↫─☫ Episódio 198
𓆰𓆪 Episódio 198: Múltiplos Pensamentos 𓆰𓆪
Quanto tempo haviam ficado assim? Justo quando o calor que preenchia os dois braços começava a parecer familiar, como se fosse seu, um peso pesado caiu de repente sobre seu ombro. Cha Eui Jae virou a cabeça. Em meio ao aroma doce, havia um leve cheiro de sangue. Era de Sayoung.
— O quê? O que houve?
— …Ah.
— Sayoung?
— Não aguento mais…
Com aquele último murmúrio, que soou quase como uma reclamação, todo o peso de Sayoung pressionou o corpo de Cha Eui Jae . Os braços que estavam em torno de sua cintura escorregaram lentamente.
“Mas que…?”
Ele conseguia ouvir o som suave e constante de uma respiração perto do ouvido. Com uma expressão perplexa, Cha Eui Jae amparou a cintura de Sayoung com os braços.
— Espera, ele está mesmo dormindo agora?
— Hmm… Acho que finalmente acabou a energia dele.
Lee Sayoung murmurou enquanto se levantava. Cha Eui Jae ajeitou a forma como segurava o inerte Sayoung. Com um olhar indecifrável nos olhos roxo-claros, o olhar de Lee Sayoung passou dele para o inconsciente Sayoung. Ele inclinou levemente a cabeça.
— A gente estava numa disputa de poder… eu e ele.
— O quê?
— Ainda assim, ele aguentou bastante tempo. Para um garoto de vinte e quatro anos com só metade de uma alma.
Os olhos de Cha Eui Jae se arregalaram. Então eles não estavam só discutindo verbalmente, mas também brigando por território? Ele não conseguiu esconder a incredulidade ao perguntar:
— Vocês não conseguem simplesmente se dar bem?
— Se dar bem?
Lee Sayoung cobriu a boca com o punho. Os cantos de seus lábios se contraíram para cima, como se estivesse se divertindo.
— Isso não é quase se dar bem?
— Por que sua ideia de “se dar bem” é tão bagunçada?
Cha Eui Jae disparou. O Sayoung em seus braços soltou um pequeno gemido. Droga. Enquanto olhava preocupado para o rosto de Sayoung, um pensamento lhe ocorreu. Espera, isso não é uma oportunidade? Ninguém conheceria o segundo mundo tão bem quanto esse cara. Cha Eui Jae falou rapidamente:
— Aliás, você conhece a Prometheus?
Lee Sayoung piscou seus olhos roxo-claros.
— Prometheus?
— É. O objetivo deles é despertar pela força humana, não pela seleção do sistema. Já ouviu falar deles?
— Bem grandioso…
Lee Sayoung olhou para o ar como se pensasse profundamente por um momento antes de balançar a cabeça. Sua resposta foi simples.
— Não, nunca ouvi falar. É a primeira vez que ouço o nome… ou que tal grupo existiu.
— Tem certeza? Você não foi usado em experimentos nem nada? Simplesmente despertou naturalmente?
— Experimento?
Lee Sayoung balançou a cabeça com firmeza.
— De jeito nenhum. O que eu recebi foi tratamento. Para desintoxicar o veneno…
— …
— Foi aí que eu despertei. E é isso.
Cha Eui Jae salvou Lee Sayoung. No primeiro mundo, no segundo mundo e no terceiro mundo. Aquilo era um fato imutável, inalterável. Mas as coisas haviam saído um pouco dos trilhos depois disso. Especialmente agora, neste mundo, as coisas eram as mais diferentes. A maior diferença provavelmente era…
“A fenda do Mar do Oeste.”
E a ausência de Cha Eui Jae .
Depois de um momento de hesitação, Cha Eui Jae perguntou:
— Você sabe algo sobre masmorras erodidas? O fenômeno em que masmorras começam a assumir a forma de um mundo destruído.
— Não sei exatamente o que é, mas posso adivinhar. Mesmo que tentássemos bloqueá-las, haveria fatalmente algumas brechas que não poderiam ser fechadas.
— …
— Meu mundo e o seu têm a mesma origem. Originalmente, meu mundo deveria ter sido destruído e se fundido ao seu…
Lee Sayoung fez um pequeno movimento de peteleco no ar com o dedo, e uma massa negra apareceu. A massa negra começou a ficar branca pelas bordas. Pouco antes de ficar completamente branca, Lee Sayoung passou o dedo por ela. A massa se dividiu em duas: uma branca e uma preta.
— Mas isso não aconteceu. O relógio não estava intacto. Por causa de um criador charlatão.
Por um breve momento, uma visão de Hong Yeseong, com o cabelo castanho preso num rabo de cavalo, agitando as mãos freneticamente, passou pela mente de Cha Eui Jae antes de desaparecer. Assim como o grito de “Amigo~” e a visão dele batendo as asas frustrado em forma de galinha.
“Aquele cara se gabava de que a restauração estava tão boa porque tinha sido ele.”
Provavelmente era verdade. Cha Eui Jae tinha o pressentimento de que era. Por mais louco que o cara parecesse, ele tinha habilidades sólidas. Cha Eui Jae olhou para Lee Sayoung. Talvez fosse por ter ficado sozinho por tanto tempo, ou por sua falta de habilidades sociais. De qualquer forma, a capacidade de Lee Sayoung de ler as pessoas era definitivamente distorcida…
Enquanto isso, Lee Sayoung baixou a mão escura.
— Observe com atenção.
As duas massas divididas flutuavam no ar, mantendo certa distância. Mas logo o espaço entre elas começou a diminuir. Como se estivessem prestes a se fundir numa só de novo. Como se voltassem à origem. Por fim, o ponto em que se encontravam ficou cinza.
— …
Sua franja caiu sobre os olhos, obscurecendo a visão. A cor de seu cabelo…
Cinza.
Inconscientemente, Cha Eui Jae começou a mexer no próprio cabelo. As massas estavam gradualmente grudando uma na outra, tornando-se uma só. O preto ia lentamente ficando branco. Lee Sayoung observava o processo com olhos sem emoção e falou:
— Quando as origens são as mesmas, elas estão fadadas a se atrair. É um desejo primitivo… um instinto básico de voltar à forma original.
Seu olhar roxo-claro pousou no adormecido Sayoung.
— Assim como o eu do meu mundo atravessou para o seu mundo usando o corpo de outro eu.
— …
— É algo assim. Tentei bloquear as conexões o máximo possível… mas ainda restaram fluxos ligados. Especialmente masmorras ou fendas, que são como rachaduras. Provavelmente foi fácil para elas se formarem.
Lee Sayoung passou a mão pelo cabelo. Foi então que Cha Eui Jae viu— a mão escura dele estava ficando levemente transparente. Seu coração afundou.
“Ele está desaparecendo?”
Antes que Cha Eui Jae pudesse dizer algo, Lee Sayoung falou primeiro, como se soubesse exatamente o que ia dizer. Sua voz era indiferente.
— Eu não pretendia ficar muito tempo mesmo. Embora o outro eu estivesse tentando desesperadamente vir atrás de mim, eu só… fui um pouco mesquinho.
Mesquinho? Mesquinho?!
Se ele fosse mesquinho duas vezes, alguém poderia morrer. Cha Eui Jae conseguia se lembrar vividamente da imagem de alguém agarrado a ele entre lágrimas, chorando incontrolavelmente, não por escolha. Depois de uma breve hesitação, Cha Eui Jae fez um gesto como se fosse estrangulá-lo e perguntou:
— …Aquilo também fazia parte?
— Ah, você ainda está preso a isso?
A expressão de Lee Sayoung se contorceu levemente, como se estivesse rindo.
— Quando você tentou me estrangular… me fez perceber que eu estava num corpo vivo. Não foi de propósito.
— …
— E eu também queria mexer um pouco com você. Foi divertido. Ver você surtar foi meio refrescante.
— Eu sou carne? Refrescante?
— O Cha Eui Jae que eu lembro… bom. Na maior parte do tempo, você estava acamado ou jogando um cobertor por cima.
Droga. Ele sabia apertar os botões certos. Cha Eui Jae desviou o olhar, incapaz de refutá-lo. Ainda assim, não conseguiu deixar de resmungar.
— Por que você mexeu comigo? Você não sabe retribuir um favor…?
— Por quê? Porque você me deixou para trás e foi sozinho.
A resposta inesperadamente afiada assustou Cha Eui Jae . Ele rapidamente chegou a uma conclusão. Quanto mais conversasse com esse cara, pior seria para ele. Não conseguia vencer. Não quando o cara usava um morto como escudo. É claro que, mesmo com o Sayoung dormindo em seus braços, ele também não tinha vencido tantas discussões.
Lee Sayoung bateu na bochecha com um dedo e murmurou:
— Para começo de conversa… não era para acontecer. Eu ter autoconsciência. As coisas saíram um pouco dos trilhos.
— Por quê?
— O plano original era eu me fundir ao corpo do outro eu. Em circunstâncias normais, eu nem teria percebido que me fundi, e simplesmente teríamos virado um só. Mas… algo deu errado, e não nos fundimos.
No dia em que Cha Eui Jae cravara uma lança no corpo de uma baleia, Sayoung desmaiara. Hong Yeseong… Cha Eui Jae murmurou:
— O Hong Yeseong disse que era porque sua alma era grande demais. Se forçasse a fusão, seu corpo não conseguiria aguentar.
— Hmm… Aquele charlatão é bom em adivinhar, apesar de ser um curandeiro de araque.
Lee Sayoung deu de ombros, descartando as palavras de Hong Yeseong como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Graças a isso, estamos frente a frente assim agora.
— …
Quando coincidências continuam acontecendo, dizem que é destino. Talvez aquele momento também, em que estavam frente a frente assim, fosse destino. Cha Eui Jae encarou os olhos roxo-claros. Naqueles olhos, ele estava perfeitamente refletido.
Mas o Cha Eui Jae que Lee Sayoung amara provavelmente era diferente dele. Uma versão que desabava toda vez que usava a força, engolia o próprio sangue sozinho para não causar preocupação, e ainda assim salvava pessoas apesar de tudo…
O Cha Eui Jae que Lee Sayoung amava.
Cha Eui Jae abraçou Sayoung, que estava em seus braços, um pouco mais forte.
— Lee Sayoung.
— …
Os olhos violeta piscaram. Mais uma vez, palavras que eram suas, mas não inteiramente suas, fluíram.
— Desculpa. Sinto que te sobrecarreguei com algo pesado demais.
— …
— Mas… nada disso foi em vão.
Os olhos se arregalaram levemente. Cha Eui Jae piscou devagar, abrindo e fechando os olhos. Por um momento, pareceu que vozes se sobrepunham. Um sorriso surgiu naturalmente em seus lábios.
— Porque aqui estamos, olhando um para o outro assim.
— …
— Obrigado.
Uma luz fraca tremeluziu nos olhos violeta, de outra forma vazios. Lee Sayoung baixou lentamente a cabeça. Logo, seu cabelo negro deu um pequeno aceno. Ufa, Cha Eui Jae soltou um suspiro suave. A outra versão dele desaparecera rapidamente, como se nunca tivesse estado ali.
Em seu lugar, Cha Eui Jae estendeu a mão e bagunçou o cabelo que baixara até a altura certa para receber carinho. Ombros largos se encolheram levemente.
Depois de afagá-lo por um tempo, Lee Sayoung, com o cabelo agora desgrenhado, ergueu lentamente a cabeça. A cena era bem divertida. Enquanto ajeitava o cabelo com as mãos negras, ele falou:
— O fim… ele vem quando ouve alguém chamando por ele.
— …
Os olhos de Cha Eui Jae se arregalaram. Ele estava mesmo falando sobre o fim agora? Do nada? Lee Sayoung inclinou a cabeça e perguntou:
— Por que você está reagindo assim… Você não estava curioso? Não foi por isso que veio até aqui?
— Bom, sim, mas… você está me contando agora?
— Só ouve e não responde.
Ele tirou o sobretudo preto e o girou no ar. Logo, os arredores foram engolidos por paredes negras como breu. Na escuridão, ele ergueu o indicador negro aos lábios.
— Quanto mais você pensa nele, quanto mais fala dele, quanto mais o diz em voz alta… mais rápido ele virá.
Numa voz sinistra, ele murmurou:
— Você deveria tomar cuidado. Porque não dá para impedir os pensamentos e as palavras das pessoas.
* * *
↫。。⛧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki