•.¸ ♫ Capítulo 10.3
10. Agitato (Parte 3/5)
Sihu estava parado, imóvel, diante do shopping. A aba do casaco esvoaçava com força ao vento, mas, sem sinal algum de frio, ele apenas baixou o olhar. O que entrou em seu campo de visão foi o relógio situado entre a luva de couro e a manga.
Nesse momento oportuno, seu carro preto surgiu. Foi quando ia mover os passos na direção do carro, onde estaria o motorista. Doyeong se aproximou e fez uma proposta inesperada.
— Vamos beber?
Doyeong, que se aproximara, estava, sem que se notasse, sozinho.
— E o Yeonu.
— Vai se encontrar com o irmão, aqui. Disse que esse rapaz também estava no shopping.
Ele tinha um irmão? Sihu, com um rosto sem grandes pensamentos, murmurou baixo um “ah, sim”. Foi quando percebeu que, sem que notasse, Doyeong o fitava fixamente.
— Que foi.
— É que, falando em irmão mais novo, me lembrei. Quem é esse garoto, esse tal irmão mais novo seu?
E então Doyeong lançou a pergunta sem rodeios.
— É um garoto de quem você gosta?
Diante da pergunta sobre se gostava, a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi a confissão de Yejun. A voz trêmula de ‘eu gosto de você’ começou a rodopiar em seus ouvidos. Sihu, com a mão no bolso, manteve o silêncio. No perfil que ostentava uma linha afilada despontou uma luz pensativa.
— Não.
Por entre os lábios que murmuravam escapou um bafo esbranquiçado. No instante em que Doyeong ia dizer algo com um “mas”, Sihu acrescentou uma frase.
— Mas me importo, é.
Uma sensação de formigamento ressoou pelas vértebras do pescoço. Ele ergueu a mão que enfiara no bolso e remexeu a própria nuca. A veia situada abaixo da orelha pulsava sem parar.
— …Uau, que coisa mais melosa é essa que você está dizendo.
— Parece que você não sabe o que anda dizendo ao Yeonu.
— Ahaha!
Doyeong riu alto, mas não havia nele sinal de acanhamento ou constrangimento. Observando a figura confiante do irmão, Sihu suspirou baixo.
— Diga obrigado ao Yeonu por mim. E que me desculpe também.
— Desculpas por quê? Ah, por ter melado o pescoço do Yeonu-hyung com feromônios?
Ao contrário do que Sihu esperava, que ele fosse ficar bravo, inesperadamente, Doyeong ergueu os cantos da boca de um jeito agradável.
— A gente está de boa. Graças a isso, aproveitamos bem aquilo.
Diante das palavras insinuantes, Sihu franziu o rosto. O quê, e como teriam aproveitado bem, ele jamais quis saber.
— Não pedi desculpas a você, pedi só ao Yeonu.
— Pedir desculpas ao Yeonu-hyung é pedir a mim também. A gente é um só corpo e uma só alma.
— …
— Você está com cara de quem quer xingar.
Melhor não falar nada. Sihu balançou a cabeça e caminhou na direção do carro. Então Doyeong, em vez de deixá-lo ir docilmente, colou o corpo ao lado dele.
— Que é isso.
— Vamos beber, ora. Você está de mau humor, e nessas horas a família tem que estar por perto. O Yeonu-hyung também disse pra fazer assim, pra aliviar um pouco a sua preocupação.
— O Yu Yeonu tem trabalho, hein, transformando o Baek Doyeong em gente.
Era um jeito de falar impassível, mas nele havia, ainda que de leve, um calor. Talvez conhecendo o coração do irmão, Doyeong deu risadinhas feito um garotinho.
— Tem muito trabalho. Me transformando em gente, cuidando do bebê doente.
— …O quê?
O que lhe veio à cabeça no instante foi a expressão ‘gravidez antes do casamento’. Não me diga que… Quando o fuzilou com o olhar, franzindo até o cenho, Doyeong piscou os olhos. Era uma reação de quem não entendia por que estava sendo fuzilado.
— Você, o que foi que fez com o Yeonu?
— O quê… Ah, que loucura.
Só então, talvez tendo lido o pensamento do irmão, o rosto de Doyeong ficou escarlate. Mesmo diante daquela figura atrapalhada, algo raro de se ver, Sihu continuou franzindo o cenho. Quando lhe lançou um olhar de “você é louco?”, Doyeong sacudiu até as duas mãos.
— Você não lembra que eu fiz vasectomia?
— Como é que eu vou saber se você não desfez escondido do Yeonu?
— Caralho, você é doido?! Por que eu faria uma coisa dessas com o Yeonu-hyung!
Vendo-o esbravejar, parecia que ele não fizera nada de estranho. Sihu ficou aliviado com o fato de a coisa estar longe do que ele imaginara.
— É o irmão dele, o irmão mais novo! Como a diferença de idade é grande, ele o chama assim.
— …Ele chama o próprio irmão de bebê?
Na voz que perguntava transparecia repulsa. Como alguém que também tinha um irmão mais novo, não conseguia acreditar que Yu Yeonu usasse um tratamento desses. Quando o olhou com um rosto de quem mastigara alguma coisa, Doyeong deu uma risadinha zombeteira.
— Sim, porque, ao contrário de certas pessoas, ele tem uma boa personalidade. Devia seguir o exemplo, hyung.
— Tá, entendi. Daqui pra frente vou te chamar de bebê.
— …Não faça isso.
Se você mesmo vai detestar, pra que dizer bobagem. Sihu soltou um riso débil e abriu a porta. Foi quando, diante de um pensamento súbito, tornou a dirigir o olhar a Doyeong.
— O irmão dele está muito doente?
Se fosse outra pessoa, ele nem daria atenção. Contudo, Yeonu era uma pessoa que lhe agradara bastante e, acima de tudo, era-lhe também grato pelo fato de ele o ter aconselhado com brandura. Será que apresento algum diretor de hospital que conheço, pensava ele, quando Doyeong disse palavras de sentido incerto.
— Por causa desse irmão é que a sua preocupação não deve ter parecido problema alheio, hyung.
Embora fosse coreano, ele não entendia coisa alguma. Sihu fez uma expressão de “que história é essa?”.
— É que o irmão dele também se manifestou.
— Se manifestou?
— É, igual àquele seu garoto. Dizem que é Alfa, e ainda por cima Alfa dominante.
Depois de terminar de falar, Doyeong ia abrir a porta do carro e entrar. Quem barrou a frente de Doyeong foi Sihu.
— Quando ele se manifestou.
O rosto de Sihu, que murmurava isso, estava enrijecido, duro.
— Hum, faz umas duas semanas?
— …Duas semanas.
Duas semanas, é. O pensamento de ‘não me diga’ foi ficando aos poucos mais forte. Sihu, que ia perguntar onde esse irmão estava agora, mudou a pergunta no último instante.
— Esse irmão, agora está na casa do Yu Yeonu?
Doyeong arregalou os olhos.
— Como você sabia?
— …
— É época de férias, então ele está na casa do Yeonu-hyung. Pensei em interná-lo no hospital, mas os dois irmãos foram contra. Que de qualquer jeito ia ficar bem com o tempo? Que teimosos, os irmãos Yu.
A palavra ‘Yu’ se cravou em seu peito. Sihu, por hábito, ergueu a mão enluvada e apoiou a própria testa. As pupilas, meio ocultas pelos cílios longos, se agitavam de leve.
‘Yu, é?’
Tentou pensar que não podia ser, mas não dava de jeito nenhum. Em vez disso, lembrou-se da familiaridade que sentira toda vez que via Yeonu. Os traços eram totalmente diferentes, mas havia algo estranhamente parecido. O olhar, o modo de falar, a firmeza que se via no meio da conversa.
— Qual é o nome dele.
Diante da pergunta insistente, Doyeong já não respondeu. O ar de surpresa se dissipou e uma expressão grave despontou em seu rosto.
— Não me diga. Não é, né?
Sihu, que ficou impaciente, acabou emitindo uma voz irritada.
— Como é que eu vou saber. Diga logo o nome.
— Hyung, você é louco? O Yejun tem só vinte e quatro anos agora, e ainda por cima ainda é estudante.
Em vez de retrucar que também havia diferença de idade entre eles, Sihu agarrou o braço de Doyeong. Segurando o irmão com dedos curvados feito garras, moveu os lábios.
— Onde ele está.
No sussurro abafado saía um som metálico.
— Onde os dois estão agora, é o que estou perguntando.
Em vez de responder, Doyeong entreabriu os olhos. Nas pupilas castanhas se via a hesitação de se devia ou não contar.
Nesse instante, o celular de Doyeong começou a emitir som de vibração. Diante do ruído que ressoava no bolso, o olhar dos dois irmãos se dirigiu para baixo.
— …
— …
Um sorriso despontou nos lábios de Doyeong. Um riso de quem acha aquilo um absurdo, mas do qual, ao mesmo tempo, transparecia curiosidade, arranhou o íntimo de Sihu.
— Não parece que é o Yeonu-hyung?
— …
— Espera. Vou atender.
No timbre tornado lânguido transparecia a intenção de aproveitar aquela situação. Sihu soltou a mão que agarrava o braço e apenas o fitou. As pupilas que reluziam, mandando-o atender logo, eram afiadas feito uma faca.
Doyeong, exagerando uma expressão de “não tem jeito”, pegou o celular. Ele, que descia o olhar na direção do visor, logo franziu de leve o cenho.
— Hum.
Doyeong, que levou o celular à orelha, hesitou e então separou os lábios.
— …Ei, Yejun-ah. O que houve?
O rosto de Sihu se contorceu de um jeito e tanto. Quem foi o que ele chamou? As entranhas ardiam, escaldantes, como se uma bola de fogo tivesse entrado nelas.
— O hyung não está atendendo o telefone? Ah, a localização. É. Sei, eu sei, mas… Hum…
De relance. Doyeong olhou de esguelha para o próprio irmão.
— …Diante da loja XXXXX. No primeiro andar tem uma cachoeira artificial, ele deve estar por perto dela…
Antes mesmo de Doyeong terminar de falar, Sihu virou os passos para dentro do shopping. O passo apressado, quase uma corrida, não parou nem diante do chamado de Doyeong. O rosto de Sihu estava tão gélido quanto o vento de inverno.
[Acho que daqui pra frente também não vai dar pra entrar em contato. Nem por telefone, nem por mensagem.]
A última mensagem de Yejun golpeou-lhe a nuca com força.
[Meu celular quebrou.]
O garoto que não dera contato algum a ele, ligara direitinho para Baek Doyeong. E ainda por cima para se encontrar com o irmão. O sujeito que ele achava que estaria enfiado só em casa, num shopping cheio de gente.
[Sihu-hyung. Desculpa.]
Um palavrão subiu até a ponta do queixo. Desde quando ele andava por aí? Sem saber disso, ele esperara quietinho. Preocupando-se secretamente se algo dera errado. Achando que talvez o contato fosse se romper assim, com todos os nervos eriçados.
— Ha.
Sihu curvou os olhos, que estavam enrijecidos de irritação, e riu. A condição arruinada a ponto de o pessoal da empresa perceber, a casa que virara um lixão como se nunca tivesse sido limpa, sua figura patética verificando o celular sem parar. Procurando o causador de tudo aquilo, olhou ao redor.
A cachoeira artificial escorria emitindo um som límpido de água. Nos bancos instalados por perto havia pessoas sentadas, e entre as árvores instaladas diante da cachoeira crianças brincavam. Um espaço onde se harmonizavam belas instalações e música clássica; o semblante de todas as pessoas, exceto o de Sihu, estava luminoso.
— O que você vai fazer.
•´¨*•.¸¸.•*´¨•.¸ ♫ ¸.•´¨*•.¸¸.•*´¨•
(Continua na parte 4)
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna