↫─☫ Episódio 148
𓆰𓆪 Episódio 148: Dia da Mudança 𓆰𓆪
Por dois meses e meio, Cha Eui Jae deu o seu melhor, com Seo Min-gi a seus pés, a Guilda Pado às suas costas e o apoio do funcionário público de primeira linha Jung Bin. Ele enfrentou masmorras, fendas e monstros sem discriminação.
Durante esse tempo, ele também testemunhou como Jung Bin manipulava habilmente a opinião pública usando seu rosto conhecido. Havia mesmo um motivo para ele monopolizar todas as propagandas de utilidade pública. Oito anos eram tempo mais do que suficiente para transformar um colega diligente numa raposa astuta.
No entanto, parecia que soluções paliativas do tipo “Um herói que reapareceu depois de 8 anos para salvar o país de novo!” estavam começando a perder o efeito. Especialmente com artigos começando a questionar Lee Sayoung.
“Eu queria que aparecesse um monstro gigante.”
O público, que um dia havia celebrado o retorno de J, aos poucos começava a tomar os esforços de J como garantidos. Afinal, ele era um herói. Se surgisse um problema, presumiam que ele naturalmente viria ao resgate. Bae Won-woo, com quem Cha Eui Jae ocasionalmente cruzava, frequentemente murmurava com uma expressão de desagrado:
— Isso definitivamente não é algo para se tomar como garantido. Todo mundo está displicente demais com a segurança.
Cha Eui Jae apenas dava de ombros. Ele havia passado por aquilo vezes demais para ainda se surpreender.
Seu polegar deslizava atarefado pela tela. Cha Eui Jae passava mecanicamente pelas manchetes de notícias até que parou de repente. Na tela havia a foto de um homem de meia-idade com rosto de tigre e mechas brancas no cabelo. Song Jo-heon. O título da matéria com a foto dele dizia;
[Por que o Herói Está em Silêncio? O Mistério da Fenda do Mar do Oeste]
— …
Ele jogou o celular dentro da gaveta ao lado do sofá.
— Isso é uma baita dor de cabeça…
Tap, tap, tap… O som dos dedos tamborilando no sofá de couro cessou.
A casa de Lee Sayoung estava silenciosa. Segundo Seo Min-gi, Lee Sayoung tinha sono leve e era perturbado pelo menor ruído à noite. Por isso haviam instalado um equipamento minucioso de cancelamento de ruído.
Na verdade, não era algo que agradasse particularmente a Cha Eui Jae. Ele precisava de barulho para dormir bem. Desde que escapou da fenda do Mar do Oeste.
Cha Eui Jae arregaçou a manga larga da camisa. No pulso esquerdo havia um relógio prateado bastante quebrado. Entre os três pares de pequenos ponteiros, apenas um se arrastava lentamente.
“A última chance.”
Quando todos os ponteiros parassem, ele teria tido sucesso ou fracassado?
Cha Eui Jae tirou o relógio e o colocou no braço do sofá, depois pôs um vídeo de oito horas com som de chuva no celular e, usando uma almofada como travesseiro, fechou os olhos. Talvez fosse saber que Lee Sayung estava logo além da parede que o fazia não se sentir tão sozinho.
Sua consciência começou a afundar devagar.
Por fim, Cha Eui Jae abriu os olhos. Os arredores eram familiares. Era o corredor do antigo prédio da Agência de Gerenciamento de Despertos, que ele frequentava mais do que a própria casa. Os murmúrios eram nítidos.
Seus pés o levaram pelo corredor sem hesitação. Os rostos das pessoas por quem passava estavam quase todos borrados. Se tentasse focar neles, rapidamente se dissolviam em manchas pretas. Então, a única pessoa com o rosto nítido apareceu— uma mulher sentada de pernas cruzadas, com ar impecável. Era a Honeybee. Ela apoiou o queixo na mão ao ver Cha Eui Jae.
[— O que você está fazendo aqui?]
— Não é estranho eu estar aqui. Estranho é você estar aqui.
[— Estou aqui para encontrar o Jung Bin, então não encha o saco.]
Honeybee acrescentou secamente:
[— Ouvi dizer que você estava lá nas montanhas de Gangwon-do.]
— Isso foi ontem. Você está atrasada nas notícias.
[— Tsc.]
Ela virou a cabeça bruscamente, o longo cabelo loiro preso balançando. Cha Eui Jae perguntou, teimoso:
— Como você tem passado ultimamente?
[— O de sempre. Aliás…]
Honeybee indicou com a cabeça o fim do corredor e se levantou. Era a direção da escada de emergência. Cha Eui Jae a seguiu, fingindo não perceber enquanto sacava um maço de cigarros do bolso. Bam, a porta se fechou. Honeybee olhou em volta, baixando a voz para um sussurro.
[— Então, eu falei com o Matthew como você disse. É verdade que a frequência de ocorrência de fendas aumentou recentemente. Também existem várias fendas cuja existência foi ocultada para aliviar a ansiedade pública, e o Matthew achou isso estranho também.]
— …
[— A frequência com que monstros irrompem das fendas também aumentou. Entrei em contato com o Gyu-Gyu, e ele disse que é a mesma coisa no exterior. A situação está com cara de mau agouro.]
— Entendi.
Honeybee franziu a testa e cruzou os braços.
[— Se você descobrir alguma coisa, compartilha, tá? Você não está fazendo isso só para se salvar.]
— …Desculpa. Ainda não tenho nada concreto.
[— Ei, J.]
Os olhos castanhos e brilhantes dela faiscaram, afiados.
[— Por favor, não… tente… fazer isso sozinho…]
A voz e o rosto de Honeybee começaram a se desfazer enquanto se encaravam. Logo, toda a cena ao redor começou a se distorcer. Cha Eui Jae murmurou:
— Mais um beco sem saída hoje.
E, pouco depois, Cha Eui Jae abriu os olhos de novo. O teto escuro e familiar o recebeu.
O som da chuva continuava sem parar. Cha Eui Jae pegou o relógio e o celular ao lado da cama. Só haviam se passado 30 minutos. Ele se levantou devagar e começou a andar. Abriu a porta firmemente fechada.
Encontrando a cadeira ao lado da cama no escuro, ele se sentou e olhou para o perfil vagamente visível ao seu lado. Ele então se deitou, apoiando a cabeça na cama.
***
Depois que Lee Sayoung adormeceu, Cha Eui Jae ocasionalmente via coisas em seus sonhos. Nesses sonhos, ele se tornava “Cha Eui Jae”, movendo-se, viajando e conversando com pessoas— algumas familiares, outras desconhecidas. Ele encontrou Lee Sayoung várias vezes.
“Hyung.”
Naquele lugar, Lee Sayoung tinha olhos pretos, cozinhava bem e era gentil. Só depois de Cha Eui Jae comer a refeição que Lee Sayoung havia preparado para ele é que percebeu.
“Isto não é um sonho.”
Afinal, é impossível sentir gosto em um sonho, certo?
O que estava vendo era uma memória vívida, provavelmente a memória do primeiro Cha Eui Jae, a julgar pelos olhos pretos e pela disposição da casa.
O fenômeno de ver algo toda vez que dormia era coisa que apenas Yoon Ga-eul, uma especialista nesses assuntos, poderia compreender. Então ele a procurou primeiro em busca de conselhos. Encontraram-se no terraço do colégio que ela frequentava. Cha Eui Jae optou por arrombar a fechadura da porta do terraço para garantir uma conversa tranquila.
Fungando enquanto ouvia, Yoon Ga-eul inclinou a cabeça.
— Você diz que isso nunca tinha acontecido antes, mas começou depois do Dia da Mudança?
— Sim.
— Tem alguma coisa diferente de antes? Se apareceu de repente, deve haver uma causa.
Cha Eui Jae, que refletiu por um tempo, murmurou:
— Tem coisa demais.
— Você consegue escolher só algumas realmente importantes?
Cha Eui Jae começou a dobrar os dedos um a um.
— Primeiro, larguei meu emprego de meio período no restaurante de sopa de ressaca. Em vez disso, comecei a trabalhar como J.
— Aham.
— O Lee Sayoung adormeceu…
Quando Cha Eui Jae já havia dobrado uns cinco dedos, Yoon Ga-eul, que ouvia em silêncio, falou:
— Tudo o que você mencionou até agora são basicamente mudanças no seu ambiente, certo? E quanto a mudanças que aconteceram com você pessoalmente?
— Comigo?
— Sim. Por exemplo…
Yoon Ga-eul brincou com o próprio cabelo.
— Seu cabelo ficando cinza acinzentado… ou aquele relógio no seu pulso. Pensando bem, a gente estava tão focado no Líder de Guilda Lee Sayoung desmaiando que ainda não investigou o relógio, não é?
— Ah.
Cha Eui Jae apressadamente arregaçou a manga da jaqueta, revelando o relógio surrado que parecia poder quebrar a qualquer instante. Yoon Ga-eul falou com preocupação:
— Isso parece que pode ser a causa. Por que não tenta primeiro dormir com o relógio bem longe de você?
Era uma sugestão bastante razoável. Cha Eui Jae mandou Seo Min-gi deixar o relógio no restaurante de sopa de ressaca antes de ir dormir. Naquela noite, em vez de sonhar com um Lee Sayoung gentil, ele sonhou com a fenda do Mar do Oeste. Foi o momento em que ficou claro que o relógio era a causa.
Havia outro especialista quando o assunto eram itens— Hong Yeseong, o autoproclamado e amplamente reconhecido maior artesão do mundo.
Seu mais recente esconderijo secreto ficava no fim do Inwangsan. Com a ajuda de Jung Bin, Cha Eui Jae entrou na casa silenciosa onde o artesão estava hospedado, só para que Hong Yeseong viesse correndo de quatro, agarrando-se às calças de Cha Eui Jae.
— Eu estava morrendo de tédio! Você nem me mandou mensagem! Eu te odeio!
Jung Bin, que observava com as mãos atrás das costas, sorriu calorosamente.
— Você não teria visto nem se ele tivesse mandado.
— Mas ainda assim!
Aparentemente, toda vez que ele era confinado num lugar remoto, Lee Sayoung restaurava a internet para ele, mas dessa vez Lee Sayoung havia adormecido, deixando-o verdadeiramente desconectado do mundo. Enquanto Hong Yeseong contava isso grelhando algas com o fogo emitido por Kkokko, ele de repente falou:
— Você disse que aquele relógio foi usado para voltar no tempo, né? Aquela… primeira versão de você.
— É.
— Então ele deve ter acumulado uma quantidade tremenda de energia. E você disse que se tornou o pivô.
— Isso.
— Quando algo precisa de um pivô, significa que o item sozinho não consegue fazer nada. O pivô e o item têm que se juntar e virar um só para que finalmente funcione.
— Virar um só?
— É.
Kkokko, que tinha acabado de cuspir uma pequena brasa, começou a circular atarefado ao redor de Cha Eui Jae. Enquanto cortava as algas com a tesoura, Hong Yeseong murmurou:
— Talvez esse relógio tenha se fundido com parte do “Cha Eui Jae” que se tornou o pivô? Ele não sugou o seu corpo, mas… hmm, talvez suas memórias ou… desejos fortes tenham ficado embutidos nele.
— …
— E agora, o encontro com o mesmo Cha Eui Jae está causando algum tipo de reação. Se não for prejudicial ao seu corpo, não seria bom continuar vivenciando isso? Você pode encontrar alguma pista.
— …
— …Claro, não fui eu que o fiz, então não posso ter certeza!
Mais uma vez, um traço de sabedoria começou a se infiltrar nas palavras de Hong Yeseong. Era frequente demais para ser apenas uma ocorrência intermitente. Cha Eui Jae, olhando desconfiado para ele, de repente lhe deu um tapa nas costas.
— Ai!
— Cocó!
Tanto Hong Yeseong quanto Kkokko gritaram ao mesmo tempo…
***
Bip bip bip bip bip—
Cha Eui Jae acordou de novo. Seu celular piscava em vermelho e tocava alto. Cha Eui Jae se sentou rapidamente. Era uma chamada de emergência de Jung Bin.
— Uma masmorra erodida apareceu em Mokpo. É maior em escala do que as anteriores.
Uma masmorra erodida. Podia estar conectada à fenda do Mar do Oeste. Ele ficou instantaneamente desperto. Sem pensar duas vezes, Cha Eui Jae se levantou às pressas e disparou para fora do quarto. Quando a porta se fechou atrás dele, o silêncio retornou à casa grande.
O relógio prateado deixado na escuridão reluziu.
↫。。⛧ Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki