•.¸ ♫ Capítulo 10.5
10. Agitato (Parte 5/5)
— …Que jeito é esse de falar, de novo. Isso não me assusta mais.
Fala escondendo pelo menos as orelhas. Vendo a concha da orelha que ficou vermelha num instante, Sihu ergueu de viés um dos cantos da boca. Diante do sorriso em que transparecia claramente o escárnio, Yejun baixou os cílios longos.
— E outra coisa.
Ao contrário do rosto envergonhado, seguiu-se uma declaração ousada.
— …Quem foi comido fui eu, não foi você, hyung.
— O quê?
— Quem comeu o meu foi a sua parte de baixo, hyung. Estou errado?
Sihu, atrapalhado como era raro, olhou ao redor. Por sorte, parecia não haver transeuntes que tivessem ouvido a conversa obscena dos dois.
— Seu rosto ficou vermelho.
— Cala a boca.
Foi só por um instante a comoção; os olhos de Sihu logo se afiaram.
— Como é que quem só disse mentira fica tão confiante.
— Isso é…
— Se tem alguma mágoa, diga que tem. Ou, se não quer me ver, diga que não quer. Se quer terminar…
Era uma voz na qual a fúria transparecia por inteiro até aos próprios ouvidos. Queria falar o mais sem emoção possível, mas não estava dando certo.
Sihu, que fuzilava Yejun como se fosse trespassá-lo, virou o corpo. Pouco antes de se afastar primeiro, a última frase foi tênue, quase inaudível.
— …Fica virando o íntimo das pessoas do avesso, que droga.
Do casaco que esvoaçava ao vento emanava um ar frio. Ainda que recebesse por inteiro o vento gélido, Sihu não sentia frio. De tão enfurecido, apenas bagunçava o próprio cabelo sem parar.
Diante do gesto brusco, o cabelo ficou completamente amassado. Deixando que os cabelos escorressem ao seu bel-prazer e cobrissem a testa, Sihu fechou os olhos com força.
Era a primeira vez que se afastava de um lugar sem nem conseguir falar direito. Que infantil. Infantil, infantil e infantil. A emoção que se agitava desde dentro do peito era vergonha de si mesmo, ou apego a Yu Yejun? Ou seriam as duas coisas?
Diante do nome daquela emoção, ‘apego’, Sihu, sem se dar conta, parou os passos. Ele, com as costas retas, cerrou o punho. Foi porque lhe veio tarde demais à mente a frase que não conseguira dizer.
‘Se quer terminar, diga que quer terminar. Aí eu termino, sem drama.’
A declaração que ele tentara soltar com irritação, contudo, apenas rodopiava sobre a língua, sem que a proferisse. Ele, com o rosto franzido, entreabriu os olhos. Foi quando pelo rosto bonito passou, feito um clarão, uma luz de confusão.
Sentiu sinal de presença bem atrás de si. No instante em que estremeceu diante da sombra que cobria seu corpo, algo inesperado aconteceu.
— !
Sihu, que cambaleou, logo esqueceu o modo de respirar. Yejun o abraçava com força. As duas mãos que envolviam sua cintura por trás eram duras feito pedra.
— …Sihu-hyung.
Uma voz de ponta trêmula pousou na orelha de Sihu.
— Desculpa, eu errei.
O pedido de desculpas baixo grudou na concha da orelha e não se descolava. Então, de algum modo, o rosto quis esquentar. Ainda que fosse verdade que ele desejara um pedido de desculpas, uma vez que ia ouvi-lo sendo abraçado por trás, subiu-lhe uma sensação de acanhamento.
— …
Sihu desceu o olhar na direção das mãos que agarravam sua cintura. As pupilas tão negras quanto seus cabelos negros se agitaram de leve. O que entrou em seus olhos foi a sacola pendurada nos dedos de Yejun. A cada vez que balançava de um lado para o outro ao vento, o conteúdo dentro dela se via de relance.
— Não vá.
— …
— Hyung, não vá.
Sihu moveu a mão e abriu a sacola. Yejun se contorceu com força, mas não fez o gesto de esconder como antes. O conteúdo assim revelado era uma caixinha amarrada com uma fita preta. Sob a fita estava estampado um logotipo de marca de luxo que Sihu conhecia bem.
Então Yejun soltou os braços que envolviam sua cintura. As sobrancelhas franzidas, os cantos dos olhos caídos e os cantos da boca que se contorciam eram como os de um cãozinho que cometera um grande erro. Parecia que, se lhe cutucasse a bochecha com o dedo, ele desataria a chorar.
Sihu deixou escapar um riso débil por dentro. Olha essa cara. Ficou lívido, como se tivesse visto um fantasma. Se ia ficar assim, por que irritou as pessoas?
Chegado a esse ponto do pensamento, o corpo enrijecido se soltou depressa. Na direção de Sihu, que se abrandara de leve, Yejun estendeu as duas mãos.
— ?
Diante da sacola estendida, Sihu inclinou a cabeça de lado. Yejun, com os cílios longos e densos baixados, moveu apenas os lábios.
— …É um presente pra você, hyung.
— …Um presente?
— Sim.
Em vez de pegar de imediato, Sihu olhou alternadamente para Yejun e para a sacola. Foi quando descobriu que as duas mãos que agarravam a sacola estavam vermelhas, congeladas. Como ficara exposto por muito tempo na rua em pleno inverno, era natural que as mãos congelassem.
— …
Sihu pegou a sacola em silêncio e tirou uma das luvas.
— Ponha.
— Não precis…
— Não parece que está tudo bem. E o que é isto, um presente pra mim?
Não sabia o que era, mas, sendo uma marca famosa, o preço devia ser bem alto. Que dinheiro teria um garoto tão jovem? Sendo que, por causa da manifestação, nem conseguira trabalhar meio período.
O peito ficou apertado sem motivo. Enquanto Sihu ficava um bom tempo em silêncio, Yejun colocou a luva com cuidado. No rosto delicado despontou uma expressão da qual não se sabia se era choro ou riso.
— Hoje, eu ia procurar você.
Era uma história que ele ouvia pela primeira vez.
— Comprei porque não queria ir de mãos vazias. …Porque você passou aperto por minha causa, hyung.
— …
— Não ter entrado em contato foi…
Deixando a frase pela metade, Yejun começou a hesitar. Sihu captou uma emoção de constrangimento cruzando as pupilas do outro. Quando lhe lançou um olhar de “continue falando”, Yejun pigarreou algumas vezes e então separou os lábios devagar.
— É que, sem parar, o Rut vinha.
— …
— Bastava me deparar com algo relacionado a você, hyung, e o Rut vinha. Só de ouvir sua voz, só de trocar mensagens.
Era uma voz baixa, mas nítida.
— Isso me deu medo, de te machucar de novo.
O Rut, que devia tê-lo visitado o tempo todo. Diante do estado instável, os supressores também não deviam funcionar direito. Como sabia que tipo de sintomas iniciais se enfrenta no caso tardio, Sihu soltou um longo suspiro. Um bafo semelhante à fumaça de cigarro roçou sua bochecha e passou.
— Por que você disse que o celular tinha quebrado.
— É que achei que você fosse entrar em contato.
— Você é bobo? Devia ter dito que o Rut vinha por causa do meu contato.
— E você teria se preocupado muito também. Você tem muito afeto, hyung.
Eu, muito afeto? Neste mundo, quem diria a Baek Sihu que ele tem muito afeto? Enquanto pensava que ele não o conhecia mesmo nem um pouco, de algum modo seu ânimo se abrandou. Sihu, esboçando uma expressão de quem acha aquilo um absurdo, estalou a língua.
— Ainda assim, você mente? Isso é o que mais ferve o sangue das pessoas.
— Desculpa, por ter mentido.
— A esta altura, bancando o mansinho.
Falava assim, mas o tom feroz já se dissipara havia muito. Sihu, que ia apoiar a testa por hábito, hesitou diante do cabelo que tocou sua mão. Só então se lembrou de que, de tão enfurecido, bagunçara o cabelo sem parar. Diante do acanhamento tardio, o calor se concentrou no rosto.
‘O que é que eu estou fazendo.’
Descontando toda a raiva que havia para descontar. Foi quando ele, de constrangimento, curvava os dedos num punho e os abria, repetidamente. Sobre a orelha levemente avermelhada pousou um murmúrio.
— Sihu-hyung.
Yejun estendeu a mão enluvada. A mão, que hesitou por um instante, logo envolveu a bochecha de Sihu. O calor que rondava seu rosto se adensou ainda mais.
Sihu, ainda com o punho cerrado, fitou o outro em silêncio. Da região tocada se espalhou uma sensação de formigamento feito corrente elétrica. Quando uma luz nítida começou a bruxulear nas pupilas negras, Yejun moveu os lábios.
— Senti sua falta.
— …
— Senti muito a sua falta.
Era uma voz tão sincera que não havia nem a necessidade de duvidar. Tomando aquela frase por um sinal, Sihu deu um passo à frente. Estavam tão perto que dava para descobrir que os olhos de Yejun estavam levemente úmidos, que dava até para perceber que, na verdade, o queixo estava tão tensionado que tremia de leve.
Sihu ergueu vagarosamente os cantos da boca e levantou a mão. Assim como a mão de Yejun que envolvia sua bochecha, a mão dele também estava enluvada.
Os dedos envolveram, assim, a nuca de Yejun. Quando ele o puxou para si, Yejun docilmente baixou a cabeça e cruzou o olhar. Quem primeiro emitiu um som do qual não se sabia se era espanto ou suspiro foi Yejun. A uma distância precária em que os lábios quase se tocavam, ele soltou um fôlego em que se comprimiam várias emoções.
Lembrava fumaça de cigarro. Lembrava aquela fumaça que escapara por entre seus lábios no primeiro encontro. Por fim, pouco antes de os lábios se sobreporem, Sihu curvou os cantos dos olhos.
— Idiota.
Que fosse beijar em plena rua, nem o próprio Sihu imaginava. Só se deu conta depois de sobrepor os lábios, diante de um anseio que sacudia até a alma. Que fora ele o primeiro a oferecer o beijo, como se tivesse esquecido os dias tão cautelosos.
À parte a surpresa, uma excitação quente feito fogo subiu. Os lábios cuja superfície estava áspera, o céu da boca úmido, e a língua que penetrava seu interior despertaram o impulso de querer mais.
Com os olhos avermelhados, congestionados, Sihu agarrou com mais força o pescoço do outro. O som da veia que se sentia desde a palma da mão era intenso.
Bum, bum, bum.
Yejun baixou os cílios longos e prolongou o fôlego. A voz que o chamava de “hyung” entrou pelo buraco da orelha e ressoou de modo excitante. Era uma voz tão estimulante que até o fato de ser uma rua onde todos observavam passou a lhe parecer indiferente.
Sihu moveu a mão que envolvia o pescoço e acariciou a linha do queixo de Yejun. O gesto de acariciar a pele, que devia ter congelado no ar de inverno, era ao mesmo tempo suave e viscoso, não sem certa insistência.
Yejun, que recebia quieto aquele toque, ergueu os cantos da boca e mostrou as covinhas. Naquele estado, encostou os lábios na palma que remexia em seu rosto e ofereceu outro beijo.
O som de um ‘chuá’ foi, inesperadamente, nada mau. Ou melhor, a sensação de cócega até se mostrou bastante agradável.
Os olhares de ambos se enroscaram com naturalidade. Os dois, que ainda há pouco trocavam olhares afiados exalando feromônios, agora revelavam com nitidez o próprio desejo. Sihu, fitando a luz que bruxuleava nas pupilas do outro, moveu apenas os lábios.
— Vamos.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna