor, as costas da mão de Sihu se contorceram. Ele, sem qualquer mudança de expressão, mas com um movimento mais rápido que o de costume, pegou o celular.
Yu Yejun [Hyung, me desculpe.]
Yu Yejun [Você se assustou por não conseguir contato, né?]
Assustar? Quem? Por mais que fosse detestável, ele não se assustara. Sihu estreitou os olhos e murmurou “está se divertindo”. Os secretários, que ouviram seu murmúrio, trocaram olhares entre si. Perguntando-se quem seria a pessoa que irritara Baek Sihu.
Yu Yejun [Acho que daqui pra frente também não vai dar pra entrar em contato. Nem por telefone, nem por mensagem.]
Diante do acréscimo, Sihu inclinou a cabeça de lado. E agora, que história é essa?
Yu Yejun [Assim que der, eu entro em contato na hora.]
[Por quê.]
Yu Yejun [Meu celular quebrou.]
[Eu compro outro.]
Yu Yejun [Não precisa.]
Diante da resposta que vinha de imediato, sem sinal de hesitação, seus nervos começaram a ficar afiados. Responde tudo direitinho e diz que não dá pra entrar em contato? Que besteira é essa? Ele remexeu a cabeça e tentou se lembrar sozinho do endereço de Yu Yejun. Officetel XXXX, 80…
Yu Yejun [Não pode mandar encomenda. É que eu pretendo ficar na casa do meu irmão mais velho por um tempo. Mesmo que mande, não vou poder receber.]
— …
Sihu, tendo o íntimo trespassado, acabou soltando um “ha” de riso débil. Era difícil se livrar da sensação de ter caído numa armadilha. Nesse ínterim, Yejun acrescentou uma frase.
Yu Yejun [Sihu-hyung. Desculpa.]
‘Sihu-hyung’. É um chamado familiar. Yejun, que desde o primeiro encontro frequentemente o chamava de hyung, não mudara o modo de tratamento até o presente.
Aquele atrevimento era fofo, e aquela afetuosidade também era boa. Ao ver o rosto do garoto que sorria chamando até seu nome, sentia a fadiga acumulada com o trabalho ou com as pessoas se dissipar.
Os olhos, sob os cílios longos, se estreitaram. Ao imaginar Yu Yejun a sorrir, uma sensação de formigamento subiu pelas vértebras do pescoço. Reprimindo a sensação de cócega, ele moveu os dedos.
[Quando você volta.]
Uma frase impassível. Parecia uma pergunta banal, mas para Sihu não era. Era a primeira vez que fazia esse tipo de pergunta a alguém que parecia prestes a partir, ainda mais a um parceiro de cama. Como sempre deixara que fossem ou ficassem com sua peculiar indiferença, Sihu se sentia estranho por continuar querendo acrescentar palavras.
— …Chega.
Falando sozinho, Sihu pousou o celular. Por isso o acréscimo um tanto patético, ‘não é que, só por ir pra casa do irmão, você precise ficar sem contato, né?’, não foi enviado.
Depois de recostar o corpo no encosto da cadeira, Sihu fechou os dois olhos. A coceira que surgira só de terem trocado uma conversa breve continuava. A sensação que arranhava a ponta dos dedos era estranha, e ele fechou o punho.
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‘Vamos combinar de não nos vermos até você se estabilizar.’
Sabia bem que fora o próprio Baek Sihu quem soltara aquela frase. Lembrava-se tanto do rosto de Yejun que se desmanchara diante daquela frase quanto de como, ainda assim, ele obedecera docilmente.
Mas ele dissera para não se verem por um tempo; quem foi que disse para cortar completamente o contato?
E ainda por incríveis duas semanas.
Sihu, com a testa franzida, estalou a língua.
— Tsc.
Fumaça de cigarro escorreu por entre os lábios vermelhos. Ele tornou a levar à boca o cigarro que segurava entre os dedos e moveu apenas as pupilas. A sala completamente bagunçada entrou em seu campo de visão. A casa, que fora limpa como nada, estava impregnada de cheiro de cigarro, e pelo chão jaziam espalhados coisas como maços de cigarro e uísque.
Fitando o cinzeiro sobre a mesinha, Sihu tragou a fumaça fundo. Claro que não é que ele tivesse virado um caco por não ver o garoto por duas semanas. Mesmo ao sair para a empresa, mantinha um traje impecável como sempre, e durante o trabalho não demonstrava sinal de abalo.
Contudo, bastava chegar em casa e Sihu fazia coisas que, no passado, dificilmente faria. Beber e largar tudo de qualquer jeito, fumar dentro de casa, jogar as roupas usadas fora e nem tocar nelas, e assim por diante. Como cortara até a empresa de limpeza que vinha todos os dias, a casa começou a ficar imunda em ritmo acelerado.
Duas semanas desde que até o contato com Yu Yejun fora cortado. De repente, ficara descontente com aquele espaço frio e estático, a ponto de não se poder chamar de um lugar habitado por gente. Entrar no vestíbulo onde havia apenas seus próprios sapatos, e por isso encarar o piano de cauda que ninguém tocava, de algum modo o irritava. Foi por isso que começou a tratar de qualquer jeito o espaço pelo qual perdera o afeto num instante.
— …É de tirar o fôlego.
Sihu percebeu que o ritmo de seu cotidiano, calmo e sereno feito água, se desfizera. Que ridículo. Quem visse ia achar que ele levara um belo fora. A realidade é que, longe de um romance, eram apenas uma relação que desfrutava só de sexo.
Chegado a esse ponto do pensamento, a região dos olhos de Sihu se contorceu como que num espasmo. Uma relação que desfruta só de sexo, é. Para tanto, a réplica de que não haviam feito também coisas demais além do sexo lhe golpeou a nuca.
Conversar tendo entre eles a mesa do bar.
Tocar piano e ouvir aquela apresentação.
Cuidar dele por estar doente, ou esperar do lado de fora de casa por vê-lo abatido.
E as outras pequenas lembranças encheram sua cabeça. Sihu, acometido de uma dor de cabeça, apenas fumava um cigarro atrás do outro. Sob os olhos dele, que franzia o rosto, se formavam sombras escuras.
‘Droga.’
Se soubesse que seria assim, deveria tê-lo trancado num hospital. Deveria tê-lo internado num quarto individual e acompanhado a evolução com os próprios olhos. O problema fora tê-lo mandado embora quase às pressas, preocupado com os feromônios ondulantes de Yu Yejun.
Será que mando alguém descobrir onde ele está? Num mundo capitalista onde tudo se resolve com dinheiro, algo daquele nível nem era problema. Se resolvesse, poderia encontrar o endereço em menos de uma hora, Sihu garantia.
Não pôr aquilo em ação era porque de algum modo sentia humilhação. O que raios era aquilo? Ir a ponto de escarafunchar até os dados pessoais do garoto para procurá-lo.
— …
Fitando a frente como que a fuzilá-la, Sihu apertou o cigarro no cinzeiro. O acre da fumaça que não se apagava tocou a ponta de seu nariz. Por mais que tentasse pensar em outra coisa, só lhe vinham perguntas relacionadas a Yu Yejun.
Por que ainda não há contato nenhum?
Não me diga que ele comeu o traseiro dos outros e fugiu. Não é o tipo de garoto que faria isso.
…Se é ou não o tipo que faria isso, não é algo de que eu possa ter certeza.
Ou será que está muito grave? A ponto de ser difícil entrar em contato.
Quando os pensamentos se emendavam uns aos outros, de repente o celular vibrou. Os olhos, que se arregalaram como que um pouco surpresos, logo voltaram ao tamanho de sempre. Ao levar o celular à orelha, também era um rosto apático.
— Alô?
— Que foi.
Diante da voz sem altos e baixos, o outro soltou uma risada com um “que frieza”. Era o sujeito que, não se sabe desde quando, ficara risonho feito alguém de parafuso solto, o irmão mais novo, Baek Doyeong.
— O Sihyeon-hyung vai se encontrar com aquela pessoa.
— Aquela pessoa?
— É, aquela pessoa. A segunda filha do presidente Gi. Dizem que foi você que aconselhou o pai a fazer os dois se encontrarem. E que eles se deram muito bem?
— …
— Ele ficou contente por o filho mais velho estar namorando. E o pai, do seu jeito, também animado. E você, não tem ninguém que esteja vendo?
Em vez de responder, Sihu pressionou com força a região das sobrancelhas com a mão que não segurava o celular. A fadiga se adensou.
— Se você ligou pra dizer essas besteiras…
— Dizem que seu estado anda estranho ultimamente. Está doente em algum lugar?
Era uma pergunta insinuante. Sihu, com a cabeça inclinada de lado, emitiu uma voz seca.
— Quem disse isso.
— É que não é só uma ou duas pessoas cochichando. Dizem que o clima anda pesado, no seu lado?
— …
— Bem como se algum estrago tivesse acontecido.
Sihu murmurou um palavrão só com o formato da boca. Estava convicto de não ter causado problema nenhum na empresa, mas parecia que não passara de uma presunção arrogante da parte dele. Uma emoção infinitamente negativa espetava seu peito. Só de pensar em como sua figura teria parecido aos olhos dos outros, seus nervos ficavam afiados.
— Quer sair agora?
Em meio ao silêncio, Doyeong emitiu uma voz suave. Parecia ter percebido que o estado do segundo irmão não era comum.
— Vamos tomar um ar. Eu e o Yeonu-hyung vamos ao shopping daqui a pouco. Você também vem pra cá.
Me enfiar no meio de um casal? Achou que ele fosse zombar, mas, para tanto, a voz de Baek Doyeong era bem afetuosa.
— Por que você está se importando comigo? Desde quando é assim.
— Me importo e ainda por cima sou visto com desconfiança. Que mágoa, de verdade!
— …
— Isso é porque, ora, eu sou muito bonzinho. Cuido até do irmão que mela o pescoço do namorado dos outros com feromônios. Não é?
Parece que ele ainda se lembrava daquilo e estava emburrado. Sihu engoliu um suspiro e ia recusar. Terá lido seu pensamento? Doyeong emitiu uma voz uma oitava mais alta.
— Vem, e pronto. O Yeonu-hyung também disse que quer te ver.
Ah, era isso.
— …É porque o Yeonu quer me ver, é por isso que você está me mandando sair, né?
— Hã! É que eu também sou um namorado bonzinho.
A voz límpida, naquele dia em particular, arranhava os nervos. Um estava fumando por causa de um pirralho com quem perdera contato; o outro estava morrendo, transbordando de felicidade.
Ia dizer que não tinha a menor intenção de fazer a vontade dele, mas mudou de ideia. Foi porque lhe veio à mente Baek Doyeong, que apareceu enfurecido quando ele se encontrou a sós com Yu Yeonu. A cara marota de sempre desapareceu, e a figura que invadiu o lugar bufando fora bem divertida.
Se estragasse o humor do garoto, que emitia a voz mais alegre do mundo, sentia que sua própria irritação se aliviaria ao menos um pouco. Tendo encontrado um alvo para descontar, os cantos da boca de Sihu se ergueram de viés.
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(Continua na parte 2)
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna