•.¸ ♫ Capítulo 02.2
•.¸ ♫ Capítulo 2.2 Ma Non Troppo
Uma situação não tão ruim.
Foi essa a avaliação de Sihu. O beijo com uma pessoa estranha depois de muito tempo foi eletrizante. O outro tinha um lado desajeitado, mas também ousado, o que fez Sihu sentir prazer. As reações, bem diferentes das dos parceiros sexuais experientes do passado, foram divertidas.
Foi quando ele retornou à rotina após encerrar aquela experiência agradável. Revisando projetos em andamento, dando instruções às pessoas e verificando a agenda prevista, Sihu percebeu uma coisa.
Seu corpo estava leve. Pela primeira vez em muito tempo.
Sua mente estava limpa como a de alguém que dormiu profundamente, e uma energia há muito não sentida circulava por todo o seu corpo. Graças a isso, Sihu conseguiu lidar com tarefas que até pouco tempo atrás lhe pareciam penosas, agora sem mudar uma expressão facial, de forma corriqueira.
‘Por quê?’
Procurou a razão pela qual recuperara a boa condição. A primeira coisa que lhe veio à mente foi a imagem de Yejun.
Mas Sihu imediatamente negou, pensando que não poderia ser apenas por causa daquele garoto. Para dissipar de uma vez um mal-estar tão prolongado, a existência de Yoo Yejun não significava nada para Sihu. Certamente fora mais por ter bebido à vontade e aliviado a tensão do corpo.
Contudo, não demorou muito para Sihu sentir, em meio ao desagrado, que sua convicção poderia estar errada. Com a testa lisa franzida e a boca fechada, à sua frente várias pessoas riam e conversavam animadamente. Com claros sinais de estarem bem embriagadas, todas elas eram rostos que Sihu conhecia bem.
— Por favor, dê uma ajudinha, Excelentíssimo Chefe da Promotoria. Por causa daquele maldito repórter, estou quase morrendo, huuu… Se me ajudar com certeza, hehe, vou lhe dar um bom presente de Ano Novo! Um presentão!
Quem servia a bebida era o presidente da Gowoo, uma siderúrgica. Seu rosto, sorrindo amigavelmente para o chefe da Promotoria Distrital Sul de Seul, estava oleoso. O chefe da promotoria se inclinou, pedindo que ao menos desse uma pista sobre o que seria o presente.
— Ora, seu merda! Hyung-nim, está me desprezando porque só tenho o ensino médio? Hã? Você aí se acha porque se formou na Universidade Nacional de Seul, não é?
— Ahaha, haha. Ai, meu irmãozinho. Como poderia?
— Não pode me desprezar porque não estudei. Sabe o que dizem, né? O cara que não tem cabeça pra estudar? Hã? Tem boa cabeça para os negócios. Quem foi que deu a dica para o senhor comprar aquelas terras ali?
— Como eu não saberia disso, hã? Vamos, vamos, para com isso e acalme o coração.
Não muito longe dali, outro grupo conversava. O homem que estava a poucos passos de distância do chefe da promotoria era o que se chama de “gangster”.
Indivíduos que em outras situações seriam tratados com desprezo, chamados de bandidos, agora o cercavam com rostos aduladores. A razão era o sucesso do esquema de especulação imobiliária em grande escala que arquitetaram recentemente, de mãos dadas com um deputado.
Com a intenção de participar da especulação e também de entrar na linha do deputado que ascendia a candidato a prefeito, as pessoas se curvavam incansavelmente.
Da imprensa, promotoria, política, negócios ao mundo do entretenimento. Em uma reunião organizada por algum empresário, os seres humanos rodeavam de um lado para o outro como hienas, buscando obter alguma coisa.
Diferente daqueles predadores em busca de presas, Sihu permanecia estático. Ainda com os lábios em uma linha reta.
— Diretor-presidente.
Um dos secretários o chamou com cautela. O chamado respeitoso continha a indireta de que ele não deveria ficar parado e sim fazer algo. Sihu também não ignorava esse dever. Precisava se enturmar bem naquela reunião, fosse pelo negócio que geria, fosse pelo pai, o presidente do grupo.
Mesmo sabendo, Sihu manteve-se calado com o rosto inexpressivo. Uma atmosfera bem diferente da sua postura anterior, quando liderava as ações atraindo os olhares de todos. Os secretários, constrangidos, trocaram olhares entre si.
— Opa, ali está o nosso diretor!
Como se não desse mais para aguentar, quem levantou a voz de repente foi um advogado afiliado ao Grupo Sangwon. Ex-promotor, ele tinha uma lábia nata e habilidades sociais excepcionais, conhecia inúmeras figuras importantes. O advogado, que piscou para Sihu antes de se apressar à frente, transparecia a ambição de mostrar algo.
Sihu seguiu lentamente atrás daquele homem. Conforme movia suas longas pernas calmamente, as pessoas ao redor começavam a olhar, uma a uma. Olhares que não escondiam desejo e ambição grudaram viscosamente por todo o seu corpo. Coisas que normalmente ele conseguia ignorar com indiferença, pensando “que seja”, hoje estavam excepcionalmente desagradáveis.
Sua testa reta se tensionou. Estava com uma condição boa depois de tanto tempo, por que suas emoções estavam novamente descontroladas? Em vez de sentir vontade, uma apatia profunda, de não querer fazer nada, simplesmente o penetrava.
— Ai, Diretor! Como tem passado? Sim, sim, entrei para o Sangwon desta vez. Hahaha!
O advogado que se curvava, o diretor que demonstrava interesse por Sihu, e até uma celebridade que sorria liberando feromônios de Ômega, tudo entrava em seu campo de visão.
Apesar das reações amistosas, Sihu não sentia nenhuma emoção especial. Não ignorava o fato de que todos aqueles sorrisos afáveis eram apenas fingidos.
Foi quando pensou nisso que se lembrou de alguém com uma natureza completamente oposta. Yejun, que lhe veio à mente sem querer, estava com uma expressão fria.
— O que está fazendo agora?
Diante dos dois cheques, ele não conseguira esconder a raiva. A imagem dele reagindo como se tivesse recebido um grande insulto ainda tremulava diante de seus olhos. Comparado àqueles que, mesmo visivelmente embriagados, reviravam os olhos em busca do próprio benefício, Yejun era um garoto claro como cristal.
— Ahahaha! É um prazer, Diretor!
A voz de alguém que o chamava estava horrivelmente rachada de tanto gritar. Em meio ao cansaço que o invadiu de repente, Sihu sentiu um desejo que ele mesmo não esperava. Esse desejo era…
— …Haha.
Erguendo obliquamente os lábios que estavam rígidos, Sihu soltou uma risada. Era um rosto que dizia “não tem jeito”, mas que também continha um quê de alívio.
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Ao lado de uma calçada movimentada. Um carro preto parou.
A pessoa que saiu pela porta do carro era Baek Sihu, vestindo um sobretudo cinza sobre um terno preto. Sentindo o vento que se dissipava em farrapos no ar, ele verificou o relógio no pulso. Seus olhos, com os longos cílios negros caídos, tremeram como se estivessem insatisfeitos.
Mesmo tendo saído no meio da reunião, não conseguira chegar na hora desejada. Uma da manhã. Era grande a probabilidade de Yejun, o funcionário de meio período, não estar mais lá. A razão de ter vindo até aqui, mesmo sabendo disso, era um pensamento de “quem sabe”. O sentimento de que, por um acaso, poderia ver Yoo Yejun.
Sihu acenou com a cabeça para o carro, indicando que podia ir. Pouco depois, apenas o vento cortante do inverno circulava ao seu redor. O vento, que explodia em ruídos ferozes ao bater nos prédios aqui e ali, acabou por atingir até o cabelo de Sihu. O cabelo preto, antes penteado para trás de modo impecável, começava a se desarrumar aos poucos.
Era quando, por hábito, ele levantava a mão para ajeitar alguns fios de cabelo. Alguém saiu pela entrada do prédio próximo. Sihu abaixou o braço e olhou para o rosto da pessoa que apareceu. Quem entrou em seu campo de visão era ninguém menos que Yoo Yejun.
Saindo de mochila nas costas, ele tinha uma aparência muito mais livre que a de Sihu. A jaqueta acolchoada branca balançava com o vento, revelando o suéter azul-claro por baixo. Suas pernas compridas estavam envoltas em jeans, e os pés grandes calçavam tênis pretos, contrastando com a jaqueta branca.
Yejun, que caminhava pela calçada, virou a cabeça distraidamente. Sihu, que estava a alguns passos de distância, viu de frente o rosto dele, que arregalava os olhos.
— …
— …
Em silêncio, Sihu examinou Yejun calmamente com o olhar. Seria por ser de madrugada? Ele parecia mais cansado do que quando se conheceram. O semblante, antes radiante, estava pálido, e olheiras cinzentas marcavam a área sob os olhos.
Seria impressão sua que a linha que descia da bochecha ao queixo também parecia mais afiada? Sihu decidiu perguntar sobre a curiosidade que lhe passou pela mente.
— Parece que foi difícil, não?
— …
— Você emagreceu nesse meio tempo.
Assim que Sihu quebrou o gelo, Yejun recolheu sua expressão de surpresa. Seus olhos, agora sem o embaraço, brilharam com uma emoção desconhecida.
Ele se aproximou de Sihu, franziu a testa e manteve a boca firmemente fechada. O que pairava nos cantos dos lábios, que se mantinham em linha reta, era um ar de desagrado. Uma expressão que, pensou Sihu, não combinava com aqueles olhos brilhantes.
— E o Hyunseok?
Sihu falou mais uma vez. Como se concluísse que não podia mais ignorá-lo, Yejun abriu os lábios tardiamente.
— Está lá em cima.
— Que trabalho. …Você também está saindo tarde hoje, Yoo Yejun.
— Meu horário de saída muda conforme o dia da semana.
— Ah, é?
Sihu fechou a boca por um instante e logo acrescentou.
— Não poderia me informar em detalhes, a sua agenda, Yejun?
Os olhos de Yejun tremeram.
— Por quê?
A voz que perguntava continha irritação. Mas Sihu não se deixou abalar pelo fato de o outro se armar com farpas assim que o encontrou. Pois havia percebido a natureza do brilho nos olhos de Yejun. Os olhos com um fulgor especial carregavam o desejo de saber o que Sihu estava pensando.
Naquele instante, os rostos das figuras importantes, cheios de bajulação, cautela e ambição, passaram rapidamente diante dos olhos de Sihu. Comparado a eles, calejados até a medula pela sociedade, o olhar de Yejun era extremamente honesto. O mal-estar que o atormentava desde a reunião se dissipou rapidamente.
— Porque eu quero ouvir.
Sihu emitiu um tom raramente suave. Yejun inclinou a cabeça e estreitou os olhos. Sob o ar noturno da cidade, os olhares dos dois se chocaram, intensamente.
— Eu quero ouvir você tocar, Yejun. Por isso que perguntei.
Depois de soltar uma baforada branca, Sihu prendeu a respiração por um momento. Porque queria que Yejun se concentrasse em suas próximas palavras.
— É também a razão de eu ter vindo aqui hoje.
— …Você veio para me ouvir tocar?
— Sim.
Yejun soltou uma risada vazia, “ha”, como se o ar lhe escapasse. Parecia que ele achava a situação realmente absurda.
Sihu entendia o que Yejun sentia. Alguém que traçou um limite dizendo “não vou te beijar sóbrio” apareceu de novo. E ainda por cima dizendo que veio ouvir sua música de piano, a essa hora da madrugada.
‘É de deixar perplexo.’
Mesmo para ele, era algo estranho. Sentir de repente vontade de ouvir piano. Além do mais, esse impulso surgira bem no meio de uma reunião de negócios.
Não havia razão. Simplesmente, a ressonância natural que emanava daqueles dedos longos o atraiu novamente. Achou que, se ficasse sentado quieto ouvindo a música de Yejun, a fadiga pudesse se dissipar um pouco.
Era por isso que tinha vindo até aqui a esta hora tão tardia da noite. Algo que raramente fazia, já que sua rotina era agir com planos meticulosamente traçados.
‘Também é divertido.’
Sim, era divertido. Ver o rosto que franzia a testa como se perguntasse “por que você veio?” fazia o riso brotar naturalmente.
— Você chegou tarde demais. Já acabou, por hoje.
Quando Yejun falou com rispidez, Sihu parou de rir. Mas os cantos dos seus lábios, erguidos obliquamente, permaneceram.
— Sim, eu sei. Você estava saindo agora.
— …Não está frustrado? Você veio até aqui a essa hora.
Yejun acrescentou as últimas palavras com uma voz ainda mais baixa.
— Disse que queria me ouvir tocar piano.
— Estou frustrado. Queria ouvir de novo, sóbrio.
— Mas disse que não podia me beijar sóbrio.
— Por que mencionar isso de repente?
Quando Sihu perguntou com um tom suave, Yejun fechou a boca. Um arrependimento de ter falado sem necessidade passou rapidamente por seu rosto, que parecia tão correto.
Uma estranha sensação de prazer se espalhou lentamente de dentro do peito de Sihu. Não era como se ele tivesse o hobby de provocar alguém abertamente. Mas só com aquele garoto, não sabia por que sentia tanta vontade de provocar.
— Desculpe, Yejun.
— …Por quê? Vai me dar cheques de novo?
— Não. Acho que isso me faria ser xingado, então vou deixar pra lá. Não quero pagar para ser xingado.
Sihu deu um passo à frente, aproximando-se de Yejun, que permanecia estático. A distância já curta entre eles foi reduzida a um instante.
— Eu só vim porque quis ouvir. Ouvir você tocar piano, Yejun…
Ouvir. Sihu hesitou por um momento sobre como completar a frase. Naquele instante, seus lábios se moveram por conta própria.
— Achei que a fadiga… fosse se dissipar um pouco.
— …
— É que ultimamente eu não estou no meu juízo perfeito. A ponto de estar bastante… estressado.
Ouvir com os próprios ouvidos as palavras que saíam de sua boca lhe trouxe um certo constrangimento. O conteúdo, a voz e até a emoção contida nela eram excessivamente sinceros. Mesmo sendo um murmúrio curto, era possível perceber de imediato o quão exausto quem o proferira estava.
‘Vamos parar por aqui.’
Que história é essa para um garoto que está saindo do trabalho? Sihu engoliu uma risada amarela e balançou a cabeça.
— …Deixa pra lá. Esquece isso, simplesmente.
Foi quando ele se virou para se afastar, após dar uma breve despedida. Naquele momento, Yejun agarrou seu pulso. A mão que o envolveu como uma trepadeira tinha uma força suave, fácil de repelir. Ainda assim, sentindo um certo formigamento, Sihu parou no lugar e olhou para trás.
— Como assim você só fala o que quer e vai embora?
O que encontrou de frente foram os olhos de Yejun. Das pupilas de tom acastanhado haviam desaparecido as emoções negativas que até pouco tempo as preenchiam: irritação, perplexidade, cautela. Em seu lugar, surpreendentemente, estava a preocupação.
‘Você, por mim?’
Desde quando nos conhecemos? Apesar de achar um absurdo, o pulso que estava preso queimava como se tivesse tocado fogo. Teve um mau pressentimento de que, se descuidasse, poderia ser tragado pelo olhar daquele garoto que o fitava fixamente.
Quando o pensamento de que deveria repelir a mão e ignorá-lo passou por sua mente, Yejun disse algo inesperado.
— Me siga.
— …Aonde?
Em vez de responder, Yejun começou a arrastá-lo para algum lugar. Mesmo nesse processo, não diminuiu a força com que segurava seu pulso. Para Sihu, aquilo foi interpretado como um sinal de que, já que tinha vindo até aqui, não deveria fugir.
‘Eu só vim ouvir a música.’
O plano de voltar para casa depois de apreciar algumas músicas foi por água abaixo. Mas, ainda assim, não era de todo desagradável. Não, pelo contrário, até se sentia ansioso para ver o que aquele que caminhava resolutamente faria.
Sentindo-se intrigado, Sihu pôs-se a caminhar ao lado de Yejun. Continuando a lhe oferecer o pulso direito.
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Quem largou a mão primeiro foi Yejun. Somente depois de entrar em um prédio, ele murmurou “ah” e soltou Sihu.
Esfregando o pulso quieto, Sihu olhou em volta. Havia um corredor comprido no centro e pequenas salas amontoadas à esquerda e à direita.
No instante em que o espaço apertado lhe causava uma sensação de claustrofobia, uma voz baixa soou em seus ouvidos.
— É aqui.
— Aqui?
Em vez de dar mais explicações, Yejun acenou com a cabeça. Sua mão grande já tocava a porta de uma sala próxima. Com um rangido, a porta se abriu e o interior da sala se revelou. Uma luz de compreensão se instalou nos olhos de Sihu, que observava.
O que existia dentro da sala era nada menos que um piano velho. Sobre ele, havia várias partituras, marca-textos e lápis espalhados. Yejun entrou primeiro, organizou as coisas e fez um sinal para que Sihu entrasse.
Com dois homens adultos de grande porte ali dentro, o espaço pareceu ainda mais apertado. Mas, surpreendentemente, Sihu não desgostou nem um pouco daquele espaço pequeno. O ar silencioso e o piano que repousava pesadamente no lugar lhe davam até uma estranha sensação de estabilidade. Sihu sentiu os nervos, que estavam à flor da pele na reunião, irem se acalmando gradualmente.
Era uma sala de prática? Sihu passou os dedos pela superfície do piano. A textura era lisa, mas havia marcas finas de arranhões. Eram, sem dúvida, vestígios deixados por Yejun ou por alunos anteriores.
— …É bom.
Diante de sua admiração sincera, o rosto de Yejun, que estivera tenso até então, se desmanchou. Ele pigarreou, “aham”, e esfregou vigorosamente a linha que descia do pescoço aos ombros. Agindo como se estivesse sem graça, Yejun logo abriu a boca.
— Sim. É o meu espaço favorito.
A voz, de temperatura diferente, tornou-se mais calorosa. Yejun virou a cabeça para o lado e encontrou o olhar diretamente. Seus olhos castanhos e redondos estavam cheios de vitalidade. Era uma mudança que não se sabia se era por ter trazido Sihu até ali ou se pela empolgação de estar diante do piano.
— Por que me trouxe ao seu espaço favorito?
— Porque você disse que queria ouvir.
Por um breve instante, os lábios de Yejun tremeram, como se hesitassem.
— …Hyung.
Hyung. Diante do tratamento inalterado, Sihu acabou sorrindo.
— Ainda vai me chamar de hyung?
— Não sei o seu nome. Perguntei ao hyung Hyunseok, mas ele não me contou.
Pois é. Fui eu quem disse para não contar.
Sihu respondeu mentalmente e murmurou vagamente “é mesmo”. Yejun encarou Sihu como se o achasse estranho, mas não perguntou a respeito. Em vez disso, puxou o banco do piano, sentou-se e examinou as partituras.
Parecia que ele realmente pretendia tocar uma peça. O sorriso que pairava nos lábios de Sihu se aprofundou. Inconscientemente, com um rosto intrigado, ele inclinou o corpo em direção às partituras. O aroma do ar frio do inverno emanava das roupas dos dois, agora mais próximos.
— Sente-se também, hyung.
— Vai ficar apertado se eu sentar.
— Mesmo assim, não posso deixá-lo de pé. Sente-se logo.
Assim que terminou de falar, Yejun ergueu a mão esquerda e segurou o cotovelo de Sihu. Com o toque sem hesitação, Sihu estreitou os olhos. Alheio a isso, Yejun, ainda com o olhar fixo nas partituras, puxou Sihu para que se sentasse.
— Você toca bastante, hein, Yoo Yejun.
Achou que ele ficaria sem graça, mas, inesperadamente, Yejun soltou um som vazio, “pff”.
— Esse nível de toque é normal. Por mais que pareça, nós temos uma relação de carregar e ser carregado nas costas.
Ele dissera aquilo dando uma ênfase sutil em “ser carregado”. Sihu, que leu sua intenção, não perdeu a pose.
— Parece que você quer me envergonhar, mas é inútil. É algo que nem me lembro.
— Que pena. Queria ver de novo o seu rosto com as orelhas vermelhas, hyung.
A voz murmurante de Yejun continha um tom provocativo. Se eu acariciar sua cabeça e disser que é fofo, você vai ficar bravo, não é? Certamente, seria expulso dali na mesma hora sob a acusação de ser rude, e adeus à apresentação de piano. Por isso, em vez de agir por impulso, Sihu fez uma pergunta.
— Por que você está fazendo tudo isso? Por que veio até aqui a esta hora da madrugada para tocar para mim?
— E o hyung, por quê?
— Eu?
— Você me seguiu até aqui, a esta hora da madrugada. Qual a razão de querer tanto assim me ouvir tocar?
Yejun fazia exercícios com os dedos lentamente. Os dedos longos moviam-se com flexibilidade no ar.
— Só por causa dessa tal fadiga?
— Não é um simples ‘só’. Para mim. Alguém da sua idade, Yejun, se der uma boa dormida já fica bem.
— …O que tem a minha idade.
— É um elogio por ser jovem.
— …
— Eu já contei tudo. Estava fatigado, lembrei de você, Yejun, e senti vontade de ouvir piano.
— Disse que lembrou de mim?
Com a voz que perguntava como se fosse algo inesperado, Sihu franziu o cenho. Dispensava a sensação de que estavam vasculhando cada canto do seu coração.
Por essa razão, Sihu não confessou que seu rosto e o cigarro, seu espaço e a imagem no porta-retratos, e até sua voz calma e seu sorriso, tudo lhe viera à mente.
— Você toca piano muito bem, Yejun. Por isso me lembrei. Agora responda você, Yejun. Por que está fazendo tudo isso?
Como se a resposta que ouvira não fosse a que esperava, Yejun apenas pressionou as teclas em silêncio. Emitiu algumas notas breves assim e, então, abriu os lábios calmamente.
— Porque não quero simplesmente mandar embora alguém que veio até aqui de madrugada porque queria me ouvir tocar.
O acréscimo seguinte ressoou baixinho nos ouvidos de Sihu.
— …É o que meu coração sente.
Terminando de falar, Yejun fechou os olhos. Seus longos cílios e as bochechas davam uma impressão suave e frágil. Mas a linha do maxilar, afiada, e os ombros abaixo dela pareciam firmes, indicando que ele definitivamente não era uma pessoa frágil.
Com as mãos pousadas sobre as teclas, Yejun inspirou profundamente. Foi então que o jovem rapaz que ali estava momentos antes desapareceu, e ele começou a emanar uma atmosfera profunda e séria.
Com a mudança no ar, Sihu prendeu a respiração sem perceber. O som das veias pulsando abaixo das orelhas ficou mais alto. Com o nervosismo que o envolvia, Sihu tremeu os lábios.
Era apenas ouvir uma música.
Mas por que eu estou prendendo a respiração?
Antes que sua dúvida se resolvesse, a música começou. Com a cabeça baixa, Yejun moveu os dedos. Observando o rosto de olhos fechados, Sihu aguçou os ouvidos para a música.
Não era o jazz livre e espontâneo que envolvera todo o bar. Ouvindo as notas que começavam muito suavemente, quase como um sussurro, Sihu leu o título escrito na partitura.
Jeux d’eau
Ao ler o título, os lábios de Sihu se ergueram lentamente. Jeux d’eau. De fato, dava a sensação de gotas límpidas de água saltitando e brincando de um lado para o outro.
Só de ouvir, uma magnífica fonte se desenhava vagamente diante de seus olhos. Os jatos de água que brilhavam translúcidos, refletindo a luz do sol, ora subiam para o alto, ora caíam, como se estivessem brincando.
O olhar de Sihu gradualmente se dirigiu para baixo. Era novamente curioso como um timbre tão claro podia sair de dedos que se moviam com tanta flexibilidade. Mas o dono das mãos apenas tocava com indiferença, sem sinal de excitação ou entusiasmo. Mesmo alguém como Sihu, que pouco entendia de música, podia perceber que ele possuía uma técnica de execução limpa e delicada.
Foi quando a sensação das ondas rápidas se intensificou gradualmente. Yejun endireitou as costas e franziu o cenho. O que pairava em seu perfil, de boca firmemente fechada e apenas a testa franzida, era seriedade.
Completamente absorto em algo, Sihu lhe dedicou um longo olhar. A luz nas pupilas negras se intensificou, e seus olhos, já naturalmente afiados, ergueram-se ainda mais, exalando um ar cortante.
No entanto, Yejun nem parecia perceber que o outro o observava atentamente. Mesmo quando, ao retratar os borrifos de água que se agitavam, ele pressionava Sihu com o cotovelo, não demonstrava sinal de embaraço. Pelo contrário, quem reagiu ao contato inesperado foi Sihu.
‘Hm.’
Engolindo um gemido interiormente, Sihu estreitou os olhos. Era um toque que se encaixara puramente em função da música. Aquele contato indiferente, sem a menor intenção de seduzir, estranhamente lhe pareceu sensual.
Sihu ergueu os dedos e acariciou o próprio ombro e cotovelo que haviam se tocado. Uma sensação de formigamento, como uma corrente elétrica, permanecia percorrendo seu corpo.
Foi nesse clima estranho, enquanto ele tocava o próprio corpo sem motivo, que Yejun ergueu as duas mãos e, ao mesmo tempo, a música terminou. Os dedos que haviam subido no ar logo desceram, leves e lentos como plumas.
— …
— …
Sihu capturou com os olhos cada um daqueles movimentos vagarosos. Pouco depois, Yejun abriu os lábios calmamente.
— Disseram que o compositor tinha vinte e seis anos quando escreveu esta peça.
Ao dizer isso, Yejun já estava olhando para Sihu. Talvez por estar despertando após uma profunda concentração na música, seu olhar estava vagamente distante. Ciente do próprio estado, ele ergueu a mão direita e passou levemente pelo rosto.
— Incrível, não é? Eu também quero realizar algo por volta dos vinte e seis anos. Seja tocando ou compondo.
Era uma fala curta, mas Sihu pôde extrair duas informações. Que Yoo Yejun, esse garoto, ainda não tinha vinte e seis anos. E que ele tinha interesse não apenas em tocar, mas também em compor.
— Aqui estão as notas do compositor. Leia se tiver curiosidade, ajuda a entender.
O rosto de Yejun, ao pegar a última página da partitura e estendê-la, estava afetuoso. Através da música, parecia que a perturbação ou o mal-estar causados pelo segundo encontro haviam se abrandado. Poder acalmar as emoções com arte. Para Sihu, um empresário até a medula, era algo bastante curioso.
Sarak.
A página segurada pelos dedos longos foi virada. Enquanto a desdobrava e lia, Yejun repetia o movimento de fechar e abrir as mãos.
— Tem alguma música que queira?
Quando Sihu terminou de ler as notas anexadas atrás da partitura, Yejun quebrou o silêncio.
— Ou quer que eu toque de novo a música daquela vez? A de Piazzolla, não era?
Sihu não mencionou nenhuma música desejada, nem pediu para tocar novamente. Em vez disso, segurando o papel, apenas virou a cabeça e encontrou os olhos do outro.
Era um olhar que, se fosse de um funcionário da empresa, teria sido desviado, gaguejando, pensando no que teria feito de errado. Mas Yejun o encarou diretamente. Descobrindo a sinceridade contida nos olhos castanhos, Sihu sentiu imediatamente que a proposta partira de uma pura boa vontade.
— Porque não quero simplesmente mandar embora alguém que veio até aqui de madrugada porque queria me ouvir tocar.
Veio-lhe à mente o murmúrio que Yejun fizera antes. Sihu abaixou a mão que não segurava a partitura e pegou a carteira que estava no bolso.
— O que está fazendo?
— Acho que devo dar uma gorjeta.
Assim que a resposta terminou, Yejun pousou a palma da mão sobre o dorso da mão de Sihu, que segurava a carteira. A temperatura corporal que pressionava para baixo era quente.
— Você disse que não faria isso porque achava que seria xingado.
— Acho melhor apenas ser xingado e dar de qualquer jeito. Aceite, é uma apresentação que merece isso.
Era um elogio sincero, mas Yejun não o recebeu dessa forma.
— Parece que você tem muito dinheiro. Da última vez foi assim, e desta vez também.
— …
— Continua tentando resolver tudo com dinheiro.
Diferente do tom de voz calmo, o conteúdo não deixava de ter uma ponta afiada. Sihu balançou a cabeça.
— É para manter a cortesia.
— …
— No mundo capitalista, não há nada mais certo do que o dinheiro. Para manter a cortesia.
— Será que só o seu mundo é assim?
Desta vez, foi Sihu quem fechou a boca. Yejun retirou a mão e, lançando um olhar que perguntava “não é?”, ergueu os lábios. Uma covinha se formou no canto da boca que se curvou em um arco. Olhando para ele, o dorso da mão de Sihu coçou sem motivo.
— Pelo menos no meu mundo não é assim.
— …Talvez seja porque você é jovem.
— Você disse que era amigo do hyung Hyunseok, não foi? Então deve ter trinta e dois anos. Alguém que mal entrou nos trinta e poucos anos me dizer que sou jovem é um pouco estranho.
Depois de observá-lo em silêncio, Sihu logo desenhou um sorriso semelhante ao do outro.
— Até que existe gente que não gosta de dinheiro. Então me peça outra coisa. Não quero ouvir de graça.
Mesmo com a voz que não deixava de ter um tom sarcástico, Yejun sorriu radiantemente. Era um rosto que exalava uma sensação tão fresca que não se podia comparar com o sorriso de antes.
— Me diga o seu nome, então.
— Nome?
— Sim. O nome do hyung.
Após contemplar por alguns segundos o semblante claro de Yejun, Sihu abriu os lábios.
— …É Baek Sihu.
— Sihu…
As bochechas de Yejun, que murmurava como se falasse sozinho, ficaram coradas.
— Então, devo mudar o tratamento agora?
— Deixa.
Inclinando o corpo ligeiramente, Sihu ergueu um dos cantos da boca. Sua voz tranquila ecoou pelo espaço.
— Eu já disse que gostei. Continue me chamando de hyung.
— Sihu hyung.
— …
— Sihu hyung.
Depois de repetir o nome duas vezes, Yejun logo acenou com a cabeça.
— Certo, vou fazer assim.
Sihu absorveu com prazer a vitalidade que emanava dele.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna