↫─☫ Episódio 183
𓆰𓆪 Episódio 183 𓆰𓆪: Múltiplos Pensamentos
Um grito irrompeu. Depois que o grito se calou, um pequeno assobio começou a soar. Grito, assobio, grito, assobio, “me ajudem!”, assobio. O assobio chegava cada vez mais perto. O homem, com olhos ansiosos, olhou para a porta e começou a rasgar freneticamente os papéis sobre a mesa.
Mas havia coisa demais para rasgar sozinho. Droga! O homem mordeu os lábios com força. O sangue se acumulou.
Foi então que aconteceu.
Toc, toc, toc.
Houve um som educado de batida. Então, eles finalmente vieram. O homem engoliu em seco e tirou um botão do bolso, apertando-o com força.
— …Quem é?
— Eu? Uma visita~
Uma voz alegre e grave respondeu. Era uma voz que ele nunca tinha ouvido naquele lugar. O homem se pressionou contra a parede, os dedos pairando sobre o botão. Nisso, uma voz mais aguda interrompeu.
— Do que você está falando? Só abre logo.
— Pode ser um lunático, ou um monstro. A gente precisa checar se a cabeça deles ainda está no lugar.
— Hah…
— Bom, já que parecem capazes de se comunicar…
O homem cerrou os dentes e apertou o botão.
Bipe—
Iiiiiih!
Quando o botão foi pressionado, a porta se escancarou violentamente, e algo voou na direção dele. Os olhos do homem se arregalaram. Quando seu corpo congelado finalmente relaxou, algo escorreu de sua orelha. Ele tocou o lugar onde estivera sua orelha. Uma dor horrível o atravessou.
— A, a, a…
AAAAAH! O homem se agachou, uivando como uma fera.
Na porta estavam duas figuras. Um homem, encostado despreocupadamente com as mãos nos bolsos de uma parka branca, e uma mulher vestida com uma jaqueta de couro preta, o rosto meticulosamente escondido por um boné e uma máscara. A mulher puxou a máscara até o queixo. Seus lábios vermelhos se torceram. Ela sussurrou numa voz aguda e baixa:
— Não dá para resolver isso de forma mais limpa? E se respingar sangue nos dados?
— Argh, mais bronca…
— Quando se é contratado, deve-se obedecer ao empregador, né?
— Desculpa~? Eu só obedeço a empregadores que respeitam minha liberdade.
— Você sabe quanto recebeu? Faça seu trabalho direito.
— Ah, é. Hmm, será que eu devo…?
O homem, que estava numa postura de arremesso, finalmente ergueu as duas mãos.
— Opa! Eu queria arremessar só para intimidar, mas acertei sem querer~
— Hah… e se ele morrer de perda de sangue?
— Ninguém morre por perder uma orelha~ Eu mesmo já passei por coisa pior. Enfim…
Em meio aos gritos, um rosnado grave se misturou. O homem de parka apontou o queixo para um canto.
— Quer que eu cuide disso, se for demais para você?
— Não, só joga uma poção nele.
— Quanta generosidade.
A mulher de preto desapareceu de vista por um momento. Clarões de luz explodiram aqui e ali, seguidos por um som de respingos. O sangue espirrou pela parede branca em longos rastros. Enquanto isso, o homem de parka caminhou devagar, cambaleando como um bêbado.
Ele arrancou o machadinho ensanguentado cravado na parede e se agachou diante do pesquisador trêmulo. O sangue pingava do machado.
O homem abriu uma poção com um suave ploc, agarrando o pesquisador pelo cabelo.
— Tira as mãos~
— Ãh…
— Se fosse eu, obedeceria antes de perder outro membro.
As mãos encharcadas de sangue caíram apressadamente. O homem despejou uma poção inteira na orelha. A área decepada rapidamente começou a se curar. A dor diminuiu, e o rosnado da criatura bestial se aquietou.
Depois de um tempo, a mulher emergiu da escuridão, a aparência inalterada, exceto por uma única gota de sangue na bochecha. Ela sacudiu a rapieira, livrando-se do sangue que se acumulara. Sua voz saiu entre dentes cerrados.
— Quantas pessoas vocês sequestraram para fazer esse tipo de coisa?
— …
— Olha aqui~
Uma mão surgiu de repente em seu campo de visão, estalando os dedos. O pesquisador ergueu o olhar, aterrorizado. O homem tirou o capuz. Cabelo desgrenhado apareceu. Cabelo azul-claro brilhava sob a luz. Os olhos do pesquisador se arregalaram de choque.
— P-p-por que, por que você está aqui…
Olhos cinzentos se estreitaram em forma de meia-lua. Ban Gyu-min— Gyu Gyu— sorriu perversamente.
— Bom, eu fui pago~? Faço qualquer coisa desde que o preço seja justo.
Botas ensanguentadas se aproximaram. O cabo da rapieira pressionou as costas do pesquisador.
— Você tem tempo para bater papo?
— Sim, sim. Entendido~
Gyu Gyu agarrou o rosto do pesquisador com a mão e ergueu as sobrancelhas para a mulher.
— Então, o que precisamos descobrir?
A mulher tirou o boné com brusquidão, deixando cair uma cascata de cabelo preto, com mechas douradas aqui e ali. Seus olhos castanhos brilhantes faiscavam ferozmente. Era a Honeybee.
— Qualquer coisa relacionada à droga que deram para o Matthew…
Ela fez uma pausa, balançando a cabeça.
— Não, não precisa ser diretamente relacionado. Só arranca qualquer coisa dele. Tudo o que ele sabe.
— Isso é bem amplo~
— Pelo que vi lá dentro, acho que são esses caras que estão fazendo as mutações. Raspa tudo até o fundo.
— Ah, agora isso parece divertido.
— P-poupe…
Snap, as veias da mão que segurava o rosto do pesquisador saltaram. Embora o pesquisador gritasse em desespero, o som foi abafado pelo aperto de Gyu Gyu. Seus olhos cinzentos cintilavam enquanto os lábios se curvavam para cima.
— Dá para parar de chorar? E não baba em mim… Eu tenho um pouco de mania de limpeza~
— Argh, mmph!
— Shh, se continuar gritando, eu não vou aliviar a dor, tá?
— …
— Bom, bom menino.
Com um sorriso largo, Gyu Gyu afrouxou o aperto e olhou para trás.
— Mas, chefe, você conhece meus poderes, né?
— Conheço.
— Também sabe que não há garantia de que eu vá conseguir o que você quer?
— Sei. Faça mesmo assim.
Honeybee se empoleirou na mesa e pegou os documentos rasgados. Enquanto os juntava, zombou e lançou um olhar frio para o pesquisador.
— Se ele morrer, temos muitos outros para perguntar.
— Que assustador~
Gyu Gyu riu com malícia enquanto encarava os olhos marejados do pesquisador.
— Bom, vou fazer o meu melhor.
— …
— Estou começando a ficar curioso também…
Gyu Gyu tirou algo do bolso. Era um dado de 10 lados. Ele o colocou sobre a unha do polegar e o jogou para cima como uma moeda. O dado girando disparou no ar. Juntando as mãos, ele fechou os olhos.
— Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino…
Ele despejou uma oração em ritmo acelerado.
— …pois vosso é o reino, o poder e a glória, agora e para sempre.
O dado, ainda girando no ar, parou lentamente.
— Amém.
O dado, suspenso no ar, caiu no chão com um estalo. Tak, tadadak… Ele rolou e finalmente parou ao bater na perna do pesquisador.
6.
Gyu Gyu suspirou e coçou o cabelo bagunçado. Logo, sua mão, agora afiada como a garra de uma fera, caiu da cabeça.
— Fui à igreja toda semana este mês. Que azar.
— Tem outra coisa?
— Tenho~… O que a gente faz?
— O que mais faríamos?
Honeybee cruzou as pernas.
— Faça o que você faz de melhor. Foi para isso que te contratamos.
— Ah, é…
Sua mão áspera se fechou sobre a boca do pesquisador, erguendo-o. Pendurado no ar pela cabeça, o pesquisador balançava. Entre os lábios entreabertos do homem, presas afiadas reluziam. Seus olhos cinzentos brilharam travessos enquanto ele dobrava o dedo mindinho com um estalo. O grito foi engolido pelo aperto firme.
— Se não quiser que doa mais, começa a falar, tá? Vou começar pelos dedos…
***
A relação secreta entre os dois primeiros.
O escândalo envolvendo o número um e o número dois, que abalara o país inteiro, se acalmou mais rápido do que o esperado, graças à intervenção de um corretor de informações obscuro conhecido como Mackerel.
Mackerel havia espalhado todo tipo de boato, diluindo a informação. Como fora Mackerel quem plantara as sementes, era justo que Mackerel limpasse a bagunça. Apesar de defender a liberdade de imprensa, Mackerel foi impotente diante da presença ameaçadora de J, que invadiu com uma aura ameaçadora.
— Desde quando liberdade de imprensa cobre invenções, hein?
— Não é invenção, hyung-nim! Não, isso não é um fato? E aquelas marcas no pescoço do líder de guilda?
— Como assim “e aquelas”? Elas são disto aqui!
— Ai! Gah!
Boatos sobre marcas estranhas no pescoço de Lee Sayoung, o líder de guilda, e sobre os dois serem incomumente próximos e parecerem íntimos demais circulavam como lendas urbanas pela HunterNet, por sites anônimos e em cochichos nas ruas.
Graças aos negócios secretos entre o número um e o número dois, a atmosfera inquietante que parecia estar se acalmando persistiu. A Agência de Gerenciamento de Despertos estava preocupada com o número crescente de caçadores de baixo nível desaparecidos. Apesar de emitir vários comunicados alertando os caçadores a não viajarem sozinhos e de trabalhar com várias guildas, o número de desaparecimentos continuava aumentando.
Os despertos, antes símbolos de segurança e sucesso, estavam lentamente se tornando uma nova ameaça. Agora eram vistos como bombas-relógio, capazes de se transformar em mutantes a qualquer momento. Embora isso ainda fosse considerado teoria da conspiração…
— Estamos chegando ao limite de manter as testemunhas caladas.
— …
Jung Bin suspirou brevemente, batendo a caneta na mesa. Cada vez mais pessoas começavam a reconhecer que esses mutantes haviam sido originalmente caçadores. Seus olhos castanhos estavam cheios de preocupação.
— Isso é problemático…
— Ah, é mesmo!
Alguém ergueu a mão, animado.
— Eu acabei de encontrar o J! Que tal pedir ajuda ao J?
— J?
— Sim, o J visitou a Agência de Gerenciamento de Despertos mais cedo.
— Ah, nesse caso…
— Não.
Uma resposta firme cortou a conversa. O raro sorriso no rosto de Jung Bin havia desaparecido. Embora logo tenha voltado quando os membros da equipe trocaram olhares cautelosos, ele juntou as mãos e falou:
— O J está ocupado com outros assuntos.
Uma névoa fraca subia da xícara de café branca. Ham Seok-jeong gostava de ter uma máquina de café no gabinete da diretoria e preparar o próprio café. Quando Cha Eui Jae vinha visitá-la com a tia, muitas vezes lhe ofereciam uma xícara também. Embora ele nunca bebesse, naquela época ele gostava.
A bronca da tia: “Por que você está dando café para uma criança?”, e a brincadeira de Ham Seok-jeong: “Ele já está crescido, tudo bem.”
Agora, Cha Eui Jae nem sequer podia usar a palavra “visitar”.
Em vez de se sentar no lugar de honra, Cha Eui Jae sentou-se diante de Ham Seok-jeong, que o encarava. O cabelo antes preto agora tinha mechas grisalhas, e o rosto exibia mais sinais do tempo e algumas cicatrizes novas.
Era engraçado como ele se lembrava da passagem do tempo em momentos como aquele. Como Cha Eui Jae não havia mudado em oito anos, ele precisava olhar para os outros para notar— fosse Jung Bin, Ham Seok-jeong, Song Jo-heon ou até Lee Sayoung.
Tump. Ham Seok-jeong pousou a xícara. Seus olhos afiados se suavizaram com um leve sorriso.
— Faz tempo.
↫。。⛧ Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki