↫─☫ Episódio 194
𓆰𓆪 Episódio 194: Múltiplos Pensamentos 𓆰𓆪
Um vento branco soprou.
A cidade pacífica começou a desmoronar pelas bordas. O mundo antes colorido foi perdendo aos poucos sua cor. Prédios desabaram. O asfalto rachou e se partiu. A atmosfera tremeu com vibrações agourentas. O mundo estava se desfazendo— tudo por causa da morte de uma pessoa.
Em meio àquele mundo desmoronando, Lee Sayoung segurava cuidadosamente o corpo inerte nos braços. A forma sem vida balançava indefesa com seus movimentos. Ele queria arrancar a espada que perfurara o corpo, mas não queria causar nenhuma dor desnecessária. Mesmo sabendo que aquilo não era a realidade.
Lee Sayoung sentou Cha Eui Jae no colo, amparando o corpo. A cabeça de Cha Eui Jae, agora sem força, tombou sobre seu ombro. Suas mãos estavam encharcadas de sangue vermelho-vivo. A sensação úmida era perturbadora.
— …
Lee Sayoung apoiou a bochecha no cabelo cinza de Cha Eui Jae. Cinzas brancas choviam. Ele murmurou para a pessoa que já não podia ouvi-lo:
— Sabe o que é realmente irritante?
— …
— Por que você fez isso? O que estava pensando quando fez…
O mundo ideal que outra versão dele mesmo criara com tanto cuidado estava desmoronando, revelando o verdadeiro. Os arranha-céus imponentes haviam virado ruínas, e as ruas arrumadas, pavimentadas com asfalto e ladrilhos, estavam agora cobertas de terra, poeira e cinzas brancas. Não havia vestígio de prédios intactos— apenas ruínas restavam. Um vento desolado soprou, mas logo parou. Um silêncio perfeito se instalou.
Como Lee Sayoung havia suportado naquele mundo arruinado, deixado completamente sozinho sem Cha Eui Jae? Provavelmente pensara naquilo repetidas vezes. Sonhando sem parar com um mundo feliz onde o apocalipse nunca viesse, um mundo onde Cha Eui Jae não precisasse morrer, um mundo onde ele não precisasse salvar o mundo. Um mundo pacífico onde ninguém conhecesse Cha Eui Jae. Devia ter pensado nisso por tanto tempo que o mundo imaginado se tornou mais vívido do que a realidade.
Devia ter sonhado com a possibilidade.
— Conseguir entender tudo…
Mas Lee Sayoung sabia que aquilo era arrogância. Sabia bem que Cha Eui Jae era o tipo de pessoa que quebraria quaisquer correntes colocadas nele. Que, por mais que se tentasse escondê-lo, ele era alguém que brilhava por conta própria. Lee Sayoung fechou os olhos e murmurou baixinho:
— É desagradável.
Mas ainda assim… Eu queria que você tivesse ficado ao meu lado.
Lee Sayoung sussurrou para o ar vazio:
— Volta logo, Hyung.
— …
— Está um pouco…
— …
— Solitário aqui.
O vento branco soprou de novo. O ar tremeu. Escondidas sob as cinzas brancas, coisas começaram lentamente a se revelar.
***
Flap…
Uma voz baixa ressoou no vazio.
J.
O número um inabalável, o herói que salvou o país, a grande figura que salvou incontáveis pessoas… Embora todo tipo de título glamoroso seguisse sua máscara preta, ele sempre recuava ao ouvi-los. Resmungava sobre como as pessoas eram obcecadas por títulos impressionantes e pedia que parassem de chamá-lo assim.
…
Uma pessoa que fazia boas ações sem esperar nada em troca. Alguém que dizia gostar de salvar pessoas. Depois de cada grande batalha, ele desabava por um tempo, mas, se fosse necessário, ainda assim corria sem hesitação. Enquanto ele estivesse ali, parecia que tudo ficaria bem.
Cha Eui Jae era alguém que dava esse tipo de esperança.
…
Flap… o som de uma página sendo virada pôde ser ouvido.
…
Ele juntara veneno com cuidado para salvar a vida de um menino que lhe era completamente estranho, administrara o antídoto e ficara ao seu lado. Um dia, “eu” despertei— enquanto Cha Eui Jae estava fora.
Incapaz de controlar meus poderes, derreti minha xícara querida, vários objetos e até as máquinas conectadas ao meu corpo. Veneno negro encheu o quarto do hospital. No fim, me tranquei no banheiro.
Cha Eui Jae veio correndo assim que soube. Disse que veio logo depois de resolver uma masmorra. Eu não abri a porta. Não queria que ele me visse naquele estado miserável. Mas Cha Eui Jae arrombou a porta com um chute, sem hesitar. Agarrou minha mão sem pensar duas vezes. Mesmo com a pele dele derretendo onde nos tocávamos, ele nem fez careta. A pele dele derretendo parecia quente.
…
Desde que Cha Eui Jae me salvou mais uma vez, “eu” vivi com ele.
Estávamos sempre juntos.
Até o dia em que ele morreu.
…
Demorou muito, mas finalmente a página virou de novo.
…
Cha Eui Jae não tinha boa saúde.
Ele dizia que era assim desde o despertar. Mesmo quando foi filmado matando um monstro gigantesco logo após despertar, desabou pouco depois. A tia dele teve que vir cuidar dele. Cha Eui Jae ficava sem graça com isso. Dizia que era bem saudável antes de despertar.
Às vezes ele contava histórias de como jogava futebol em todo intervalo do almoço na escola de ensino fundamental, que já não existe. Afirmava que era um atacante muito bom e que todos queriam estar no time dele porque ele sempre ganhava as apostas. Dizia que tomar sorvete depois dos jogos era a melhor parte. Sempre que eu ouvia, tentava imaginar um Cha Eui Jae mais novo, saudável, correndo pelo campo.
…Mas eu não conseguia imaginar direito.
O Cha Eui Jae que eu conhecia era corajoso, mas também alguém de corpo frágil.
Depois de usar os poderes, ele sempre adoecia. Mas pouquíssimas pessoas sabiam disso. Ele dizia que, se as pessoas descobrissem que ele estava doente, isso causaria mais ansiedade, então se trancava num quarto escuro. Como ele sempre fora uma figura meio misteriosa, ninguém dava muita importância se ele sumisse por alguns dias. Presumiam que fazia parte da excentricidade do herói. Ninguém sabia que ele estava morrendo.
…Era o efeito colateral dos poderes? Eu não sabia. Especulações, palpites, dias sem fim de incerteza. Nam Woo-jin e até curandeiros do exterior foram consultados, mas ninguém sabia.
Nam Woo-jin trabalhou incansavelmente pesquisando a questão, mas no fim até ele desistiu. Disse que parecia haver alguma força desconhecida em ação por trás da dor de Cha Eui Jae . Foi só isso.
Não sabíamos a causa, e ele estava morrendo aos poucos. Os intervalos entre as dores ficavam mais curtos. Ele costumava adoecer só depois de grandes batalhas, mas agora enfraquecia mesmo depois de usar metade da força. Às vezes sangrava. Eu sentia o espaço vazio ao meu lado no meio da noite e, quando ia checar, o encontrava agarrado à pia, tossindo sangue. Era vermelho-escuro. Mesmo depois de lavado, a mancha vermelha na minha mente não desbotava.
O mais frustrante era que ele tinha aceitado a própria morte. Em algum momento, começou a dizer coisas como: “Isso é inevitável, então não se preocupe tanto… Não se machuque por isso.”
Quem deu esse direito a ele?
Juntei cada fragmento de informação que pude. Trabalhei com Nam Woo-jin e reuni pessoas. Antes do apocalipse e mesmo depois que ele chegou.
Ele sempre brilhava intensamente, mas sua luz parecia precária. Como uma vela queimando a própria vida. Pouco antes da chama se apagar, ela brilha com mais força. Ele brilhava assim.
Eu não queria que ele brilhasse. Só queria que ele vivesse uma vida longa e tranquila, com um brilho suave.
…
O apocalipse veio.
As batalhas aumentaram. O fluxo interminável de monstros drenava a vida dele. Seu estado piorou. Embora eu corresse tanto quanto podia para mantê-lo longe do campo de batalha, não conseguia preencher sua ausência. E as pessoas já estavam condicionadas a esperar.
O J vai nos salvar de novo.
Se for o J, ele consegue.
O J vai resolver tudo.
O mundo piscou em vermelho.
Absurdo.
Absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo, absurdo.
…
Silêncio. O som de uma página virando.
Cha Eui Jae correspondeu às expectativas deles.
Ele morreu.
E me deixou para trás.
…
Satisfeitos?
O som das páginas virando parou. O mundo parou. Um vento branco começou a soprar. Lentamente, a escuridão se dissipou, revelando um mundo de ruínas branquíssimas. Cha Eui Jae começou a andar. Crunch, crunch… As cinzas acumuladas como neve estalavam sob seus pés.
A poeira subia dos prédios desabados. Algo parecia empurrá-lo para frente, como se o guiasse a algum lugar. Ele caminhou sem rumo pelo caminho.
Quanto tempo havia andado?
— …
O som da respiração de alguém pôde ser ouvido. Era ofegante, como a de uma fera. Cha Eui Jae prendeu a respiração e se aproximou em silêncio. Em meio ao mundo branco, havia algo negro. Um sobretudo de couro gasto que perdera o brilho, botas pretas sujas de poeira e cinzas. Cabelo preto bagunçado. Uma figura familiar.
Ele segurava alguém nos braços. Através do sobretudo, uma perna inerte podia ser vista. Sem perceber, Cha Eui Jae baixou o olhar. As botas eram iguais às suas.
— …
Depois de respirar fundo, ele absorveu a cena.
E então…
Viu o rosto de Lee Sayoung .
“É o mesmo.”
Era exatamente o mesmo.
O rosto que ele vira vagamente antes de fechar os olhos.
* * *
↫。。⛧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki