↫─☫ Episódio 162
𓆰𓆪 Episódio 162: Convocação 𓆰𓆪
As duas mãos que cobriam o rosto começaram a esfregá-lo vigorosamente. É claro que aquilo não traria de volta seus pensamentos dispersos. Cha Eui Jae, desgrenhado e em frangalhos, encarava o vazio. Ele nunca tinha percebido o quão selvagem a imaginação das pessoas podia ser. Uma única fotografia havia inflado em incontáveis boatos que se espalharam como fogo.
Cha Eui Jae se lembrou de um vídeo do YouTube que tinha visto recentemente, com 534 visualizações. A tela era preta, com textos vermelhos, amarelos e brancos piscando nela. Dizia que as pessoas modernas, depois de vivenciarem o Dia da Fenda e o Dia da Mudança, tendem a buscar estímulos mais intensos como forma de escapismo, a chamada deficiência de dopamina. Cha Eui Jae ficou um pouco mais sério.
“Droga… acho que todo mundo está com pouca dopamina.”
Será que todos estavam atrás de emoção porque estavam exaustos de suas vidas duras? Mesmo que fosse o caso, isso poderia mesmo ser aceitável? A mídia de hoje em dia não tem nenhum senso de ética?
“O que o Seo Min-gi estava fazendo?”
Sua frustração pesou contra Seo Min-gi, seu solucionador de problemas de confiança. Mas, sendo o workaholic minucioso que era, Seo Min-gi já havia cavado uma rota de fuga. Cha Eui Jae pegou o celular e releu a mensagem.
[Seo Min-gi: Só para seu conhecimento, eu limpei todas as imagens das câmeras de segurança próximas. Não havia sinal de ninguém por perto até vocês dois entrarem na van. Parece obra de um informante.]
A mensagem havia chegado antes mesmo que Cha Eui Jae pudesse pedir explicações. Resumida em uma linha, ela significava:
Não foi culpa minha.
Cha Eui Jae respondeu com uma mensagem, com uma expressão irritada.
[Sim, entendido. Por favor, reúna e entregue qualquer informação relacionada ao informante. Obrigado.]
Mas o que ele realmente quis dizer foi:
Me arranja podres de quem quer que seja esse desgraçado para eu esmagá-lo. Valeu.
Cha Eui Jae se arrastou até as janelas do chão ao teto que cobriam uma das paredes. Enquanto ajeitava de qualquer jeito o cabelo bagunçado no reflexo, a seção de comentários da matéria continuava flutuando em sua mente.
“J bateu nele”, “o trancou em algum lugar”, “o colocou no lugar dele”, “definiu a hierarquia”, “brigaram por três meses”, essas alegações sensacionalistas eram relativamente leves. O verdadeiro problema era…
— A expressão “relacionamento íntimo” é arriscada.
— Então, eles tiveram uma briga de casal e o J ganhou?
Essas reações.
Comparadas à maioria, eram só algumas, e provavelmente eram piadas.
Ele sabia. Era tudo besteira. Cha Eui Jae sabia disso. Só precisava ignorar. Normalmente, já teria desdenhado e deixado para lá. As especulações de todos estavam completamente erradas, e a realidade era bem mais dura. Quer dizer, o Lee Sayoung se dividiu em dois depois de dormir por três meses!
Mesmo assim, Cha Eui Jae não conseguia se livrar do desconforto. E com razão.
“Droga…”
Tinha coisa demais acertando perto de casa para simplesmente rir daquilo…
Cha Eui Jae pegou um cigarro e o colocou entre os lábios. Era a casa de outra pessoa, e era um lugar fechado, então ele não o acendeu. Só ficou brincando com o cigarro apagado, mordiscando-o de frustração.
De qualquer forma, ao longo da vida, ele tinha visto incontáveis matérias falando de J, mas era a primeira vez que encontrava uma que atacasse tão profundamente sua psique. Cha Eui Jae franziu a testa enquanto encarava a foto salva na galeria. O fundo era familiar. Era perto do Memorial da Fenda do Mar do Oeste. A foto havia sido tirada no breve momento em que ele carregava um Lee Sayoung adormecido e manchado de lágrimas até a van.
“Definitivamente é estranho.”
Mesmo que Cha Eui Jae estivesse preocupado com Lee Sayoung, não havia como ele não ter notado uma câmera ou a presença de uma pessoa. Como diabos essa foto foi tirada? Talvez fosse a habilidade do informante. Cha Eui Jae olhou para as próprias mãos, que haviam segurado firmemente as costas e os braços de Lee Sayoung, e suspirou.
“…Será que eu devia tê-lo carregado como um saco?”
Era um arrependimento tardio. Mas até esse arrependimento logo se dissipou. Ele não poderia simplesmente jogar o garoto no ombro, especialmente um que chorava tanto, como uma torneira quebrada, mesmo dormindo. O garoto estava chorando.
Justo quando Eui Jae suspirava de novo, sentiu uma presença atrás de si.
— …O que você está fazendo?
Uma voz suave, um pouco rouca, acompanhada do toque delicado de cabelos roçando sua nuca. O cheiro de dentes-de-leão chegou até ele. A mão que envolveu sua cintura parecia perfeitamente natural. Cha Eui Jae rapidamente desligou a tela do celular e respondeu:
— Nada.
— O que você estava olhando agora há pouco…
— Nada importante.
— …
Cha Eui Jae olhou para o reflexo na janela. Lee Sayoung, parecendo um leão bem alimentado, apoiou o queixo no ombro de Cha Eui Jae, piscando devagar os olhos sonolentos. Uma mão de pontas negras se estendeu e segurou delicadamente o cigarro entre os lábios dele.
— Um cigarro? E você nem acendeu…
A ponta do cigarro começou a se carbonizar e se dissolver. O cheiro de dentes-de-leão ficou mais forte. Num tom lânguido, Lee Sayoung sussurrou:
— Você fuma?
Cha Eui Jae endireitou as costas, sem jeito.
— É, mais ou menos.
— Desde quando?
— Faz pouco tempo…
Pouco antes de o cigarro se dissolver até o filtro em sua boca, um polegar e um indicador deslizaram para dentro, roçando delicadamente seus lábios. Quando Cha Eui Jae estremeceu, uma risadinha baixa chegou aos seus ouvidos. Os dedos tocaram brevemente sua língua antes de se afastarem. O cigarro, libertado de seus lábios, rapidamente derreteu num líquido negro na mão dele. Depois de sacudir a mão, Lee Sayoung murmurou suavemente:
— Pare. Você precisa viver bastante.
A mão que envolvia sua cintura escorregou. Lee Sayoung bocejou fundo e caminhou em direção ao banheiro. Cha Eui Jae esfregou a nuca sem necessidade e revirou os olhos. Uma mensagem do sistema apareceu, informando que o veneno do Basilisco havia sido ativado, mas ele a dispensou com um aceno de mão. Ele estava na sala de estar da casa de Lee Sayoung, no último andar da sede da Guilda Pado.
Dois dias antes, Lee Sayoung começara a suar frio quando chegaram à encosta da montanha e, assim que desceram, desabou como se tivesse desmaiado. Naturalmente, não só Cha Eui Jae, mas também Seo Min-gi, que esperava no carro, entraram em pânico.
Eles debateram se deveriam levar Lee Sayoung até Nam Woo-jin ou voltar montanha acima. Afinal, ele já tinha dormido por três meses.
Mas, durante toda a discussão, Seo Min-gi não parava de lançar olhares para Cha Eui Jae. A ponto dele, sem conseguir se conter, falar primeiro.
— Por que você fica me olhando assim? Tem alguma coisa para dizer?
— Ah, eu só estava me perguntando se você poderia me avisar caso vá explodir.
— Explodir?
— Não lembra? Você me sacudiu como uma boneca de pano. Fisicamente, quero dizer.
— …
Devia ser uma história do Dia da Mudança. Cha Eui Jae não se lembrava, mas parecia que a vítima, Seo Min-gi, lembrava daquele dia com nitidez. Ele acariciou, sem jeito, a bochecha de Lee Sayoung.
— Não vou mais fazer isso…
Não foi uma declaração particularmente convincente. Seo Min-gi também respondeu num tom duvidoso:
— Bom… vou acreditar na sua palavra.
Ele não parecia nem um pouco convencido.
Só depois que Seo Min-gi se escondeu nas sombras umas duas vezes, e Cha Eui Jae apertou as bochechas de Lee Sayoung umas cinco vezes, é que eles finalmente concluíram a discussão acalorada. A decisão foi voltar montanha acima. Justo quando Eui Jae se atrapalhava, preparando-se para carregar Lee Sayoung nas costas, uma mão forte agarrou seu braço.
— …Vamos para casa.
— O quê?
— Para de falar besteira…
Lee Sayoung, de algum modo, tinha aberto os olhos.
Fuzilando Cha Eui Jae com o olhar como se fosse devorá-lo, Lee Sayoung cuspiu cada palavra:
— Eu só estou exausto… Para de enrolar… Vamos só para casa.
Teria sido seu último resquício de força? Assim que terminou de falar, Lee Sayoung desmaiou de novo, a expressão contorcida numa careta profunda. Provavelmente era toda a força que lhe restava.
Cha Eui Jae alisou sem jeito a testa franzida do inconsciente Lee Sayoung e deu um sinal com os olhos para Seo Min-gi.
E assim, eles levaram Lee Sayoung de volta para casa…
Desde então, Cha Eui Jae não conseguiu sair de casa. Por dois dias.
— …
Como é que chegou a isso? Cha Eui Jae refez suas memórias. Não é que ele não tenha tentado fugir da casa. Mas, sempre que tentava sair escondido, Lee Sayoung o encontrava como um fantasma.
Cha Eui Jae lançou um olhar para o banheiro antes de colocar a máscara. Estava prestes a ir na ponta dos pés até a porta da frente e agarrar a maçaneta quando aconteceu.
— Hyung.
Uma voz veio de trás da porta. Exatamente como agora.
“Porra, ele tem um radar ou o quê?”
Cha Eui Jae afastou um pouco a máscara e respondeu:
— S-sim?
— Como o Bae Won-woo está vindo, mantenha a máscara.
— P-por que o Bae Won-woo vem? Para quê?
— Não é óbvio? Alguma coisa deve ter acontecido.
Será que ele estava secando o cabelo? Havia o som de uma toalha esfregando cabelos molhados. Naquele momento, os instintos de Cha Eui Jae começaram a funcionar contra sua vontade. Algo que traria Bae Won-woo diretamente à casa. O que lhe passou pela cabeça… foi a manchete da matéria.
[A Relação Secreta Entre o Nº 1 e o Nº 2]
Cha Eui Jae ajeitou a máscara. Certo, vou fugir agora. Vou me esconder numa masmorra até as coisas se acalmarem. Com essa decisão, Cha Eui Jae escancarou a porta. E se viu cara a cara com uma figura bloqueando a porta como um urso.
— …
“Merda.”
Era Bae Won-woo, que emagreceu desde a última vez em que se viram. Ele olhou em volta como um zumbi e então sorriu de forma perversa ao ver J.
— Ãããh…? Ah, J!
“Porra.”
— Você sentiu que eu estava chegando e abriu a porta para mim, é? Eu nem toquei a campainha. Uau, não dá para competir com isso. O Sayoung está aí dentro, né?
“Não.”
O som de passos molhados se aproximou por trás. Lee Sayoung vinha andando, amarrando o cinto do roupão. Ele parou bem atrás de Cha Eui Jae, erguendo uma sobrancelha.
— O quê… Você já chegou? Quanto tempo faz que eu liguei?
— Não tive escolha. É meio urgente.
O cheiro de dentes-de-leão misturado a um aroma perfumado encheu o ar. Lee Sayoung passou o braço por cima do ombro de Cha Eui Jae, puxando-o para perto. Por que aquele braço parecia uma algema hoje?
Bae Won-woo segurava um jornal. Mesmo de relance, as palavras “Nº 1” e “Nº 2” eram visíveis. Bae Won-woo, ainda sorrindo amigavelmente, entrou no hall.
— Ah, certo. J, você soube da notícia pelo Seo Min-gi, né?
Antes que Cha Eui Jae pudesse responder, Lee Sayoung interveio.
— Que notícia?
— Ah… Não é nada demais. Só que uma foto do J te carregando no colo feito uma noiva saiu no jornal.
— …O quê?
Estreitando os olhos, Lee Sayoung tomou o jornal dele. Cha Eui Jae olhou para ele. Enquanto seus olhos violeta percorriam o jornal, seus lábios recémlavados e corados se curvaram num sorriso limpo. Os olhos violeta acompanharam, estreitando-se em linhas finas.
— Hmm…
— …
Os dedos dos pés ainda úmidos de Lee Sayoung bateram de leve no calcanhar dele. Cha Eui Jae estremeceu. Os ossos salientes dos tornozelos se roçaram. Uma voz cheia de divertimento murmurou:
— Eu não sabia que você me carregava desse jeito?
↫。。⛧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki