↫─☫ Episódio 167
𓆰𓆪 Episódio 167: Convocação 𓆰𓆪
— Irritantemente preciso.
Lee Sayoung se levantou lentamente e foi até o aquário. Inclinando-se, aproximou o rosto do vidro, onde olhos violeta o encaravam de volta da superfície azul e vermelha. Enquanto fechava as mãos atrás das costas, seus dedos se moviam com o aperto. Ele ainda tinha controle sobre o próprio corpo.
O “Lee Sayoung” que ele enfrentara na orla desolada. Aqueles olhos violeta desbotados e pálidos eram perturbadores, manchados por um tom profundo de perda. Lee Sayoung se endireitou depois de encarar distraidamente os peixinhos-dourados no aquário.
— Sobre o Matthew, você pediu ao J que me passasse o recado, não foi?
— Hã? Sim.
— Você falou com ele pessoalmente?
— Bom… sim? Eu não tinha o contato dele. Soube que o J tinha entrado na masmorra da nossa guilda.
— …
Lee Sayoung sentiu a mente vasculhar enquanto se apoiava no aquário. Alguns peixinhos-dourados nadaram perto de sua mão, as barbatanas tremulando.
Tudo estava uma bagunça desde que ele acordara. Quando abriu os olhos, três meses haviam se passado, o mundo tinha mudado drasticamente, e um hóspede indesejado e poderoso havia se instalado em seu corpo. Seria porque compartilhavam a mesma alma? Porque ambos eram Lee Sayoung? Se ele baixasse a guarda nem que fosse um pouco, o controle seria tomado.
A única coisa que o mantinha são era…
— Você está bem?
Cha Eui Jae estar ao seu lado.
Ele bateu no aquário com os dedos. Os peixinhos-dourados abriam e fechavam a boca.
Suas memórias estavam todas embaralhadas. Exigia um esforço considerável para separar suas memórias das memórias de “Lee Sayoung”.
Eles pensavam de forma parecida, como se provassem que eram a mesma pessoa. Havia até memórias semelhantes, e as pessoas nelas muitas vezes eram as mesmas. Para distingui-las, ele tinha que jogar, a cada vez, um tedioso jogo dos sete erros, identificando a dissonância em suas memórias quase idênticas.
Ainda assim, em meio à bagunça, havia memórias que eram distintamente suas.
Em sua visão turva, os jalecos brancos indo e vindo, as intermináveis injeções de substâncias desconhecidas em seu corpo, a doçura horrível no gosto e no cheiro, as amarras que o prendiam, a sensação nojenta da pele e dos órgãos derretendo lentamente, a dor de cabeça que parecia rachar o crânio e o gosto metálico de sangue que persistia a cada respiração.
As noites passadas vagando pela enorme depressão no meio do oceano, onde os restos da fenda haviam deixado um buraco profundo. O cheiro do mar, tão impregnado nele que agora lhe dava náusea. Os dias intermináveis esperando por alguém que nunca voltaria, agarrado a uma promessa frágil feita apenas com os dedos entrelaçados. E…
— Até gêmeos que nasceram com um minuto de diferença sabem quem é mais velho e quem é mais novo!
O tom antiquado e rabugento que não combinava com o rosto bonito.
— Desculpa por ter quebrado minha promessa.
O rosto pálido e cheio de culpa que não conseguia sequer respirar direito, muito menos encontrar seu olhar.
— …
O sorriso que ele exibia, mesmo diante de monstros, mostrando os dentes.
O sorriso brincalhão e o beicinho que acompanhavam cada resmungo, os olhos que corriam de um lado para o outro enquanto ele dava desculpas que não se sustentavam.
As pálpebras que se fechavam lentamente quando se beijavam, o pescoço quente e reto, as orelhas ficando vermelhas de calor. As duas mãos e os braços que envolviam seu pescoço.
Todas aquelas memórias de Cha Eui Jae e as memórias dadas por Cha Eui Jae pertenciam unicamente a Lee Sayoung.
Eram a única coisa que mantinha Lee Sayoung como Lee Sayoung.
— Por que você pergunta?
Lee Sayoung virou a cabeça. Honeybee o olhava com uma expressão inquieta.
Deveria perguntar? Sim. Por algum motivo, o hóspede indesejado havia perdido Cha Eui Jae. No mundo daquele cara, Cha Eui Jae estava morto. Com medo de perder o controle, ele se agarrou a J e vasculhou os fragmentos dispersos de memórias, mas não conseguiu encontrar aquela memória específica.
A memória da morte de Cha Eui Jae.
“Se eu soubesse como ele morreu…”
Pelo menos poderia tentar evitar. Não havia garantia de que uma morte que ocorrera uma vez não aconteceria de novo. Pior ainda, havia sinais agourentos neste mundo também. Bae Won-woo, que havia perdido um braço no mundo anterior, sentia dor no braço ainda intacto, e Honeybee via os rostos daqueles que morreram no mundo anterior sobrepostos aos de outras pessoas.
A influência do mundo destruído que perdera seu guardião estava ficando mais forte.
O medo de perdê-lo de novo.
Lee Sayoung cerrou os dentes e se virou completamente para encarar Honeybee. Apoiou-se no aquário. O que quer que estivesse prestes a ouvir, ele tinha que se preparar e aceitar. Era tudo do mundo passado. Ele não seria tão impotente quanto o hóspede indesejado. Lee Sayoung respirou fundo e inclinou a cabeça.
— Quando você viu o J, notou… alguma coisa?
— Tipo o quê, alguma coisa como a Marca de Caim?
— É.
— Agora que você mencionou…
— …
— Ah, que estranho. Não havia nada.
— …O quê?
A resposta foi inesperada. Lee Sayoung franziu a testa enquanto Honeybee parecia perdida em pensamentos, os olhos revirando em direção ao teto. Depois de encarar o teto por um tempo, ela murmurou:
— É, nada mesmo. Se eu tivesse visto alguma coisa, teria lembrado. É o J, afinal.
— …
— Será que foi por causa da máscara? Mas não pode ser… Já tivemos caçadores mascarados na nossa guilda e eu ainda conseguia ver neles. Hmm… Será que ele não está morto? Quer dizer, é o J.
— Não.
As palavras firmes escaparam antes que ele percebesse. Honeybee arregalou os olhos e franziu a testa.
— O quê? Como você pode ter tanta certeza?
— …
Lee Sayoung não respondeu. Para ser mais preciso, não teve tempo para isso. No mundo anterior, Cha Eui Jae havia morrido. Mas como? Por que ele morreu?
Ninguém havia perseguido o rastro de J com tanta obstinação quanto Lee Sayoung. Ele conhecia cada missão extenuante que J empreendera durante seus três anos como caçador. Ele até vira vislumbres dos eventos horríveis na fenda do Mar do Oeste. Ele vira as pilhas de ossos empilhadas bem alto. Mesmo naquele lugar infernal, Cha Eui Jae de algum modo saíra vivo.
E ainda assim.
“Por que ele morreu?”
Por que ele morreu?
O que o matou?
Lee Sayoung voltou a olhar para o aquário. Estranhamente, mesmo sem Cha Eui Jae ao seu lado, o hóspede indesejado estava quieto. Só em momentos assim ele ficava em silêncio. Lee Sayoung torceu os lábios. Nem um único fragmento de memória útil veio à tona. Não havia sensação, nenhuma emoção escorrendo, como se uma porta tivesse sido trancada.
“Que conveniente…”
Ele zombou do hóspede indesejado. Ainda assim, ele permaneceu em silêncio. Mas ele entendia a mentalidade dele. Se estivesse na situação do hóspede, também trancaria suas memórias. Para que ninguém mais pudesse vê-las. Para que continuassem sendo dele, e só dele.
Naquele momento, uma risadinha quebrou o silêncio.
— Rá.
Honeybee, com um tom sarcástico, disparou:
— Viu, você sabe de alguma coisa. Vamos, desembucha. Estou prestes a perder a cabeça agora.
— Você acha que eu estou diferente?
— Ah, é. Parabéns!
Bam! A mesa chacoalhou quando Honeybee bateu as mãos nela, rangendo os dentes.
— Faz um tempo que eu vejo o Matthew morrendo, sangrando até morrer.
— …
— Deus… Achei que estava perdendo a cabeça. Então fui ao médico e fiz exames. Disseram que não havia nada de errado. Nenhuma maldição nem nada!
Ela passou a mão bruscamente pelo cabelo. Mesmo através da maquiagem, as olheiras eram visíveis.
— Mas aí eu fico sabendo que a vida dele está em perigo. Porque ele está viciado numa droga estúpida. Isso faz algum sentido? Que merda.
Uma mão áspera se estendeu de repente e agarrou Lee Sayoung pela gola. Ele olhou para a mão que segurava sua gola com olhos indiferentes. A mão calejada tremia incontrolavelmente.
Depois de um momento, o aperto afrouxou, e Honeybee murmurou:
— Então… seja lá o que for, só me passe a informação.
— …
— Por favor.
Aff… Lee Sayoung soltou um longo suspiro. Ele conhecia bem demais o que ela estava sentindo naquele momento. E isso tornava tudo ainda mais desagradável. Ele pousou a mão enluvada sobre a que agarrava sua gola.
— Tudo bem.
— …
— Vou te contar isso e as informações sobre a droga. Só espere.
— …Mesmo?
Honeybee ergueu a cabeça rapidamente e então o olhou com olhos céticos. Lee Sayoung afastou a mão dela e assentiu.
— Eu sou bom em cumprir promessas…
O comentário tinha uma pontada de amargura.
— Tenho um certo trauma com promessas.
***
O som de passos apressados se sobrepunha a várias vozes e ao alvoroço barulhento. Em meio ao movimentado mercado de peixes, um jovem de sobretudo preto e máscara de gás caminhava, o sobretudo esvoaçando atrás dele. Os olhares curiosos das pessoas o seguiam, mas ele não lhes dava atenção.
Lee Sayoung pegou o celular para conferir as horas. Fazia bastante tempo desde a última troca de mensagens. Será que ele estava bem? A julgar pelo humor dos comerciantes, não parecia ter acontecido nada fora do comum.
Seu olhar logo se voltou para frente. Quem guiava Lee Sayoung não era uma pessoa, mas um peixinho-dourado vermelho-vivo flutuando no ar. Suas barbatanas vagavam preguiçosamente.
— …
Lee Sayoung inclinou a cabeça enquanto o seguia. O peixinho-dourado não o levava em direção à Pescados Jangmi, mas o guiava para outra direção, mais isolada.
Para onde ele se meteu agora? Espero que não esteja esperando num achados e perdidos. Imaginar Cha Eui Jae sentado lá, emburrado, quase o fez se sentir melhor. Seu humor melhorou levemente enquanto um pequeno sorriso surgia em seu rosto.
O peixinho-dourado parou diante de uma porta com cortinas de contas, parecida com a de uma sala de visitas. Uma pequena placa estava presa ao lado da porta: “Sala de Vídeo”. Apesar de ter visitado o mercado de peixes várias vezes antes, ele nunca soubera da existência daquele lugar até agora.
“O que você está aprontando agora…”
Lee Sayoung franziu a testa enquanto encarava a placa. Uma voz fraca vazava de dentro. Era difícil distinguir qualquer coisa além das vozes dos Mackerels. Segurando a maçaneta, ele empurrou a porta, e a primeira coisa que o percebeu foi uma tela grande ocupando uma parede. A segunda foi…
— Ah, você chegou.
Era a voz de Cha Eui Jae, alterada pela máscara.
↫。。⛧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki