↫─☫ Episódio 202
𓆰𓆪 Episódio 202: Colapso 𓆰𓆪
Por algum motivo, Yoon Gaeul não tinha certeza do que estava acontecendo, mas sabia que devia haver um motivo para J ter vindo de maneira tão discreta. Embora ela não tivesse muita certeza do quão discreto aquilo realmente era. Ela apertou os lábios e assentiu.
— Vou avisar minha professora e sair no próximo período. Agora é intervalo…
— Tudo bem fazer isso?
— Se eu disser que é para a Agência de Gerenciamento de Despertos, deve dar certo. Só espera um pouquinho.
Os olhos de J, escondidos na sombra, sorriram com frieza. Assentindo levemente, Cha Eui Jae ergueu um pouco a voz e perguntou:
— Quer que eu embale numa bandeja? Você tem bastante coisa para carregar.
— Sim!
As amigas atrás da cerca gritaram entusiasmadas em resposta. Ele habilmente pegou uma bandeja de papel como as usadas em cafés, dobrou-a e colocou os copos de tteokbokki e os palitinhos de madeira dentro. Yoon Gaeul pegou os copos, baixando levemente a cabeça. Da-yeon se agarrou à cerca e gritou:
— Oppa, quanto tempo você vai ficar aqui?
— Hã? Eu?
Oppa? Ela sabe quem ele é?! Yoon Gaeul ficou horrorizada com a forma casual com que a amiga se dirigiu a ele. Cha Eui Jae apontou para si mesmo com uma expressão confusa, e Da-yeon assentiu entusiasmada. Esfregando a nuca, ele respondeu:
— Vou embora logo.
— Não, você devia continuar vendendo! Vou espalhar a notícia feito louca. Tenho um monte de amigas.
— Não, não precisa espalhar. Já veio muita gente.
— A gente pode voltar na hora do almoço?
— Vocês não deveriam comer a merenda escolar nessa hora?
— O tteokbokki parece melhor que a comida da escola.
— Comam o que a nutricionista se esforçou para preparar. Não comam porcaria tipo tteokbokki.
Cha Eui Jae acenou como se as mandasse embora. Yoon Gaeul assentiu, passou a bandeja por cima da cerca e mais uma vez a saltou com facilidade.
Checando as horas, viu que o intervalo estava quase no fim. Yoon Gaeul apressou as amigas de volta para a sala. Ao olhar para trás uma última vez, Cha Eui Jae tinha saído do truck e estava guardando as coisas.
No fim, tiveram que comer o tteokbokki enquanto subiam as escadas de dois em dois degraus, mas o sabor…
— Ei, que isso? Isso é insano. Está tão bom.
— …
— Argh, droga. Eu devia ter pedido dez mil wons. Vou me arrepender disso para sempre.
— Eu devia ter pulado o almoço e comido só isso…
— Eles ainda vão ter na hora do almoço, né? Ai, por favor.
Por que isso está tão bom?
Será que J era algum tipo de super-humano que se destacava em tudo? Yoon Gaeul, com uma expressão séria, mastigou e engoliu o tteokbokki. Era o melhor que ela já tinha provado.
***
Yoon Gaeul se agachou e olhou em volta. Felizmente, parecia ser a única aluna matando aula e fugindo. Ela pulou rapidamente a cerca. Embora o truck estivesse fechado, o cheiro remanescente do tteokbokki fez sua boca salivar. Saber o sabor só tornava mais difícil resistir.
Apertando os olhos, Yoon Gaeul bateu na porta do passageiro do truck. Um boné de beisebol preto surgiu de repente atrás da janela. Cha Eui Jae baixou a máscara até o queixo e articulou com a boca:
— Entra.
Yoon Gaeul abriu a porta do truck e subiu no banco do passageiro. Cha Eui Jae olhou para ela.
— O que você disse a eles?
— Disse que a Agência de Gerenciamento de Despertos tinha uma chamada urgente para mim, mas que era confidencial, então eu não podia dar detalhes. Processaram minha saída antecipada.
— …Dá para fazer isso assim? A frequência não é importante? Você está no último ano do ensino médio.
Yoon Gaeul balançou a cabeça com firmeza, usando uma expressão decidida.
— Mas… se o J veio até aqui, deve ser algo importante.
— …
Cha Eui Jae tamborilou no volante com os dedos antes de falar num tom sério.
— Se você perder a faculdade dos seus sonhos por causa de frequência…
— …
— Eu peço ao Lee Sayoung para te recrutar.
— Não, não, está tudo bem. Isso realmente não é necessário.
Yoon Gaeul balançou a cabeça rapidamente. Só de pensar no tom frio e nos olhos roxos de Lee Sayoung, calafrios percorriam sua espinha. Ela preferia entrar para a Agência de Gerenciamento de Despertos. Abraçando a mochila com força, Yoon Gaeul deu uma olhada furtiva em Cha Eui Jae. De perto, ele parecia bastante cansado. Havia olheiras sob seus olhos.
Incapaz de suportar o silêncio constrangedor, Yoon Gaeul soltou:
— Aquele tteokbokki…
— Sim?
— Estava realmente delicioso. Todas as minhas amigas disseram o mesmo.
— Sério?
Um sorriso cansado apareceu em seu rosto enquanto Cha Eui Jae ria baixinho.
— Parece que foi um sucesso. Foi a primeira vez que fiz.
— Algumas até disseram que prefeririam comer isso do que a merenda da escola.
— Isso não é bom. Elas precisam comer refeições adequadas.
— É só o jeito delas de dizer que estava muito bom.
— Que bom ouvir isso. Talvez eu abra uma loja se parar de ser caçador.
Cha Eui Jae brincou enquanto afivelava o cinto de segurança. A forma como ligou o motor parecia natural. Pensando bem, a identidade de J deveria ser confidencial. Será que ele tirou carteira de motorista? No nome verdadeiro? Yoon Gaeul também afivelou o cinto e perguntou:
— Quando você tirou a carteira?
— Eu não tenho.
— O quê?
A resposta confiante deixou Yoon Gaeul em choque. Ele acabou de admitir que dirige sem carteira? Isso era aceitável? Ela deveria ligar para o Oficial Jung Bin agora mesmo? É claro que, mesmo que houvesse um acidente, nem J nem Yoon Gaeul se machucariam. Ainda assim, Yoon Gaeul se pressionou contra a porta, por precaução.
— Então como você dirigiu até aqui?
— Um peixinho-dourado dirigiu para mim.
Era uma piada? Ele parecia sério demais. Assim que Cha Eui Jae colocou as mãos no volante, cinco peixinhos-dourados vermelhos surgiram do centro do volante. Eles se espalharam pelo carro e logo o truck começou a se mover sozinho. A boca de Yoon Gaeul se escancarou.
— C-como isso funciona?
— Eu também não sei direito… O truck foi emprestado pelo Mackerel. Acho que depende de algum truque.
— Uau…
Peixinhos-dourados autônomos.
Yoon Gaeul engoliu a piada que subiu à sua garganta. Cenas familiares de sua escola e do trajeto matinal passavam pela janela. Quando a escola já estava bem para trás, Yoon Gaeul finalmente falou:
— Sobre o que conversamos… Acho que não consigo mais falar com a outra versão de mim. Parece que me fundi completamente com ela… Desde aquele dia, nem eu consigo ter uma conversa com ela.
— Entendo.
— Mas eu posso compartilhar o que vi. Não sei tudo, mas… hmm, o relógio…
Yoon Gaeul fechou os olhos e se concentrou. Desde que se fundira com a outra versão de si, ocasionalmente se lembrava de memórias que não lhe pertenciam.
Ela estendeu os pensamentos, como quem desenha um mapa mental; o relógio, um mundo arruinado, o fim, J, Lee Sayoung…
De repente, uma luz forte se acendeu em sua mente. Yoon Gaeul abriu os olhos. Suas mãos brilhavam em cores vibrantes. Ela agarrou apressadamente o braço de Cha Eui Jae. Embora ele a tenha olhado com uma expressão confusa no início, logo entendeu e fechou os olhos. Yoon Gaeul fez o mesmo. As consciências deles começaram a afundar, para um lugar distante.
— Você está dizendo que quer encontrar o Lee Sayoung?
Uma voz úmida e abafada ecoou num espaço branco e cru. Depois do som de papéis farfalhando, uma voz afiada disparou:
— Por que você ia querer encontrar aquele cara que nunca sai de casa? Só considere ele morto.
— Honeybee.
— O quê? Estou errada?
— Se acalma—
— Me responde, Bae Won-woo! Eu estou errada?
— Vamos conversar lá fora. Vem, vamos.
Uma sombra imponente levou a voz afiada embora. Quando Yoon Gaeul piscou, viu-se numa sala escura, cercada por estantes de livros. A luz tremeluzente de uma vela lançava uma sombra que balançava de forma agourenta, distorcendo-se em formas grotescas.
— …
— Por mais duras que fossem as palavras dela, a Honeybee tem razão.
Uma voz rouca e rachada falou. Uma figura fechou um livro com um estalo. Fios de cabelo branco, desgrenhados e selvagens, caíam sobre seu rosto. Cha Eui Jae ergueu o olhar e seus olhos se arregalaram.
Era Nam Woo-jin— mas não como ele se lembrava. O corpo de Nam Woo-jin estava emaciado, quase mumificado. Uma respiração pesada lhe escapou enquanto ele piscava os olhos pálidos e ardentes— aqueles eram os únicos sinais de que ainda era o homem que Cha Eui Jae conhecia. Sua voz rascante murmurou:
— Quando faço planos, eu o deixo de fora. Ele não é mais um recurso viável.
— …
— Talvez as coisas fossem diferentes se o J ainda estivesse por perto. Mas…
Seus dedos ossudos pressionaram a têmpora. Depois de uma tosse fraca, um líquido branco escorreu de sua boca, acompanhado do cheiro metálico de sangue. Embora fosse branco, era inconfundivelmente sangue. Com dificuldade, ele terminou a frase.
— …Nós não temos mais o J.
— Você está bem?
De pé ao lado de Cha Eui Jae, Yoon Gaeul perguntou com preocupação. Ela estava mais velha agora, uma adulta, exatamente como aparecera nas visões fragmentadas. Nam Woo-jin limpou a boca e respondeu:
— Bem? Não, estou morrendo fielmente, dia após dia.
Nam Woo-jin se recostou pesadamente na cadeira.
— Mas não se preocupe. Vou aguentar o máximo que puder.
— …
— Se eu morrer, este lugar desaba também… Então vou suportar. Embora pareça que partes dele já começaram a ruir.
Cha Eui Jae olhou ao redor. Uma biblioteca, cheia de livros— só podia ser a Guilda Seowon. Mas por que o mestre da biblioteca estava num estado tão frágil? E então Cha Eui Jae percebeu a verdade.
Não havia como alguém curar os outros sem um custo.
A habilidade de Nam Woo-jin de curar devia vir às custas da própria vida. Essa era a lei do sistema.
Yoon Gaeul mordeu o lábio com tanta força que quase sangrou. Depois de uma longa hesitação, as mãos abrindo e fechando, ela finalmente falou, a voz hesitante.
— Se, hipoteticamente…
— …
— Só hipoteticamente…
— …
— E se nós já tivéssemos vivido o fim do mundo e, pouco antes de tudo acabar, o tempo tivesse sido voltado… e foi assim que acabamos aqui? O que você acharia?
Nam Woo-jin murmurou de olhos fechados:
— Se isso fosse verdade…
— …
— Então já fracassamos.
Um silêncio pesado caiu. Yoon Gaeul, a voz tensa, insistiu:
— Mas… e se pudéssemos voltar o tempo mais uma vez?
* * *
↫。。⛧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki