↫─☫ Episódio 177
𓆰𓆪 Episódio 177 𓆰𓆪: Frequência
Cha Eui Jae levou mais uma hora e meia para finalmente abrir a porta trancada. Durante esse tempo, Lee Sayoung esperou pacientemente. Na verdade, nem era questão de paciência. Comparado ao tempo que ele já passara esperando, aquilo era só um momento fugaz.
Ouvindo passos se aproximarem da porta, Lee Sayoung ergueu a cabeça. Cha Eui Jae , colocando só a cabeça para fora da porta, apertou os olhos para ele.
— …O que você está fazendo aí?
— Esperei por você… até você sair.
Lee Sayoung , com a bochecha apoiada no braço estendido sobre o encosto de uma cadeira, estreitou os olhos e sorriu.
— Você se acalmou um pouco?
Ainda escondido atrás da porta, Cha Eui Jae fuzilou Lee Sayoung com o olhar.
— Isso tudo é jogada do Mackerel, não é?
— Bom, suponho que seja.
— Eu vi as fotos. Foi quase como se você os tivesse ameaçado para tirarem boas fotos. Não foi obra sua?
— Ah, então até você acha que as fotos ficaram boas. Que alívio…
— Seu… Aqueles caras não vão sair impunes disso.
Cha Eui Jae , cuspindo xingamentos, avançou a passos largos. Sua expressão estava longe de calma, como se estivesse pronto para marchar até um mercado de peixes e dar uma surra em umas cavalas. Lee Sayoung inclinou a cabeça de propósito para exibir a marca de mão ainda visível no pescoço. A aura ameaçadora de Cha Eui Jae se suavizou um pouco diante daquela visão.
— Mas, graças à matéria, todos os outros problemas foram varridos para debaixo do tapete.
Lee Sayoung pensou que seria bom se o hematoma durasse mais. Talvez, quando começasse a desbotar, ele pudesse pedir outro. Seus lábios se curvaram num sorriso com o pensamento repentino. Ele estendeu a mão e agarrou a barra do casaco de Cha Eui Jae quando ele se aproximou.
— Acho que usamos nossos nomes para apaziguar a ansiedade.
— …
— Isso te faz sentir um pouco melhor?
Mas Cha Eui Jae , sem responder, manteve a boca fechada. Havia uma sombra estranha em seu rosto que Lee Sayoung não gostou.
Lee Sayoung estudou sua expressão, tentando ler seus pensamentos. Este assunto precisa ser deixado de lado, decidiu, mudando de assunto com naturalidade.
— Você não está com fome? Dormiu por um bom tempo.
— Ah, um pouco.
— Vamos descer e comer. Vou pedir que tragam comida para o escritório do líder de guilda.
— Precisa mesmo? Não dá para comer aqui?
— Ah… quer comer aqui? Só de camisa?
Lee Sayoung sorriu travesso e enfiou os dedos por dentro da camisa dele . Cha Eui Jae agarrou o pulso de Lee Sayoung e o puxou para fora.
— Ei, alguém pode ver a gente. Teríamos que tirar as máscaras para comer.
— Ninguém pode simplesmente entrar no escritório do líder de guilda. Além disso, tenho trabalho acumulado que preciso fazer.
— …
— Se está tão preocupado… Quer que eu ponha alguém de guarda na porta?
— Não, não precisa chegar a tanto…
A expressão de Cha Eui Jae ficou relutante. Soubesse Lee Sayoung disso ou não, ver aquele rosto dava vontade de provocá-lo ainda mais. Ele se levantou da cadeira e indicou a entrada com o queixo. Cha Eui Jae , mexendo nos botões da camisa folgada, murmurou em resposta:
— Deixa eu só trocar de roupa primeiro. Cadê minhas roupas?
— No closet. Sua máscara também está lá.
Cha Eui Jae foi em direção ao closet como se fosse sua própria casa. Era uma cena agradável, vê-lo se mover pelo cômodo com tanta naturalidade. O som de roupas farfalhando veio em seguida, enquanto ele se despia e se vestia. Lee Sayoung cruzou os braços, ouvindo os ruídos. Depois de um breve suspiro, Cha Eui Jae surgiu, agora completamente transformado em J.
Bastava colocar uma máscara, mas a atmosfera era completamente diferente do Cha Eui Jae solto e relaxado. A máscara, que escondia não só sua expressão, mas o rosto inteiro, exalava uma pressão sinistra.
Pouco depois, os dois entraram no elevador lado a lado. Só haviam se passado alguns meses desde a última vez que andaram de elevador juntos, mas parecia uma eternidade. Naquela época, Cha Eui Jae escolhera um canto para ficar, alerta a tudo ao redor. Agora, ele estava calmamente ao lado de Lee Sayoung .
Lee Sayoung , encarando o cabelo cinza-claro de Cha Eui Jae , perguntou:
— Aliás, sua avó e a Ha-eun sabem que você é o J?
— Hm? Não.
Cha Eui Jae deu uma resposta breve.
— Eu disse a elas que fechei o restaurante de sopa de ressaca… e que ia trabalhar na Guilda Pado agora. Elas só sabem que sou caçador.
— Mas a mensagem de antes… parecia que elas sabiam.
— …Acho que não?
Ele inclinou a cabeça como se algo não se encaixasse.
Cha Eui Jae não havia contado a elas que era o J. Nem quando apareceu pela primeira vez para comer sopa de caldo branco na casa delas, nem quando depois pediu para trabalhar no restaurante.
As portas do elevador se abriram. Como Lee Sayoung havia mencionado, o andar onde ficava o escritório do líder de guilda estava silencioso.
Cha Eui Jae caminhou pelo corredor, seus passos ecoando. Então, de repente, parou bruscamente.
— Ah.
Uma memória há muito esquecida pareceu vir à tona. Lee Sayoung , que caminhava ao lado dele, olhou para trás, confuso.
— O que foi?
— Acho… que elas podem saber. É, acho que sabem.
Cha Eui Jae esfregou a máscara distraidamente, o suor começando a se formar no rosto sob a máscara. Sua voz, já distorcida pela máscara, tremeu de inquietação.
— Agora que penso nisso… naquela época, eu fui lá com a roupa de J…
— Como assim?
— As roupas que eu usava quando era o J!
Cha Eui Jae seguira instintivamente o cheiro assim que abrira os olhos, batera na porta do restaurante de sopa de ressaca e entrara. Naquela época, a TV do restaurante estava passando um documentário em memória do 8º aniversário da fenda do Mar do Oeste. Uma imagem do J, usando seu equipamento de batalha, até aparecera na tela. Sua avó estivera picando alho enquanto assistia àquilo, e Cha Eui Jae estava parado ali com o uniforme de J, parecendo esfarrapado.
“Não, ela pode não ter percebido…”
Cha Eui Jae se virou rapidamente para Lee Sayoung .
— Ei, Lee Sayoung . Você viu o documentário do J? Aquele em que o Caçador Song Jo-heon é entrevistado.
— …Hã?
— Viu ou não viu? Me fala rápido.
— Rá.
Lee Sayoung o olhou por um momento antes de zombar. Uma risada curta rapidamente virou escárnio aberto. Estreitando os olhos, Lee Sayoung respondeu:
— Claro que vi… A Guilda Pado que fez.
— …O quê?
— Do planejamento ao financiamento e apoio, a Guilda Pado cuidou de tudo… Então, sim, eu vi.
— Quêêê?
— Juro… Da próxima vez, a gente devia colocar o logo da guilda também.
Lee Sayoung murmurou, incrédulo. Era assim? Talvez o choque dos oito anos passados tivesse apagado todos os detalhes triviais de sua memória. Cha Eui Jae rapidamente agarrou Lee Sayoung pelos ombros.
— Tirando isso, eu não vi tudo. Só a entrevista e um pouco antes. Mostrou-me em ação?
— Hm? Claro que mostrou. Mostrou você lutando, sua entrevista antes de entrar… tudo.
— …
— Por que pergunta?
A inquietação ficou mais forte.
Cha Eui Jae tentou desesperadamente se lembrar do passado. O que sua avó havia feito naquela época?
Ele tinha terminado a refeição, mas hesitara, sem saber o que fazer, já que não tinha dinheiro para pagar. Sua avó não o repreendera; em vez disso, lhe entregara uma jaqueta azul-marinho e um boné preto.
— Se você andar por aí nesse estado à luz do dia, vão te pegar. Vista isso.
Depois disso, ele trocara, sem jeito, a jaqueta esfarrapada pela que ela lhe dera e puxara o boné bem para baixo. Por que ela lhe dera uma jaqueta e um boné? Por causa dos ferimentos? Não.
“Será que ela quis dizer que eu seria pego…?”
Cha Eui Jae empalideceu.
Agora que pensava nisso, logo depois de sair da fenda do Mar do Oeste, ele não estava em seu juízo perfeito. Não tinha percebido que suas roupas o tornariam fácil de identificar, nem que deveria cobrir o rosto. Estava focado em satisfazer a necessidade mais básica— a fome.
Se não fosse pela bondade de sua avó, ele poderia ter sido pego ali mesmo. Seu rosto descoberto, e o fato de que havia voltado. Até sua decisão de fugir.
Cha Eui Jae cobriu a boca. Sua voz tremia incontrolavelmente.
— Ela deve saber… Ela estava assistindo ao documentário, e até me deu um boné…
— Bom, faz sentido.
— O quê?
— Parece que você não percebe quanto material seu foi exibido.
Lee Sayoung encarou Cha Eui Jae com um rosto inexpressivo e então se virou. Sua voz, estranhamente fria, veio em seguida.
— Você estava em toda a TV naquela época. As pessoas debatiam o dia inteiro se deviam mandar o J ou não… Quando decidiram deixar você entrar, mostraram todas as suas conquistas, sua última entrevista, suas costas enquanto você entrava na fenda… Espremeram até a última gota.
Seu tom era o de alguém repassando uma informação de segunda mão. Mas, afinal, Lee Sayoung não estava em condições de assistir a nada naquela época. Estava com a saúde debilitada, mal conseguia se mexer. Aquilo era novidade até para ele. Cha Eui Jae perguntou de repente:
— Quem te contou isso?
— …
Lee Sayoung encarou Cha Eui Jae em silêncio antes de dar de ombros.
— O Jung Bin.
— …
— Morei com ele por um tempo… enfim.
Lee Sayoung cruzou os braços e bateu de leve neles com os dedos.
— Você era mais famoso do que imagina. Não havia ninguém que não te conhecesse.
— …
— Bom, depois que ergueram uma pedra memorial achando que você estava morto, as pessoas foram esquecendo aos poucos.
Provavelmente era inevitável. Com o passar do tempo, caçadores mais novos e mais destacados teriam aparecido.
Como areia soterrando mais areia, as pessoas cobrem memórias antigas com novas. Elas não se lembrariam por muito tempo de um caçador que morreu preso em alguma fenda. No máximo, pensariam de vez em quando: “Ah, teve alguém assim.” Certamente não acreditariam que ele ainda estava vivo.
Até ele havia perdido o rumo e vagado.
— Eu não podia simplesmente deixar assim.
Mas.
— Quem disse que eles podiam simplesmente esquecer?
Cha Eui Jae encarou Lee Sayoung sem expressão. Ele, que olhava para frente, virou a cabeça.
— Ainda assim…
Os olhos deles se encontraram.
— Pelo menos gastar dinheiro com aquele documentário parece ter valido a pena. Se estavam passando até num lugar tão afastado.
Lee Sayoung sorriu, erguendo o canto da boca.
— Né?
↫。。⛧ Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki