•.¸ ♫ Capítulo 01
•.¸ ♫ Capítulo 1. POCO A POCO
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Poco a poco: pouco a pouco
A neve caía. Coisas frias e encharcadas de umidade cobriram Seul inteira.
Sob a nevasca, os rostos dos cidadãos que iam e vinham apressados estavam sombrios. Neve só é romântica quando se contempla de dentro de casa. Para aqueles que ainda não haviam conseguido voltar para o lar, a neve era apenas algo que sujava sapatos e meias. A neve, antes toda branca, ia se transformando em lama suja sob os pés de tanta gente.
Naquela paisagem de inverno de Seul, fria, impiedosa e banal, um homem estava parado diante de um edifício. Sem sequer um guarda-chuva, os olhos do homem que fitavam a placa do prédio eram insensíveis.
O branco dos olhos, levemente exposto pelo gesto de olhar para cima, e os cantos afiados das pálpebras também exalavam um ar rígido. Os cabelos, um pouco desalinhados pelo vento, eram de um negro profundo e, em contraste com a pele branca e os lábios de um vermelho suave, provocavam uma impressão gélida.
O homem entrou no prédio pisando na neve derretida e lamacenta. Os músculos ao redor dos olhos se contraíram como se estivesse cansado, mas ele não deixou escapar nem sequer um suspiro exausto.
— Bem-vindo.
Assim que entrou em certo estabelecimento, um homem o recebeu com alegria. De camisa branca, calça preta e avental preto, era seu amigo Lee Hyeonseok, de temperamento alegre e cheio de vitalidade.
— Baek Sihu, você veio mesmo?
O homem chamado Baek Sihu inclinou a cabeça de lado. A voz com que perguntou ao amigo, que sorria de modo afável, era serena.
— Eu já tinha avisado que viria.
— Mas nem por isso eu achei que você viesse de verdade. Você vive ocupadíssimo com os próprios negócios. Obrigado por vir. Tira o casaco e senta num lugar confortável.
Diante do convite para sentar, Sihu desviou o olhar e observou os arredores. Uma leve compaixão se assentou nos olhos negros até então impassíveis. Dentro do bar, onde tocava jazz, havia apenas três clientes.
— Não tem muito movimento, tem?
Como se tivesse percebido o olhar dele, Hyeonseok riu com bonomia.
— Ora, faz só um mês que abri. Ninguém se farta na primeira colherada.
Naquele estabelecimento cujo aluguel sozinho já tinha três dígitos, três clientes eram um resultado absolutamente insuficiente. Sihu pensou que o interior do amigo, que parecia tão radiante, devia na verdade estar apodrecendo. Ainda assim, em vez de dizer em voz alta que devia ser difícil, procurou um lugar e sentou-se em silêncio. Era por respeito ao amigo que se esforçava para viver com firmeza.
— O que você vai querer? Dá uma olhada no cardápio.
— …O que você fizer de melhor.
Hyeonseok entrou rapidamente na cozinha. Sozinho, Sihu recostou-se no encosto da cadeira. Do amigo que o recebera com os olhos brilhando transbordava energia. Sihu adivinhou sem dificuldade que era a energia de um novo começo.
— Está com boa aparência.
Sob os olhos daquele que murmurava consigo mesmo, havia sombras de um cinza-azulado. No gesto de tirar o casaco, impregnado de ar frio, também não havia nada parecido com vivacidade. Era um movimento silencioso, comedido e não isento de um certo cansaço.
Pouco depois, uma salada saborosamente temperada com azeite e uma taça de vinho foram postas sobre a mesa. Sihu mudou o pedido, dizendo que queria a garrafa, não a taça. Diante do pedido da garrafa de vinho mais cara, Hyeonseok bateu palmas, brincalhão.
— Como se esperava de um herdeiro de terceira geração de chaebol. Sabe gastar dinheiro.
— Não exagera.
Na voz que rebateu com naturalidade não havia sinal de constrangimento. Isso porque tanto o amigo quanto o próprio Sihu sabiam que a designação “herdeiro de terceira geração de chaebol” não era falsa.
Grupo Sangwon. Uma empresa que, atravessando incontáveis crises ao longo de mais de cinquenta anos, entrara de fato e de direito no topo da Coreia do Sul. Baek Sihu era o segundo filho do presidente Baek, que dirigia aquele gigantesco conglomerado. Atualmente, por ordem do pai, também era o diretor-presidente do Hotel Sangwon, à frente da gestão hoteleira ligada ao Grupo Sangwon. Hyeonseok observou a expressão de Sihu e perguntou, discretamente:
— Você não se forçou à toa para vir até aqui, né? Deve estar ocupado, com o fim de ano e tudo.
— Não a ponto de não conseguir parabenizar você pela inauguração.
Não era uma frase vazia dita para aliviar o peso do amigo. Por mais ocupado que estivesse, tempo para beber algumas taças de vinho ele tinha.
Em vez de explicar isso em detalhes, Sihu bebeu lentamente, como quem quer que vejam. Diante daquela imagem impregnada de tranquilidade, Hyeonseok deu uma risadinha.
— Quando você entrou, não viu nada faltando? Me dá um feedback.
— Feedback por quê?
— Como assim, por quê? Você é diretor-presidente. Deve entender de gestão melhor do que ninguém.
— Lee Hyeonseok.
Sihu acrescentou, com uma voz sem altos nem baixos:
— Não fala desse tipo de coisa aqui.
— Que tipo de coisa? Ah, sua posição? Por quê?
Por quê. Sihu ruminou lentamente a pergunta inocente de Hyeonseok. Como se saboreasse o vinho que entrara em sua boca. Uma sombra acinzentada atravessou o rosto até então impassível.
— Porque me faz lembrar do trabalho.
Era uma resposta que exigiria uma longa explicação. Mas Sihu não acrescentou coisas como “é constrangedor ouvir falar de diretor-presidente, de gestão. Ao menos aqui eu queria ficar à vontade”. Felizmente, o outro não só compreendia esse temperamento de Sihu como também era rápido em perceber as coisas.
— Está escrito na sua cara que você está morrendo de cansaço. O quê, deu burnout?
— …
— Não é para menos. Você nem foi para o exército, por ser alfa dominante. Entrou na empresa logo depois de se formar, não foi?
Em vez de responder, Sihu tocou a comida. Diante do clima que se tornava pesado, Hyeonseok assentiu, dizendo que pararia por ali. Sihu gostava daquela consideração de Hyeonseok, que era brincalhão, mas mesmo assim nunca ultrapassava certos limites. Era uma das razões pelas quais ele reservara tempo para vir até ali.
Foi quando o tempo escorria macio como água. Hyeonseok, que tagarelava sem parar, de repente soltou uma frase cheia de significado.
— Mas logo os clientes vão aparecer em bando, porque o funcionário de meio período está chegando.
— Meio período?
— É, é amigo do meu irmão mais novo, o garoto é bom. E bonito.
Com o acréscimo de “bonito”, Sihu entendeu o afluxo de clientes. Assentiu com indiferença e depois apreciou o bar inteiro. O piano, situado num canto, exibia um brilho suave sob a iluminação baixa. Sihu murmurou, sem pensar muito, como que para si mesmo:
— …Não sabia que você tocava piano.
— Não, de jeito nenhum. Aquilo ali é outra pessoa que vai tocar.
Outra pessoa? Estaria falando do tal funcionário de meio período? Sihu lançou um olhar carregado de pergunta, mas Hyeonseok apenas riu, em vez de responder. Como não era algo que lhe despertasse grande curiosidade, Sihu logo desligou o interesse.
— Aonde você vai? Não me diga que já está indo embora?
Assim que ele se levantou, Hyeonseok balançou as duas mãos, fingindo barrá-lo. Ao que parecia, estava bastante contente com aquele encontro com um amigo que não via havia tempos.
Diante daquela reação, de evidente pesar, os lábios de Sihu desenharam um leve sorriso. Só com aquela mudança mínima, a impressão fria mudou por completo.
— Cigarro.
— Ah! Vai lá, eu vou tirando os pratos vazios.
Sihu deteve por um instante o olhar no amigo que recolhia diligentemente os pratos vazios. De Hyeonseok, transbordante de luminosidade, emanava a vitalidade própria de um rapaz no início dos trinta. A testa de Sihu se retesou enquanto examinava o jovem dono do estabelecimento recém-inaugurado.
Mas foi por pouco tempo; ele virou as costas em silêncio e caminhou para fora do bar. O vento frio do inverno roçou o alto da cabeça do homem que vestia de novo o casaco. Alguns fios de cabelo fizeram cócegas em sua testa reta. Sihu deixou que as mechas desalinhadas esvoaçassem e enfiou a mão no bolso interno do casaco.
Pouco depois, entrando no vão entre dois prédios, tinha um cigarro preso entre os lábios. Sihu tragou fundo e ergueu a cabeça. A neve que até pouco antes caía com fúria já havia parado por completo.
Sihu soltou a fumaça que retinha na boca. A fumaça acinzentada subiu ao ar misturada ao vapor de sua respiração.
‘Está escrito na sua cara que você está morrendo de cansaço. O quê, deu burnout?’
As palavras de Hyeonseok ainda rondavam seus ouvidos. Sihu ruminou por um instante a fala do amigo e então emitiu um som semelhante a ar escapando. Perceber de imediato um estado seu que nem as pessoas ao redor notavam. Admirou-se, mais uma vez, do olho astuto do amigo.
Burnout. A palavra que Hyeonseok lançara era a mais adequada para descrever o Sihu de agora. Ultimamente, Sihu sentia tédio em relação a tudo. Nem trabalhando, nem no restante do cotidiano, nada lhe despertava qualquer emoção digna de nota.
Nada tem graça, absolutamente nada. Até a fumaça que descia pela garganta parecia apenas acre.
— …Só desperdicei o cigarro.
Murmurando baixinho consigo mesmo, ele tirou do bolso o cinzeiro portátil que guardava ali. Dentro do estojo preto com um desenho prateado gravado, apertou o cigarro pela metade. No rosto de Sihu não havia o menor sinal de pesar. Pensava apenas que, em vez de gastar aquele tempo ali, seria melhor trocar mais uma palavra com Hyeonseok.
Foi então, quando movia lentamente os pés calçados de sapatos sociais, que um som desconhecido alcançou a orelha resfriada pelo ar de inverno. Não era um som produzido por ele.
Girando o tronco por instinto, dirigiu o olhar para o fundo. Os olhos, meio ocultos pelos longos cílios, se estreitaram. Ainda segurando o cinzeiro, Sihu procurou quem fizera o som.
Sob a luz que saía da janela do prédio, um homem segurava um cigarro. Ele soprava a fumaça e estendeu uma das pernas para a frente. O som do sapato pisando a neve acumulada ressoou no silêncio. Sihu descobriu a origem do som que acabara de ouvir.
O outro tinha uma aparência impecável. Os olhos suaves e a face limpa, revelados sob a luz, ainda transmitiam um ar juvenil.
Sihu fixou nele o olhar sem se dar conta. Talvez tenha sentido esse olhar, pois o homem virou a cabeça com o cigarro na boca.
Quantos anos teria? Para o início dos vinte, a expressão serena era madura demais; mas, para o fim dos vinte, havia juventude demais nele. Ao chegar a esse ponto, Sihu percebeu que examinara com minúcia excessiva um homem que via pela primeira vez.
Aquele olhar bem poderia ser desagradável, mas o homem não teve reação alguma. Ao contrário, encarou com audácia o olhar que o observava fixamente. Ele deixou escapar uma longa baforada e baixou os olhos até a metade.
— O dia está frio.
Quem falou primeiro foi o homem. Mantendo uma distância apropriada, ele esboçou um leve sorriso. Um sorriso carregado de calor, que se fazia sentir aquecido.
Está falando comigo agora? Aquele tom sem nenhum vestígio de constrangimento pareceu bastante inusitado. Em vez de responder de imediato, Sihu observou o outro em silêncio.
É uma pessoa feita de desarmonia. O rosto limpo tinha a imagem de um bom aluno que nunca teria saído da linha nem uma vez. Falando bem, tinha um rosto bondoso; falando mal, um rosto obtuso. E, nas mãos desse homem de aparência tão correta, havia nada menos que um cigarro e um cinzeiro portátil.
— …É verdade.
Por fim, Sihu respondeu à observação do outro. Se fosse outra pessoa, não teria respondido. Trocar palavras com alguém que mal conhecia não combinava com seu temperamento. Ainda mais se o outro não fosse uma relação de negócios, e sim um estranho que ele nunca mais tornaria a encontrar.
— Um dia frio.
Ainda assim, Sihu respondeu por causa do fato de o homem, como ele, ter um cinzeiro portátil. Com uma cara de certinho, era fumante e, além disso, carregava consigo um cinzeiro, com a disposição de limpar direito a própria sujeira; não era nada mau. Sihu ruminou o pensamento que acabara de lhe ocorrer.
‘Não é nada mau, hein.’
De repente, o homem deu um passo e encurtou a distância. Com pernas tão longas quanto as de Sihu, aproximou-se num instante.
— Sim. Não é um tempo bom para fumar.
Ao falar de novo, o homem ergueu os cantos da boca. Ao lado dos lábios, curvados de maneira franca, apareceu uma covinha.
Diante daquele sorriso radiante feito uma flor, Sihu sentiu interesse. Examinando-o com mais minúcia do que antes, percebeu tardiamente que havia uma pinta perto do canto do olho dele.
Só com o acréscimo das características da covinha e da pinta de lágrima, a impressão de mera retidão se dissipou bastante. Visto de perto, o homem — não, o rapaz — era mais interessante de se olhar do que Sihu imaginara.
Apreciando aquele rosto que oscilava entre a docilidade e a ousadia, Sihu tirou mais um cigarro. Diferentemente de antes, brotou nele o desejo de colocar algo na boca e sugar.
Então o outro moveu o corpo grande e postou-se de costas para o vento. Quando Sihu lhe lançou um olhar que perguntava o que estava fazendo, ele piscou os longos cílios com toda a naturalidade.
— É que parecia que ia ser difícil acender o isqueiro.
O jeito com que fechava e abria os olhos devagar era de criança, e despertava uma sensação estranha. Diante daquele modo de falar recatado, mas nem um pouco acanhado, Sihu quis perguntar. Quantos anos você tem?
O rapaz abaixou um pouco a cabeça e encarou Sihu de frente. Deixando de lado a sensação de atrevimento, ficou um tanto surpreso com o fato de o outro ter “abaixado” a cabeça.
‘Ele está olhando para mim de cima.’
Para Sihu, alto por característica de alfa dominante, aquilo era uma experiência inédita. Isso porque, exceto pelo irmão mais novo, também alfa dominante, ele sempre vivera olhando as pessoas de cima.
Seria um alfa dominante? Mas o que roçava a ponta de seu nariz era apenas o cheiro frio, próprio do inverno. Significava, claramente, que era um beta. Foi então que o outro disse mais uma coisa, com toda a educação:
— Ou prefere que eu acenda para o senhor?
Dessa vez, ele não conseguiu deixar de perguntar.
— Por quê?
Mesmo com aquele tratamento informal e cortante, o outro não se ofendeu. Ao contrário, girou os olhos de um lado para o outro e assumiu uma expressão pensativa. Era a reação de quem não sabia nem por que dissera aquilo. E, mesmo assim, na mão já não havia o cinzeiro, e sim um isqueiro.
— …Ah.
O rosto do homem que erguia o isqueiro estava luminoso. Parecia satisfeito com a conclusão a que finalmente chegara.
— Eu acendo vou cigarros muito bem.
— …
— Está ventando muito, então quis ajudar.
‘Mas por que se dar ao trabalho? Não sou nenhuma criança.’
Surgiu-lhe o impulso de dizer isso e provocar aquele garoto uma vez. Sihu sabia que, se continuasse a fazer a mesma pergunta, ele ficaria sem jeito. E, quando ele acabava de entreabrir os lábios com uma expressão indiferente…
— Aha, ha.
Uma risada constrangida ressoou baixinho junto ao seu ouvido. Com os lábios levemente entreabertos, Sihu fixou o olhar na orelha do outro. Estava vermelha o bastante para se notar mesmo sob aquela luz fraca.
— …
Os olhos de Sihu, com os longos cílios projetando sombras, se estreitaram. Percebeu, com sua perspicácia, que não era só por causa do vento cortante que aquela orelha estava vermelha.
E logo ele, que me viu pela primeira vez. Sem me conhecer nem um pouco.
É engraçado o jeito dele, feito uma mariposa que se atira ao fogo sem saber que tipo de pessoa o outro é. Sihu decidiu fazer companhia por um instante. Se era porque, apesar do ar audacioso, gostara daquela orelha avermelhada, ou porque achara divertido o rubor tímido por trás daquela risada deliberadamente alegre, nem ele mesmo sabia.
— Está bem, então me ajude.
Sihu levou o cigarro à boca e baixou o olhar. O tronco do outro, que segurava o isqueiro, parecia duro como pedra. Os ombros largos e o peito, perceptíveis mesmo por baixo do casaco grosso, eram esplêndidos.
No instante em que pensou “nada mau”, a mão que segurava o isqueiro estremeceu e se retesou. Nas costas da mão, que deviam estar congeladas de frio, as veias saltaram, azuladas.
Diante daquele sinal de nervosismo tardio, Sihu acabou por esboçar algo parecido com um sorriso. O impulso de abalar aquele moleque que exalava juventude por todos os poros voltou a subir com força.
— Fogo.
Assim que soltou aquela única palavra em tom baixo, o outro, endurecido como uma estátua de gesso, mexeu os dedos. Com um “clique”, ergueu-se uma chama alaranjada.
Sihu inclinou a cabeça em direção à mão do homem, retesada de força. A ponta acesa do cigarro começou a ficar avermelhada.
— …
— …
Mesmo naquele silêncio absoluto, Sihu percebeu com facilidade que o outro continuava envergonhado. Talvez fosse por só ter convivido com sujeitos escorregadios feito cobras. Achou aquilo bastante bonitinho.
Um instante antes de o outro retirar o isqueiro, Sihu ergueu apenas os olhos e o fitou. Sem esperar que fosse encarado de repente, os lábios do homem tremeram.
‘Sorria como antes, vai.’
A covinha era bem bonita. Os olhos de Sihu, invadidos por certa alegria, se curvaram.
Engolindo o riso, ele deu primeiro um passo para trás, virou o rosto de lado e soprou de leve a fumaça branca. O vento espalhou a fumaça em todas as direções e tocou os cabelos de Sihu.
As mechas desalinhadas espetaram levemente sua testa branca. Incomodado, Sihu jogou o cabelo para trás com a mão que não segurava o cigarro. E dirigiu ao outro, que o observava em silêncio, algumas palavras breves:
— E você.
— Sim?
O timbre de barítono do outro fazia lembrar um cachecol que envolve o pescoço em pleno inverno. Aconchegante e morno. Sihu ergueu o cigarro que trazia entre os dedos.
— Você não vai fumar?
Compreendendo o sentido, o homem retribuiu o sorriso. A covinha que Sihu achara bonita reapareceu.
— Estou bem, obrigado.
— É mesmo?
Sihu emitiu aquela sua voz peculiarmente insensível.
— Então não temos mais nada a tratar.
Diante do sentido de “pode ir embora”, os olhos do homem vacilaram. Era um rosto curioso. Os olhos abalados, talvez por constrangimento, transmitiam um ar de inocência absoluta, mas a pinta de lágrima logo abaixo dava a impressão de que talvez não fosse bem assim.
Será que é ingênuo? Ou será um garoto bastante experiente?
Sihu soltou a fumaça mantendo o olhar fixo no homem. Entre os lábios tão vermelhos quanto negros eram seus cabelos escapou, junto com a fumaça, um riso parecido com ar escapando.
— …Cof.
— Ora essa.
Como se nunca tivesse sorrido, os cantos da boca de Sihu desceram lentamente até formar uma linha reta.
— Desculpe.
E, ao mesmo tempo em que soltava aquele pedido de desculpas seco, agarrou uma das mãos do outro. Era a mão que não segurava o isqueiro. Surpreso com a situação inesperada, o homem estremeceu, e veias azuladas saltaram na pele capturada.
— Es…!
Se não gosta, é só se soltar. Murmurando isso por dentro, Sihu apertou a mão que segurava. A pele alheia que se insinuava entre seus dedos estava congelada de frio. Era natural, depois de tanto tempo passado ao relento.
Como se quisesse aquecer aquela mão gelada, Sihu ergueu o polegar e percorreu a pele como quem acaricia. Era um contato afetuoso, mas com um quê de insistência viscosa. Manuseando-a quase como se fizesse uma carícia, Sihu percorreu com o olhar o rosto do homem.
— Ah…
Em vez de se desvencilhar ou fazer uma expressão de desprezo, o outro deixou escapar um gemido baixo. Diante daquele som que penetrava seus ouvidos, Sihu sentiu satisfação. De fato, tem uma voz boa.
Para deixar calor naquela mão, Sihu repetiu longamente o mesmo gesto. Pressionava a pele com insistência e esfregava os espaços entre os dedos.
Enquanto isso, o outro apenas o encarou por um bom tempo, com o rosto atordoado. Os cílios trêmulos lhe deram a impressão de estar provocando uma criança que nada sabe, e uma sensação estranha se ergueu nele.
Não é experiente, afinal.
Tendo compreendido o outro, Sihu foi o primeiro a soltar a mão. Na região do contato permanecia um calor nítido. Diante daquela sensação de cócegas, Sihu esfregou a mão no casaco que vestia. Foi então que percebeu que o homem estava de cenho franzido.
— O que… o senhor fez?
Na voz baixa transparecia perplexidade. O outro mantinha o olhar fixo na mão de Sihu que se esfregava no casaco. Sihu enfiou aquela mão no bolso e respondeu:
— Segurei sua mão.
O rosto do homem começou a se tingir de vermelho. Sihu pensou que ele estivesse constrangido, mas, inesperadamente, o outro perguntou sem hesitar:
— Por que segurou?
Dessa vez, o rosto impassível de Sihu se desfez um pouco. Ele esperava que o outro apenas se atrapalhasse de susto; jamais imaginou que fosse perguntar por quê.
— …Porque está ventando muito.
Respondendo com um compasso de atraso, Sihu passou direto pelo outro e seguiu andando. Quando o som da neve acumulada sendo pisada ressoou com nitidez, o outro tornou a perguntar:
— Segurou minha mão porque está ventando muito?
— Está frio, não está? Pensei em aquecer um pouco.
— …
— Simplesmente. Porque quis ajudar.
Era parecido com o que o outro dissera antes. Percebendo que Sihu o imitara, o homem soltou um riso incrédulo e bagunçou os próprios cabelos.
— Ha, ha.
Quem foi embora primeiro foi Sihu. Ele fez um leve aceno de cabeça e voltou a caminhar. Sentiu o olhar cravado em sua nuca, mas não se deu ao trabalho de virar o corpo.
O ar que tocava seu pulso, por algum motivo, parecia menos frio.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna