↫─Capítulo 61
ᯓ ✈︎ Capítulo 61
O hyung terminou de falar como se estivesse apenas comentando sobre como estava o tempo naquele dia. Então, ao ver minha expressão confusa, caiu na risada. Parecia que eu tinha acabado de ouvir alguma coisa estranha, mas, como aquilo era algo que o hyung jamais diria, abaixei o olhar, sem jeito.
Será que meus ouvidos, que estavam determinados a encontrar provas de que seria tudo bem me declarar para o hyung, tinham ouvido apenas o que queriam ouvir?
Mas não fiquei pensando nisso por muito tempo, porque Saheon hyung soltou uma frase que parecia ter saído de um filme antigo.
— Bom… que tal a gente se beijar para passar o tempo?
De repente, o hyung pareceu um homem de meia-idade. Ainda com uma expressão contrariada, inclinei levemente a testa em sua direção. Logo depois, lábios quentes se pressionaram firmemente contra ela. Senti os lábios do hyung, encostados na minha testa, se curvarem em um sorriso. Por fim, ele começou a mordiscar minha testa de brincadeira, como se quisesse devorá-la.
Com os olhos fixos no pomo de adão do hyung, afastei um pouco o rosto. Minha testa, onde o hálito quente dele havia tocado enquanto ria, estava úmida. O hyung se aproximou na mesma medida em que eu havia me afastado e me deu um beijo estalado.
— Ah, você é tão fofo.
Saheon hyung passou a mão pelo meu cabelo com aquela voz que alguém usaria para falar com um bebê e sorriu, fazendo os cantos dos olhos se estreitarem. Senti um aperto e um leve formigamento na boca do estômago. Envergonhado, desviei o olhar, mas, sentindo que também deveria elogiá-lo, acrescentei, um pouco atrasado:
— O hyung é… bonito também.
— Eu também?
Enquanto observava o hyung sorrir radiante, mostrando os dentes e soltando uma risada baixa, pensei de repente em como ele era bonito. Atordoado com o rosto do hyung, consegui mudar de assunto de forma urgente, mas natural, antes que o silêncio se prolongasse demais.
— Acho que nunca vi essas roupas antes. De onde você tirou?
— Eu usava na faculdade. Quando fui para casa e procurei, encontrei algumas roupas antigas que tinham ficado lá.
Saheon hyung respondeu enquanto puxava a gola alta preta para cima, até cobrir quase todo o pescoço, logo abaixo do queixo. Ele parecia estranhamente jovem, e talvez fosse justamente por estar usando aquelas roupas dos tempos da faculdade.
Olhei para o hyung de outra forma. Lembrei-me de como ele era naquela época. Pensar no hyung no início dos vinte anos, ainda mais jovem do que agora e com aquele ar juvenil, trouxe outra lembrança à tona logo em seguida, como se uma tivesse puxado a outra.
Quando eu estava no ensino fundamental, fazia birra todos os dias, chorando e fazendo escândalo por causa da minha primeira separação do hyung. Era porque nunca tinha sequer imaginado que poderia ficar separado de Saheon hyung.
Mesmo quando Chaehun hyung saiu de casa para morar sozinho por causa do problema com o deslocamento até a faculdade, eu tinha absoluta certeza de que Saheon hyung jamais iria embora. Para o meu eu daquela época, aquilo era como ouvir que o céu estava prestes a desabar.
A faculdade do hyung ficava longe demais para ir e voltar de casa, e havia uma regra de que todos os alunos do curso de Operações de Aviação precisavam morar no alojamento.
Todos os dias, eu implorava à minha mãe para me deixar falar com o hyung pelo telefone. Depois de uma ligação curta, chorava até dormir. Meus olhos ficavam tão inchados, como os de uma carpa, que durante meses mal conseguia abri-los direito. Mais tarde, quando percebi que seria constrangedor para o hyung, que era calouro, ficar muito tempo ao telefone, passei a abraçar meu cobertor e chorar de saudade até dormir.
Lembrar de quando eu era criança e contava os dias até o hyung voltar todo fim de semana me deixou um pouco envergonhado. Provavelmente eu nem tinha consciência de que já gostava de Saheon hyung daquela maneira, mas, pensando bem, acho que eu já era bem exagerado desde pequeno.
— Hyung… vestido assim, você realmente parece um universitário. Ah, tipo um veterano.
Os cantos da boca do hyung se contraíram de um jeito estranho. Parecia estar sorrindo, mas também parecia alguém tentando segurar alguma coisa que queria dizer. Saheon hyung mordeu a língua por um instante, depois soltou um suspiro e murmurou para si mesmo:
— …Tudo bem, Kwon Saheon. Você se segurou bem. Não assuste o bebê.
— O quê?
— A gente precisa escovar os dentes. Senão, eles vão apodrecer.
Saheon hyung mudou de assunto num piscar de olhos. Pisquei devagar e depois assenti lentamente. Como ele tinha dito que não poderia ficar até o jantar e precisaria ir embora, parecia que já precisávamos começar a nos preparar.
Levei a tigela com o curry que havia sobrado até a pia. Joguei o restante no recipiente de lixo orgânico, enchi a tigela vazia com água e então fui para o banheiro.
A escova de dentes que eu usava ainda estava ali. Ao lado das três escovas de dentes dispostas como se fosse a coisa mais natural do mundo, estava a escova do hyung, que parecia nova. Sentindo que eu poderia acabar ficando sentimental sem necessidade, coloquei rapidamente pasta de dente na escova e comecei a escovar.
Meu cabelo, que estava arrepiado, já tinha baixado um pouco com o passar do tempo. Ainda assim, inevitavelmente continuava meio armado. Enquanto escovava os dentes com a mão direita, repetidamente abria a torneira com a esquerda para molhar o cabelo e tentar deixá-lo no lugar.
Precisei cuspir a pasta rapidamente quando ouvi a pergunta de Saheon hyung do lado de fora.
— Cheongmyeong, posso olhar isso?
— …O que é “isso”?
Minha boca estava cheia de gosto de menta. Tive que tomar cuidado para não engolir os restos de pasta de dente.
— Isso, o álbum.
— Pode.
Parecia que o hyung tinha encontrado o álbum na estante da sala. Pensando que era apenas um álbum e me perguntando por que ele precisava pedir permissão, continuei escovando os dentes. Então, lembrei-me tardiamente de que havia uma carta de amor que eu tinha escrito no jardim de infância guardada dentro do álbum.
Não conseguia me lembrar do conteúdo exato, mas me lembrava de que meu eu criança tinha escrito uma carta de amor para Saheon hyung e que minha mãe, ao encontrá-la, tinha rido e decidido preservá-la para sempre dentro do álbum.
Terminei de escovar os dentes às pressas. O gosto de menta estava forte na minha boca, mas engoli em seco e saí correndo para a sala.
Saheon hyung já estava sentado no sofá, folheando o álbum. Ele tinha aberto em uma página no meio quando levantou os olhos.
— Terminou?
— Hyung… isso…
— Vem aqui. Você é muito fofo.
Saheon hyung bateu de leve no espaço ao seu lado no sofá. Com uma expressão incerta, sentei-me onde ele indicava. Assim que me acomodei, o hyung passou a mão pela minha lateral e me puxou um pouco para mais perto. Sem retirar o braço que havia passado ao meu redor, começou a virar as páginas do álbum.
— Isso é da sua apresentação de talentos no jardim de infância, não é? Que fofo.
A página que o hyung estava vendo mostrava uma foto minha usando uma coroa com enfeites de joias baratas e uma capa vermelha enrolada no corpo. Na foto, eu parecia ainda mais novo do que seis ou sete anos, já que fui menor do que as outras crianças até o ensino médio.
— Lembro de você se vestindo assim para a apresentação de “A Bela Adormecida”. Príncipe Cheongmyeong. Muito fofo.
— …Foi mesmo?
— Você costumava me beijar quando eu me deitava e fingia ser seu parceiro de ensaio.
— …Ah, é?
Tentei responder com naturalidade. É claro que aquilo era mentira. Fiquei aliviado por aquela história ter permanecido na memória dele como uma lembrança fofa.
O hyung virou outra página do álbum.
Havia fotos minhas andando de triciclo, aprendendo a andar de patins pela primeira vez, da minha tia, que não conseguia abandonar o desejo de ter uma filha, colocando presilhas bonitas por todo o meu cabelo, de mim adormecendo enquanto tomava sorvete e, por algum motivo, de Chaehun hyung e Saheon hyung tentando me consolar enquanto eu chorava desesperadamente…
O álbum estava cheio de lembranças típicas da infância, com fotos de Saheon hyung espalhadas entre elas. De repente, percebi quanto tempo fazia que nós nos conhecíamos.
Embora aquelas fossem memórias que o hyung compartilhava comigo desde que eu nasci, Saheon hyung parecia muito mais interessado nas fotos do que eu. Eu o observava nervoso, sem saber quando a carta de amor poderia aparecer.
Depois de virar a última página, o hyung falou baixinho, parecendo sem saber o que fazer.
— Ah, isso é muito fofo. Posso levar essa?
A foto para a qual o hyung apontava mostrava-me usando uma gravata-borboleta. Era menor do que as outras, tirada com uma câmera Polaroid.
Parecia ter sido tirada na época do aniversário de sessenta anos da minha avó. O dedo do hyung já se mexia, como se estivesse prestes a arrancar a foto, enquanto ele olhava para a imagem em que eu usava uma camisa azul-clara, uma calça com suspensórios que parecia um terninho infantil e até uma gravata-borboleta.
— Pode.
— Obrigado. Vou colocar na carteira.
Assim que dei permissão, Saheon hyung rapidamente removeu a capa do álbum e descolou a foto. Um ruído suave foi produzido pelo adesivo já fraco. O hyung murmurou, sorrindo radiante:
— Muito fofo. Dá vontade de colocar na boca e mastigar.
Saheon hyung expressava sua afeição de uma maneira um tanto violenta. Fechei o álbum em silêncio. Felizmente, parecia que a carta de amor não tinha sido descoberta.
Quando peguei o álbum e o coloquei longe, o hyung, que havia dado um beijo rápido na foto, sorriu e a guardou no bolso. Um leve ruído de papel veio de dentro do bolso.
Meus ouvidos atentos captaram aquele som fraco. Com meu bom instinto, logo percebi que havia alguma coisa no bolso de Saheon hyung. De repente, fui tomado pela ansiedade. Sem conseguir mencionar diretamente a “carta de amor”, perguntei de forma indireta:
— Hyung, você… pegou alguma coisa daqui?
— Que tipo de coisa?
Saheon hyung sorriu, com os olhos semicerrados. Parecia não saber de nada. Será que eu tinha ouvido errado?
Olhei para o hyung, tentando afastar aquela sensação incômoda. Ele me puxou pela cintura e deu um beijo estalado na minha têmpora. Depois, passou a mão por baixo da minha axila e me moveu de leve.
Guiado pelo hyung, acabei sentado na coxa dele, imediatamente de frente para ele em uma posição constrangedora. Por timidez, abaixei o olhar, mas, quando senti as mãos dele segurando minhas nádegas, deixei escapar um gemido curto e ergui a cabeça.
Quando nossos olhos se encontraram, Saheon hyung sorriu, satisfeito. Então se inclinou um pouco, roçou os lábios nos meus e sussurrou docemente:
— Peguei tanta coisa daqui que nem sei.
Cativado pelo jeito como os olhos dele se curvavam suavemente, precisei me esforçar para manter a compostura, que insistia em desmoronar. Saheon hyung estava claramente tranquilo, enquanto eu me apaixonava por ele além da conta.
— Vamos ver. Peguei uma escova de dentes. Peguei uma foto. Peguei o Cheongmyeong.
Contando nos dedos, um por um, o hyung ergueu preguiçosamente os cantos da boca, aparentemente percebendo meu olhar cada vez mais perdido.
— Quer me beijar?
Como se estivesse hipnotizado, assenti e pressionei meus lábios contra os do hyung. Só quando nossos lábios quentes se encontraram percebi o que tinha feito. A respiração áspera do hyung tocou minha bochecha. Mas a língua que entrou cuidadosamente na minha boca era macia.
O beijo que explorava fracamente minha boca, como se fosse derreter, me deixou impaciente. Sem perceber, deixei escapar alguns gemidos. Meus dedos dos pés se curvaram com o beijo que tocava provocativamente apenas os pontos que mais me agradavam. Passei os braços ao redor do pescoço do hyung e tentei acompanhar desajeitadamente o ritmo lento dele.
Talvez porque aquele beijo fosse mais carinhoso e cuidadoso do que o habitual, minha mente ficou completamente em branco. Observei, atordoado, quando o hyung se afastou dos meus lábios.
Ele soltou uma risadinha e segurou meu rosto com as duas mãos. Quando fez um pouco de pressão, meus lábios se projetaram levemente. O hyung deu um beijo suave neles e continuou, brincalhão:
— Você gosta quando o hyung te dá beijinhos carinhosos?
Eu estava prestes a assentir em silêncio quando percebi que as palavras do hyung pareciam estar se referindo ao que eu havia escrito no passado. Uma expressão de choque e incredulidade tomou conta do meu rosto.
— Ah, ah, não…
— Como assim, não? Agora você é meu.
Pelo sorriso brincalhão do hyung, percebi que meu palpite estava certo. Enquanto tentava lidar com a confusão, ouvi novamente o som de papel sendo amassado no bolso do hyung. Desesperado, estendi a mão em direção ao bolso dele.
— Não. Agora é meu.
— Me dá de volta. Não. Ah!
Meu rosto ficou em chamas. Saheon hyung, sorrindo de orelha a orelha, começou a recitar o que devia ser o conteúdo da carta de amor que eu havia escrito.
— Já que eu abracei você como o Cheongmyeong queria e te dei beijinhos carinhosos, agora só falta a gente se casar.
— Ah! Não! Não é isso!
— Como assim não é? Você disse que queria se casar com o hyung. Então vamos.
— Me dá de volta! Devolve!
Com o rosto vermelho de vergonha, balancei a cabeça e toquei o bolso do hyung. Conseguia sentir a textura do papel da carta se mexendo lá dentro. Talvez por serem roupas dos tempos da faculdade, o tecido ao redor do bolso fosse apertado.
Quando estava prestes a enfiar a mão no bolso para pegar o que queria, toquei alguma coisa grande, parecida com uma batata-doce, no bolso interno. Não consegui identificar o que era e parei imediatamente.
Percebi que, quando meu rosto esquenta demais, meus olhos começam a lacrimejar. Soltei o ar entre os dentes e sacudi as duas mãos que o hyung havia segurado.
— Me dá!
— Por quê? Vamos. Eu quero.
— Não!
— Você não quer brincar de recém-casados? Então vamos brincar de veterano cuidando do calouro?
— Não!
✈︎ જ⁀➴ Continua ✈︎ જ⁀➴
◆ Tradução, revisão e raws Nat ◆