•.¸ ♫ Capítulo 07.3
7. Smorzando (Parte 3/5)
— Sihu.
Enquanto Sihu, encerrado o encontro, voltava para o carro, um chamado se ouviu às suas costas. Sem que ele percebesse, o pai vinha se aproximando com um sorriso. Colados a ponto de os cotovelos se tocarem, pai e filho se fitavam com rostos idênticos.
— Sim, pode falar.
Quando ele respondeu com voz seca, o pai segurou um de seus ombros. A mão, com a velha aliança de casamento, tinha uma pegada forte e firme.
— Falo do presidente Gi que a gente encontrou hoje. Ele está te vendo com muito bons olhos.
— …São palavras que agradeço.
— É, é coisa de agradecer. Aquele senhor tem bom faro, sem dúvida. Não são poucos os feitos que ele realizou com esse bom olho clínico.
Sihu não concordou com jovialidade como o irmão mais velho, nem revirou o íntimo do pai à moda de Doyeong com um “e o que ele viu de bom em mim?”. Apenas ficou de pé, impassível, mantendo a boca firmemente fechada. Observando o segundo filho tão calmo, o presidente Baek baixou a voz uma oitava.
— Sihu, você não devia dar uma olhada em algum encontro arranjado agora?
Era isto. Lembrou-se do olhar com que o pai o fitara hoje como se fosse trespassá-lo. No olhar que parecia observar havia um orgulho velado. Sem dúvida se sentia orgulhoso do fato de o presidente Gi haver cobiçado seu segundo filho.
O riso quis irromper como uma fonte. Como esperado. ‘Um só’ podia namorar uma pessoa comum, mas os outros dois não — estava certo. Sihu moveu os lábios em direção ao pai, que ostentava uma expressão de “e então?”.
— Falo do meu irmão, pai.
— Hã? O Sihyeon?
— Sim, o Sihyeon-hyung. Ele disse que quer namorar. Que também quer arranjar um par, como o Doyeong. E deixou bem transparecer que deseja se casar.
Claro que ele jamais dissera nada nesse sentido. No entanto, Sihu acrescentou em tom sereno, sem o menor pudor.
— Acho certo primeiro dar uma olhada em encontro pra quem está com mais pressa.
O presidente Baek, arregalando os olhos, olhou para ele e então soltou um “oh, oh” de admiração.
— É mesmo? O Sihyeon não disse nada.
— Deve ter tido vergonha de dizer com a própria boca.
Sihu endireitou as costas e enfiou a mão no bolso. O maço de cigarros dentro do casaco preto espetou-lhe a ponta dos dedos.
— Que tal a segunda filha do presidente Gi? Têm idade parecida e ela é ótima em conduzir a empresa.
— Hmm, o Sihyeon, é…
— Pense a respeito. Então eu vou indo.
Depois de vender o irmão sem o menor escrúpulo, Sihu virou as costas. E aos ouvidos de Sihu chegou, fincando-se, a pergunta do pai.
— E você, Sihu.
— …
— Não pensa em namorar?
— …
— Ou será que tem alguém que você esteja vendo?
Diante daquilo, inconscientemente pensou em Yu Yejun. O garoto que, não se sabe desde quando, aprendera a sorrir com os olhos, astuto feito raposa. Veio-lhe à mente Yejun, de olhar sereno e delicado sem pálpebra dupla, do sinal de pele e das covinhas encantadoras. Sihu franziu a testa com o olhar fixo à frente.
— Não, não tem.
Depois de dar uma resposta assim, impregnada de um ar de irritação, Sihu abriu ele mesmo a porta traseira do carro. O motorista que aguardava, assustado, ficou receoso. Antes de entrar no carro, Sihu lhe fez um sinal com os olhos. Queria dizer para não hesitar e fazer o que tinha de fazer.
O presidente Baek, vendo o filho entrar no carro, soltou uma gargalhada larga. Era um rosto de quem achava absurda aquela atitude atrevida, mas não parecia ofendido.
De fato, em vez de fechar a cara ou intimá-lo aos gritos a se recompor, ele agitou a mão direita. Queria dizer que ele podia ir.
As rodas do carro se moveram suavemente, cruzando o estacionamento. Sihu manteve o olhar por um bom tempo na direção da janela.
O pai, sem que ele notasse, com as mãos cruzadas às costas, dava alguma instrução ao chefe de gabinete. O chefe se curvou e logo pegou o celular. Veio-lhe naturalmente o pressentimento de que ligava para o irmão, Sihyeon.
— …Que eu dê uma olhada em encontro arranjado?
Na voz de Sihu que murmurava havia um tom de riso. Com a cabeça inclinada de lado na direção da janela, ele falou sozinho.
— O senhor não sabe que o seu filho é um vadio. Se soubesse, não poderia ser tão convicto assim.
Que reação teria o presidente Gi se soubesse que Baek Sihu, do Sangwon, teve incontáveis parceiros de cama, homens e mulheres indistintamente? Ia espernear dizendo que não podia deixar um pé-de-valsa cobiçar sua preciosa filha. Esquecendo por completo que ele mesmo arranjara aquele encontro.
Era assunto que dava dor de cabeça só de pensar, então Sihu decidiu parar de imaginar. Soltou um suspiro sem som e recostou o corpo no encosto do banco. Ainda que fosse coisa encerrada, a sensação desagradável não terminava.
‘Não pensa em namorar?’
A voz velada do pai continuava a mexer com seus nervos. Será que o senhor, que sonha com o casamento arranjado do filho, tem o direito de fazer uma pergunta dessas? Sihu, encarando a frente, ergueu apenas um dos cantos da boca.
Será que eu devia ter mentido? Dizer que, na verdade, estou namorando um garoto. Que já que o Doyeong teve permissão, me deixasse também, mentir assim, descaradamente — será que eu devia ter tentado?
Mas Sihu logo balançou a cabeça.
‘Como se o senhor fosse deixar.’
Desde que nascera até então, nunca havia se rebelado de verdade uma única vez. Nisso havia, veladamente, o desejo de se apresentar apenas como o filho bom e admirável.
Agora, com mais de trinta anos e aquele desejo ainda presente, estava longe de conseguir enfrentar o pai. Sihu franziu o rosto e esfregou a testa com força usando a mão direita.
— …Merda.
Diante do palavrão baixo, o motorista deu uma olhadela pelo retrovisor. Sihu encarou de volta o motorista com olhos carregados de irritação. Diante do brilho intenso e cintilante dos olhos negros, o motorista, sem graça, desviou o olhar às pressas. Vendo aquele jeito assustado, longe de melhorar, seu humor só ficou mais negativo.
Queria fazer algo, qualquer coisa, para se livrar daquele estado desagradável. Sihu se lembrou do maço de cigarros que há pouco lhe espetara a mão e enfiou a mão no bolso. Mas o que veio entre seus dedos não foi o cigarro, e sim algo duro, de metal.
O rosto de Sihu, ao sacar aquilo, ficou estranho. O que estava em sua mão era o celular. Fitando o visor escuro, alguém lhe veio de repente à cabeça. Ao mesmo tempo, um impulso de querer vê-lo cresceu com força.
A pessoa que interrompera os dias feitos de tédio e sufoco, a pessoa que lhe provocava um cócega sem razão. …O garoto caloroso.
Chegado a esse ponto do pensamento, Sihu logo ligou para ele. No perfil que levava o celular à orelha havia um cansaço profundo. Cutucando o joelho com a mão que não segurava o celular, murmurou baixo.
— Que vexame é este.
Nesse instante, o que lhe penetrou os ouvidos foi um barulho de algazarra. Diante do som inesperado, os lábios que se moviam pararam. O riso de várias pessoas se misturava numa confusão. As têmporas latejaram e ele franziu a testa; foi quando a voz desejada ressoou em seus ouvidos.
— Sihu-hyung?
— …Deve estar com os amigos.
— Ah, dá pra ouvir? Só um instante!
Yejun disse a alguém “podem ir na frente”. Os que se supunha serem os amigos irromperam todos em risadas. Nas vozes que gargalhavam mesmo sem nada de engraçado transparecia uma clara animação.
Ouvindo aquele riso, o pensamento de que ligara à toa se intensificou. Sihu encostou a testa na janela e murmurou como que cuspindo. Que loucura.
— Alô?
Yejun ainda tinha a voz carregada de calor. Embora fosse a voz desejada, em vez de tranquilidade, subiu-lhe o constrangimento. Sihu esfregou a testa na janela fria e falou vagaroso.
— Não, deixa. Ligo depois.
— Sua voz está sem energia. Aconteceu alguma coisa?
Estava tão evidente a ponto de ele perceber na hora? A nuca e as orelhas esquentaram, escaldantes. Sihu, com a testa franzida, apenas moveu os lábios.
— Não é nada disso. Só…
O que inventar? Enquanto pensava por um instante, a paisagem de fora da janela entrou em seu campo de visão. Entre os prédios que ostentavam luzes esplêndidas, caía neve.
— …É que está nevando.
As palavras que murmurou como lhe vieram à cabeça soaram estranhas até aos próprios ouvidos. Sihu engoliu um suspiro e emitiu uma pronúncia mais nítida.
— Desliga.
— Hyung, espera…
Quem desligou primeiro foi Sihu. Depois de jogar o celular para o lado, cruzou as pernas. Enquanto encarava a janela, sentiu a veia sob a orelha pulsar num tique-taque.
Sabia que esse constrangimento não era coisa nova. Afinal, qual era o motivo de encontrar Yejun? Não era nada além de alívio de estresse, nem mais nem menos. Ainda assim, por que agora seu rosto acabara esquentando?
Sihu envolveu com a palma da mão o próprio joelho. A mão em brasa aquecia depressa o joelho inteiro.
O olhar se moveu da janela para o celular ao lado. O visor, todo negro, informava que nenhum contato viera de Yejun.
Só então, ao mesmo tempo em que a razão voltava, a vergonha se dissipou. Ignorando a presença do universitário que a essa hora devia estar se divertindo com os amigos, ele separou os lábios.
— Mude a direção.
— …Para onde o levo?
Talvez atrapalhado com a situação repentina, a voz do motorista rachou de leve.
— Sei lá. Acho que serve qualquer lugar, contanto que não seja casa.
Toc, toc.
Os dedos que envolviam o joelho se ergueram. Cutucando a roupa com as unhas cortadas curtas, Sihu voltou ao rosto inexpressivo. Com sombras acinzentadas sob os olhos, acrescentou mais uma frase.
— Por ora, vamos por outro caminho.
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O veículo sem destino passou assim por vários caminhos. Ainda que surgisse o hotel onde às vezes se hospedara, ainda que surgisse o bar que um dia frequentara, Sihu não lhes dedicava um único olhar. Apenas mantinha o silêncio, os longos cílios negros baixados.
Não conseguia encontrar com exatidão o nome da emoção que sentia agora. Estaria com raiva? Para isso, o coração estava calmo como um lago. Não era como se o pai tivesse feito uma declaração grandiosa a ponto de provocar uma grande ondulação em seu humor. Apenas quisera que ele conhecesse a filha de um senhor que via com bons olhos.
Pelo contrário, Sihu não tinha a menor dúvida de que, se ele fosse o pai, teria agido do mesmo modo. Não há meio melhor que o casamento para atar firmemente duas famílias. Se pudesse obter muitos benefícios sociais ao estabelecer um vínculo legal, também Sihu usaria de bom grado o próprio filho.
Chegado a esse ponto do pensamento, Sihu franziu ligeiramente o cenho. Mesmo compreendendo o pai, mesmo não sendo por isso que a raiva subira, o estado de nervos à flor da pele persistia. Ainda que já estivesse rodando havia mais de uma hora.
— Ah…
Inesperadamente, o motorista tomou a palavra com cautela. Ouvindo a voz que pigarreava como que sem jeito, Sihu meneou a cabeça.
— Fale.
— Se não se importar, quer que eu coloque uma música, ao menos?
Diante daquilo, um sorriso despontou nos lábios de Sihu. O longo silêncio devia ter incomodado bastante.
— Por favor, sim.
E, ao dizer isso, pensou em acrescentar que já voltassem para casa. Era para livrar do jugo do trabalho a pessoa que, por causa do seu capricho, sofria junto.
Foi quando ele abriu os lábios tão vermelhos quanto negros eram seus olhos. Uma música vagarosa encheu por completo o interior do carro.
— …
Diante do suave som de piano, Sihu tornou a fechar a boca. O motorista acrescentou depressa, como que se desculpando.
— Ah, é… Achei que fosse gostar, por isso coloquei.
— Eu?
Perguntando sem pensar, Sihu emitiu um som esvaziado. Andava, ele mesmo, pedindo música de piano toda vez que entrava no carro. Diante disso, era ridículo agora agir como se perguntasse se fora ele mesmo.
— Haha.
O riso débil logo se transformou num riso suave. Sihu falou com os cantos dos olhos igualmente curvados.
— Isso, gosto sim.
Só então o estado de nervos à flor da pele começou a se afrouxar, macio e fofo. Sihu acrescentou que já voltassem para casa. Observando a reação do outro, que fingia não ser, mas não conseguia esconder a alegria, ele apreciou a música em silêncio.
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(Continua na parte 4)
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna