↫─☫ Episódio 163
𓆰𓆪 Episódio 163: Convocação 𓆰𓆪
Mesmo que eu não saiba quem tirou a foto, com certeza vou dar um jeito nessa pessoa. Cha Eui Jae se forçou a reprimir seu desejo latejante de destruição e afastou discretamente o pé. Ignorou a risadinha que ouviu ao lado.
— Sayoung, o J fez questão de te carregar com todo esse cuidado, você devia pelo menos agradecer.
“Por favor, só fica quieto.”
Cha Eui Jae cerrou os dentes. O apoio bem-intencionado, porém inútil, de Bae Won-woo, que servia também como lição de boas maneiras, não adiantava nada. Ele captou o vislumbre de um canto de lábio ligeiramente mais erguido e se resignou. Não havia mais para onde fugir.
Farfalhar, farfalhar, o som de um jornal sendo folheado ecoou nitidamente. Justo quando achou ter ouvido uma breve risada, um braço envolveu seu ombro, trazendo um aroma doce para perto. Lee Sayoung sussurrou, provocador:
— …Obrigado?
“Isso é a voz de quem está agradecido?”
Mas Bae Won-woo, agindo como se fosse o pai de Lee Sayoung, riu sem graça.
— Ai, ai, desculpa por isso. O Sayoung não é bom em se expressar, mas é uma boa pessoa.
— Ah, claro.
— Não tem muita gente tão boa quanto ele…
Será que a definição de “bom” no dicionário tinha mudado enquanto ele estava preso na Fenda? Justo quando Cha Eui Jae ficou sem palavras, Bae Won-woo esfregou o braço. Lee Sayoung, que estava apoiado torto em Cha Eui Jae, apertou os olhos.
— Você está machucado?
— Hã? Não… Estou bem, mas ultimamente anda doendo de um jeito estranho. Perguntei ao médico, mas ele disse que não há nada errado com meus ossos ou músculos.
Bae Won-woo deu tapinhas no antebraço e encolheu os ombros.
— Talvez eu devesse ir fazer acupuntura numa clínica. Enfim, que bom que você acordou. Tem muito mais coisa que você precisa ouvir além do que eu acabei de dizer. A Assembleia Geral está chegando. Seria uma baita dor de cabeça se eu tivesse que ir no seu lugar de novo.
Lee Sayoung franziu levemente a testa.
— Assembleia Geral? O que é isso?
— Ah! Você não sabe de nada. Bom, ela foi formada só há dois meses. Por onde eu começo…
— Primeiro.
Lee Sayoung indicou o corredor com o queixo.
— Vamos conversar lá dentro. Isso pode demorar.
Pouco depois, eles estavam sentados na sala de estar desolada. Lee Sayoung havia trocado o roupão por roupas casuais confortáveis. Lee Sayoung e Cha Eui Jae ficaram com o sofá comprido, enquanto Bae Won-woo ocupou a poltrona individual. Bae Won-woo apontou para a janela grande.
— Você viu como está lá fora, né? Sabe o que está acontecendo?
Lee Sayoung respondeu com indiferença:
— Tenho uma ideia geral.
— Então vou direto ao ponto. Depois do Dia da Mudança, o Diretor Ham Seok-jeong convocou os caçadores. Considerando que a gente passou pelo Dia da Fenda, o clima social estava, sabe, meio tenso? Para lidar com isso e tudo mais. A maioria dos representantes das guildas médias e grandes se reuniu.
— Hmm…
Lee Sayoung torceu os lábios num sorriso.
— Claro que se reuniram. E ele?
Um dedo negro apontou para Cha Eui Jae. Ele se recostou no sofá, braços cruzados. Vendo o olhar expectante de Lee Sayoung, respondeu devagar:
— O Bae Won-woo me contou, mas eu não fui.
— Por que não?
— Bom, nada de mais… Não achei que haveria algo para eu fazer lá.
Na verdade, era porque encontrar Ham Seok-jeong ou Song Jo-heon seria constrangedor, mas Cha Eui Jae resmungou as palavras. Se os encontrasse, o passado inevitavelmente viria à tona. Eles viviam no passado, assim como ele.
Ele ainda não estava pronto para encarar o passado. Provavelmente não até encontrar os restos mortais. Até cumprir suas responsabilidades, não estaria pronto.
— …
Naquele momento, uma mão grande pousou de repente em sua cabeça, bagunçando-a como se lhe fizesse carinho. Cha Eui Jae instintivamente afastou a mão com um tapa.
— O que você está fazendo?
— Ah, você está bem.
Era uma voz despreocupada. Lee Sayoung, como se nunca tivesse bagunçado seu cabelo, murmurava enquanto rolava a tela de um tablet.
— Qual é o sentido da Assembleia Geral sem o primeiro ou o segundo do ranking?
Era uma declaração arrogante. Bae Won-woo sorriu amargamente.
— Até agora, eu tenho participado como seu representante. Os líderes da maioria das grandes guildas comparecem pessoalmente.
— Bom trabalho. E aí?
— Enfim, na primeira reunião, houve uma sugestão de nos reunirmos regularmente daqui para frente. Para somar nossas forças. Resumindo, é uma reunião onde caçadores se juntam e discutem várias coisas. Normalmente, quem está no top 100 participa.
— É incomum eles se reunirem tão bem.
Um lugar onde caçadores sensíveis se reúnem. É natural pensar na Exposição de Artesãos.
“Dá mesmo para reuni-los?”
Cha Eui Jae havia testemunhado em primeira mão o desastre que se desenrolou quando os super-hamsters foram reunidos num só lugar. Sem conseguir conter as dúvidas crescentes, ele soltou:
— Isso… funciona mesmo? A reunião?
— Ah, essa é a parte surpreendente. Eles pelo menos fingem ser educados. Talvez porque o Jung Bin e o diretor estejam segurando as rédeas com firmeza? Até que funciona bem.
Mas então por que a Exposição de Artesãos acabou daquele jeito, mesmo com o Jung Bin lá? O ressentimento de ter sido pego no vórtice do caos brotou dentro dele. Lee Sayoung, que ouvia em silêncio, cruzou as pernas.
— Vou participar da próxima Assembleia Geral pessoalmente. Estou curioso sobre o clima.
— Ah, é? Então vou confirmar isso. Mas, antes disso…
O rosto de Bae Won-woo escureceu. O jornal em sua mão se amassou sem piedade. O rosto de Cha Eui Jae também se amassou, mas, graças à máscara, não ficou visível. Bae Won-woo hesitou.
— Acho que a gente devia lidar com isto… primeiro.
— Então vamos lidar.
Um pé de chinelo bateu no chão.
— Se alguém tirou uma foto sem que nem o J percebesse… o único capaz disso é o Mackerel.
— Qual é a habilidade dele?
— Ah, você vai saber se vivenciar em primeira mão. É bem engraçado…
Os lábios de Lee Sayoung se curvaram num sorriso torto. Os rostos dos caçadores que ele conhecera até então passaram diante de seus olhos. Desde seus distantes tempos de caçador, passando pela época do trabalho de meio período no restaurante de sopa de ressaca, até agora, algo que Cha Eui Jae sentira intensamente era isto: a maioria dos caçadores não está em seu juízo perfeito. Incluindo Lee Sayoung. Cha Eui Jae perguntou com uma seriedade fingida:
— Ele é louco?
— Hmm, não exatamente louco… mais para um cara engraçado? É um tipo de protesto, sabe. Fazendo isso só para chamar minha atenção.
Lee Sayoung dobrou o jornal com cuidado.
— Depois de ficar três meses sem contato, imagino que ele estava curioso sobre o que eu andava fazendo. Eu tinha pedido algumas informações a ele.
— Então, você vai encontrá-lo pessoalmente? Quer que eu prepare o carro?
— Não… com o J.
— Eu?
Cha Eui Jae ergueu o olhar. Lee Sayoung, que apoiava o queixo na mão, sorriu radiante.
— Você não quer ver a cara do desgraçado que publicou essa matéria?
— …
— Se você for o J que eu conheço, provavelmente quer.
“Droga.”
Cha Eui Jae começou a entender por que Seo Min-gi havia batido no volante com raiva. Devia ser como ter todos os pensamentos lidos. Mas, estranhamente, ele não se sentia irritado. Pelo contrário…
“…Eu estou contente?”
Num súbito momento de percepção, Cha Eui Jae encarou o teto sem expressão. Contente? Por quê? Desde que Lee Sayoung acordou, sua cabeça frequentemente não conseguia acompanhar seu coração. Estranhamente.
Uma voz tingida de divertimento cortou seu devaneio.
— Certo… e me arranja o terno e a máscara de gás.
***
Talvez por ser uma tarde de dia de semana, o mercado de peixes estava relativamente tranquilo. O cheiro salgado e forte do mar fazia cócegas em seu nariz, mesmo através da máscara de gás. Infelizmente, com seus sentidos aguçados, ele conseguia sentir os olhares das pessoas se concentrando nele. Onde? Nele.
Com as mãos enfiadas nos bolsos da calça do terno, ele encarava as barracas apertadas, seção por seção.
Sua respiração chiava pela máscara de gás, o som áspero.
“Acho que eu pareço estranho mesmo…”
Parado no meio do mercado de peixes, usando terno e máscara de gás, ele fatalmente chamaria atenção. Cha Eui Jae rangeu os dentes. O crachá de funcionário pendurado em seu pescoço reluzia à luz.
Mais cedo, enquanto ele ainda estava fora de si, Lee Sayoung havia lhe entregado o terno, uma peruca preta e a máscara de gás que Seo Min-gi trouxera, e o empurrado para dentro do banheiro. A combinação de itens parecia agourenta. Qualquer um perceberia que aquilo traria de volta o pesadelo da Exposição de Artesãos! Cha Eui Jae gritou em direção à porta fechada do banheiro:
— Que é isso?!
— Você não está pensando em ir com a máscara do J, está?
— Aonde a gente vai?
— Já ouviu falar do Mercado de Peixes de Noryangjin…?
Droga. O fato de o nome do caçador ser “Mackerel” já era suspeito. Enquanto se atrapalhava para vestir o terno, Cha Eui Jae ouviu a história de fundo. Mackerel era um corretor de informações que, em algum momento, se estabelecera no mercado de peixes, e suas informações eram bem boas. Ele até havia ajudado bastante a lidar com algumas questões ligadas às drogas…
— Ele provavelmente quer que você venha junto, já que me arrastou para isso também.
— Ele é um pretzel retorcido? Por que não pode simplesmente dizer isso?
Uma risadinha veio do outro lado da porta. Cha Eui Jae encarou seu reflexo no espelho, o rosto contorcido de frustração enquanto colocava a peruca. O cabelo desbotado agora estava coberto de preto. Seu rosto carrancudo desapareceu atrás da máscara de gás. Ele encarou a figura mascarada no espelho e tomou uma decisão.
Ele ia fatiar aquela cavala em pedaços.
É claro que parecia que levaria um tempo para esse desejo se realizar. Seu desconforto com a roupa estranha logo sumiu, pois a simpatia dos feirantes não podia ser bloqueada por algo como uma máscara de gás. Alguns deles se aproximaram discretamente do silencioso Cha Eui Jae, parado como uma estátua, e sussurraram:
— Um caçador, é? Veio comprar o quê?
— …
— Chegou linguado fresco hoje, grande e vivinho.
— O abalone está barato esses dias. As ovas estão bem grossas também.
— Gosta de lula?
— …
Mas nenhuma daquelas palavras chegou aos ouvidos dele. Ele estava ocupado demais fervendo de traição. Depois de agir como se fosse ficar por perto, Lee Sayoung, ao chegar, havia checado alguma mensagem, agarrado Cha Eui Jae pelo ombro e sussurrado:
— Espera aqui.
E então desapareceu. Depois de deixar só uma frase! O que eu sou, um cachorro esperando o dono? Ele não podia pelo menos explicar a situação?
“Ele acha que só dizer ‘espera’ resolve tudo?”
O instinto teimoso e do contra dele, reservado a Lee Sayoung, começou a subir. Talvez ele devesse simplesmente sair andando por aí.
Nisso, alguém atravessou tanto a multidão quanto o espaço pessoal de Cha Eui Jae, aparecendo de repente bem na frente dele. Os olhos de Cha Eui Jae se arregalaram. Era uma mulher de meia-idade usando um avental de vinil azul brilhante. Os olhos dela se arregalaram ao observá-lo, e então ela caiu na gargalhada.
— Eu estava me perguntando qual novato estava parado aí feito uma estátua, e no fim você é da Guilda Pado! É sua primeira vez, não é?
— Ah, Guilda Pado, é?
— Não dá pra perceber pela máscara de gás? Eles são os únicos que viriam vestidos assim.
— Foi o que eu pensei. Nunca se sabe hoje em dia, com tanto esquisito por aí.
— Poxa, achei que ia fazer umas vendas. Acho que vou ter que repassar pra Misu-gi.
Os feirantes estalaram a língua e se dispersaram como areia. Logo, o barulho diminuiu, e só a mulher de meia-idade e Cha Eui Jae ficaram no caminho. A mulher bateu as mãos enluvadas uma na outra.
— Bom, vamos indo?
— Ãh, para onde?
— Para onde mais?
A mulher de meia-idade sorriu.
— Você veio encontrar o Mackerel, não veio?
— …
Pensando bem, aninhado entre os cachos do permanente dela, havia um fone de comunicação intra-auricular azul-escuro. Ela piscou para ele.
— Eu sou a guia designada da Guilda Pado, então me siga. Se ficar parado aqui, os peixinhos pequenos vão continuar te enchendo, e vai ser um incômodo.
↫。。⛧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki