↫─☫ Episódio 171
𓆰𓆪 Episódio 171: Convocação 𓆰𓆪
Ele fugiu do mundo. Traidor.
As palavras formavam uma sequência estranha. Cha Eui Jae encarou o texto vermelho e ficou remoendo aquilo por um bom tempo. Traidor, fugitivo. Fugitivo, traidor… Eu já fugi alguma vez?
“Acho que nunca fugi…”
J não foge. Ele não tinha nem a intenção nem motivo para isso e, além do mais, se fugisse, mais pessoas morreriam. Por mais estranho que soasse dizer isso, J era um escudo por si só. Desde que Cha Eui Jae despertara, nunca duvidou uma única vez da própria utilidade.
Mas por que diziam que ele tinha “fugido”? Uma curiosidade pura se agitou. Cha Eui Jae coçou a cabeça sem motivo e então estendeu a mão para o tablet.
— J.
Naquele momento, algo preto bloqueou sua visão. Lee Sayoung cobriu os buracos dos olhos da máscara com a palma da mão e puxou a cabeça redonda em sua direção. Cha Eui Jae, que tentara resistir, parou e inclinou a cabeça para trás. Uma voz seca perguntou:
— O que você está fazendo?
— Hã?
— Por que você ainda está lendo esse tipo de besteira?
— Hã? Bom, deve ter algum motivo para escreverem esse tipo de coisa, né?
— Motivo?
— As pessoas não dizem coisas assim sem base nenhuma…
Lee Sayoung zombou. Seus dedos, cobrindo os buracos dos olhos da máscara, bateram de leve nela. A máscara tremeu um pouco.
— Você é bonzinho ou só burro…
— O que você disse, seu idiota?
— Você acha que gente louca tem motivos? Larga o tablet.
— Espera um segundo, eu ainda não terminei. Ei, não tira isso de mim.
— Larga.
— Se você tirar, você morre.
— Larga.
— Eu estou acima de você no ranking.
— Não esperava que o J recorresse à intimidação feito um caçador de rua… usando o ranking, justo isso.
— Ah, e a gente nem tem pipoca. Ter um conflito desses sem pipoca é simplesmente… Ah, aliás, vocês terminaram a pipoca que eu trouxe mais cedo?
O Mackerel mais novo fez uma piada. Justo quando Cha Eui Jae estava prestes a arrancar a mão de Lee Sayoung do próprio pulso, Lee Sayoung rapidamente enfiou os dedos pelas frestas da máscara. Couro frio tocou o canto de seus olhos. Cha Eui Jae o fuzilou com o olhar.
— O que você está fazendo?
— Se eu soltar agora, a máscara sai. Tudo bem?
— Eu vou quebrar seus dedos.
— Vai, tenta.
— …
Os dedos dentro da máscara se mexeram levemente, fazendo cócegas em seus cílios. Era um toque provocativamente irritante. Cha Eui Jae franziu a testa. É claro que ele sabia que Lee Sayoung fazia aquilo justamente porque sabia que Cha Eui Jae não os quebraria.
Será que ele conseguiria, se não soubesse que Lee Sayoung era aquele menino?
“…Embora, mesmo sem saber, eu provavelmente não conseguiria.”
Era como se ele tivesse percebido algo que não devia.
Uma veia saltou na testa de Cha Eui Jae. Que desgraçado astuto e ardiloso! Lee Sayoung tinha um talento para irritar as pessoas. Cha Eui Jae soltou lentamente o pulso dele. Mas, mesmo depois disso, os dedos não se moveram.
Justo quando Cha Eui Jae, pronto para agarrar o pulso de Lee Sayoung de novo, perguntou:
— Ei, você não vai tirar os dedos?
— Se eu tirar, você vai arrancar minha mão na hora.
Você acha que eu não saberia disso? Lee Sayoung provocou bem junto ao seu ouvido. Droga. Ele conhecia Cha Eui Jae bem demais. Enquanto isso, o Mackerel mais novo, em vez de apagar o fogo, jogou mais lenha.
— Com o Nº 1 e o Nº 2 se dando tão bem assim, o futuro da Coreia do Sul parece mesmo promissor! Né, hyung?
— Ãh, é. Né.
Não, não parece!
Cha Eui Jae pensou muito. Deveria arrastar Lee Sayoung para a sala de vídeo, trancar a porta e neutralizá-lo? Não seria impossível. Se chegasse ao combate físico, ele estava confiante. Poderia ser meio bruto, mas indivíduos de nível S aguentavam golpes leves e, se ele dosasse a força…
Algo duro bateu em sua cabeça. Provavelmente a parte de baixo da máscara de gás de Lee Sayoung.
— Dá para ouvir as engrenagens girando na sua cabeça. Você estava pensando em me bater, não estava?
Cha Eui Jae, que vinha imaginando jogar Lee Sayoung sobre um pufe, respondeu com indiferença:
— Não, não estava.
— Por que você está tão obcecado com essa porcaria? Você não precisa ver isso…
— Não está toda a informação naquele site?
— Argh, qual é.
Lee Sayoung suspirou fundo. Seus dedos, que vinham brincando com o rosto de Cha Eui Jae, finalmente escorregaram para fora, e a mão que pressionava a máscara se afastou. Cha Eui Jae piscou devagar enquanto sua visão clareava.
Os irmãos Mackerel, como se nunca tivessem erguido o tablet, olhavam para ele com expressões tranquilas. Então eles o tinham guardado, no fim das contas. Antes que Cha Eui Jae pudesse repreendê-los, duas mãos pousaram em seus ombros. Com delicadeza, Lee Sayoung virou o corpo dele em direção à sala de vídeo. Ele suspirou de novo e murmurou:
— Só entra lá e termina de ver a entrevista.
— …O quê?
Cha Eui Jae piscou. Lee Sayoung, parecendo preferir morrer a dizer aquilo, falou com clara relutância, pausando entre cada palavra:
— Vai… ver a versão… fofa de mim.
— Pfft!
— Acho que eu nunca disse que você era fofo, no entanto…
— Eu cuido do site.
Com uma mão grande, Lee Sayoung deu um empurrãozinho suave em Cha Eui Jae em direção à sala de vídeo. Pouco antes de a porta se fechar, os olhos deles se encontraram. Os olhos violeta de Lee Sayoung estavam cheios de irritação. Tump, a porta se fechou.
Sozinho na sala de vídeo escura, Cha Eui Jae piscou, coçou a cabeça e então pegou o controle remoto, apertando o play. Na tela apareceu o rosto jovem do menino, Lee Sayoung, na fronteira entre a meninice e o início da vida adulta. Mas, estranhamente, ele não parecia tão cativante quanto antes.
“Por que ele está tentando esconder isso?”
Tem alguma informação que eu não deveria saber? Ou ele está preocupado que eu me machuque?
— …
Cha Eui Jae se acomodou no pufe macio e inclinou a cabeça, encarando o rosto jovem e indiferente de Lee Sayoung. Será que Lee Sayoung realmente achava que ele se magoaria com um boato infundado daqueles? Mas, para que coisas tão triviais o ferissem, o coração de Cha Eui Jae estava endurecido demais. Seu coração já…
Clique, clique. Flash. Ele fugiu. Traidor. Abandonou e fugiu. Traidor.
Ele deixou seus companheiros para trás e escapou sozinho, aquele traidor imundo. Todos estão esperando o dia em que você pagará por seus pecados.
Por um instante, a tela ficou vermelho-sangue, mas logo voltou à cor original.
Cha Eui Jae apoiou o queixo entre os joelhos. O jovem Lee Sayoung bocejou suavemente. A tensão nos ombros de Cha Eui Jae se desfez. Bom, se Lee Sayoung não queria contar tudo agora, e daí?
“Eu só vou caçá-lo e arrancar isso dele depois.”
Ninguém consegue ficar calado diante de um punho, certo? Os nós dos dedos de Cha Eui Jae estalaram.
***
Telas grandes e pequenas tremeluziam, emitindo um brilho azul. Inúmeras telas cercavam o cômodo inteiro em círculo.
Lee Sayoung tirou a mão do bolso. A cada passo que dava, sua imagem era refletida de vários ângulos nas telas. No centro do grande cômodo escuro, sentado sobre uma mesa, o Mackerel mais novo abriu bem os braços num gesto de boas-vindas.
— Faz tempo que você não vem aqui, né? Cara, você não faz ideia do quanto eu estava entediado sem visitantes nas partes mais profundas deste lugar.
Ao lado dele, o Mackerel mais velho examinava as muitas telas, uma a uma. Seus dedos batiam no ar como se digitassem num teclado invisível. As lentes de seus óculos brilhavam na luz azul intensa.
Aquele era o coração do Mercado de Peixes— o escritório dos Mackerels. Um lugar que ninguém conseguia alcançar sem a orientação do dono.
Lee Sayoung deu um aceno seco com a cabeça.
— Vá direto ao ponto. Não pretendo ficar longe do meu posto por muito tempo.
O Mackerel mais novo deu um sorriso irônico.
— Desde quando você e o J ficaram tão próximos? Próximos a ponto de enfiar a mão dentro da máscara dele?
— Eu disse. Vá direto ao ponto.
— Este é o ponto. Quer dizer, que tipo de cortesia é fazer uma encomenda e depois sumir por três meses sem uma palavra? Você devia ter pelo menos dado uma dica. Informação tem prazo de validade, sabe. Estragou tudo.
— Até informação estragada precisa ser entregue. É isso que um corretor de informações deve fazer.
— Ah, qual é, você já fez isso vezes o bastante para saber como funciona.
O Mackerel mais novo balançou a cabeça e passou a mão pelo cabelo, os olhos azul-escuros faiscando. Ele fez um círculo com o polegar e o indicador.
— O preço subiu… é isso que significa.
— …
Lee Sayoung inclinou a cabeça lentamente.
— O que você quer?
O Mackerel mais novo sorriu. Esfregou o polegar e o dedo como se contasse dinheiro.
— Acho que eu sei sobre a sua relação com o J, então não vou perguntar. Onde você esteve nos últimos três meses?
— Ah…
Lee Sayoung soltou uma risada zombeteira. Era óbvio. Muita gente devia ter ficado curiosa com sua ausência, fazendo encomendas para descobrir onde ele estava e o que andava fazendo. Talvez se perguntando se ele tramava algo nos bastidores.
— Parece que muita gente andou se perguntando onde eu estava.
— Você é uma superestrela, afinal.
— Eu dormi.
— Como é?
Os olhos do Mackerel mais novo se arregalaram. Até o Mackerel mais velho, que estava concentrado em outra coisa, ergueu a cabeça. O mais novo se preparou para tapar os ouvidos do irmão e perguntou de novo:
— Você dormiu? Ah, com quem?
— O que você está imaginando? Devia lavar esse cérebro.
Lee Sayoung cuspiu as palavras.
— Eu dormi. Por três meses.
— Dormir três meses seguidos? Isso é ridículo. Não, acho que é possível… mas por quê?
— Não sei. Desmaiei e caí no sono no dia que vocês chamam de “Dia da Mudança” e…
Ele indicou o Mackerel mais novo com o queixo.
— Acordei pela primeira vez no dia em que aquela foto minha foi tirada. É o bastante?
— É difícil acreditar que você dormiu todo esse tempo sem nenhum problema…
— Eu disse que não sei.
Ele respondeu irritado. Não havia necessidade de compartilhar todos os detalhes com um corretor de informações. Afinal, eles não conseguiriam lhe dar as respostas que procurava. O único que poderia lhe responder era o hóspede indesejado dentro de seu próprio corpo.
Os dois Mackerels trocaram olhares. Quando o mais velho assentiu, o Mackerel mais novo bateu palmas.
— Muito bem, então. No Dia da Mudança, seres mutantes apareceram de repente por toda parte. Como você sabe, essas mutações foram causadas pelos experimentos e pelas drogas da Prometheus, que transformavam indivíduos despertos. Mas, a partir de certo ponto, nas camadas mais baixas da sociedade— entre civis a quem os caçadores normalmente não dariam muita atenção—, estranhas teorias da conspiração começaram a surgir.
Com um piparote dos dedos, três imagens flutuaram à vista. Um buraco negro que ficou branco, como um buraco branco; uma figura negra perfurando uma baleia gigantesca, com o cabelo acinzentado esvoaçando; e um ser mutante, subjugado e caído com um distintivo de caçador pendurado no pescoço, enquanto civis por perto cochichavam entre si.
— Depois do Dia da Mudança, começaram a se espalhar boatos de que os despertos estavam se transformando em monstros…
↫。。⛧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna,Flower&Yuki