•.¸ ♫ Capítulo 10.2
10. Agitato (Parte 2/5)
Contudo, algumas horas depois, Sihu ficou com um rosto de quem mastigara alguma coisa. Era por causa do casal, o irmão e o namorado, sentado à sua frente.
— Pra que você comprou uma coisa dessas?
— Pra que comprei? Porque achei que ia ficar bem em você, hyung, por isso comprei.
— É bom demais pra mim…
— O que é bom demais são aquelas coisas ali.
As tais “coisas ali” de que Baek Doyeong falava eram as sacolas de compras empilhadas sobre a cadeira. Nas sacolas grandes e retangulares estavam estampados, cada uma, logotipos de marcas famosas. Não foi difícil para Sihu imaginar Doyeong escolhendo e comprando, sem o menor pudor, itens na casa dos milhares.
— Da próxima vez, consulte comigo antes de comprar. …Sabendo que não tenho interesse nesse tipo de coisa.
— Tá bom, tá bom, mas antes me dá o pulso.
Doyeong se inclinou na direção de Yeonu, que falava com modos. O que ele tinha na mão era um relógio de pulso de alto valor. Segurou o braço de Yeonu com a outra mão e, com naturalidade, prendeu o relógio. No rosto de beleza deslumbrante feito uma rosa, despontou um sorriso.
— Como eu imaginava. Ficou bem em você.
Na voz suave transparecia afeto. Era um sussurro tão afetuoso que os cabelos de Sihu, um terceiro, chegaram a se eriçar.
‘Que coisa mais estranha.’
Baek Doyeong, que sorria radiante, à primeira vista parecia uma pessoa aparvalhada. Ainda assim, o rosto sem qualquer emoção negativa, como provações, dificuldades ou melancolia, parecia tão feliz que atraía o olhar sem parar.
Em meio ao absurdo e à curiosidade, Sihu bebeu um gole de café. Talvez por causa do gosto amargo que umedecia a língua, estranhamente, o estômago ardia.
— Obrigado.
Na voz baixa de Yeonu, quase inaudível, transparecia o mesmo ar. Sihu, com a xícara de café na mão, moveu apenas as pupilas e olhou para Yeonu. A bochecha do homem que remexia no pulso estava avermelhada. Aquele rosto, ao mesmo tempo sem jeito e contente, de algum modo, era familiar.
— …
Uma força se concentrou entre as sobrancelhas de Sihu. Tanto no encontro anterior quanto agora, Yeonu lhe provocava um déjà-vu inexplicável. Por mais que remexesse a cabeça em busca de alguém com traços parecidos, não lhe vinha ninguém em particular.
— Hyung, e aí? Ficou bom, não ficou?
Enquanto ele estava imerso nos pensamentos, Doyeong puxou conversa e ergueu o pulso de Yeonu. Refletido pela luz do café, o relógio reluzia com um brilho encantador.
— Pra que perguntar uma coisa dessas?
Yeonu, atrapalhado, baixou às pressas o pulso. Sihu desceu o olhar na direção daquela parte do corpo. Os olhos observadores foram se estreitando aos poucos.
De repente, o que lhe veio à cabeça foi o pulso de outra pessoa. O pulso dele, com veias azuladas saltando, ostentava uma grossura maior que a de Yeonu e até que a do próprio Sihu. Também antes, Sihu tivera o impulso de querer prender um relógio ali. Achava que seria divertido tanto apreciar aquele rosto ao mesmo tempo atrapalhado e contente quanto observar a cena dele desafivelando o relógio para tocar piano.
Um sorriso despontou e sumiu depressa do rosto de Sihu. O olhar com que pegou o celular para verificar o visor também estava abatido. Oito da noite, e hoje também não viera contato de Yejun.
— …O celular quebrou e por isso ele não entra em contato?
Sihu, que murmurara um monólogo sem se dar conta, franzia o rosto. Que coisa mais patética é essa? Continuar se importando com um garoto que nem entra em contato. Diante disso, cresceu o desejo de apagar por completo a existência de Yu Yejun.
Isso, não bastava fazer assim? Parceiro para sexo havia de sobra, mesmo que não fosse Yu Yejun. Podia escolher um parceiro bem mais cômodo e dócil, que não lhe arranhasse os nervos assim.
Mas, ao contrário do que pensava, só lhe subia a repulsa. Sihu estalou a língua com um “tsc!”. Diante do próprio estado que não chegava a uma resposta, o peito fervia borbulhante.
— O que foi?
Quem fez os sentidos de Sihu voltarem foi Doyeong. Sihu, fingindo uma expressão neutra, pousou o celular. Era um rosto sereno, mas Doyeong, pelo contrário, franziu o cenho como se achasse aquilo estranho.
— Alguém não está atendendo suas ligações, hyung? Quem é.
— …É uma coisa.
Sihu, que ia responder de qualquer jeito, enrijeceu o rosto. Era difícil se livrar da sensação de que a resposta acabara ficando ainda mais insinuante. No fim, não lhe restou senão mover os lábios de imediato e acrescentar uma frase.
— É questão de trabalho.
— É questão de trabalho mesmo?
— …
— Você está cheio de preocupação. É um rosto terno, e dos bons.
Diante daquilo, a região dos olhos de Sihu se contorceu.
— Eu?
Doyeong disse com ironia.
— Que expressão feroz. Só descrevi o que estou vendo.
Besteira. Não vale nem retrucar. Ele virou a cabeça e bebeu mais um gole de café. Olhares se fincaram na bochecha de Sihu. Talvez tendo sentido que algo não era comum, Doyeong e Yeonu o fitavam. Os dois, com uma expressão de “está tudo bem?”, já eram rostos que haviam percebido que não era por causa de negócios.
Se negasse mais ali, só ia atrair desconfiança. Sihu, que ia ignorar, engoliu um suspiro em silêncio. Era um encontro a que saíra para provocar Baek Doyeong, mas, uma vez ali, não lhe surgia forças para arranhá-lo. Mais do que isso, a presença de Yu Yejun, a ausência dele, continuava a lhe fisgar os nervos. Sihu, que ia tornar a olhar para o celular, cruzou os olhos com Yeonu.
Yeonu, em vez de puxar conversa, inclinou o tronco para a frente e apoiou os dois braços sobre a mesa. O olhar visto por trás das lentes dos óculos era bastante ponderado.
Os cantos da boca de Sihu, que por acaso cruzara o olhar, se contorceram. Diante daquela postura de quem queria ouvir sua história, seu ânimo se moveu, ainda que de leve.
— …Há um irmão mais novo que eu conheço.
Sihu, que soltou aquilo, ficou um pouco surpreso consigo mesmo. Não imaginava que fosse contar aquela história a alguém que nem conhecia direito. Diante do próprio estado indecifrável, uma sensação estranha lhe veio e ele pousou a xícara com um baque.
O som do tilintar era bem frio, mas Yeonu, em vez de se atrapalhar, continuava a olhar para Sihu. O olhar que dizia “fale à vontade” era quente. Achando ser um olhar que não combinava com a imagem fria, Sihu moveu os lábios devagar.
— É que esse rapaz passou por uma coisa fora do comum recentemente. …Ele se manifestou de repente como Alfa.
— Se manifestou?
Yeonu arregalou os olhos e logo fez uma expressão de pena.
— Deve estar sofrendo bastante.
Na voz que dizia isso, além da compaixão, transparecia um ar de quem conhecia bem o assunto. De fato, Yeonu acrescentou uma explicação com um rosto compassivo.
— Comigo também foi assim.
— Com você também?
— Sim. Me manifestei depois de adulto, como ômega.
— …Ah.
Além de Yejun, era a primeira vez que via uma pessoa manifestada de modo tardio. Como não imaginava encontrar alguém que passara por aquilo na prática, Sihu inclinou o tronco do mesmo modo. Também descruzando as pernas que mantinha cruzadas.
— Como se manifestou de repente, por um tempo não vai ter controle. E deve haver também um baita choque com esse estado inédito.
— Choque?
— O corpo esquentar a qualquer hora faz a gente se sentir uma existência desprezível. Ainda mais que os supressores nem funcionam direito.
Em uma palavra, queria dizer que a pessoa sente aversão pelo próprio corpo, que entra no cio ao seu bel-prazer.
Um Alfa em quem os supressores não funcionam direito. E ainda por cima o Rut o visita a torto e a direito.
Sihu, que se lembrou de Yejun se esforçando com o rosto avermelhado, cerrou o punho. Sobre as costas da mão branca saltaram várias ramificações de veias.
— Eu sabia que era difícil. …É que pesquisei sobre pessoas que se manifestaram de modo tardio.
— Então é por isso que você estava preocupado.
— Preocupado, é.
Sihu soltou um leve riso débil.
— Não sou uma pessoa tão boa assim. Mais do que preocupação, senti irritação, por não conseguir contato.
— Não será que você ficou irritado por estar preocupado?
Não. Ele apenas se sentia desagradado, e só. Por ser desagradável que ele ousasse ficar incontatável, que ousasse arranhar seus nervos. Só então Sihu teve o pensamento de que se comportara feito um garoto imaturo.
‘Merda.’
Ele, que engoliu o palavrão, pressionou a testa com a mão. Junto à orelha de Sihu grudou um som de espanto, um “ora essa”. Doyeong estava de braços cruzados e olhos arregalados. Parecia achar curioso o fato de seu segundo irmão ter alguém tão em mente.
— Vai ficar tudo bem.
Ao contrário do sujeito que observava sem disfarce o próprio irmão como se fosse um objeto curioso, Yu Yeonu era uma pessoa cuidadosa e afetuosa. Ele, com um rosto de quem compreendia, prosseguiu com calma.
— No começo eu também não entrei em contato com ninguém. Quando o corpo fica assim, a gente quer ficar sozinho. …Por causa disso, causei muita preocupação às pessoas ao meu redor.
— …É mesmo?
— Esse irmão mais novo deve estar sentindo o mesmo, então espere só um pouco mais. Quando se acalmar, ele vai entrar em contato primeiro. Se sentindo muito culpado.
Depois de terminar de falar, Yeonu esboçou um leve sorriso. Era um sorriso suave, que deixava ver tratar-se de uma pessoa firme. O olhar de Sihu, que fitava o outro, foi se abrandando aos poucos.
— Como eu imaginava.
Depois de soltar um som esvaziado, Sihu fez um gesto com o queixo na direção do próprio irmão.
— Parece bom demais pra você, o Yeonu, Baek Doyeong.
— Que isso…
— É, eu também acho.
Talvez lhe agradasse o elogio ao namorado, pois Doyeong curvou os cantos dos olhos e assentiu. Yeonu, com uma expressão de “não faça isso”, deu um tapinha no ombro de Doyeong.
Fingindo não ver o namoro recomeçado dos dois, Sihu bebeu o café. Ao contrário de antes, o café já não parecia amargo.
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(Continua na parte 3)
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna