↫─☫ Episódio 150
𓆰𓆪 Episódio 150: O Que Se Reflete no Espelho 𓆰𓆪
Enquanto seus olhos piscaram algumas vezes, suas pálpebras finas tremeram levemente. Seus olhos desfocados encaravam a escuridão sem nada ver. O primeiro pensamento que lhe veio não foi nada significativo.
“Eu fiquei cego de novo…?”
Só isso.
Felizmente, conforme seus sentidos foram se adaptando à escuridão, ele começou a distinguir os objetos ao redor. Ele se apoiou lentamente nos cotovelos sobre o colchão. A sensação do cobertor cobrindo seu corpo era familiar. Provavelmente era seu quarto, em casa.
Ele esticou a mão e acendeu o abajur da cabeceira. O quarto se encheu de um brilho carmesim, lançando um tom avermelhado sobre seu rosto pálido.
— …
Parecia que ele tinha tido um sonho muito longo.
— …
“Mas teria sido mesmo um sonho?”
Algo reluzia sobre o cobertor macio. Sem hesitar, ele agarrou aquilo e saiu da cama. A cada passo, seu corpo oscilava. Mover-se parecia estranho, como se aquele não fosse seu corpo.
Ele abriu a porta. Seus pés descalços tocaram o piso de madeira frio várias vezes enquanto ele se dirigia à janela grande.
— …
Seus olhos turvos voltaram-se para o céu além da janela. O buraco gigantesco no meio do céu agora estava branco, e cinzas brancas flutuam para baixo. Era uma cena que ele havia testemunhado incontáveis vezes ao longo de um período agonizantemente longo.
A paisagem do apocalipse.
Lentamente, ele baixou o olhar. As cinzas se assentavam sobre os restos despedaçados dos prédios. Tudo era branco. Não havia sinal de vida em lugar nenhum. Uma dor surda latejava em sua cabeça. A mão apoiada na vidraça estava enegrecida até o pulso.
O apocalipse era sempre silencioso e…
Tump.
Ele balançou a cabeça e olhou para a rua de novo. Um prédio alto coberto por lonas como se estivesse em reforma, o trânsito movimentado nas ruas, as pessoinhas caminhando pelas calçadas e os sons distantes de buzinas. Tudo estava em seu lugar. A mão sobre o vidro agora estava enegrecida apenas nas pontas dos dedos.
Por enquanto.
— Ah…
Ele soltou um suspiro curto e esfregou o rosto bruscamente com as duas mãos. Sua testa e nuca já estavam encharcadas de suor frio.
— Droga.
Através dos dedos enegrecidos, seus olhos cor de lavanda reluziam intensamente. Naqueles olhos arrogantes, um traço de ansiedade veio à tona.
— Que diabo é isso agora…?
***
— Por que…
Clique.
— …não…
Clique.
— …acende?
Uma mão firme lutava com um isqueiro a gás antiquado, verde-neon. Cha Eui Jae o pressionava contra o chão, tentando acender o cigarro. Seo Min-gi lhe lançou um olhar.
— Quer que eu providencie um isqueiro novo?
— Não, não precisa… Mas é estranho. Ainda devia ter gás.
Cha Eui Jae ergueu o isqueiro contra a luz, finalmente notando as palavras escritas na superfície. Abaixo do estranho texto branco que dizia “Mercado de Peixes de Noryangjin”, havia um número de telefone. Ele devia ter pegado qualquer isqueiro esquecido por clientes no restaurante de sopa de ressaca. Ele nunca conseguiria entender o gosto dos caçadores.
Seo Min-gi ergueu a cabeça.
— Ah… Eu tenho um item que pode acender coisas, se quiser tentar.
— O que é?
Ele vasculhou o inventário e tirou algo parecido com uma arma. Quando puxou o gatilho, uma chama azul brilhante irrompeu. Cha Eui Jae encarou o pilar flamejante com uma expressão atônita.
— …Um lança-chamas?
Seo Min-gi disse, com uma expressão estranhamente orgulhosa no rosto:
— Eu surrupiei do depósito de itens confiscados quando invadimos a Agência de Gerenciamento de Despertos. Pareceu útil. Dizem que é feito com a pedra mágica de um monstro de fogo.
Pensando bem, parecia coisa de Hong Yeseong, cuja galinha de estimação sempre soprava fogo azul. Não pode ser. Cha Eui Jae perguntou:
— Não me diga que o Hong Yeseong…?
— Sim, o mestre artesão que fez.
Ele realmente fazia todo tipo de coisa esquisita. Cha Eui Jae esticou a mão hesitante e levou o cigarro até a chama. Mas então,
Vuuush!
— Senhor?
A chama azul engoliu de uma vez tanto o cigarro quanto a mão de Cha Eui Jae. Seo Min-gi rapidamente puxou o gatilho de novo para apagar o fogo. Cha Eui Jae sacudiu casualmente a mão, agora levemente chamuscada.
— A chama é forte demais. Não dá para usar.
— …Entendido. Vou mandar um isqueiro para a sua casa.
— Eu disse que não precisa…
Cha Eui Jae estalou os lábios e colocou a máscara.
— Então, dessa vez também foi perda de tempo.
Eles estavam no topo das ruínas de um prédio desabado dentro de uma masmorra erodida. As cinzas que caíam regularmente cessaram depois que mataram o mestre da masmorra.
— Sim. Exploramos o máximo possível, mas nada se destacou. Não encontramos nada de incomum em comparação com as outras masmorras erodidas. Exceto por ali.
Ele indicou com os olhos algo ao longe. Além do canal de água negra, havia outra vasta extensão de terra.
— É possível que tenha algo lá. Seria bom investigar agora, mas…
Seo Min-gi guardou o lança-chamas e começou a rabiscar algo rapidamente no tablet, depois deu de ombros.
— Você não tem tempo para isso agora, tem?
— …
Cha Eui Jae não respondeu. Seu silêncio era uma afirmação. Seo Min-gi pausou a escrita.
— Existe a opção de mandar a equipe de investigação da Guilda Pado, mas isso é meio complicado. Provavelmente não é viável.
— De quem é essa masmorra?
— Pertence a uma guilda chamada Sanyeong, que é afiliada à Guilda HB. Essencialmente, é da Guilda HB.
Seo Min-gi coçou a têmpora com a ponta da caneta.
— Você consegue ir a qualquer lugar porque é o herói de ranking número um e tem uma autorização de funcionário do governo, mas…
— …
— Se eu for pego aqui, vai dar um problemão.
Cha Eui Jae precisava verificar o estado de Lee Sayoung e recuperar o relógio rapidamente. Mas não podia deixar Seo Min-gi para trás. Cha Eui Jae chutou uns escombros de concreto com a bota. Felizmente, era rápido em aceitar as coisas e seguir em frente.
— Não tem escolha. Vamos.
— Sim, senhor.
Seo Min-gi se dissolveu na sombra de Cha Eui Jae com um suspiro silencioso.
Splash…
Quando saíram da masmorra, o cheiro salgado do mar fez cócegas em seu nariz. Ondas suaves batiam contra o penhasco, erodindo-o e se desfazendo em espuma branca. A masmorra erodida em Mokpo havia se formado abaixo de um penhasco que encontrava o mar.
O mar.
Eles haviam prometido ir ao mar juntos, mas agora Cha Eui Jae estava ali sozinho, como antes.
“Quando nós vamos finalmente conseguir ir junto?”
Sem masmorras, monstros ou o sistema interferindo— só os dois.
“Agora, tudo parece me lembrar do Lee Sayoung.”
Era como se o mundo inteiro tivesse sido reconstruído em torno de Lee Sayoung. Um gosto amargo persistia em sua boca. Assim que pisou na areia da praia, uma presença afiada lhe deu um arrepio na espinha. Cha Eui Jae apertou a lança e se concentrou na origem daquela sensação. Uma voz fria perfurou seus ouvidos.
— Finalmente me notou, hein? O herói de ranking número um não é descuidado demais?
O longo cabelo loiro dela, preso no alto, tremulava como uma bandeira na brisa fria do mar. Cha Eui Jae a reconhecia bem. Afinal, ela era uma figura constante na TV, tanto antes quanto depois do Dia da Mudança…
E cliente habitual do restaurante de sopa de ressaca.
— Bom, nós dois estamos ocupados, então vamos ser breves.
Honeybee prendeu o cabelo loiro esvoaçante atrás da orelha e encarou Cha Eui Jae diretamente. Felizmente, não havia malícia real em seu olhar.
— …
Cha Eui Jae baixou a lança que segurava de forma ameaçadora e respondeu:
— Eu tenho permissão para entrar nesta masmorra. Não há necessidade de a Guilda HB fazer disso um problema.
— Isso não me interessa. Estou aqui por outro motivo.
Normalmente, ele teria simplesmente a ignorado e ido embora. Quanto mais ele cruzava com outros caçadores, mais os riscos aumentavam.
Mas talvez fossem as memórias que o relógio havia lhe mostrado, ou talvez a conexão deles através do restaurante de sopa de ressaca, que o fizeram querer ouvir a história dela. Ele não saberia dizer ao certo.
Honeybee falou:
— Você conhece a droga que transforma Despertos em cascas vazias?
Ele conhecia. Foi por causa daquela droga que reencontrou Lee Sayoung. Mas Cha Eui Jae não respondeu e, em vez disso, observou a reação de Honeybee. Talvez tomando seu silêncio como confirmação, ela continuou devagar.
— O motivo de eu ter procurado você especificamente é porque… acho que você pode ajudar.
Ela enrolou uma mecha de cabelo no dedo. Havia um traço de hesitação em sua postura, mas logo falou com firmeza.
— Eu preciso de ajuda, J. Preciso que você entregue uma mensagem.
— Que mensagem?
— Precisamos curar o Matthew.
Ele já havia encontrado Matthew antes, durante a Exposição de Artesãos. Se lembrava bem, Matthew estava atualmente em terceiro lugar no ranking da Coreia do Sul e era líder da Guilda HB. Cha Eui Jae perguntou com indiferença:
— Você não devia procurar um curandeiro para tratá-lo?
— Já procuramos. Disseram que não dava. Até o Nam Woo-jin falhou. Porra…
Honeybee começou a roer a unha do polegar, sua ansiedade evidente.
— Você sabe que a Guilda HB formou uma parceria com a Guilda Samra?
— Recentemente, sim.
— …Acho que foi aí que tudo começou. Depois disso, o estado do Matthew foi piorando aos poucos. Alguém que sempre foi calmo e indiferente de repente ficou emocionalmente instável, sempre ansioso, incapaz de controlar seus poderes…
Os olhos dela faiscaram de forma sinistra.
— Droga, será que eles acharam que eu não perceberia…
— …E?
— Ah.
Ela voltou a si e ergueu o olhar. Então, baixou os olhos e murmurou:
— …O Nam Woo-jin me contou. Os sintomas do Matthew são os estágios iniciais de vício naquela droga que faz os Despertos mudarem. A organização por trás da distribuição da droga é a Prometheus e, embora ele conheça bem a droga, quem realmente entende a organização é a Guilda Pado… Então ele disse que a gente devia pedir ajuda à Guilda Pado.
— …
O fato de Nam Woo-jin ter compartilhado informação tão confidencial com Honeybee provavelmente significava que o estado de Matthew era grave mesmo. Cha Eui Jae se lembrou do vislumbre que tivera de Honeybee, caída e soluçando, em um dos fragmentos que Yoon Ga-eul lhe mostrara.
A Honeybee diante dele agora, embora com os olhos vermelhos, não estava chorando.
— Você tem trabalhado com a Guilda Pado ultimamente, não tem? Então você pode passar uma mensagem para o Lee Sayoung? O Cara do Escudo não consegue entregar pessoalmente porque anda preso numa masmorra.
— O Lee Sayoung também…
Sua garganta se apertou por um instante. Cha Eui Jae limpou a voz e balançou a cabeça.
— O Lee Sayoung também não vai ser de ajuda nenhuma. Você sabe disso, né? Por questões de saúde…
— Do que você está falando?
Honeybee franziu a testa.
— Não é segredo para ninguém que essa desculpa de saúde era só fachada. Todo mundo já comentou no Canal dos Caçadores que o Lee Sayoung foi visto perto de Incheon há poucas horas…
Tump. Os olhos de Honeybee se arregalaram quando J agarrou seus ombros de repente e se inclinou para perto.
A máscara preta que escondia sua expressão, e a voz distorcida que não carregava emoção alguma, rosnaram num tom baixo e cortante.
— O que você acabou de dizer?
↫。。⛧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki