↫─Capítulo 60
ᯓ ✈︎ Capítulo 60
Às vezes, como uma espécie de intuição, as pessoas podem ser tomadas por uma forte convicção.
Embora fosse apenas uma suposição vaga, o pressentimento de que aquilo poderia se tornar realidade surgiu como uma emoção semelhante à “esperança”, sussurrando no meu coração que “talvez tudo bem”. A grande especulação que havia começado a partir de um pequeno fato era doce demais para ser verdade.
Mesmo tentando não criar expectativas, meu cérebro, que já havia entrado num ciclo de pensamentos positivos, continuava tentando captar cada pequena atitude de Saheon hyung.
Por exemplo, era assim:
O beijo que dizia que ele não sabia o que fazer porque eu era bonito demais. Eu tentando impedi-lo enquanto ele continuava me beijando, até minhas bochechas ficarem vermelhas, com medo de que percebesse o quanto eu estava corado. O celular que ele me mostrou enquanto me segurava com carinho nos braços, dizendo para eu nunca mais pensar em ir embora. E, por algum motivo que eu desconhecia, uma janela de conversa salva como “Mung-seon Daewongun”*, repleta de registros de chamadas perdidas.
NT: “Daewongun” era um título usado para membros da família real de Joseon, especialmente pais de reis. O apelido é uma brincadeira com o nome de Cheongmyeong.
A suspeita de que “talvez tudo bem” voltou como uma emoção que fazia meu coração disparar. Parecia que a confissão “Eu gosto de você, hyung” poderia escapar dos meus lábios a qualquer momento.
Mas o que mal conseguia conter minhas emoções, claramente mais intensas por causa dos acontecimentos da madrugada, era o fino fio de razão que ainda me restava. E se não estivesse tudo bem em confessar?
Naturalmente, lembrei do frio inverno de quando eu tinha dezessete anos. Antes de entrar no ensino médio, quando o hyung disse que iria aos Estados Unidos para um treinamento, eu, tomado pela urgência, me confessei sem pensar.
Eu não queria cometer o mesmo erro de antes. Havíamos levado anos para chegar à relação amigável que tínhamos agora. Eu não queria me afastar do hyung e voltar ao que éramos antes.
Como um cavalo de corrida com antolhos, concentrado em um único objetivo, talvez eu estivesse enxergando apenas aquilo em que queria acreditar. Agarrado à realidade pelo fino fio de razão que ainda me restava, consegui me manter calmo. Eu não queria destruir minha relação com o hyung por causa da minha impaciência.
Por isso, enquanto recebia os beijos do hyung, que diziam que ele me amava, firmei o coração. Desta vez, decidi encontrar provas de que estava tudo bem confessar.
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— Cheongmyeong, acorda. Você precisa comer.
Senti uma voz e um toque familiares. Eu, que havia adormecido sem conseguir resistir ao sono enquanto ficava aconchegado nos braços do hyung, conversando sobre isso e aquilo, soltei um resmungo, como uma criança fazendo manha de sono.
— São sete horas. Seu pai e eu precisamos ir trabalhar agora. Você precisa levantar. O curry está delicioso. Anda.
Uma mão fria, ainda úmida, tocou minha bochecha. Era o mesmo método que minha mãe costumava usar para me acordar durante os tempos de escola.
Virei parcialmente o corpo para evitar a mão molhada, mas, de repente, abri os olhos ao perceber que havia adormecido usando o braço de Saheon hyung como travesseiro na noite anterior.
Por ter aberto os olhos de repente, as bordas da minha visão turva se espalharam como se estivessem cheias de luz. Franzi a testa e aguentei a dor de cabeça que veio em seguida. Através da visão embaçada, consegui distinguir meu quarto e minha mãe, com uma expressão aliviada por eu finalmente ter acordado.
Baixei o olhar rapidamente. Minhas mãos apertavam o cobertor com força. Estavam exatamente na mesma posição de quando adormeci, mas havia uma diferença: meus braços agora abraçavam o cobertor, não Saheon hyung.
Sem necessidade alguma, fiquei envergonhado e recolhi as mãos. Enquanto me sentia aliviado por minha mãe, que havia entrado no quarto, não ter me pegado dormindo agarrado a ele daquele jeito, fiquei curioso sobre onde Saheon hyung havia ido.
Saí da cama enquanto tentava abaixar o cabelo desgrenhado. Talvez por ser uma cama à qual eu estava acostumado, meu corpo se sentia surpreendentemente revigorado.
Na mesa de jantar, havia três tigelas de curry. Devia ser uma para cada um dos meus pais e para mim. Ainda meio sonolento e atordoado, sentei no meu lugar de sempre e peguei a colher.
Como meus pais trabalhavam em dois empregos desde que eu era pequeno, o café da manhã era o único momento em que nossa família conseguia se reunir. Sentindo um vazio estranho apesar do número habitual de tigelas, percebi que não havia uma porção para Saheon hyung.
— Onde está o hyung?
Minha voz estava rouca, provavelmente por ser de manhã. Enquanto abaixava o cabelo que insistia em ficar levantado com a mão esquerda, comecei a misturar o curry com a direita. Meu pai, que havia tirado da geladeira o acompanhamento de cebolinha que sobrara e se sentado à mesa, respondeu:
— Parecia estar com pressa para sair logo de manhã.
Tentei manter uma expressão tranquila, mas uma lembrança começou a surgir na minha mente. A experiência de acordar sozinho naquela manhã, quando Saheon hyung e eu fizemos sexo pela primeira vez.
A sensação vaga de ter sido deixado sozinho no mundo na noite anterior havia se tornado distante, como uma lembrança de sonho. Mas, naquele momento, ela voltou à tona. Minha expressão naturalmente escureceu. Parecia que minha determinação estava vacilando desde o começo.
— Foi por causa do trabalho? Será que chamaram ele às pressas?
— Não. Ele estava com a mesma roupa que o Cheongmyeong deu para ele ontem. Talvez tenha saído para fazer exercício de manhã.
Enquanto ouvia a conversa dos meus pais, levei uma colherada de curry à boca. Se não houvesse ninguém na minha frente, teria balançado a cabeça com força para afastar aqueles pensamentos. Em vez disso, continuei mastigando a comida de qualquer jeito, fazendo barulho com a boca, como se isso pudesse aliviar minha inquietação.
Meu pai tinha dito que Saheon hyung estava usando as mesmas roupas de ontem. Então, provavelmente não tinha ido trabalhar. E, se estava vestido para ficar em casa, provavelmente também não teria ido muito longe. Então, para onde o hyung tinha ido?
— Talvez tenha ido à casa dos pais dele?
Minha mãe apresentou uma resposta plausível. Era uma resposta que tanto meu pai quanto eu conseguíamos aceitar imediatamente. Meu pai assentiu e continuou:
— Pode ser. Talvez esteja comendo lá.
— Eu deixei uma porção para o Saheon, por precaução.
Enquanto fingia não ter interesse algum e enchia a boca de comida, meus ouvidos captavam cada informação sobre Saheon hyung. Era uma habilidade que se adquire naturalmente à medida que os anos de amor não correspondido se prolongavam.
Os grãos de arroz e as batatas macias que enchiam minha boca combinavam muito bem. Enquanto mastigava o delicioso curry que eu mesmo havia feito, comecei a juntar as informações que meus pais davam sobre Saheon hyung.
— Será que o Saheon não está cansado? Ele chegou à nossa casa logo depois do voo e agora já está saindo logo cedo.
— Ouvi dizer que os pilotos precisam ter bastante resistência física. Mesmo assim, é impressionante.
— Foi bom ficarmos todos juntos depois de tanto tempo. Dizem que a gente só percebe o que tem quando perde, e agora a casa já parece silenciosa de novo. Pensando bem, já faz bastante tempo que não vemos o Chaehun.
— Ele está ocupado com o trabalho, então não tem jeito. Ouvi dizer que talvez seja promovido a gerente desta vez. E que vai trazer uma garota com quem pretende se casar.
— Já? Bom, quantos anos o Chaehun tem agora? Trinta… trinta e quatro? Ele é três anos mais velho que o Capitão Kwon. Dizem que hoje em dia as pessoas se casam mais tarde, mas acho que já está na idade.
Quando mencionaram a namorada do hyung Chaehun, uma lembrança me veio à mente. Eu estava prestes a colocar uma colherada de curry na boca, mas a fechei de repente. Como fiz isso sem nem esperar a comida esfriar, queimei o céu da boca. Tive que tomar rapidamente um pouco de água fria.
— Está tudo bem?
Minha mãe perguntou, preocupada. Com os olhos levemente marejados por causa do arroz quente, balancei rapidamente a cabeça e respondi, ainda com a fala embolada:
— Estou bem.
— Come com mais cuidado. Ouvi da sua tia que eles estão pensando em se casar em outubro deste ano. Depois que o Chaehun se casar, será que o Saheon também vai logo?
— O Capitão Kwon… como posso dizer? Talvez por ser tão livre, não consigo imaginar ele casado.
Meu pai respondeu alegremente, soltando uma risada calorosa. Minha mãe também riu e concordou. Parecia que eu era o único que não estava achando graça naquela situação.
— É verdade. Ele não parece o tipo de pessoa que se acomoda, mas acho que, se acontecesse, seria muito dedicado.
— Ah, quando fui à casa do Capitão Kwon para deixar o Cheongmyeong da última vez, parecia até casa de recém-casados. Se ele tivesse uma namorada com quem realmente quisesse se casar, dava a impressão de que os dois poderiam simplesmente se mudar para lá e começar a morar juntos na mesma hora.
Eu conseguia sentir minha expressão escurecendo, mas não tinha cabeça para tentar controlá-la. Parecia que minha determinação de encontrar provas de que não havia problema algum em confessar meus sentimentos ao Saheon hyung já estava vacilando, menos de vinte e quatro horas depois de eu ter tomado aquela decisão.
À medida que as emoções da madrugada diminuíam e a razão voltava a assumir o controle, uma vozinha na minha cabeça sussurrava que eu tinha tido uma ideia idiota. Sem o menor apetite, fiquei mexendo distraidamente no curry que ainda estava pela metade.
— Talvez ele já tenha alguém com quem esteja pensando em se casar, mas ainda não tenha contado porque o Chaehun ainda não se casou. O Saheon é bonito, então provavelmente é popular… Cheongmyeong, você já viu a namorada do hyung?
《A namorada do hyung?》
Para mim, uma namorada do hyung era uma existência que simplesmente não deveria existir.
Diante daquela pergunta difícil, abri e fechei a boca algumas vezes, sem saber o que responder. Os olhares constrangidos que se voltavam para mim foram interrompidos pelo som oportuno da campainha.
— É o Saheon?
Meu pai, que estava quase terminando sua tigela, levantou-se e foi até o interfone. A campainha só parou depois que se ouviu o som da fechadura da porta girando.
— Você chegou?
— Sim. Vocês estavam comendo?
Uma voz que eu tanto esperava ouvir chegou aos meus ouvidos, seguida por uma rajada de ar frio que entrou da rua e alcançou a cozinha. Pude ouvir os passos largos e decididos de Saheon hyung se aproximando.
Meu coração batia acelerado, tomado por uma ansiedade inexplicável.
— Já comeu? Ah, o que é isso?
Minha mãe, que falava gentilmente, arregalou os olhos. Um cesto entrou no meu campo de visão, que até então estava fixo no arroz amarelo-vivo. Desviei o olhar de leve.
Saheon hyung estava colocando sobre o espaço vazio da mesa uma cesta de frutas daquelas que só costumávamos ver em épocas de feriado.
Reuni um pouco mais de coragem para olhar para o corpo de Saheon hyung. Eu não sabia quando ele havia trocado de roupa. Agora vestia roupas comuns para sair: uma blusa preta de gola alta e uma calça jeans escura. Saheon hyung parecia até um universitário.
— Desculpem aparecer de repente. Não encontrei nenhum mercado aberto, então comprei isso numa loja de conveniência. É meio simples, desculpem.
— Você não precisava se preocupar… Nós precisamos ir trabalhar agora, então vamos comer quando voltarmos. Ah, você vai ficar aqui até a hora do jantar?
— Desculpem. Acho que vou ter que ir embora logo depois que ele terminar de comer…
Saheon hyung soltou uma risada um tanto sem jeito. Meu pai acenou com a mão e respondeu:
— Não, se é por causa do trabalho, não tem jeito. Você já comeu?
— Obrigado. Comi em casa. Ah, Cheongmyeong. Disseram para eu dar uma passada para te ver antes de ir.
— É? Já terminei de comer.
Levantei-me rapidamente da mesa, aliviado por escapar da pergunta que eu não queria responder. Minha mãe também olhou para o relógio e pareceu surpresa.
— Quando ficou tão tarde? Nós precisamos ir.
Meus pais, que precisavam sair no horário certo para chegar ao trabalho, terminaram a refeição às pressas. Enquanto foram ao banheiro escovar os dentes, apenas o hyung e eu ficamos à mesa.
Saheon hyung puxou naturalmente a cadeira onde meu pai estava sentado e se acomodou.
— Dormiu bem? Você acordou cedo.
A mão do hyung alcançou a parte de trás da minha cabeça. Enquanto abaixava meu cabelo bagunçado, ele soltou uma risadinha, como se algo fosse engraçado, fazendo-me pensar se eu havia esquecido de tirar alguma remela dos olhos. Fingi esfregar os olhos enquanto passava os dedos ao redor deles. Não havia nada.
— Sim… Você também acordou cedo.
Olhei de relance para onde meus pais estavam. A porta do banheiro estava aberta, e os dois escovavam os dentes às pressas.
Saheon hyung acompanhou meu olhar, sorriu de leve e sussurrou baixo o bastante para que apenas eu ouvisse:
— Não tivemos nosso beijo de bom-dia.
《Ele só pode estar louco.》
Abri bem os olhos e afastei a mão dele com um tapa, completamente chocado. Saheon hyung continuou com aquele sorriso travesso e sussurrou mais uma vez:
— Rápido.
O som da escova de dentes se misturava ao da água corrente. Balancei discretamente a cabeça, indicando que não dava. Saheon hyung sussurrou, num tom perfeitamente plausível:
— Se não for agora, vão pegar a gente.
Ao ouvir aquilo, tive a sensação de que era agora ou nunca. Mas logo recuperei o juízo. Era algo que não deveríamos fazer desde o começo.
— Não.
— Não?
— …Depois.
— Quando?
— Depois, depois…
— Então quando exatamente?
A cada palavra que dizia, Saheon hyung se aproximava mais de mim. Seus lábios curvados se aproximavam, parecendo prestes a me beijar a qualquer momento. Sem saber o que fazer, olhei de lado para o banheiro. Foi então que o som da água parou de repente.
De algum modo, parecia que o hyung não se importava com os olhares dos outros nem que todos os nossos parentes estivessem reunidos ali, quanto mais com os meus pais. Respondi às pressas, sem sequer saber direito o que estava dizendo:
— Depois… Quando meus pais não estiverem por perto… Quando você quiser… Faça o que quiser…
— Do jeito que eu quiser?
Saheon hyung soltou uma risadinha. Meus ouvidos, que haviam ficado sensíveis o suficiente para captar até os menores sons por causa do susto, conseguiram deduzir o que meus pais estavam fazendo. Ouvi o som de chinelos sendo arrastados.
Meus pais, que já estavam vestidos para sair e ir direto ao trabalho depois de escovar os dentes, não pareciam ter percebido a atmosfera estranha à mesa.
Enquanto fechavam os casacos, viraram-se para nós e deram suas recomendações:
— Vão para casa com cuidado. Entrem em contato depois que forem embora. Com frequência. Façam isso com frequência.
— Não briguem e se deem bem, vocês dois.
De algum modo, aquilo me lembrava as recomendações que eu costumava ouvir dos meus pais quando passava os feriados com os hyungs, mas, antes que meus pensamentos pudessem ir além, meus pais saíram às pressas para o trabalho.
Saheon hyung se despediu deles com um sorriso impecável.
— Vão com cuidado.
No lugar onde meus pais haviam acabado de sair para trabalhar, restou um silêncio semelhante ao que vem depois de uma tempestade.
Só então me dei conta de que meus pais tinham ido embora e que eu estava sozinho com Saheon hyung.
Ouvi o som da fechadura sendo acionada. Saheon hyung, que observava a porta de entrada já trancada com o queixo apoiado na mão, numa pose digna de uma revista de moda, virou-se para mim com um leve sorriso.
— Eles se preocupam muito.
— S-sim…
— Minha sogra, hein.
✈︎ જ⁀➴ Continua ✈︎ જ⁀➴
◆ Tradução, revisão e raws Nat ◆