↫─☫ Episódio 23
↫─☫ Episódio 23: Efeito Borboleta
— Eu quero você, Hyung.
Seus olhares se encontraram, e Cha Eui-jae forçou um sorriso. O quê? Uma pessoa desconhecida? Ninguém sabe que eu existo? Cha Eui-jae se lembrou dos gibis educativos com caricaturas de si mesmo e dos documentários que havia vislumbrado. Não podia haver ninguém tão famoso quanto ele, esse cara….
— Uma pessoa habilidosa que não pertence a lugar nenhum e não é conhecida do público. Quanto menos pessoas souberem, melhor.
— …
— Isso é pedir demais?
Lee Sayoung se moveu silenciosamente, circulando devagar ao redor de Cha Eui-jae. Parecia uma cobra deslizando pela vegetação rasteira.
— Eu estava prestes a desistir de encontrar a pessoa certa, mas então você apareceu.
— …
— Como destino.
— Você acredita em destino?
— Nunca acreditei nesse tipo de bobagem, mas agora estou pensando em começar.
De repente, Lee Sayoung estava bem atrás de Cha Eui-jae, curvando-se ligeiramente pela cintura.
— Aprendi um pouco sobre você.
Dedos negros envolveram o ombro de Cha Eui-jae, e o dono desses dedos sussurrou gentilmente.
— O ensino médio que você frequentou, e até a área ao redor da sua casa, foi inteiramente engolida por uma fenda, não deixando nada para encontrar… Ambos os pais morreram no Dia da Fenda, e você não tem parentes restantes para investigar… Se você tivesse um emprego, haveria contratos, mas não há contratos, não há registros de transações bancárias, e sua primeira ativação de celular foi só há alguns meses. Não há registros antes disso.
— …
— A dona deste lugar e a sobrinha dela não são seus parentes de verdade, são? São completos estranhos.
Cha Eui-jae permaneceu em silêncio. Lee Sayoung continuou falando, imperturbável.
— Não há realmente nada.
Aquilo era só natural. Enquanto estava ativo como J, Cha Eui-jae vivia inteiramente como J, não como Cha Eui-jae. Não era de se admirar que Lee Sayoung não conseguisse encontrar nenhum vestígio de “Cha Eui-jae” que ele estava procurando. Lee Sayoung soltou um longo suspiro.
— Inicialmente planejei te recrutar bem, atendendo a qualquer condição que você tivesse. Mas…
— …
— Parece que essa loja é a única coisa que importa para você agora.
A voz, que estivera suave e agradável, se aproximou do ouvido dele. Cha Eui-jae involuntariamente prendeu a respiração por um momento.
— Tem alguma coisa que você quer?
Querer?
Quem no mundo não quer nada?
Sempre que fecha os olhos, ele ainda ouve os gritos desesperados e choros. As mãos se agarrando aos seus pés, implorando para serem salvas, e o fedor de sangue pairando na ponta do nariz o invadem inesperadamente. A sensação viscosa de escavar desesperadamente pilhas de cadáveres para recuperar até mesmo um pedaço de carne ou osso é vívida.
Cha Eui-jae desejava poder recuperar os corpos deixados para trás na fenda do Mar do Oeste. Embora tivesse escapado e se escondido ali, esse sentimento era genuíno. Ele queria enviá-los de volta para onde pertenciam. Queria cumprir o último dever do sobrevivente. Porque aquele lugar… é solitário demais.
Mas ele sabia que era impossível.
Então, Cha Eui-jae só podia dizer que não queria nada.
— Nada.
— …Sério?
Enquanto Cha Eui-jae dava uma resposta breve, Lee Sayoung piscou lentamente e depois sorriu levemente.
— Então deixa eu sugerir algo.
Ele tirou um tablet do ar e o colocou diante de Cha Eui-jae. Na tela, havia uma foto de um homem de aparência afiada usando óculos. Lee Sayoung alcançou por cima do ombro de Cha Eui-jae e deslizou a foto para o lado devagar. O homem de cabelo branco longo preso para trás e vestindo um jaleco de médico apareceu.
— Você conhece o Nam Woo-jin? Ele é um curador de grau A.
Cha Eui-jae se lembrou de ter visto seu nome ao pesquisar informações sobre Lee Sayoung.
— Atualmente classificado em 6º lugar na Coreia do Sul, Nam Woo-jin, o Líder da Guilda Seowon. O único curador de grau A da Coreia do Sul. Antes de despertar, ele era cirurgião ortopédico num hospital universitário, levantando questões sobre se habilidades pré-despertar afetam habilidades de despertar….
Era mais ou menos isso que ele se lembrava. Conforme a memória vaga voltava, ele assentiu, e Lee Sayoung sorriu.
— Que tal ter a perna da Vovó tratada pelo Nam Woo-jin?
— O quê?
— Ouvi dizer que ela tem problemas com a perna.
Da habilidade de flutuar 2cm no ar até erguer um prédio inteiro, incontáveis habilidades haviam surgido desde o Dia da Fenda, mas havia bem poucos despertos com habilidades de cura. Quando Cha Eui-jae estava ativo, havia apenas um desperto de grau B nos Estados Unidos com tais habilidades.
Além disso, o único curador de grau A na Coreia do Sul. Pessoas comuns nem sequer teriam a chance de conhecer alguém assim. Cha Eui-jae soltou uma risada curta.
— Um curador de grau A tratando uma pessoa comum? Isso não faz sentido nenhum.
— A Guilda Seowon e nossa guilda estão numa relação de cooperação, então posso pedir a ele que trate uma pessoa. Ele era cirurgião ortopédico antes de despertar, então consegue lidar com tratamentos gerais também.
— …
— O que você acha?
Era uma oferta incrivelmente tentadora. Mas Cha Eui-jae não era ingênuo o suficiente para se deixar levar pela doçura sem considerar os arredores. Todos esses acordos e condições eram periféricos, não a essência.
— Lee Sayoung.
— Sim, Hyung.
— Por que você está fazendo isso comigo?
— …
Cha Eui-jae se virou para encontrar os olhos violeta dele. Lee Sayoung estava encarando intensamente seu rosto. Em vez de evitar seu olhar, Cha Eui-jae ergueu os cantos da boca num sorriso.
— Por que você vai tão longe para me arrastar para isso, me investigando minuciosamente e encontrando meus pontos fracos, e então me oferecendo um acordo tão tentador?
— …
— Você vai me expor como desperto para todo mundo se eu recusar?
— …
— O que você quer?
— Bem…
Os olhos de Lee Sayoung, desprovidos de riso, examinaram o rosto de Cha Eui-jae. A resposta veio surpreendentemente rápido, considerando por quanto tempo ele havia enrolado.
— Eu considerei essa opção.
— …
— Mas simplesmente te ameaçar seria uma jogada ruim, e…
— …
— Concluí que você não seria o tipo de responder a esse tipo de tática.
— Pelo menos você fez um julgamento decente.
— Obrigado pelo elogio. De qualquer forma, para responder sua pergunta.
Um breve silêncio se seguiu. Lee Sayoung perguntou em voz baixa.
— Você se lembra do cara que você acertou com a concha naquela vez?
Claro que ele se lembrava. Se não fosse por aquele cara, ele não estaria sentado ali encarando Lee Sayoung. Cha Eui-jae assentiu, e Lee Sayoung esfregou o dedo na tela do tablet e continuou falando.
— Uma droga estranha começou a circular alguns anos atrás.
— …
— Claro, drogas ou entorpecentes comuns geralmente não afetam despertos… mas essa droga causava uma reação incomum.
— Por exemplo?
— Aumento de agressividade, vício. E…
Seus dedos longos deslizaram para revelar outra foto. Um corpo grotescamente retorcido com espinhos negros protuberantes, parecendo uma árvore ressecada. Já fora humano, agora era outra coisa. Cha Eui-jae já havia visto essa forma antes.
— Mutação física.
De repente, ele se lembrou do que Lee Sayoung havia dito quando se conheceram.
O cara que Lee Sayoung estava espancando era um desperto viciado nessa droga. A coisa na foto parecia ainda mais um monstro do que o homem que ele havia visto antes. Observando o corpo torcido de forma antinatural na foto, Cha Eui-jae murmurou.
— Só de tomar a droga, você vira isso?
— …Essa é a parte problemática.
Lee Sayoung, ecoando o murmúrio de Cha Eui-jae, desligou a tela do tablet.
— De qualquer forma, estou procurando as pessoas que espalham essa droga. Mas,
— …
— Pessoas como eu ou meus membros da guilda são conhecidos demais… Se cavarmos um pouco mais fundo, eles vão perceber e nos cortar.
A Guilda Pado era pequena mas tinha caçadores famosos. Cada movimento deles se destacaria. Rastrear e explorar tais alvos seria uma desvantagem significativa se o alvo fosse um desperto.
— E não podemos simplesmente mandar qualquer um. Eles acabariam mortos ou rastejando por aí viciados.
“Uma pessoa habilidosa que não pertence a lugar nenhum e não é conhecida do público. Quanto menos pessoas souberem, melhor.”
Para rastrear um alvo bem escondido, é preciso estar igualmente oculto. Já que o alvo é um desperto agressivo e aprimorado, alguém com as habilidades para lutar e derrotar um desperto precisa assumir o trabalho.
Cha Eui-jae conseguia ver a lógica por trás das condições de Lee Sayoung. Essas condições combinavam perfeitamente com ele mesmo. Mas—
— Então por quê?
— Hm?
— Por que você está atrás deles?
Por que Lee Sayoung estava atrás dessas pessoas?
Pelo bem dos despertos? Não. Para proteger a Coreia do Sul? De jeito nenhum. Para proteger pessoas comuns? Impossível.
Baseado no que havia visto, Lee Sayoung não era alguém movido por ideais elevados. Apesar do pouco tempo que se conheciam, Cha Eui-jae entendia instintivamente.
Lee Sayoung se movia unicamente de acordo com seus próprios padrões. Orgulho como número um da Coreia do Sul, responsabilidade, ou até mesmo a Lei Especial dos Despertos priorizando a proteção de pessoas comuns não seriam motivações fortes o suficiente para ele.
— …
Lee Sayoung, que estivera em silêncio, colocou um dedo sobre os lábios.
— Essa parte é segredo.
— Ei.
— Eu te conto se você concordar com o acordo.
— …
— Ah, e a história da droga é confidencial. Guarde segredo, ou o Jung Bin vai te visitar de novo.
Esse cara me acorrentou com um segredo sob o pretexto de compartilhá-lo. A expressão de Cha Eui-jae ficou fria. Em contraponto, o rosto de Lee Sayoung estava repleto de um sorriso satisfeito.
Lee Sayoung colocou o tablet de volta em seu inventário e apertou levemente o ombro de Cha Eui-jae algumas vezes. Ele havia afastado sua mão com um tapa, e Lee Sayoung riu alto sem mostrar nenhum sinal de irritação. Enquanto Cha Eui-jae se levantava do assento, ele acenou com a mão descartando-o.
— Vai logo. Preciso fechar.
— Claro.
Lee Sayoung começou a colocar a máscara de gás de volta. Agora, mais uma vez, Lee Sayoung havia se transformado na figura suspeita de máscara de gás. Ele de repente estendeu a mão. O quê, estava pedindo um aperto de mão? Cha Eui-jae olhou para ele com ceticismo, mas os dedos enluvados de Lee Sayoung se moveram levemente.
— Seu celular.
— Por quê?
— Para te dar meu número.
— Não preciso.
— Meu número é valioso, sabia.
— Vou vender no Mercado Tomato.
— Então vamos nos ver com frequência, não é?
Ameaçador mas não exatamente ameaçador, Lee Sayoung riu como se achasse toda a situação divertida. Apesar de suas palavras, ele não retirou a mão, então Cha Eui-jae finalmente entregou o celular. Mesmo que pretendesse recusar o acordo, parecia sensato deixar pelo menos um último recurso para qualquer situação inesperada.
Lee Sayoung digitou seu número rapidamente e deixou a loja sem hesitação. Sozinho, Cha Eui-jae abriu o aplicativo de contatos.
Originalmente, sua lista de contatos continha apenas dois números: o telefone residencial da vovó e Park Ha-eun, e o número de celular de Park Ha-eun. Não havia necessidade de guardar nenhum outro número.
Mas agora era diferente. Abaixo das duas entradas antes solitárias em seus contatos, um novo nome havia sido adicionado.
[Sayoung]
* * *
Continua…
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna