•.¸ ♫ Capítulo 02
•.¸ ♫ Capítulo 2. Ma Non Troppo
Ma non troppo: mas não excessivamente
O segundo filho entre três irmãos.
Acima, um irmão mais velho. Abaixo, um mais novo.
Sihu não tinha nem a expectativa depositada no primogênito, nem o afeto recebido pelo caçula. Por isso, aprendeu desde cedo que, fizesse o que fizesse, jamais receberia os holofotes tanto quanto o irmão mais velho ou o irmão mais novo.
Em vez de implorar pelo amor dos pais, Sihu lapidou suas habilidades em silêncio. Também não queria se tornar uma pessoa medíocre na sociedade.
Seu esforço constante deu frutos. Manteve o desempenho no topo em todas as áreas e era habilidoso nas relações interpessoais. Além disso, sua perspicácia aguçada, sua calma imperturbável e um carisma que não se deixava abater por ninguém faziam de Sihu um talento que se destacava.
Era satisfatório. Tornara-se uma elite reconhecida por todos. Alguém com uma força sólida, difícil de encontrar. Sihu estava confiante de que poderia continuar vivendo assim.
Mas por que, então,
de repente, sentia-se como um inseto preso em um casulo? O sentimento que lhe penetrava até os ossos era de apatia. Um tédio sem precedentes desagradava Sihu.
Precisava encontrar.
Precisava encontrar uma válvula de escape, algo que lhe permitisse respirar e se livrar desse sentimento que grudava nele com insistência.
Sihu pensava que deveria ser um meio claro e, ao mesmo tempo, superficial.
Como um objeto descartável, algo que se usasse uma vez e depois se jogasse fora.
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Sentado na beirada da cama, Sihu pressionava a testa. A ressaca do vinho da noite anterior o atormentava. As têmporas latejavam como se fossem explodir, e uma dor surda se espalhava pelos braços e pernas, como se tivesse levado uma surra. Com a garganta seca e rachada, Sihu engoliu em seco e praguejou.
— Merda.
A voz árida carregava autodesprezo. Que situação deplorável. Racionalizar que estava tentando aliviar o estresse com álcool já era exagero. O resultado de ter bebido sem defesas era estar agora em um lugar desconhecido, sem saber onde.
Baixou a mão e olhou ao redor com irritação. Não era um espaço que se pudesse chamar de amplo.
A janela por onde entrava a luz transparente da manhã, a escrivaninha e a estante abaixo dela, tudo eram coisas que via pela primeira vez.
Sihu tossiu uma vez e apoiou a mão na cama. Sobre o lençol limpo, não havia nada além do calor corporal. O fato de não encontrar fluidos viscosos ou camisinhas já era um alívio em meio ao infortúnio.
‘Embora possa ter limpado antes.’
O herdeiro de terceira geração de um conglomerado, completamente inconsciente. Quem sabe se não gravaram algum vídeo para chantageá-lo. Se, bêbado, tivesse batido em alguém, ou praticado algum ato sexual…
— Sexuais.
Moveu a língua, verbalizando o pensamento que acabara de ter. Os acontecimentos da noite anterior passaram como um relâmpago.
— Me ensina.
— A beijar.
A voz do passado perfurou seus ouvidos.
— Aqui também é sensível.
— O céu da boca e a nuca. Onde mais é sensível?
De cenho franzido, Sihu estalou a língua. Um universitário que trabalhava meio período no bar do amigo. Que, apesar da cara de aluno exemplar, fumava.
Lembrou-se do rapaz que, embora isso não combinasse com ele, despertava uma sensação estranha. No instante em que se lembrou dele, que o beijara sem medo apesar de ser sua primeira vez, o som de uma porta se abrindo às suas costas ecoou, junto com uma voz calorosa.
— A ressaca está bem?
Desta vez, era uma voz do presente, não do passado. A testa de Sihu se franziu com o incômodo. Era por causa do tom do outro, que se preocupava com facilidade, como se fossem velhos conhecidos.
Com o rosto rígido, Sihu virou-se para trás. A pessoa que recebeu seu olhar cauteloso era Yejun.
Talvez por causa da luz do sol da manhã, Yejun, banhado por ela, transbordava vitalidade. Emanando uma sensação ainda mais radiante do que na noite anterior, ele tinha uma aparência impecável. O cabelo arrumado, o rosto limpo, a roupa sem um amassado sequer, tudo era asseado.
Sihu engoliu um suspiro. Diferente do outro, que parecia exalar um aroma fresco de sabonete, sua própria aparência certamente estava um desastre. Ele se levantou da cama, esfregando a testa onde o calor ainda pairava.
— Urg.
De repente, uma tontura o atingiu em cheio. Cambaleante, Sihu olhou sem querer para o espelho de corpo inteiro. Sua premonição se confirmou. O cabelo preto desgrenhado estava até arrepiado, e a área avermelhada dos olhos carregava sinais de fadiga. As bochechas levemente encovadas estavam secas, dando uma aparência abatida.
— …
Sem palavras diante da própria figura deplorável que encontrou de repente, ficou mudo. Enquanto a encarava em silêncio, Yejun estendeu algo. O que ele oferecia educadamente com as duas mãos era uma xícara. Dentro da xícara de cerâmica lisa, havia água limpa.
Não era preciso perguntar para saber que era para ele beber. Enquanto fitava a água, sua garganta ressecada clamou por sede.
Sihu acenou com a cabeça em agradecimento e pegou a xícara. A água morna umedeceu agradavelmente sua garganta rachada.
— Quer mais?
Ao perguntar, Yejun já estava em posição de espera, com as mãos juntas. Diante da postura que mais parecia de alguém reverenciando um superior, Sihu soltou uma risada de escárnio.
— Aqui.
Sihu fez uma pausa para firmar a voz.
— …Aqui é a sua casa, Yejun?
Não se sabia o que pensara, mas Yejun ergueu os cantos dos lábios. Era um sorriso bondoso, mas havia também um quê de malícia, como se estivesse se divertindo com a situação.
— Sim.
— Por que eu estou aqui…
— Porque você disse que estava com sono.
Yejun respondeu com uma expressão de “você não se lembra nem disso?”. Diferente de Yejun, que esboçava um leve sorriso, os músculos faciais de Sihu continuaram rígidos.
— Eu?
A tontura aumentou rapidamente. A mão de Sihu, que segurava a alça da xícara, se tensionou.
‘Que loucura.’
Com as veias saltadas no dorso da mão, Sihu sentiu aversão a si mesmo. Disse que estava com sono? Não foi difícil imaginar a si mesmo importunando o outro, manhoso como uma criança. O calor subiu pela nuca até suas orelhas.
— Devia ter me deixado.
Ele emitiu uma voz que mal disfarçava a indiferença. Yejun balançou a cabeça.
— Não podia deixar algo grave acontecer com você. O tempo também estava frio.
— Podia ter ligado para o Hyunseok.
— O chefe está ocupado.
— E você ficar ocupado, tudo bem?
Em vez de responder imediatamente, Yejun trouxe a chaleira com água. Com um som de “zurr”, a água desenhou uma parábola e encheu a xícara. Sihu observou distraidamente o vapor que subia em espirais.
— Não se preocupe, valeu a pena.
A voz suave fez cócegas nos ouvidos de Sihu.
— É perto da loja. Uma distância que dá para carregar alguém nas costas.
— Carregar, nas costas.
Sihu, raramente, gaguejou. Algo incomum para ele, que normalmente tinha uma fala fluente. Em uma situação que deixaria os conhecidos de Sihu surpresos, ou intrigados, Yejun apenas piscou os olhos com inocência.
‘Que papelão.’
Não foi difícil imaginar a si mesmo, bêbado, sendo carregado nas costas pelo garoto. Sihu engoliu um palavrão e bebeu mais um gole de água. Yejun, que o observava, murmurou como se falasse consigo mesmo.
— Não precisa ficar tão envergonhado assim. Tudo bem.
Você ficaria bem? Com os lábios ainda na xícara, Sihu ergueu uma sobrancelha. A consciência de ter mostrado uma figura deplorável aguçou seus nervos como um estilete. O olhar afiado carregava uma pressão característica, mas Yejun não se intimidou.
— Não fez nenhum escândalo de bêbado. Depois que chegou aqui, só dormiu profundamente.
Depois de umedecer a garganta com água, Sihu perguntou:
— Parecia que eu estava com vergonha?
— Sim.
— Por quê?
— Porque suas orelhas ficaram vermelhas.
— …
Quase mordeu a língua. Moveu apenas os olhos para o lado e, de fato, lá estava ele no espelho, com as orelhas vermelhas. Sentindo as bordas das orelhas queimarem, Sihu fechou os olhos lentamente e os abriu. Pouco depois, uma voz cansada escapou de seus lábios.
— Sinto muito por dar trabalho.
— Eu já disse que tudo bem. Não é da boca para fora.
Yejun abriu mais a porta. Atrás dele, outro espaço era vagamente visível.
Sihu sentiu um impulso de empurrar Yejun e fugir para fora do prédio. Mas, em vez de agir como desejava, ele abordou outro assunto.
— Posso usar o banheiro?
Ainda não conseguia confiar em Yejun. Precisava saber se realmente tinha apenas dormido, se na verdade não tinham feito algo, o que Yejun tinha feito enquanto isso. Só assim parecia que conseguiria lavar completamente a sensação desagradável que restava em um canto de seu coração.
— Por aqui.
Enquanto Sihu matutava, Yejun o guiou até o banheiro. Em frente ao banheiro, a apenas alguns passos de distância, ele percebeu sem dificuldade que aquele lugar era um pequeno apartamento de dois cômodos. Enquanto Yejun voltava para o quarto, Sihu virou a cabeça e examinou os arredores.
O espaço, limpo e organizado, lembrava seu dono. Vendo que não havia poeira ou marcas, era evidente que limpava sempre que tinha tempo. Naquele lugar composto por objetos imaculados e chão limpo, a única coisa desarrumada era o próprio Sihu.
Naquele momento, o olhar de Sihu se fixou em um ponto. O que capturou sua atenção foi o que estava sobre a mesa de jantar. Havia uma partitura densamente anotada, um folheto de concerto de música clássica e um pequeno porta-retratos. Sihu inclinou a cabeça em direção à foto dentro do porta-retratos.
— …
Lá estava Yoo Yejun. Vestindo um terno preto, Yejun estava com o cabelo penteado para o lado. Como se não soubesse que estava sendo fotografado, seu rosto, que fitava algo, estava impassível. A aparência seca emitia uma sensação surpreendentemente fria.
— Ah!
Um som de susto irrompeu atrás dele. Yejun caminhou apressadamente até a mesa de jantar e cobriu o porta-retratos. Na outra mão, carregava roupas cuidadosamente dobradas.
— Você viu?
Ao perguntar, as bochechas de Yejun estavam coradas. Sihu concordou com a cabeça sem pensar muito.
— Por que tanta vergonha? Não é um porta-retratos que você colocou aí para verem?
— Ah… Na verdade, não fui eu que coloquei esse porta-retratos aí.
Yejun sorriu sem graça.
— Foi meu irmão mais velho que pôs. Esqueci de tirar, que vergonha.
— Por que tirar? Estava bonito.
Sihu lembrou-se de Yejun tocando piano na noite anterior. Ele, que atraía a atenção de muitos com apenas um piano, brilhava como uma joia. Recordando os dedos que deslizavam livremente sobre as teclas, Sihu moveu os lábios novamente.
— Participou de alguma competição?
— Bem, sim.
Respondendo vagamente, Yejun colocou as coisas que segurava nos braços de Sihu. As roupas que ele recebeu sem jeito exalavam um aroma suave de amaciante. Um cheiro que não combinava nem um pouco com Sihu, cuja imagem era afiada da cabeça aos pés.
Mas recusar só porque não combinava seria demais, dado o estado deplorável em que se encontrava. Sihu aceitou obedientemente e agradeceu.
— Obrigado.
Ao pegar a roupa, seus dedos se tocaram. Sihu sentiu o outro prender a respiração, surpreso.
— Vou tomar um bom banho.
Com esse comentário adicional, os olhos de Yejun vacilaram. Ele manteve um silêncio por cerca de um segundo e logo esboçou um sorriso desajeitado.
— Fique à vontade.
Antes de fechar a porta do banheiro, Sihu olhou para Yejun, que estava parado, estático. Ele já estava esfregando a bochecha e fitando apenas o chão. Sem a pose anterior, Yejun assumira uma expressão de um garoto tenso.
Toc.
A porta se fechou completamente, e um leve sorriso surgiu nos lábios de Sihu. Pois é. Ele achava que Yejun estava agindo com naturalidade demais para alguém com quem havia se beijado. Ainda mais que ele dissera que tinha sido sua primeira vez, não foi? Ao pensar nisso, a conversa daquele momento estimulou seus ouvidos.
— E então? Aprendeu alguma coisa?
— Hum, não tenho certeza. Acho que se fizer mais uma vez, poderei saber.
A sensação dos lábios colados aflorou docemente. Lembrava-se do instante em que seus dentes se chocaram e depois se separaram, e também da língua de Yejun que, apesar de ser sua primeira vez, entrou rapidamente em sua boca.
As memórias que inundaram sua mente de uma só vez aumentaram a tontura. Sihu abriu o chuveiro e lavou o corpo. A água escorregou por suas orelhas e nuca.
‘E depois? O que fizemos depois?’
Devido à confusão mental causada pela embriaguez, não se lembrava do que veio a seguir. A última coisa que lhe vinha à mente era a imagem de Yejun enfiando a mão dentro de seu sobretudo. Sihu soltou um suspiro leve como uma pluma.
— …Ha.
Parece que adormeceu mesmo. Só de imaginar a si mesmo sendo carregado nas costas enquanto dormia, sentia vergonha. Um erro que nunca havia cometido em toda a sua vida lhe causava irritação.
Sihu ergueu a mão molhada e esfregou o rosto com irritação.
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Após o banho, a calma havia retornado aos olhos de Sihu. Depois de suprimir o embaraço, o desagrado, a vergonha e a aversão a si mesmo, em suas pupilas restava apenas uma suave ondulação.
Ele entreabriu a porta e estendeu o braço. No chão, as roupas que Yejun lhe dera o aguardavam.
Enquanto as pegava, Sihu ergueu a cabeça. Yejun, sentado na cadeira da mesa de jantar, o observava. Estava segurando as partituras que Sihu havia notado antes.
— Yejun.
Como se não esperasse ser chamado de repente, Yejun arregalou os olhos.
— S-sim?
— Só chamei. Você estava olhando muito fixamente.
Yejun apressou-se em murmurar “desculpe” e desviou o olhar rapidamente. Sihu contemplou o perfil dele, que fuzilava as partituras como se quisesse furá-las, e terminou de pegar a roupa.
Pouco depois, os dois estavam frente a frente, separados pela mesa de jantar. Assim que Sihu se sentou, Yejun colocou as partituras de piano de lado.
Ver as partituras trouxe vagamente lembranças da infância. Para Sihu, tocar um instrumento era uma área que não conseguia manter nem como hobby. Mesmo pressionando as teclas, o que sentia era irritação em vez de êxtase ou satisfação. A maior causa da emoção negativa era o fato de seus dedos não se moverem como ele queria.
Era novamente curioso ver alguém que dominava aquele piano com tanta liberdade. Como teria começado a tocar piano? Enquanto esfregava o cabelo com uma toalha, Sihu notou uma mudança na mesa de jantar.
— Tirou o porta-retratos.
Era revigorante ver aquele rosto frio e sensível, mas parece que ele o removeu rapidamente. Yejun respondeu, como se estivesse envergonhado.
— Eu o tirei há pouco. Dá vergonha de ver de novo.
A voz ingênua e bondosa ressoou na cabeça de Sihu. Ele deslizou o olhar sobre o rosto do outro, que ostentava um sorriso. Não parecia alguém depravado a ponto de entrelaçar a língua com um estranho bêbado logo no primeiro encontro.
É claro que Sihu se lembrava nitidamente dos olhos que se curvavam como os de uma raposa, contrastando com a aparência correta, e da covinha que dava uma sensação sensual. E também da ousadia com que o empurrou contra a parede e colou os lábios primeiro.
— Mas não teve vergonha de enrolar a língua comigo?
Sihu soltou as palavras conforme elas vinham à mente. Com a voz impassível, beirando a indiferença, os lábios de Yejun tremeram. Uma reação de quem não esperava que o outro mencionasse abertamente os acontecimentos da noite passada.
Diferente de Yejun, desconcertado, Sihu manteve a calma. Isso graças a ter organizado bem as emoções durante o banho.
— Eu me lembro até o beijo com você, Yejun.
— Ah…
— Deve ter sido difícil, aguentar minhas bebedeiras.
— Bebedeiras?
— Sim, bebedeiras. São coisas que não faria sóbrio.
A voz lenta de Sihu estava incrivelmente tranquila.
— Nunca.
A testa lisa de Yejun se tensionou. Não parecia estar com raiva, mas também não parecia de bom humor.
— Não foi difícil.
Após um momento, Yejun abriu os lábios.
— Porque eu só gostei.
A confissão franca e direta pareceu bastante revigorante para Sihu. Será que eu também já fui assim tão atrevido? Por mais que vasculhasse a memória, nada semelhante lhe vinha à cabeça.
Com a cabeça levemente inclinada, Sihu traçou um sorriso suave. Comparado a Yejun, que estava de cara feia, era um sorriso adulto, suave e até relaxado.
— Que bom que gostou.
— E você, hyung?
Ontem e hoje, era sempre “hyung”. Sihu pegou o copo, bebeu água e só então respondeu.
— Se eu gostei? Não sei.
— …
— Não me lembro muito bem.
Era meia mentira, meia verdade. Havia muitos pontos a desejar para responder que tinha sido bom. Por causa da embriaguez, não conseguiu sugar direito a raiz da língua do garoto. Também faltou tempo para apreciar aqueles lábios vermelhos.
— Então.
Naquele momento, Yejun respirou fundo. Em seguida, hesitou, como se quisesse dizer algo. Sihu lançou um olhar que indicava para ele falar e tamborilou na alça do copo.
Toc, toc, toc.
— Fazemos de novo?
O movimento que tocava a alça parou. Yejun, que fizera a proposta, mordeu o lábio inferior. A covinha que surgiu ao lado da boca exalava um ar de timidez. Diante da reação encabulada, como se tivesse acabado de fazer uma confissão, Sihu apenas o fitou em silêncio.
Quanto tempo se passou? Quem quebrou o silêncio foi Sihu.
— Não.
— …Por quê?
Apesar dos olhos vacilantes, o jeito recatado de perguntar de Yejun agradou Sihu. Ele explicou calmamente, quase como um professor ensinando um aluno.
— Eu já disse, são coisas que não faria sóbrio.
— …
— Beijar você foi um acidente. Não posso cometer o mesmo erro de novo.
As bochechas e os lóbulos das orelhas de Yejun ficaram vermelhos. Diante do rosto claramente envergonhado, Sihu engoliu uma risada. Qualquer um pensaria que ele tinha segurado e balançado o seu pau.
Em vez do órgão sexual dele, Sihu soltou a alça do copo que segurava. Levantou-se da cadeira e foi para o quarto, com movimentos serenos. O mesmo aconteceu quando vestiu o sobretudo e mostrou suas roupas dobradas.
— Espere um pouco!
Simultaneamente àquelas palavras, o som agudo da cadeira se movendo ecoou atrás dele. A expressão de Yejun, que já estava de pé, estava sombria. Seu rosto, como se estivesse refletindo sobre o que tinha feito de errado, era um pouco lamentável.
Não tinha jeito. Agir sem pensar nas consequências não combinava com a personalidade de Sihu.
Alguém que ponderava sobre cada grande ou pequena ação, alguém que por isso não perdia nada e não deixava brechas para os outros. Esse era Baek Sihu. Ontem, ele tinha cometido um deslize por estar bêbado, mas agora não.
Completamente sóbrio, Sihu agiu de acordo com sua verdadeira natureza.
— Tenho uma curiosidade.
— …
— Na noite passada, eu realmente não fiz nada de errado para você, Yejun?
Yejun semicerrarou os olhos.
— Não, não fez. Não precisa se preocupar.
Mas, em vez de se aliviar com um “é mesmo?”, Sihu baixou ainda mais a voz.
— E você, Yejun, fez algo de errado para mim?
— …O quê?
— Tocou em mim enquanto eu dormia, ou algum vídeo estranho…
— Com que intenção está me perguntando isso agora?
Como se estivesse incrédulo, Yejun ergueu a cabeça bruscamente. Encarando o olhar perplexo, Sihu deu de ombros.
— Vai saber, não é?
— Eu não fiz nada disso.
O tom de voz embargado arranhou as orelhas de Sihu.
— Eu só… fiquei preocupado. Como você não acordava por mais que eu o sacudisse, pensei se não teria acontecido algo de errado. Apenas isso…
Sihu, que ouvia quieto, fez uma expressão de quem tinha entendido. No instante em que pressentiu que o conteúdo da fala, inocente e magoado, não mudaria por mais que ouvisse, agarrou o ombro de Yejun para detê-lo.
— Certo, me desculpe.
Como se não esperasse um pedido de desculpas repentino, Yejun ficou com uma expressão de quem perdeu as palavras. De tão injustiçado que parecia se sentir, suas pálpebras ainda tremiam. Sihu apenas ergueu os cantos da boca.
— Perguntei por precaução. O mundo está muito perigoso.
Vendo-o tão magoado, era evidente que não tinha causado nenhum problema. Ainda bem que era um garoto cujo exterior e interior pareciam transparentes. Sihu colocou a palma da mão no ombro dele e deu batidinhas suaves.
— Me entenda.
Era um gesto de agradecimento, mas, por algum motivo, o rosto de Yejun apenas se manteve frio e rígido. O olhar bastante gélido remetia à imagem que Sihu vira no porta-retratos. Com a impressão de que ele jogaria longe suas mãos a qualquer momento, Sihu foi o primeiro a recuar.
— …
— …
Com o clima se tornando hostil, Sihu soltou um suspiro. Então, enfiou a mão no bolso do sobretudo.
Enquanto pegava a carteira para achar um cheque, suas bochechas ardiam. Ergueu a cabeça e Yejun continuava a encará-lo fixamente. Nos olhos castanhos, a emoção reprimida ondulava fortemente.
‘Está bravo.’
Não que não entendesse aquele sentimento. Depois de carregá-lo nas costas, colocá-lo para dormir e emprestar roupas, receber desconfiança em troca. Era óbvio que ele o considerava um ingrato.
Ainda assim, o coração de Sihu não se abalou muito. Não tinha jeito, não é? Você e eu somos estranhos. Apenas pensou, com indiferença, que não confiar em qualquer um era uma das regras para se viver no mundo.
Sihu estendeu o cheque que tinha na mão. Em vez de aceitar, Yejun franziu o cenho e manteve-se em silêncio. Seu olhar dizia: o que isso significa?
— É pouco, mas aceite.
— …
— Em vez de devolver depois de lavar a seco, seria melhor você comprar novas.
— É pelo preço da roupa?
Yejun olhou alternadamente para o cheque e para o rosto de Sihu, perguntando novamente.
— Esse dinheiro?
— É pouco?
Deixando Yejun, que parecia ter ficado sem palavras, Sihu pegou mais um cheque. E então estendeu o dinheiro como se dissesse para aceitar.
Yejun franziu o cenho e permaneceu calado. Perplexidade, irritação e incredulidade se misturaram em seu rosto.
— Não posso aceitar.
— Por quê.
— …É dinheiro demais.
Sihu verificou a quantia em sua mão e inclinou a cabeça.
— Dinheiro demais…?
Como se aquilo fosse um insulto, os lábios de Yejun se contorceram. Sihu percebeu instintivamente que, sem querer, lhe causara uma sensação de humilhação.
Seria por ainda ser jovem? De fato, para alguém daquela idade, aquilo poderia ser visto como muito dinheiro.
Ele pensou em dizer que não precisava se sentir pressionado, mas desistiu. Seu estômago vazio começava a doer aos poucos. O forte impulso de comer algo e se deitar em um lugar confortável para dormir o invadiu. Sihu não era uma pessoa gentil o bastante para reprimir todos esses instintos e ficar ali explicando calmamente.
Por isso, o que Sihu fez foi caminhar até ficar bem perto de Yejun.
— O que…
Enquanto ouvia o murmúrio baixo do outro, Sihu moveu a mão. A mão que segurava o cheque foi em direção à coxa de Yejun. Antes de procurar o bolso, tocou levemente o local com a ponta do cheque. Não era intenção de seduzir, mas, estimulado só com aquilo, o corpo firme de Yejun estremeceu.
Com a reação nítida, Sihu ergueu obliquamente o canto dos lábios. Sentiu uma ponta de pesar. Embora não correspondesse ao seu gosto pessoal, as reações dele tinham um quê de fofo. Sihu enfiou a mão junto com o cheque no bolso da calça de Yejun.
— O que está fazendo agora?
Yejun agarrou os ombros de Sihu por reflexo e rosnou. A voz, pronunciada sílaba por sílaba, estava rouca. Mas, em vez de se divertir com isso, Sihu piscou os olhos rapidamente.
— …
— O que está fazendo, eu perguntei.
No rosto inexpressivo de Sihu, um leve traço de surpresa despontou. Quando colocou o cheque no bolso, de repente sentiu algo volumoso. Com a sensação de algo comprido e duro como um porrete, Sihu se perguntou por um instante o que seria aquilo. Não levou nem alguns segundos para perceber que aquilo era nada mais nada menos que o órgão sexual do garoto.
‘Mas que tamanho é esse?’
Enquanto tirava a mão, Sihu riu por dentro. Se tivesse tendência a ser passivo, poderia ter ficado com água na boca. A probabilidade de desistir de traçar um limite ali e voltar a seduzir o garoto era alta.
Para infelicidade ou felicidade, Sihu era um homem que seguia seus instintos de Alfa Dominante. Em vez de ser penetrado por alguém, preferia enfiar o seu dentro da outra pessoa.
Por isso, Sihu apenas admirou de forma pura e, em seguida, bateu na coxa de Yejun com descontração.
— É porque você não aceitava de jeito nenhum. Não recuse, apenas aceite.
Estremeço, estremeço.
Mesmo sendo um toque banal, Yejun teve uma reação exagerada. Um sorriso surgiu nos olhos de Sihu enquanto observava. Foi então que Yejun se afastou para o lado e tirou a mão dele, como se batesse.
Toc.
No silêncio tranquilo, um som surdo ecoou. Tendo afastado a mão, Yejun arregalou os olhos, como se tivesse se assustado com a própria reação. Sihu acenou com a cabeça e se despediu brevemente.
— Então, vou indo.
Era um tom adequadamente polido, adequadamente firme. Como se tivesse cometido um grande erro, Yejun estava rígido como uma estátua de gesso. Sihu passou por ele e lançou um breve olhar. Fazer essa cara só porque bateu na mão alheia.
‘Quem vir vai pensar que fui eu que bati nele.’
Ao fechar a porta, viu o elevador do officetel. Entrando nele, Sihu verificou novamente os bolsos. Não faltava nada, nem celular, nem carteira.
Ao sair do prédio, o ar frio o recebeu. O vento de inverno despenteava agressivamente seu cabelo de textura fina. Sentindo o frio que mexia em seu couro cabeludo, Sihu moveu os passos.
De dentro do sobretudo, o aroma suave das roupas de Yejun exalou. O cheiro quente, tênue e aconchegante acariciou seu corpo cansado.
Sihu soltou um suspiro vazio. E então, abaixando a voz a um nível quase inaudível, murmurou:
— É um bom garoto.
Referia-se a Yejun. Carregar um desconhecido nas costas para lhe dar abrigo em sua própria casa, e ainda se assustar e congelar depois de afastar a mão de quem o provocava. Era diferente de si mesmo, desgastado e calejado pela sociedade, pelo mundo.
Sim, um garoto bom e honesto. Havia um quê de safadeza implícita, mas até isso aos olhos de Sihu era apenas fofo.
Sihu sorriu sem abrir os lábios. Embora soubesse que era bastante maldoso, era difícil conter o prazer.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna