↫─☫ Episódio 149
𓆰𓆪 Episódio 149: O Que Se Reflete no Espelho 𓆰𓆪
Ploc, ploc, ploc… Gotas de água caíam das estalactites e se acumulavam no chão. A poça foi se espalhando aos poucos e encontrou um líquido vermelho. A água transparente rapidamente ficou carmesim. O ar dentro da caverna era úmido e fedia a sangue. Sangue pingava dos corpos empilhados de monstros no canto.
Cha Eui Jae estava sentado numa pedra plana, curvado, com um cigarro apagado na boca. Ele ouvia em silêncio os sons vindos de fora. Vuuush…
— Parece que tem um ciclo, não é?
Seo Min-gi, que estava parado como uma sombra num canto isolado da caverna, respondeu:
— Sim. Parece vir em rajadas e depois parar, seguindo um certo padrão.
Do lado de fora da caverna, cinzas brancas rodopiavam como uma nevasca, impossibilitando qualquer movimentação livre. Para ser preciso, se Cha Eui Jae estivesse sozinho, já teria enfrentado as cinzas e terminado a investigação. No entanto, graças à desculpa de Seo Min-gi de não querer sujar o terno com cinza branca, eles esperavam juntos dentro da caverna. Cha Eui Jae resmungou:
— Quão perigosa pode ser uma cinza…
— Pode não ser perigosa para você, mas pode ser para a próxima equipe de investigação. Precisamos verificar todos os riscos potenciais.
Isso não deixava muito espaço para discussão. Cha Eui Jae também sabia bem a importância da investigação. Ele não tinha feito algo parecido com uma enciclopédia de monstros? Depois de estalar os lábios, ele olhou para a sombra. Seo Min-gi cronometrava algo com um cronômetro analógico.
Clique. Seo Min-gi, apertando o botão, perguntou sem olhar para Cha Eui Jae:
— Como está o líder de guilda? Só esclarecendo, esta pergunta não é minha, mas do Vice-Líder de Guilda Bae Won-woo.
— …
Cha Eui Jae apoiou o queixo e respondeu com indiferença:
— O de sempre.
— Nenhuma mudança?
— Nenhuma. Ele só continua dormindo. Nenhuma mudança na aparência também.
— Normalmente, nesses casos, um beijo cheio de amor é o que desperta a pessoa.
Cha Eui Jae duvidou dos próprios ouvidos. Será que entendeu direito? Será que forcei demais o Seo Min-gi? Ele finalmente enlouqueceu? Cha Eui Jae endireitou o corpo curvado, olhando para Seo Min-gi com uma expressão de choque. Ele, ainda sério, acrescentou:
— Esclarecendo de novo, essa foi a opinião do Vice-Líder de Guilda Bae Won-woo, não minha. Se tiver algo a dizer, por favor, dirija-se diretamente a ele.
— Você repassa as palavras dos outros numa boa, mas por que não as minhas?
— Repassar xingamentos vai contra meus princípios.
— Não é xingamento, então repassa.
— Vou escutar.
— Diz pra ele que, se tem tempo de assistir filme da Disney, devia estar trabalhando duro em vez disso.
— Essa é uma opinião razoável e eu concordo com ela, então vou repassar.
Cha Eui Jae, encarando Seo Min-gi, mordiscou o cigarro.
“Um beijo para acordá-lo?”
Ele acha que eu não tentei? Acha que eu não fiz isso?
Agora que pensava nisso, a raiva subia. Antes do Dia da Fenda, Cha Eui Jae era apenas um adolescente comum na Coreia do Sul, exposto a incontáveis histórias e mídias visuais sobre princesas adormecidas acordando com o beijo de amor de um príncipe. Tendo crescido vendo e ouvindo esse tipo de história, era impossível não pensar nisso ao ver Lee Sayoung dormindo.
Mas nada mudou só por beijá-lo!
Olhando para trás agora, ele devia estar fora de si, passando dias sem dormir. Claro, a pessoa que está fora de si nunca percebe isso sozinha. Cha Eui Jae havia se sentado ao lado da cama do Lee Sayoung adormecido, se inclinado como se estivesse hipnotizado e o beijado…
Naturalmente, Lee Sayoung não acordou.
“Porra.”
Nos dois dias seguintes, ele não entrou no quarto de Lee Sayoung. Cha Eui Jae apertou o cigarro com tanta força que ele se partiu em dois, e então bateu o pé no chão. No entanto, Seo Min-gi pareceu interpretar seu constrangimento de outra forma.
— Você está ansioso?
Eu estou ansioso?
Cha Eui Jae parou o pé, que batia como um metrônomo.
— …
Provavelmente.
O beijo que deu no Lee Sayoung adormecido, e a sensação inquieta no peito, tudo vinha da ansiedade. Como Lee Sayoung esperou, por oito anos? Até mesmo esse tempo fugaz em comparação a oito anos o deixa tão ansioso.
Lee Sayoung pode estar dormindo, mas ainda está respirando, vivo. Num lugar onde Cha Eui Jae pode vê-lo. Era por isso que ele conseguia aguentar. Vê-lo lhe dava certeza.
Mas Lee Sayoung suportou todo aquele tempo, sem sequer saber se ele estava vivo, sustentado unicamente pela fé. Fé no retorno dele, algo de que nem o próprio Cha Eui Jae tinha certeza, acreditando que ainda estava vivo.
— …
Eu sei. Sei que a segurança é o mais importante. Mas a ansiedade que agita meu coração é algo que não consigo controlar. E se acontecer alguma coisa com o Lee Sayoung enquanto eu desperdiço tempo assim? E se surgir outro problema? E se acontecer algo com que eu não consiga lidar?
E se eu o perder de novo?
Craque. Seus dedos, apertados com força, se dobraram.
Cha Eui Jae largou o cigarro e colocou a máscara. Por trás da máscara preta, toda expressão desapareceu, e as emoções que fervilhavam se assentaram. Sua cabeça febril esfriou.
“Mas nada muda fazendo isso.”
Agora era hora de seguir em frente. Mais do que tudo, ele não estava sozinho agora. Cha Eui Jae ergueu a cabeça. Seo Min-gi ainda o observava com uma expressão indiferente. Surpreendentemente, isso era bastante reconfortante.
— Você cronometrou tudo?
— Sim. Embora a amostragem seja pequena, parece que, depois de cinco minutos de tempestade, há um intervalo de vinte minutos. Vamos ter que verificar se a cinza continua se acumulando lá fora.
— É tipo um Pomodoro*.
[N/T: A Técnica Pomodoro é um método de gerenciamento de tempo que divide o trabalho em blocos de 25 minutos de foco total seguidos por 5 minutos de pausa.]
— Você conhece isso?
— Vi no YouTube. Então deve parar logo…
Cha Eui Jae, que estava se levantando, hesitou. Seo Min-gi, que andava na ponta dos pés para evitar a poça de sangue enquanto saía das sombras, olhou para ele com curiosidade.
— Algum problema, senhor?
— Não…
Cha Eui Jae esfregou o pulso esquerdo. Ele achou que algo parecia estranho, mas nem tinha percebido que seu relógio estava faltando. Estivera tão focado na palavra “masmorra erodida” que agarrou Seo Min-gi pela nuca e usou o pergaminho de Hong Yeseong para ir direto a Mokpo.
— …
Devo ter deixado na casa do Lee Sayoung. Ninguém mais consegue entrar lá, então ninguém pegaria, mas…
“Agora eu me preocupo com cada pequena coisa…”
Cha Eui Jae bateu no chão com a ponta da bota e estalou a língua.
— Preciso me apressar. Vou lidar com o mestre da masmorra, então, por favor, investigue a masmorra enquanto isso.
— Hmm, entendido. Por favor, especifique os alvos.
Uma masmorra erodida é uma masmorra que foi corrompida por um mundo arruinado. Significa também que a masmorra está parcialmente conectada àquele mundo que eles visitaram um dia. Se for o caso…
— Primeiro, o ponto conectado à fenda do Mar do Oeste. E, segundo…
— Rastros de “Lee Sayoung”, que permaneceu naquele mundo arruinado.
Devia haver vestígios em algum lugar do tempo que Lee Sayoung passou vagando por aquele lugar. Se ele seguisse esses rastros, poderia acabar encontrando uma chave para resolver a situação dele.
“Dizem que deixar as coisas como estão é o melhor caminho…”
Mas ele não conseguia simplesmente ficar parado sem fazer nada. O próprio Cha Eui Jae não podia permitir isso.
Seo Min-gi guardou o cronômetro e empurrou os óculos escuros pela ponte do nariz.
— Entendido. Vou convocá-lo pela sombra assim que encontrar algo.
As cinzas rodopiantes foram diminuindo aos poucos. Cha Eui Jae empunhou uma lança enorme e deu um passo à frente, pronto para encarar o silêncio duro e invasivo.
***
…Lee Sayoung abriu os olhos.
— …
Um mar vasto se estendia diante dele. O mar não era azul; ali só existiam o preto e o branco. Conforme ondas negras avançavam, espuma branca se despedaçava. Lee Sayoung olhou para o céu. Não havia buraco onde deveria haver um. Então aquele lugar não era a realidade.
Ele começou a caminhar devagar pela fronteira onde as ondas encontravam a areia. Nenhuma pegada ficava na areia branca e fina. Ele caminhou sem parar. A cada passo, parecia que sua mente estava sendo lavada. Todos os pensamentos se desfaziam e se reformavam.
Lee Sayoung pensou, distraído:
“Eu preciso voltar.”
Por quê?
“Ele vai estar esperando.”
Quem?
“Hyung…”
Quem é Hyung?
“…”
Eu não sei.
Splash…
Naquele momento, uma onda tocou seus pés descalços. Estranhamente, não era fria. Em vez disso, parecia macia, como o toque de pele humana. Tanto que ele lamentou a onda recuar. Lee Sayoung voltou o olhar para o mar, para onde a onda retornava. No meio do mar negro, havia um buraco imenso.
— …Ah.
Os olhos de Lee Sayoung se arregalaram. Aquele buraco era exatamente igual ao ponto onde a fenda do Mar do Oeste havia desaparecido. Ele não poderia não saber. Ele a observara por oito anos, sem parar. Aquele mar, enquanto esperava por Cha Eui Jae.
— Você finalmente veio até aqui. Com a mente intacta.
Então, uma voz familiar ecoou. Era familiar, é claro.
— Embora eu não saiba por quê…
Porque era a própria voz dele.
Através do cabelo preto desgrenhado, olhos cor de lavanda brilhavam intensamente. “Lee Sayoung” estava de pé à sua frente. Ambos estavam sobre a fronteira entre as ondas e a areia.
Com voz baixa, Lee Sayoung perguntou:
— Que lugar é este?
“Lee Sayoung” inclinou o queixo levemente para cima de um jeito assustadoramente parecido com seus próprios trejeitos, fazendo Lee Sayoung franzir a testa.
— Um lugar onde coisas perdidas e esquecidas se reúnem.
Os olhos cor de lavanda miraram o mar distante, na direção do buraco. Exatamente como ele dissera, a água negra do mar despencava para dentro do buraco como uma cachoeira.
Depois de um instante, “Lee Sayoung” riu baixinho.
— Nós deveríamos ter nos fundido em um só, sem saber da existência um do outro…
— …
— Isso significa que algo deu errado. O fato de estarmos frente a frente assim.
— …
— Onde foi que deu errado, eu me pergunto…
— Você não sabe?
— …
— Ah… Eu sei muito bem.
Lee Sayoung arrastou as palavras com um sorriso torto. Um brilho de divertimento faiscou nos olhos cor de lavanda.
Um relógio gigante apareceu no céu branco e cru. Dentro do relógio havia três relógios menores. Dos quatro mostradores, apenas um se movia.
— Aquele que estraga meus planos e vem me buscar…
Lee Sayoung riu.
— Só existe uma pessoa assim neste mundo.
— …
“Lee Sayoung” fechou os olhos com um suspiro profundo.
— Claro…
Conforme o ponteiro dos segundos do relógio avançava atarefado, o mar começou a se agitar. Logo, uma onda negra se ergueu bem alto. Uma sombra escura pairou sobre eles.
— No entanto, você não vai conseguir simplesmente aproveitar isso.
Os olhos cor de lavanda desapareceram atrás das pálpebras que se fechavam. A onda negra desabou sobre eles. Fuuush—
A voz se estilhaçou na onda.
— …Porque eu vou estar atrás dele…
***
Em um quarto escuro.
— …
Longos cílios que estavam fechados se ergueram lentamente.
↫。。⛧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki