↫─Capítulo 62
ᯓ ✈︎ Capítulo 62
Soltando respirações ofegantes e aceleradas, fitei o hyung e tentei me rebelar, balançando com força os pulsos presos mais uma vez. Mas Saheon hyung, como se não estivesse fazendo esforço algum, sorriu de um jeito lento e irritantemente tranquilo, imitando minhas palavras:
— Ah, então o hyung também não quer.
Soltei um grito incoerente. Meu rosto, que já estava corado, parecia prestes a explodir. Saheon hyung jogou a cabeça para trás e começou a rir alto. Eu conseguia ver o maxilar dele e o pomo de adão logo abaixo tremendo de leve enquanto ria.
Eu não tinha a menor disposição para pensar novamente em como ele era bonito. Depois de sacudir com força os pulsos que o hyung segurava, como uma criança fazendo birra, curvei profundamente a cabeça para esconder o rosto, que estava quente demais. Tentei prender a respiração por um instante para controlar minhas emoções de algum jeito, mas não funcionou. Meus ombros subiam e desciam a cada respiração ofegante.
Uma sensação de constrangimento, maior do que tudo o que eu já sentira, lavou-me como uma onda. Fechei os olhos com força e tentei reunir meus sentimentos. Tardiamente, o arrependimento despencou sobre mim: eu devia ter tratado aquilo apenas como uma cartinha de admiração infantil, uma lembrança bonitinha.
Saheon hyung provavelmente pensaria nisso da mesma forma e só estava se divertindo me provocando, mas eu tinha exagerado na reação. Pressionando os lábios firmemente unidos, soltei um suspiro contido. A mão grande de Saheon hyung tocou minha bochecha. Senti uma onda de alívio com o ar fresco nos meus pulsos, que começavam a doer um pouco.
— …Cheongmyeong, você está chorando?
Com a cabeça curvada, olhei para o hyung de lado, lançando-lhe um olhar afiado em vez de responder. O sorriso nos cantos da boca dele, que denunciava a expressão de quem acabara de entender alguma coisa, desapareceu. Quer tenha sido por reflexo ou não, Saheon hyung rapidamente fechou os lábios e assumiu uma expressão séria, mas eu já tinha visto o sorriso.
— Tá bom. Tá bom. Eu devolvo.
Tentando manter o rosto composto, Saheon hyung tirou a velha carta de amor do bolso. Na frente do envelope, escrito com uma caligrafia infantil grande e torta, lia-se “Para o Saheon hyung”.
Arranquei a carta da mão dele quase num bote. Ao olhar para o papel, lembranças da infância começaram a surgir vagamente na minha mente. Era uma atividade típica do jardim de infância, em que nos mandavam escrever uma cartinha para a pessoa de quem mais gostávamos.
Eu não me lembrava do conteúdo exato, mas era evidente que aquela carta havia sobrevivido até agora. Enquanto pensava rapidamente em como me livrar dela agora que estava fora do alcance do hyung, senti um beijo rápido tocar minha bochecha.
Enquanto hyung sorria e continuava dando pequenos beijos estalados na minha bochecha, seu hálito quente roçou o canto do meu olho. A hipótese de que ele achava divertido provocar o garotinho que, antigamente, dizia abertamente que se casaria com Saheon hyung quando crescesse ganhava cada vez mais força.
— Fofinho.
Saheon hyung finalmente se afastou com um estalo alto. Minha bochecha chegou a doer um pouco, como se tivesse sido sugada. Esfreguei o rosto e decidi esconder a carta primeiro no bolso de trás, para evitar que ele a pegasse de volta.
Levei a mão para trás e enfiei a carta no bolso traseiro. Hyung apenas observou meus movimentos com um sorriso discreto. Uma mão grande pousou no topo da minha cabeça. O carinho gentil foi diminuindo o ritmo aos poucos, até começar a tocar de leve minha orelha.
Deixando de lado a atitude brincalhona de instantes atrás, o humor do hyung parecia ter se acomodado em algum lugar calmo. Quando nossos olhos se encontraram, ele ergueu levemente o canto da boca de forma sutil. Por causa do sorriso, uma covinha fraca se formou na parte da bochecha perto dos olhos. Fiquei zonzo por um segundo.
Como se percebesse que eu havia baixado a guarda, o dedo de Saheon hyung traçou delicadamente o contorno da minha orelha. A sensação do dedo percorrendo cada curva me causou um calafrio na espinha. À medida que minha orelha esquentava, meu pomo de Adão se moveu com força, sem que eu pudesse evitar.
De repente, cada parte do meu corpo que encostava no hyung parecia estar em brasa. Era uma coceira que eu não conseguia suportar sem me mexer. Tentei aplacá-la erguendo levemente a cintura. Ouvi uma respiração pesada. Antes que pudesse identificar de quem era, nossos lábios se encontraram e se entrelaçaram, como quem encontra uma nascente depois de uma longa sede.
Mas durou apenas um instante. Assim como Cinderela volta à realidade ao ouvir o relógio bater doze vezes, a campainha — mais alta do que nunca — nos separou bruscamente.
Levei um susto como se tivesse sido atingido por um raio e quase rolei do colo do hyung. Se ele não tivesse segurado minha cintura com firmeza e rapidez, eu realmente teria caído.
Minhas bochechas ardiam de confusão e vergonha. A campainha tocou sem parar. Saheon hyung, que empurrou a franja para trás irritado, não conseguia disfarçar o aborrecimento no rosto. Enquanto olhava de relance para a porta da entrada, tentei sair de fininho da coxa dele.
No entanto, Saheon hyung apertou minha cintura com firmeza, impedindo meu movimento. Depois de olhar uma vez para a região do próprio cinto, ele levou o indicador aos lábios e fez um “shh” silencioso. Fechei a boca imediatamente, engolindo a seco de tanta tensão.
Din-don, din-don. A campainha tocava sem parar. Olhei para o hyung com os olhos aflitos. Ele, ainda pressionando levemente o indicador contra o lábio superior, curvou a boca num arco frio.
— O que foi? — murmurei em silêncio.
Mas Saheon hyung limitou-se a sorrir de leve. Quando eu já ia morder o lábio inferior diante daquele sorriso meio perigoso, a voz da minha tia ecoou fraquinho do lado de fora da porta.
— Não tem ninguém em casa?
— Devem ter saído mais cedo. O Saheon disse que não podia ficar até o jantar…
Era uma presença cuja identidade eu reconhecia só pelo tom de voz. Para piorar, tinham que ser meus tios. Olhei para hyung e para a porta da frente com olhos nervosos, parecendo alguém pego no flagra fazendo algo errado.
— Ai, pra que serve criar um filho? Eu disse para ele levar o Cheongmyeong para nos visitar, mas esse menino que a gente só vê depois de um ano nem pra fazer isso antes de ir embora. Meu Deus do céu.
Minha tia, resmungando como se estivesse lamentando, soltou um suspiro fundo. Encarei Saheon hyung com os olhos arregalados. Ele sorriu, com os olhos curvados, e me abraçou com força pela cintura, enfiando o rosto no meu ombro. Não sobrava espaço algum entre nós dois.
Meu rosto pegou fogo com a ousadia do hyung, que me abraçava daquele jeito com apenas uma porta nos separando deles. Tentei fazer uma expressão severa e balancei a cabeça, negando. Mas o hyung esfregou o rosto no meu e simulou beijinhos em silêncio.
— Deve ter voo hoje de novo. Será que ele pegava muito plantão quando era novato? Depois a gente manda por encomenda.
Ouvi a voz do meu tio tentando consolar minha tia. Encarei aquele filho desnaturado e dei alguns tapinhas nas costas do hyung. Só então ele ergueu a cabeça e abriu um sorriso largo.
Finalmente, ouvi o barulho das sacolas sendo mexidas do lado de fora, como se estivessem pegando alguma coisa, e os passos foram se afastando aos poucos. Depois de ouvir a porta do apartamento da frente se abrir, o elevador abrir e fechar e, por fim, as vozes desapareceram, um silêncio absoluto caiu sobre nós. Olhando para a porta da entrada, ele sorriu travesso.
— Tem muita gente intrometida por aqui. Né?
Eu, que quase tinha me deixado hipnotizar pelas ações do hyung no meio da confusão, recuperei o juízo a duras penas e soltei, com os olhos estreitados, as palavras que vinha segurando:
— …Você não devia falar uma coisa dessas.
Saheon hyung apenas sorriu sem dizer nada. Quando o encarei com severidade, ele soltou um suspiro exagerado e murmurou com uma voz intencionalmente mais baixa, fingindo um tom sombrio:
— Desculpa. Eu errei.
Eu ia falar mais alguma coisa diante daquela atitude verbal de arrependimento, mas decidi deixar para lá. Quando abri a boca para falar e voltei a fechá-la, Saheon hyung, ainda com a expressão cabisbaixa, entrelaçou calmamente os dedos nos meus.
— É emocionante fazer isso na casa dos seus pais também. Mas acho que a nossa casa é melhor. Né?
Ele resmungou com uma expressão de falsa culpa, parecendo arrependido. Fiquei momentaneamente cativado pela voz e pelo rosto dele, mas, percebendo com atraso o teor daquelas palavras doces, estreitei os olhos. Saheon hyung se apressou em acrescentar, como quem se justifica:
— Vou mandar mensagem para a mãe. Dizer que amo ela.
— …Diz que você vai visitar também.
— Tá bom, Shim Cheong*.
*NT: Shim Cheong é a protagonista de uma conhecida história tradicional coreana, famosa por sua devoção ao pai. Aqui, o Saheon usa o nome de forma brincalhona ao ouvir Cheongmyeong falar sobre visitar a mãe.
Saheon hyung riu baixinho. Depois de apertar nossos dedos entrelaçados uma vez, ele abaixou um pouco o olhar. A luz da manhã refletia em sua pele. Ao contrário da região dos meus olhos fundos, que passavam uma impressão abatida pelas longas sombras dos cílios, a dele parecia cheia de atmosfera.
— …Então… Continuamos de onde paramos?
Meu rosto pegou fogo. Saheon hyung definitivamente sempre soube como tirar proveito do próprio rosto bonito. Atordoado por aquele golpe que me tirou o raciocínio, acabei oferecendo os lábios.
Os lábios quentes que se tocavam eram sempre bons. A língua que invadia gentilmente minha boca friccionava os pontos de prazer. O som da saliva sendo trocada era explícito. O grito interno de que eu não deveria tratar meus tios daquela maneira momentos antes havia se perdido há muito tempo naquele beijo doce.
Eu podia sentir o hyung, que me beijava enquanto segurava firmemente a minha nuca, ficando cada vez mais urgente. Até tentar respirar pelo nariz me deixava tonto. Quando virei o rosto para puxar o ar, sem conseguir aguentar mais, ele emitiu um som impaciente e alto, resmungando irritado:
— Assim não dá.
As mãos do hyung agarraram firmemente minhas nádegas, e meu corpo foi sacudido bruscamente para cima e para baixo quando ele se levantou. Consegui conter por pouco o grito que estava na ponta da língua. Instável nos braços dele, precisei me agarrar com força ao seu pescoço.
— Hyung, você enlouqueceu? Por que…
Pendurado feito um coala, enrolei minhas pernas na cintura dele. Como se sustentar o peso de um homem adulto não exigisse esforço nenhum, Saheon hyung parecia pronto para me jogar por cima do ombro se fosse necessário.
— Vamos para o carro.
A sugestão de irmos para o carro não parecia carregar intenções exatamente inocentes. Com o rosto ardendo em vermelho vivo, tentei uma rebelião sem sentido, pedindo para ser colocado no chão.
— Eu, eu consigo andar…!
— Eu carrego você também.
— A gente não, não vai fazer isso no carro!
Desesperado para deter o hyung, gritei a primeira coisa que me veio à cabeça. As palavras que disparei voltaram direto para os meus ouvidos. Percebendo com atraso o que tinha dito, achei que ia morrer de vergonha ali mesmo.
Questionei-me se eu parecia alguém que só pensava naquilo. Mas, aparentemente, aquilo funcionou como uma espécie de válvula de escape para a pessoa que, de fato, só pensava naquilo.
Saheon hyung, que ficou em silêncio por um segundo, soltou um suspiro baixo e me abraçou com tanta força que eu mal consegui respirar. Quando a pressão forte diminuiu, meu corpo escorregou para baixo. Apoiei os pés no chão em uma postura desajeitada.
O clima aquecido de segundos atrás havia desaparecido, deixando no ar uma atmosfera tensa e constrangedora. Era uma situação tão estranha que até o hyung, que normalmente insistia no que queria com aquelas piadinhas dissimuladas, parou no meio do caminho.
Ele virou o rosto para a janela, bagunçando ainda mais o cabelo, que já estava despenteado. Pelo pescoço levemente avermelhado, era possível perceber sinais claros de excitação. Saheon hyung respirou fundo, tão devagar que consegui ver seu peito subir e descer, e então soltou o ar antes de falar, com um tom muito mais calmo do que antes:
— Tá bom. Vai indo para o carro. A gente precisa voltar para casa. Vou arrumar minhas coisas e já desço. O carro tá estacionado no subsolo 1.
Ele baixou brevemente o olhar enquanto alisava a parte superior da coxa esquerda. Olhei para o hyung, sem jeito, e de repente me lembrei do que havia acontecido na noite anterior.
“Você não precisa aceitar tudo o que eu faço. Então, se não gostar do que o hyung estiver fazendo, me bate. Pode até me dar um chute.”
Será que Saheon hyung — que sempre parecia um animal no cio — tinha parado justamente porque eu deixara claro que não gostava? Embora aquilo fosse o mínimo que ele poderia fazer, eu não conseguia me livrar daquela sensação de atordoamento.
Saheon hyung vasculhou o bolso e colocou a chave do carro na minha mão. Quando fechou meus dedos ao redor dela, senti ao mesmo tempo o calor da mão do hyung e a frieza metálica da chave. Eu não conseguia prever o que aconteceria se olhasse para ele, por causa do calor daquele olhar que conseguia sentir mesmo sem encará-lo.
No fim das contas, peguei meu casaco e fugi para o estacionamento como quem escapa de um perigo. Aquele comportamento tão diferente em um lugar tão familiar deixava meus sentidos ainda mais aguçados e à flor da pele.
O ar frio do lado de fora ajudou a acalmar meu corpo, que parecia estar em brasa. Meu reflexo no espelho do elevador mostrava as duas bochechas ruborizadas.
O carro de Saheon hyung ficou visível assim que atravessei a porta que dava para o estacionamento subterrâneo. Apertei o botão da chave para destrancá-lo e abri a porta do motorista, abanando o rosto sem parar.
As luzes internas do carro se acenderam. Dei de cara com um buquê de flores sobre o banco do passageiro. Diferente das rosas, com seu visual mais pontiagudo e comum, aquele buquê de flores levemente arredondadas, em tons de branco e rosa, era bonito e delicado.
Depois de entrar no banco do motorista e fechar a porta, estiquei a mão em direção ao buquê. Incapaz até de pensar em tocar nas flores frescas daquela manhã, mexi timidamente na ponta do papel de embrulho roxo-claro e murmurei para mim mesmo:
— Isso é pra tia…?
✈︎ જ⁀➴ Continua ✈︎ જ⁀➴
◆ Tradução, revisão e raws Nat ◆