↫─☫ Episódio 184
𓆰𓆪 Episódio 184 𓆰𓆪: Múltiplos Pensamentos
Tak, Ham Seok-jeong pousou a xícara.
— Faz tempo.
— Sim.
O silêncio caiu de novo. Cha Eui Jae esperou pacientemente. A distância entre eles, antes próxima como família, agora havia se tornado grande. Ela virou a cabeça e cobriu a boca com o punho, tossindo levemente. Não parecia bem. Ham Seok-jeong lutava para conter a tosse que ameaçava escapar.
— Você tem estado bem?
— Por enquanto, sim.
— Entendo… que alívio.
Cha Eui Jae olhou para a bengala apoiada na cadeira dela. Era a mesma bengala que vira durante a coletiva de imprensa.
— A senhora tem usado bengala.
— Ah, você viu na TV? Então você não mora em algum fim de mundo nas montanhas, afinal.
Ela soltou uma risada curta. Hah, não consigo nem fazer uma piada simples mais. Cha Eui Jae também deu um sorriso sem graça. Ham Seok-jeong esfregou o joelho esquerdo.
— Eu me machuquei há alguns anos. Depois disso, me afastei da linha de frente… e virei uma velha relíquia presa nos bastidores.
Outro silêncio. Por algum motivo, a conversa deles simplesmente não fluía. Eles sempre tiveram essa dificuldade em manter uma conversa? Ele tentou lembrar, mas até essa memória estava nebulosa. Cha Eui Jae piscou.
“Isso parece estranhamente desconhecido…”
Mais uma vez, foi Ham Seok-jeong quem falou primeiro.
— Quando você voltou?
— Ah, não faz muito tempo.
— Entendo.
— …
— Não vou me desculpar. Mesmo que eu pudesse voltar no tempo, faria tudo igual. Mandei a Hye-kyung, e mandei você. E ainda pediria sua ajuda, descaradamente.
— Eu sei.
— Ótimo.
A conversa ficava dando voltas, nunca atingindo o cerne da questão. Eles repetiram cortesias sem sentido várias vezes. Era frustrante. Do nada, Cha Eui Jae perguntou:
— A senhora não está curiosa sobre por que eu não vim vê-la antes, por que só estou vindo agora?
Ham Seok-jeong tomou um gole do café antes de responder.
— Deve ter havido um motivo.
— A senhora estava me procurando, não estava?
— Sim. Quando ouvi que você tinha voltado vivo depois de oito anos, mas nem tinha dado as caras, me perguntei se você estava ferido demais para se mover. Ou se tinha perdido a memória.
Cha Eui Jae estudou o rosto de Ham Seok-jeong. Suas feições antes afiadas, como as de uma ave de rapina, haviam se suavizado com a idade, mas a intensidade permanecia. Ele tinha medo dela quando era mais novo. Ela pousou a xícara e encarou a máscara preta sem expressão.
— Isso soa como uma desculpa?
Ham Seok-jeong recostou-se na cadeira, um leve sorriso brincando em seu rosto severo.
— Porque é uma desculpa.
— Sim, achei que poderia ser.
Cha Eui Jae suspirou e endireitou a postura.
Ham Seok-jeong, a primeira diretora da Agência de Gerenciamento de Despertos. Ela estivera à frente desde sua criação, famosa por sua aguçada capacidade de observação e raciocínio dedutivo afiado. Não era uma habilidade concedida por seu despertar; era inata. Nem mesmo J conseguia esconder suas verdadeiras intenções diante dela.
Ham Seok-jeong dobrou calmamente os dedos um a um enquanto falava.
— Claro, também é verdade que eu queria te encontrar para te proteger caso você não pudesse se defender, e para pedir sua ajuda para impedir o fim. Mas esse não era o principal motivo.
Finalmente, ela estava chegando ao ponto. Ela olhou para a mão meio dobrada antes de inclinar levemente a cabeça.
— E a Hye-kyung? E os outros caçadores?
— …
Tia.
A tia de Cha Eui Jae , a Caçadora Park Hye-kyung, fora próxima de Ham Seok-jeong como uma irmã. Cha Eui Jae engoliu em seco. Quando finalmente abriu a boca, sua voz saiu embargada. Outros talvez não notassem por causa da distorção, mas Ham Seok-jeong certamente notou.
— A tia… e os outros caçadores…
Cha Eui Jae fechou os punhos, apertando os olhos.
— Eu não consegui… Eu não consegui salvá-los.
— Não diga que sente muito.
As palavras dela foram afiadas. Cha Eui Jae ergueu a cabeça de supetão. A expressão de Ham Seok-jeong não mudara enquanto olhava para ele.
— Nem mesmo você, J, conseguiu. Ninguém mais teria conseguido também. Não é?
— …
— Você deve ter dado tudo de si. Eu sei. Os caçadores que entraram com você também devem ter feito o seu melhor. E ainda assim, foi assim que terminou.
Seu peito se agitou, inquieto. Aquela não era a reação para a qual ele se preparara, não a resposta que ensaiara vezes sem conta. Era algo completamente diferente. Cha Eui Jae baixou a cabeça, incapaz de falar. Ham Seok-jeong suspirou baixinho.
— Como diretora, é isso que eu deveria dizer.
— …
— Mas ainda assim…
Ela olhou para baixo e murmurou para si mesma.
— Eu já sabia que estavam mortos. Fui eu que os declarei oficialmente falecidos, e já se passaram oito anos. Além disso, se a Hye-kyung estivesse viva, já teria vindo me ver. Eu sabia.
— …
— Houve momentos em que me perguntei o que teria acontecido se eu a tivesse impedido de ir naquela época…
— …
— Mas suspeitas vagas e o depoimento de um sobrevivente têm pesos diferentes. Desculpe, mas eu precisava ouvir de você, pessoalmente.
Lentamente, Cha Eui Jae ergueu a cabeça. Ele não sabia porquê, mas queria ver o rosto de Ham Seok-jeong. Ela…
— Finalmente posso deixar ir.
…estava inexpressiva.
Vazia.
Como se tivesse perdido algo de grande importância. Como um cômodo vazio.
Cha Eui Jae a encarou, sem palavras. Queria dizer algo, qualquer coisa, mas nenhuma palavra saía. Ele pensou distraidamente:
“Que estranho.”
Por que estou pensando no Lee Sayoung?
Ham Seok-jeong agarrou o braço da cadeira e se levantou. Caminhou devagar, mancando, contornando a mesa até Cha Eui Jae . Ele não pôde deixar de notar seu andar irregular. Ela se inclinou e o abraçou delicadamente.
— Obrigada. E desculpe.
— …
— Bem-vindo de volta.
Não era do feitio dela agir assim. Na verdade, Cha Eui Jae piscou, surpreso.
“A tia costumava fazer isso com frequência.”
O que acontece com uma pessoa quando ela perde o alicerce de sua vida?
“A diretora…”
A mão dela deu tapinhas gentis em suas costas, muito parecido com o toque de sua tia. Hesitante no início, Cha Eui Jae lentamente colocou o braço em torno das costas dela. O corpo dela parecia bem menor do que ele se lembrava. Ao fechar os olhos, ele pensou:
“Ela vai passar o resto da vida pensando na tia…”
O longo abraço finalmente terminou. Cha Eui Jae se levantou rapidamente para ajudar Ham Seok-jeong a voltar ao seu lugar enquanto ela se afastava mancando. Ela parecia exausta ao se sentar. Ham Seok-jeong soltou um breve suspiro antes de perguntar:
— Pensando bem… você parece ser próximo do Sayoung.
Droga. Ela viu a matéria. Cha Eui Jae fez uma careta. Teria que dar outra bronca nos Mackerels. E então veio o pensamento:
“Sayoung? Isso é meio íntimo, não é?”
Cha Eui Jae respondeu hesitante, o rosto contorcido de desconforto.
— Como? Bom, não exatamente…
— Não é? Vocês pareciam bem próximos naquela matéria.
— Não, eu só achei… Pareceu que a senhora é que é mais próxima dele, chamando-o de Sayoung assim…
— Você acha que ele gosta de mim? De jeito nenhum.
Ham Seok-jeong riu baixinho e pegou a xícara. O café antes fumegante já havia esfriado até ficar morno. Ela fechou os olhos e murmurou:
— Já faz anos. Aconteceu depois que você entrou na fenda do Mar do Oeste. Houve um período em que o Jung Bin e o Bae Won-woo ficaram sem contato por meses. O último relatório deles dizia algo como “Preciso cuidar de uma criança, então não vou poder voltar por um tempo. Desculpe.” No começo, achei que era um completo absurdo.
— …
Um pensamento passou pela mente de Cha Eui Jae .
Pensando bem, o Lee Sayoung não mencionou uma vez que morou com o Jung Bin? Ele quase tinha esquecido, mas a memória ressurgiu com clareza. Cha Eui Jae se pegou prestando mais atenção à história.
— Alguns meses se passaram assim. Já estávamos com falta de pessoal, mas com dois de nossos caçadores mais fortes ausentes, ficamos sobrecarregados.
Faz sentido. Com Jung Bin e Bae Won-woo, dois dos caçadores de maior ranking, fora de ação— além dele próprio ausente—, devia ter sido um caos. Ham Seok-jeong suspirou.
— Então, do nada, recebi uma mensagem. Eles estavam trazendo uma criança. Achei que talvez precisássemos montar uma brinquedoteca ou algo assim, mas aí eles apareceram com esse rapaz alto e magricela. Um pouco velho demais para ser chamado de criança.
Ela está falando do Lee Sayoung?
— Mas aqueles dois o tratavam como se fosse um bebê de cinco centímetros, mimando-o constantemente. À primeira vista, ele parecia normal o bastante, mas os olhos dele… havia algo desequilibrado neles.
Com certeza é o Lee Sayoung!
Olhos desequilibrados? Só podia ser o Lee Sayoung. Cha Eui Jae ouvia atentamente enquanto Ham Seok-jeong soltava uma risadinha.
— Olha só. Seu rosto se ilumina assim que o Lee Sayoung aparece na conversa.
— …
Ela nem conseguia ver o rosto dele sob a máscara, e ainda assim, de algum modo, sabia. Cha Eui Jae tocou a máscara distraidamente. Tak, Ham Seok-jeong pousou a xícara e entrelaçou os dedos.
— Bom, chega de conversa fiada. Vamos fazer um acordo.
— …Que tipo de acordo?
— Não será nada que te prejudique.
Cha Eui Jae engoliu em seco, nervoso. Não fazia ideia de que termos ela poderia oferecer. Ham Seok-jeong sorriu, mas o sorriso ainda carregava um ar de vazio.
— Encontre-se comigo às vezes e converse. Compartilhe histórias.
— Como?
— Eu te conto histórias sobre o Sayoung que você não conhece, e você me conta histórias sobre a Hye-kyung que eu não conheço.
Cha Eui Jae piscou, confuso. Ham Seok-jeong apoiou o queixo na mão.
— E, quando estiver pronto, me conte o que aconteceu na fenda. Me fale sobre os últimos momentos dela.
— …
Cha Eui Jae expirou suavemente. Ham Seok-jeong sorriu, a expressão vazia.
— O que acha? Não parece que vai doer.
↫。。⛧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki