↫─☫ Episódio 193
𓆰𓆪 Episódio 193: Múltiplos Pensamentos 𓆰𓆪
— Argh, o que é isso?
— Inacreditável… sério.
O resmungo de Lee Sayoung pôde ser ouvido dentro do campo de visão que se estreitava. Cha Eui Jae franziu a testa e fuzilou Kkokko com o olhar. A luz ofuscante que piscava tão ruidosamente logo se dissipou. Kkokko continuava encolhido, usando a mão de Lee Sayoung como ninho, seus olhinhos bem fechados. Cha Eui Jae cruzou os braços.
— Aconteceu alguma coisa?
— …
— Vamos só procurar a Yoon Gaeul. Deixa isso para trás.
— Cocó!
Kkokko ergueu as duas asas e cacarejou alto. Uma estranha inteligência brilhou em seus olhinhos. Mas o que o recebeu foram dois pares de olhares frios e indiferentes. Kkokko dobrou as asas com cautela e começou a piar com o bico. Sussurros urgentes saíram daquele rostinho fofo.
— Amigo, não me chame! Eu só vim dizer isso.
— Por quê?
— Porque o dono deste lugar é aquele cara, é claro. Isso é invasão, sabe.
— Então isto não é um sonho, mas um espaço separado?
— Exatamente. Um lugar como aquela Masmorra Memorial que você visitou antes… Ah! Tá, eu entendi. Já entendi.
Crepitar! Faíscas voaram do corpo redondo e liso de Kkokko. Ele pulou no lugar, o bico se movendo mais rápido.
— Isso é ruim. Preciso ir. Enfim, que gênio!
— Ei, pelo menos dá uma dica antes de ir!
Kkokko, não, Hong Yeseong, balançou a cabeça lisa como se não acreditasse.
— Do que você está falando, amigo? Você tem que encontrar o ponto fraco sozinho!
— Eu?
— Claro! Você é o jogador mais importante aqui. Eu? Sou só uma… bom, uma galinha prestes a ser expulsa. Ah, desculpa, tô indo, tô indo! Caramba, tô saindo!
COCÓÓÓ!— Com um longo cacarejo, outro clarão de luz e uma rajada de vento explodiram. Dessa vez, a luz desapareceu ainda mais rápido do que antes. Cha Eui Jae franziu a testa enquanto ajeitava o cabelo desgrenhado. Lee Sayoung colocou delicadamente o agora encolhido Kkokko sobre a cama macia e fechou os olhos.
— Então…
— …
— Foi completamente inútil, não foi?
— …Não completamente. Eu sou o jogador mais importante, afinal.
— Argh… isso não é algo que qualquer um descobriria sem precisar ser dito?
Lee Sayoung passou a mão irritado pelo cabelo, as mechas negras se emaranhando entre os dedos.
— Este é um espaço criado pelo Lee Sayoung. É claro que você é importante.
— Mas eu não tenho papel—
— Não.
Lee Sayoung o cortou com firmeza. Nisso, um ronco suave veio do esparramado Hong Yeseong. Lee Sayoung, que estava prestes a continuar falando, soltou um suspiro curto. Por algum motivo, ele de repente parecia incomumente sensível. O que o deixava tão tenso?
Lee Sayoung apontou para a porta.
— Vamos. Só deixa isso como está.
***
Lee Sayoung saiu da suíte e começou a andar à frente em silêncio. Cha Eui Jae o seguia com as mãos nos bolsos. As pessoas na rua desviavam instintivamente de Lee Sayoung, permitindo que Cha Eui Jae andasse sem esbarrar em ninguém.
O silêncio se estendeu entre eles. Cha Eui Jae não tentou iniciar uma conversa. Não parecia que Lee Sayoung estivesse no clima.
“O que está incomodando ele?”
Ele refletiu sobre tudo o que acontecera desde que chegaram, mas nada realmente se destacava como problema. Claro, o humor de Lee Sayoung se embaraçava e se enroscava tão facilmente quanto uma corrente fina de colar, mas…
— …
Dessa vez, era impossível saber o que estava acontecendo. Por que ele de repente estava tão calado? Cha Eui Jae encarou o sobretudo preto esvoaçando diante dele. Então, os passos à frente pararam. Uma presença familiar demais apareceu diante deles.
— Lee Sayoung-ssi? O que te traz aqui?
Jung Bin se aproximou, limpando as mãos. Mas havia algo diferente nele. O corte de cabelo arrumado, repartido na proporção 2:8, estava lambido, e o rosto era perturbadoramente liso. O Jung Bin que Cha Eui Jae conhecia sempre fora um homem gentil, de postura suave mas firme, sempre com um sorriso caloroso. Cha Eui Jae murmurou sem perceber:
— …Não parece ele.
— …
— Por que essa versão do Jung Bin parece tão… escorregadia?
— Sei lá…
Lee Sayoung murmurou incrédulo. O Jung Bin escorregadio tagarelou:
— É conveniente que você esteja aqui. Eu tinha algo para te comunicar…
— …
— …
Os dois trocaram olhares. Pelo que conseguiam deduzir, aquele era o espaço de “Lee Sayoung”, provavelmente reconstruído a partir de suas memórias e sentidos. Até a comida sem sabor fora uma pista disso. Mas a memória humana não é perfeita.
Especialmente quando se trata de recriar pessoas, sentimentos e preconceitos pessoais inevitavelmente se infiltram. Foi assim que Jung Bin acabou sendo reconstruído naquela forma escorregadia.
Cha Eui Jae murmurou de novo:
— …Vocês não se davam bem? Parece que havia muito ressentimento.
— …
— A aparência dele está… bem distorcida.
— Eu não pensava nele desse jeito.
— Claro que não pensava…
Respondendo mecanicamente, Lee Sayoung murmurou enquanto ouvia pela metade as palavras de Jung Bin.
— Neste mundo, eu não devo ter sido sequestrado e usado em experimentos.
— …
— Então, naturalmente, eu não teria passado tempo com o Jung Bin ou o Bae Won-woo. Se eu tivesse que adivinhar, ele deve ter me irritado se metendo em tudo. Provavelmente estaria ocupado aqui com o trabalho de funcionário público também.
— Isso soa como…
— Vamos. Se ficarmos ouvindo mais, só vai ficar mais irritante.
— Lee Sayoung-ssi?
Ignorando as palavras do Jung Bin escorregadio, Lee Sayoung voltou a andar. Desconcertado, Jung Bin ficou para trás. Enquanto caminhavam, uma clareira vazia apareceu. O espaço aberto e desolado estava completamente desprovido de pessoas. Lee Sayoung parou no meio dele.
De repente, Cha Eui Jae teve uma dúvida. Depois de ver essas versões distorcidas de pessoas pela perspectiva de Lee Sayoung, não conseguiu deixar de se perguntar: como ele parecia aos olhos de Lee Sayoung?
Aquele era um espaço criado a partir dos pensamentos de Lee Sayoung. Naquele mundo, as pessoas não sabiam do apocalipse, e não sabiam do J. Ninguém sabia do J. Cha Eui Jae morava na mesma casa que Lee Sayoung. Era um lar só para os dois.
Uma utopia que só existia porque Cha Eui Jae estava lá— um mundo perfeito pelo qual “Lee Sayoung” ansiava.
— …
De repente, uma percepção clara o atingiu. Aquele lugar era uma utopia. Não era a realidade. “Lee Sayoung” perdera Cha Eui Jae e vagara sozinho por muito, muito tempo. Talvez, a essa altura, estivesse mais acostumado a um mundo sem Cha Eui Jae. Afinal, utopia e realidade são coisas diferentes.
Qual é o propósito de alguém sem papel?
— …
Talvez…
Será que o verdadeiro mundo de “Lee Sayoung” só poderia aparecer se Cha Eui Jae não estivesse ali?
“…Isso parece provável.”
Cha Eui Jae enfiou a mão no inventário. A lança e a Presa do Basilisco ocupavam cada uma um espaço. A lança seria inconveniente de usar. E aquele não era um espaço criado pelo dono original da Presa do Basilisco?
Agarrando o cabo da Presa do Basilisco e puxando-a para fora, ela começou a se contorcer como um peixe na água.
Era hora de algo cruel.
Quando virou a cabeça, Lee Sayoung o observava com uma expressão indecifrável. E, naquele breve momento em que os olhos deles se encontraram, Cha Eui Jae entendeu instintivamente.
Lee Sayoung sabia desde o começo. Ele conhecia o ponto fraco de “Lee Sayoung”.
Ele também sabia o que precisava ser sacrificado para revelar aquela fraqueza oculta, e como deveria ser feito. Devia ter percebido que ele acabaria descobrindo. Cha Eui Jae apoiou a Presa do Basilisco no ombro e olhou para Lee Sayoung.
— Você sabia, não sabia?
— Ah…
Um sorriso frio apareceu no rosto pálido de Lee Sayoung.
— Como eu poderia não saber?
— …
— Afinal, ele ainda sou eu.
Lee Sayoung fechou a boca com força. Na verdade, Cha Eui Jae também não queria fazer aquilo. Mas às vezes há coisas na vida que você precisa fazer, mesmo sem querer. Especialmente quando você é o único que pode fazê-las.
— Lee Sayoung.
— …
— Você confia em mim?
Um longo silêncio se seguiu. Lee Sayoung abriu e fechou os lábios várias vezes, hesitando.
Quanto tempo se passou? Depois do que pareceu uma eternidade, seu rosto pálido assentiu lentamente, muito lentamente, para cima e para baixo. Cha Eui Jae sorriu.
— Obrigado.
Sem hesitar, ele ergueu a Presa do Basilisco bem alto. E então—
Tchuc—
Cravou-a no próprio peito.
Sangue vermelho-vivo escorreu. A mão que segurava o cabo ficou encharcada.
Não doeu. Enquanto seu corpo perdia a força e começava a desabar para frente, uma mão forte o segurou. Cha Eui Jae apoiou a testa num ombro largo e recuperou o fôlego. Uma mão grande deu tapinhas delicados em suas costas num gesto reconfortante. Uma voz fraca murmurou:
— Viu…
— …
— Eu te disse que este lugar parece… errado, não disse?
É, foi o que você disse.
Aquele cara é um verdadeiro esquisito…
De repente, Cha Eui Jae ficou curioso. Que tipo de expressão Lee Sayoung estava fazendo naquele momento? Era uma curiosidade pura, mas, por isso mesmo, mais cruel. Com grande esforço, ergueu o olhar e viu uma mandíbula afiada. Erguendo um pouco mais a cabeça, Lee Sayoung baixou o rosto para encontrar seus olhos.
E—
— …
Ah.
Cha Eui Jae abriu levemente a boca. Mas nenhum som saiu. O rosto que ele vira foi se desvanecendo lentamente na escuridão. Ainda assim, mesmo com a visão embaçando, seus pensamentos permaneciam claros.
Ele sentia vagamente uma mão acariciando sua nuca. Era gentil. O que tornava tudo ainda mais aterrorizante. Cha Eui Jae lutou para engolir o sangue que subia pela garganta. Sua boca se encheu de sangue, mas, felizmente ou infelizmente, ele não conseguia sentir o gosto.
Ainda assim, Cha Eui Jae pensou:
“Uau, isso é realmente…”
Pensou de novo:
“Estou realmente fodido…”
É, isso é muito ruim.
Não, você disse que estava tudo bem. Você assentiu, dizendo que estava tudo bem…
E então sua respiração parou. Um vento branco começou a uivar.
* * *
↫。。⛧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki